A Luneta Mágica/I/VIII

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A Luneta Mágica por Joaquim Manuel de Macedo
Primeira Parte - Introdução, Capítulo VIII


Quando cheguei a porta da rua, senti que alguém me tomava o braço: era o bom velho.

— Quero levá-lo já à casa do Reis, disse-me ele.

Apertei-lhe a mão com o. mais vivo reconhecimento e deixei-me conduzir, hesitando entre a esperança e a dúvida.

Enquanto caminhávamos, o meu condutor falava e eu o ouvia curioso:

— O estabelecimento do Reis é um representante do espírito do século: começou plebeu e já está nobre pela constância no trabalho e pelo encanto do progresso; não sei se o Reis tem sido agraciado; pouco importa o homem; mas a casa, a indústria já tem quatro condecorações nobiliárias.

— E o que faz o Reis?

— Dá, reproduz os meios conhecidos, aperfeiçoa-os e inventa novos para se fazer a paz e a guerra, a guerra, dando precisão, segurança às pontarias das peças de artilharia, a paz, oferecendo balanças e níveis de todas as qualidades, alguns dos quais devem poder marcar o peso e o nível dos interesses de quaisquer beligerantes, e além desses os mais perfeitos instrumentos para demarcação dos limites dos Estados; governa nos mares com as melhores bússolas; é senhor do sol e da lua, e de todos os planetas pelos mais fortes telescópios; conhece e domina os animais invisíveis pela força engrandecedora dos microscópios, vê o fundo tenebroso das minas, tem o cetro da física o império da química a soberania da eletricidade pela magia dos seus instrumentos, marca o tempo, prediz o calor e a chuva, e chama-se Reis porque não é um rei; mas tem o poder de muitos reis.

Eu escutava boquiaberto a concisa explicação de tão extraordinária potestade humana, e quando o bom velho se interrompeu para respirar, perguntei-lhe:

— E um homem, como este, certamente já tem sido muito aproveitado pelo nosso governo?!...

— Não; o nosso governo encomendou-lhe um dia o mais perfeito pince-nez político: 0 Reis fez obra de mestre, um pince-nez, que por um dos vidros deixava ler as lições do passado e pelo outro os perigos do futuro; mas o pince-nez não achou nariz de ministro, em que se ajeitasse, e foi desprezado.

— Mas então o Reis que é? é mágico?...

— Não sei; suponha que seja o diabo; o certo é que ele tem, e isso é o que mais lhe importa, o segredo de dar vista de águia aos míopes mais infelizes, aos míopes quase cegos.

— Por que meio, meu amigo?

— Por meio de vidros, e de cristais, cuja concavidade encerra sobrenatural magia; por meio de lunetas de forca excepcional.

— E o governo esquece homem semelhante?... há ministro que não se apresse a comprar uma luneta dessas?...

O velho desatou a rir: perguntei-lhe qual era o motivo da sua hilaridade, e ele me respondeu assim:

— O senhor é sem o pensar, sem o querer, cruelmente epigramático: falei-lhe em luneta para os míopes e o senhor procurou logo saber, se os nossos ministros de estado não usavam dessas lunetas!!!

A simplicidade de um pobre de espírito está sempre exposta às falsas interpretações dos maliciosos.

Eu não era capaz de pôr em dúvida a vidência, a ciência e a sapiência de um homem que chega a ser ministro de estado.

O fato é a presunção do direito, e para mim a infalível resolução do problema.

Não pode haver cidadão que seja chamado a tomar, e que tome sobre seus ombros a imensa responsabilidade do governo do Estado sem que seja reconhecido e se reconheça na altura de tão grandiosa missão.

Em minha inocência não posso pensar de outro modo.

Para mim quem e ministro de estado é sábio, ou pelo menos estadista.

É por isso que até hoje, quando me diziam, que no carro que passava, ia um ministro de estado, eu tirava o meu chapéu e me conservava descoberto em sinal de respeito até que me asseguravam que o próprio ordenança do ministro já estava longe.

Porque no próprio ordenança eu ainda admiro e venero os reflexos da sabedoria do ministro.