A Divina Comédia/Purgatório/XIII

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A Divina Comédia por Dante Alighieri, traduzido por José Pedro Xavier Pinheiro
Purgatório, Canto XIII


Chegam os Poetas ao segundo compartimento, no qual estão os pecadores que expiam o pecado da inveja. Os invejosos têm os olhos cosidos com fio de arame. Entre eles está Sápia, senhora de Siena, com a qual Dante fala.

Da escada ao topo havíamos chegado,
Onde, outra vez cortado, o monte estreita,
Que alma sobe, expiando o seu pecado.

Como a primeira, outra cornija feita
Circundava a colina, só dif?rente
Em que a um arco menor ela se ajeita.

Relevo, formas, como a precedente,
Não mostra: e, lisa sobre a escarpa a entrada,
Lívida cor a pedra tem somente.

— “Se a presença de alguém fosse esperada,
Que nos preste conselho” — diz meu Guia —
“Temo que fique a escolha retardada.” —

Os olhos para o sol depois erguia,
E, sobre o pé direito se firmando,
Para a esquerda girava e se volvia.

— “Tu, de quem tudo fio, ó lume brando
No caminho conduz-nos que se of?rece
Como o exige o lugar” — disse — “guiando!

“Raiando, o teu calor o mundo aquece:
Se motivo não surge de embaraço,
De conduzir-nos teu fulgor não cesse!”

Vencido em breve tínhamos espaço,
Que por milha na terra calculamos,
Porque o desejo estimulava o passo:

Em direitura a nós voar julgamos
Invisíveis espíritos, chamando
De amor à mesa em lépidos reclamos.

A voz primeira que passou voando,
Vinum non habent proferiu sonora
E ainda muito além foi reiterando.

Mas antes de perder-se pelo ar fora,
Outra acercou-se. — “Orestes sou!” — dizia;
E apartou-se igualmente sem demora.

— “Que vozes estas são, Mestre?” — inquiria.
Mas, apenas falara, eis vem terceira.
— “Amai imigos vossos!” — eu lhe ouvia.

— “Pune este círc?lo a culpa traiçoeira” —
O Mestre diz — “da inveja; o açoite aplica
O amor, que os rigores lhe aligeira.

“Contrário som, porém, o freio indica.
Antes que atinjas do perdão a entrada,
Terás de ouvi-lo; e disto certo fica.

“Tem ora a vista para além fitada;
De espíritos, ao longo do alto muro,
Assentados verás soma avultada.” —

Mais que de antes então a vista apuro;
Almas distingo, que envolviam mantos,
Que a cor imitam do penhasco duro.

Um pouco avante ouvi de esp?ritos tantos
A voz bradar: — “Por nós orai, Maria,
Pedro, Miguel e todos os mais Santos!”

Na terra homem tão fero não seria,
Que não sentisse o coração pungido
Em vendo o que aos meus olhos se of?recia.

Acerquei-me por ser mais distinguido
De cada sombra o menear e o gesto:
Pelos olhos à dor alívio hei tido.

Então foi claramente manifesto
Que entre si, uns aos outros se arrimavam,
Todos à pedra, em seu cilício mesto.

Assim os pobres cegos mendigavam
Nos dias de Perdão da igreja à porta,
Mutuamente as cabeças encostavam;

Pois a piedade o coração nos corta,
Quando ao som das palavras se acrescenta
Da vista a ação que o peito desconforta

E como o sol aos cegos não se ostenta,
Assim também às sombras que alivia,
Não mais do céu a luz olhos alenta.

Fio de ferro as pálpebras prendia
A todas, como ao gavião selvage
Para domar-lhe a condição bravia.

Cuidei, se andasse, lhes fazer ultraje,
Lhes vendo as faces e ocultando a minha:
E o Mestre olhei em tácita linguage.

E o Mestre, bem sabendo o que convinha,
Antecipou-se logo ao meu desejo
E disse: — “Arguto sê, e fala asinha.” —

Virgílio caminhava neste ensejo
Do lado, onde à cornija falta amparo;
Dali cair se pode e o risco eu vejo.

As almas do outro lado eram; reparo
Que dos olhos a hórrida costura
Provoca pranto copioso e amaro.

Voltei-me e disse: — “Ó almas, que a ventura
De ver tereis ao certo o excelso Lume;
De que somente o vosso anelo cura,

“Dissolva a Graça em vós todo o negrume
Da consciência e nela manar faça
Da mente o rio em límpido corrume!

“Concedei-me o que mais me satisfaça:
Dizei-me qual de vós latina há sido;
De eu sabê-lo algum bem talvez lhe nasça.” —

— “Por pátria, irmão, só hemos conhecido
A cidade de Deus: dizer quiseste
Peregrina na Itália haja vivido.” —

De mim remota a voz parece deste,
Que assim disse; e portanto, passo avante
Por saber certo a quem atenção preste.

E uma senhora entre as mais vi, que, distante,
Aguardava-me. E como eu a distinguia?
Qual cego, alçava o mento pra diante.

— “Tu, que para subir penas” — dizia —
“Quem foste, onde nasceste diz: te imploro,
Se é tua voz que, há pouco, respondia.”

— “Fui de Siena” — tornou — “com este choro
Os graves erros de perversa vida,
E a Deus que se nos dê, clemente, exoro.

“Chamei-me Sápia, mas não fui sabida.
Mais deleite me deu o alheio dano
Do que a dita a mim própria concedida.

“E por que não presumas que te engano,
Se fui louca verás pelo que digo.
Já no declínio do viver humano

“Eu era, quando a rebater o inimigo
Em Colle os meus patrícios campearam;
A Deus roguei que lhes não fosse amigo.

“Destroçados, à fuga se lançaram,
E a mim, que estava aquele transe vendo,
Indizíveis prazeres me tornaram,

“Em modo, que atrevida, olhos erguendo,
— “Não mais Deus tenho!” — contra o céu gritava
Qual melro, instantes de bonança tendo.

“Com Deus quis paz, mas quando já tocava
Da vida o termo; e ainda não pudera
A dívida solver, que me onerava,

“Se Pedro Pettinanho não se houvera,
Nas santas operações de mim lembrado:
Em prol meu, caridade o comovera.

“Mas quem és, que nos tens interrogado,
Que estando, creio, de olhos não tolhidos
E respirando indagas nosso estado?” —

— “Olhos” — disse — “terei também cerzidos,
Porém por pouco tempo; que da inveja
No mundo hão sido rara vez torcidos,

“Maior receio o peito me dardeja
De outro tormento; e tanto me angustia,
Que o seu fardo a sentir cuido já steja.” —

— “Mas quem ao monte” — me tornou — “te guia,
Pois de voltar ao mundo tens certeza?” —
— “Quem tenho ao lado e voz não pronuncia.

“Inda vivo; e, pois fala com franqueza,
Alma eleita, se queres que os pés mova
Em prol teu lá na terra com presteza.” —

— “O que dizendo estás, cousa é tão nova
Que por mim rogues fervorosa peço,
Pois da divina dileção dás prova.

“E pelo que te merecer mais preço
Suplico-te: ao pisar terra toscana
Ao meu nome entre os meus aviva o apreço.

“Terás de vê-los entre a gente insana,
Que espera em Talamone, mas como antes,
Quando buscava as águas do Diana:

Mor engano há de ser dos almirantes.” —