A Luneta Mágica/II/I

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A Luneta Mágica por Joaquim Manuel de Macedo
Primeira Parte - Visão do Mal, Capítulo I


Não me foi possível dormir. Fiquei velando ansioso a esperar pelo dia, como o preso que espera ouvir soar a hora, em que lhe assegurarão a liberdade.

Procurei abreviar o tempo, ocupando o meu espírito naturalmente lembraram-me os conselhos que me dera o armênio.

Refleti.

O mágico me recomendara que me abstivesse de fixar a minha luneta sobre o mesmo objeto por mais de três minutos; porque além de três minutos ela me daria a visão do mal, em que a salamandra cevaria a vingança da sua escravidão encantada.

Deverei eu obedecer neste ponto o conselho do armênio?... compreendo que pobre de espírito como sou, arrisco-me a errar gravemente, querendo deliberar por meu próprio entendimento, e por isso até hoje o mano Américo, que é sábio e justo, sempre tem pensado por mim.

Todavia está me parecendo que ver o mal que se contém em um homem, em uma mulher ou em qualquer objeto pode antes ser útil do que nocivo, porque em todo o caso me servirá para fugir do mal.

Eu não entendo bem o que o armênio chama visão do mal; se porém é simplesmente o que significam as duas palavras, chego a presumir, que a visão do bem há de por força ser mais suave; mas a visão do mal necessariamente mais proveitosa ao homem que faz na terra a viagem difícil e perigosa da vida.

Ora, o que o armênio me proibiu, foi a fixidade da minha luneta por mais de treze minutos, foi a visão do futuro, sob pena de quebrar-se a luneta em minhas mãos, e a semelhante calamidade nunca por certo me hei de expor; ele porém não me proibiu, apenas me aconselhou que me abstivesse da visão do mal.

Assim, pois, o que mais acertado e prudente devo supor, é, se a luneta mágica não for malvada zombaria ou presente da loucura, experimentar uma vez a visão do mal; porque em todo caso conservo c direito e arbítrio de limitar-me daí em diante à simples visão da superfície e das aparências, como diz o mágico.

Foi isto o que refleti, e o que pela primeira vez resolvi por mim sem consultar o mano Américo.

E de novo nesta noite maravilhosa veio-me a lembrança de Eva e reconheci a minha procedência legitima da primeira pecadora; mas em vez de achar na procedência e no primeiro pecado lição contra a desobediência, achei somente desculpa da minha curiosidade talvez temerária.