A Elegíada

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A Elegíada
por Luís Pereira Brandão
É um poema em dezoito cantos e oitava rima e cujo assunto é a catástrofe de Alcácer Quibir; obra de muito escasso mérito, a despeito de algumas descrições felizes (1588).



PRINCIPIA A BATALHA

Agora, Virgem pura, alta Senhora;
Inspirai vós em mim sua voz divina,
Um novo alento com que cante agora
O triste fim da gente peregrina.
Cercada está de morte, mas bem fora
De passar polo jugo e paz candina.
Dá o Sol lume já extraordinário
Como quando temeu a Belisário.


Turba confuso a luz serena e clara
Como, quando mostrando altos segredos,
Cobre de dó a radiante cara,
Os Lídios investindo os bravos Medos.
A dor que mostra ali não se compara
A que causa no mundo tantos medos,
Quando a romana prole a espada ingrata
Por César e Pompeio disbarata.


E tendo já deixado o amado berço,
Coberto assi de pranto doloroso;
Passando quase já o diurno terço
O triste e escuro dia sanguinoso,
Dispara de improviso o férreo Berço,
O Falcão e Camelo temeroso,
O Leão, a Espera, a Culebrina,
Que parece que o mundo se arruína.


Saem polas bocas dos canhões ardentes
Espessas nuves, que se estão torcendo
Como rabos de Dragos e Serpences,
Vários nós fazendo e desfazendo.
Vão polo ar depois, em diferentes
Formas, castelos, montes parecendo,
Os pelouros cruéis causando entanto
A uns descanso eterno, a outros pranto.


Deixam por onde vão praça vazia,
Rodam robustos membros palpitando,
Vê o triste seu braço ou perna fria
Ir os próprios amigos derribando.
A cabeça do quarto que pendia,
Jesus parece estar pronunciando,
E o coração no bofe inda pegado
Ao doce nome se abre alvoroçado.


Onde o Cunha e Mesquita, que entenderam
Ser tempo de pôr fogo aos grossos tiros,
Animam bombardeiros que estenderam
Os braços, co'os morrões polos suspiros.
Aqui a terra, o mar e os céus tremeram
E voam polo ar fumantes giros,
Firmando-se os celestes movimentos,
Titubando um espaço os elementos.

CANTO XVII, 9-14