A Divina Comédia/Purgatório/XVII

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A Divina Comédia por Dante Alighieri, traduzido por José Pedro Xavier Pinheiro
Purgatório, Canto XVII


Saindo do denso fumo, Dante, novamente em êxtase, vê exemplos de ira punida. Tornando a si, vê um anjo que está perto da escada do quarto compartimento. Os dois Poetas continuam a subir. Sobrevindo, porém, a noite, param e Virgílio explica ao discípulo que o amor é o princípio de todas as virtudes e de todos os vícios.

Leitor, se lá na alpina cordilheira
Te colheu névoa, que de ver tolhia,
Como se olhos tivemos de toupeira,

Lembra que, quando a úmida e sombria
Cortina a delgaçar começa, a esfera
Do sol escassa luz ao ar envia.

E mal tua mente imaginar pudera
Como de novo à vista se mostrava
O sol, que ao seu poente descendera.

Ao lume, que nos planos se finava,
Do Mestre os passos fido acompanhando
Saí da cerração, que me cercava.

Fantasia que, o espírito enlevando,
Tanto o homem dominas, que não sente
Clangor de tubas mil, juntas soando,

O que te move, estando o siso ausente?
Luz que desce por si, no céu formada,
Ou por querer do céu onipotente.

Cuidei súbito ver a que mudada,
Dos crimes seus em pena, foi nessa ave,
Que em trinar mais se mostra deleitada.

Tanto minha alma, na visão suave,
Extática ficou, que não sentia
Outra impressão qualquer que a prenda e trave.

Naquele êxtase logo após eu via
Em cruz um homem de feroz semblante:
Nem a morte a arrogância lhe abatia:

Stava o grande Assuero não distante,
Ester, a esposa e Mardoqueu prudente,
Justo nos feitos, no dizer prestante.

E fugiu-me esta imagem prontamente,
Como a bolha, que de água se formara
E à falta de água esvai-se de repente.

Donzela eis na visão se me depara
Que em prantos exclamava: — “Ó mãe querida
Por que tomaste irosa a morte amara?

“Perdes, por não perder Lavínia, a vida
E perdida me tens: teu fim deplora,
Mas não o de outro, a filha dolorida.” —

Como se rompe o sono, se de fora
Luz repentina às pálpebras nos desce;
Não morre logo, em luta se demora:

Minha visão assim se desvanece,
Quando as faces clarão tão vivo lava,
Que na terra outro igual nunca esclarece.

Volvi-me para ver onde me achava;
Mas, ouvindo uma voz — “Sobe esta escada” —
De qualquer outro intento me apartava.

Por saber quem falara foi tomada
Minha alma de um desejo tão veemente,
Que fora, se o não viesse, conturbada.

Como ao sol, que deslumbra em dia ardente,
Sendo-lhe véu seu lume flamejante,
Senti perdida a força incontinênti.

— “Espírito é celeste: vigilante
Sem rogos, o caminho nos indica:
O próprio brilho esconde-o fulgurante.

“Como o homem consigo, assim pratica;
Quem, mal extremo vendo, só rogado
Acode, esquivo ser já significa.

“A tal convite o pé seja apressado!
Antes da noite rápidos subamos;
Depois somente quando o sol for nado.” —

Disse o meu Guia; e logo encaminhamos
Os passos, de uma escada em direitura.
Ao primeiro degrau quando chegamos

Mover de asas ao perto se afigura,
Bafejo sinto; e ouço: — “É venturoso
Quem ama a paz, isento de ira impura!” —

No alto já do céu o luminoso
Rasto, da noite precursor, surgira,
De astros assoma o exército formoso.

— “Ai de mim! Por que a força minha expira?”
Disse, entre mim, sentindo que, esgotada,
Súbito às pernas o vigor fugira.

Tendo alcançado o topo já da escada,
Imóveis nos quedamos, imitando
A nau, que aferra a praia desejada.

A escutar stive um pouco, interrogando
Daquele novo círc?lo algum sonido;
Depois ao Mestre me voltei falando:

— “No lugar em que estamos, pai querido,
Que pecado recebe a pena sua?
Parando os pés, teu verbo seja ouvido.”

Tornou-me: — “Se do bem o amor recua
No seu dever, aqui se retempera;
Sobre o remisso a expiação atua.

“Por melhor compreenderes, considera
No que digo: a detença, porventura,
Dará o fruto, que tua mente espera.

“Ao Criador, meu filho, e à criatura
Nunca falece amor — tens já sabido —
Ou venha da alma ou venha da natura.

“O amor natural de erro é despido;
Pode pecar o outro pelo objeto,
Por nímio ardor, por star arrefecido.

“Quando aos bens principais ele é direto
E nos bens secundários moderado,
Causar não pode criminoso afeto.

“Se ao mal, porém, se torce ou, desregrado,
De menos ou de mais ao bem se move,
Ofende ao Criador quem foi criado.

“Tens, pois, o necessário, que te prove
Que amor em vós semente é de virtude,
Como é dos feitos, que o céu mais reprove.

“E como o amor o bem somente estude
Do seu sujeito, quando o amor domina,
Não pode ser que em ódio a si se mude.

“E porque nenhum ente se imagina
Sem ter no que criou a causa sua,
Ódio em nenhum contra este se origina:

“Contra o próximo é, pois, que se insinua
Do mal o amor, pecaminoso.
No humano limo em modos três atua.

“Qual, da grandeza, e glória cobiçoso,
As espera em ruína de outro, e anela
Vê-lo em terra prostrado e desditoso;

“Qual, temor de perder, triste, revela
Valia, honra e poder, se outro os partilha
E em querer-lhe o contrário se desvela;

“Mágoa sentindo de uma injúria filha,
Qual porfia em vingar-se, e, de ira ardendo,
De mal fazer os meios esmerilha.

“Do mal este amor tríplice nascendo,
Lá embaixo se expia; mas atende
Ao que vai desregrado, ao bem correndo.

“Confusamente cada qual se acende
Por certo bem e sôfrego o deseja:
Por ter-lhe a posse, afana-se e contende.

“O que do bem no amor inerte seja
Depois que do pesar sofrerá agrura,
É justo que em martírio aqui se veja.

“Há outro bem; não dá, porém, ventura.
Felicidade não é, não é a essência
De todo o bem, o fruto, a raiz pura.

“O amor, que a tal bem vota a existência,
Acima em círc?los três há seu tormento:
Por que assim se divide, a inteligência,

Sem te eu dizer, dar-te-á conhecimento.” —