A Divina Comédia/Purgatório/XXII

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
A Divina Comédia por Dante Alighieri, traduzido por José Pedro Xavier Pinheiro
Purgatório, Canto XXII


Subindo ao sexto compartimento, Estácio diz a Virgílio que, não pelo pecado da avareza, mas pela sua prodigalidade, teve de ficar muito tempo no quinto compartimento; e, por não ter declarado publicamente a sua conversão ao cristianismo, precisou ficar muito tempo no quarto compartimento. Virgílio o informa a respeito de muitos ilustres personagens da antigüidade que estão no Limbo. Chegando os Poetas no sexto compartimento, encontram uma árvore cheia de pomos perfumados, da qual saem vozes que louvam a virtude da temperança.

O anjo atrás já tínhamos deixado,
Que para o sexto círc?lo nos guiava,
Um P na fronte havendo-me apagado.

E à turba, que a justiça desejava,
Tinha dito Beati docemente
Com sitio e, após tais vozes, se calava.

Mais que em toda a jornada antecedente
Eu, ligeiro, seguia sem fadiga
Os Vates, que subiam velozmente.

— “Aquele amor, com que virtude instiga,
Reproduz” — disse o Mestre — “a própria chama
Mostras de si apenas dar consiga.

“Dês que, da vida terminada a trama,
Do inferno ao limbo, Juvenal descendo,
Saber me fez o afeto, que te inflama,

“Tão vivo bem-querer sabe te rendo,
Quanto haver pode a incógnita pessoa,
Contigo ora suave andar me sendo.

“Mas dize (e como amigo me perdoa,
Se em falar há nímia confiança
E em prática amigável arrazoa):

“Como avareza fez em ti liança
Com ciência, que o estudo te alcançava
E em que punhas cuidados e esperança?”

Às palavras do Mestre pronto estava
Estácio, e lhe sorrindo: — “O que me hás dito
Penhor caro é de afeto” — lhe tornava.

“Muitas vezes da dúvida o conflito
Por aparência errônea é suscitado,
Até que a exata causa surja ao esp?rito.

“Fica em tua pergunta declarado
Creres que eu fora avaro noutra vida,
Por ser no círc?lo a avaros destinado.

“Pois sabe que a avareza repelida
Por mim foi nimiamente, e a demasia
De luas em milhares foi punida.

“Minha alma eterno fardo volveria,
Se atenção tanta em mim não despertasse
A indi?nação, que nos teus versos via,

“Quando lançaste dos mortais à face:
— “A que extremos impeles os humanos,
Fome de ouro sacrílega e rapace!” —

“Então do excesso em despender, os danos
Aprender pude, agro pesar sentindo
Desse pecado e de outros tantos insanos.

“Chorarão, tosquiados ressurgindo,
Quantos não têm sabido à penitência
Dar-se em vida ou sua hora extrema em vindo!

“Cada culpa e a que tem contrária essência
Aqui a pena dão conjuntamente,
No martírio expurgando a virulência.

“Estive entre essa turba penitente,
Que o desvario chora da avareza
Por ter sido no oposto renitente.” —

— “Quando cantaste de armas a crueza,
Que duplamente molestou Jocasta” —
Disse o cantor da pastoril simpleza —

“Pois que de Clio então o ardor te arrasta,
Inda o fervor da fé não te incendia,
E o bem sem fé para salvar não basta:

“Que sol, que estrela, em treva tão sombria
Te aclarou e dessa arte alçar pudeste
Velas após o pescador, que se ia?” —

— “Primeiro” — disse Estácio — “tu me deste
Do Parnaso a beber na doce fonte
E de Deus santa luz ver me fizeste.

“Hás sido, como à noite o guia insonte,
Que leva a luz, mas o seu bem não prova,
E aqueles serve, de quem vai na fronte,

“Quando disseste — “O séc?lo se renova,
Volta a justiça, volta a idade de ouro,
E progênie do céu descende nova.” —

“Por ti ganhei a fé, de vate o louro:
Isto deve, porém, ser-te explicado;
Dê ao desenho a cor de claro o foro,

“Já stava o mundo inteiro alumiado
Da vera crença que do reino eterno
Os mensageiros tinham propagado.

“O vaticínio teu, Mestre superno,
Aos predicantes novos se adatava;
Por isso, os freqüentando, o bem discerne.

“Tanto a virtude sua me enlevava,
Que, quando os perseguiu Domiciano,
Ao pranto seu meu pranto acompanhava.

“Enquanto estiver no viver humano,
Dei-lhes socorro e o seu exemplo austero
Ódio inspirou-me às seitas do erro insano.

“Antes já de cantar o cerco fero
De Tebas no batismo renascera:
Mas, de medo, ocultei meu crer sincero.

“Gentio largo tempo eu parecera;
Por isso hei tantos séc?los padecido
No círc?lo quarto; a pena merecera.

“Tu a quem devo, pois, ter conseguido
O véu rasgar, que tanto bem cobria.
Pois que tempo em subir é concedido,

“Onde Terêncio diz-me ora estancia?
Onde está Plauto Varro com Cecílio?
À qual parte do inferno a culpa os lia?” —

— “Aqueles, Pérsio e eu” — tornou Virgílio —
E os outros mais o Grego acompanhamos
Predileto das Musas; lá no exílio

“Do círculo primeiro demoramos
Vezes freqüentes do famoso monte,
Das Camenas assento praticamos.

“Eurípede é conosco e Anacreonte,
Simônide, Agaton e outros inda
Gregos, que cingem de laurel a fronte.

“Stão heroínas, que cantaste: a linda
Antígone, Deifile com Argia,
Ismênia, em quem tristeza nunca finda;

“Vê-se também a que mostrou Langia,
Tétis se vê e de Tirésia a filha,
E das irmãs Deidama em companhia” —

Os dois, da poesia maravilha,
Calaram-se, ao que os cerca atentos stando,
Vencida sendo da subida a trilha.

Das ancilas do dia atrás ficando
A quarta, logo a quinta se jungia
Ao carro ardente, ao alto o encaminhando,

“Quando o Mestre — “Eu suponho” — nos dizia
“Que nós à destra caminhar devemos,
Volteando, como antes se fazia.” —

Desta arte na exp?riência a mestra havemos,
E no andar prosseguimos confiados,
Porque de Estácio o assenso recebemos.

Iam diante os Vates afamados,
E eu logo após, nas vozes escutando
Arcanos da poesia sublimados,

Eis rompe esse colóquio doce e brando
Uma árvore, que à estrada em meio achamos:
Lindos pomos na fronde estão cheirando.

Vão para cima decrescendo os ramos
De abeto; estes descendo diminuem:
Para alguém não subir — acreditamos.

Límpidos jorros do penedo ruem
Da parte, em que a montanha a entrada mura;
Sobre as folhas em rocio as gotas fluem.

Estácio com Virgílio se apressura
Para essa árvore, quando voz, da fronde,
Gritou: — “Não gozareis desta doçura!

“Maria (e o seu desejo não se esconde)
Atende mais das bodas à grandeza
Que ao seu gosto; e por vós ora responde.

“Das Romanas à antiga singeleza
Água bastava; e Daniel ciência
Logrou, tendo em desprezo a régia mesa.

“Chamou-se de ouro a idade da inocência;
Fez as glandes a fome saborosas;
Água em néctar tornou da sede a ardência.

“Ao Batista iguarias bem gostosas
Mel, gafanhotos foram no deserto:
Assim fez grandes obras gloriosas,

“Como pelo Evangelho ficou certo.” —