A Luneta Mágica/II/VI

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A Luneta Mágica por Joaquim Manuel de Macedo
Primeira Parte - Visão do Mal, Capítulo VI


Amarga desilusão acabava de obumbrar-me o animo: a prima Anica que tanto procurava agradar-me e que pudibunda recorria aos apólogos para manifestar-me a ternura dos seus sentimentos, a prima Anica que eu reputava o símbolo do amor mais puro e desinteressado, não era mais do que uma mulher insensível, egoísta, e somente preocupada dos gozos da vida animal!...

Eu nunca sentira amor pela prima Anica; mas votava-lhe amizade fraternal, e experimento verdadeira mágoa, reconhecendo que não mais posso estimá-la como dantes. Doce amizade! é uma flor de menos no jardim do meu coração.

Entretanto não me arrependo de haver-lhe devassado a alma, e descoberto a verdade dos seus sentimentos mesquinhos e vis: esta senhora, pelo menos não há de mais enganar-me.

As vozes do mano Américo e da tia Domingas que, entrando juntos no Jardim, dirigiam gracejos a Anica, chamaram a minha atenção.

Eu já não combatia mais a curiosidade da visão do mal: o conhecimento a que eu chegara, da falsidade da prima Anica, me excitava o desejo de esmerilhar os segredos de outros corações.

Lancei a luneta sobre o mano Américo e observei-o: mancebo de agradável parecer, é pena que seus olhos, aliás bonitos, não tenham firmeza no olhar, que não se demora em objeto algum e parece ou temeroso ou movido por preocupações do espírito a divagar estonteado, ou a fugir à observação dos homens; além desse defeito, notei que sua boca escapara de ficar sem lábios, tão finos são estes, e que o seu sorrir mostrava ser antes uma concessão artificial de aparente alegria, do que sinal espontâneo de íntima ledice'.

E passaram três minutos: oh! minha cega e imensa credulidade! o político patriota era apenas um ambicioso vulgar! o nome da pátria era uma alavanca, a dedicação ao povo um meio de construir escada: Américo queria subir, queria ter influência; mas nem ao menos por vaidade, ou também um pouco por vaidade; somente porém por cálculos de fortuna, somente para explorar as posições oficiais em seu proveito material; desprezava as graças, os títulos nobiliários, o brilhantismo da corte, as fardas de ricos bordados de ouro; mas desejava tudo isso como sinais de importância pessoal para negociar ainda mesmo com as exterioridades; talentoso, instruído, hábil, vende-se ou vender-se-á, aluga-se ou alagar-se-á sem parecer que o faz, ostenta e ostentará independência e abnegação, não pedindo jamais ao governo favor algum para si; mas fará questão de um contrato, cuja celebração irá dar contos de réis à sua mesa de advogado; fará questão de um privilegio para a empresa de que não é, nem será acionista; mas cuja gratidão já foi em segredo ajustada. Sua eloqüência será ameaça viva a todos os ministérios novos; o leão parlamentar porém se deixará levar por um fio de seda, que ele transformará oportunamente em corrente de favores, não para si, só para amigos, cujo reconhecimento nada tem com as suas relações com os ministros; e servirá ao Estado, e será patriota assim, e subirá, e há de ser grande na sua terra.

Dá o nome de amigos a três mil conhecidos, sabe angariar simpatias, colhe os frutos de mil préstimos, e não é amigo de homem algum, sabendo todavia servir com empenho àqueles que têm de servi-lo em dobro depois; mas serve só e sempre como intermediário, do seu apenas serve, dando o tempo que emprega para pedir e obter.

Em relação à família, Américo negocia com a legítima paterna da prima Anica, com a fortuna da tia Domingas e com a minha; convenceu-nos a todos de que perdêramos a quarta parte do que possuíamos na quebra das casas bancárias em 1864; ele porém ganhou nessa crise setenta e cinco por cento da suma das nossas três fortunas prejudicadas, isto é, aumentou a sua riqueza na proporção exata de nossas perdas; não toma compromisso sério; deixa que a tia Domingas lhe fale muitas vezes do seu casamento com a prima Anica; mas projeta abdicar em mim esta glória, e fareja entre os dotes ricos o dote mais rico para se casar com ele, aceitando, como meio indispensável da transação, uma pobre noiva condenada aos tormentos da sua indiferença.

Não esquecendo que sou seu irmão, Américo não me ama, mas olha-me com piedade; creio que não me deixará morrer de fome creio; porque tenho horror à incredulidade em tal hipótese; creio, revoltando-me contra a visão do mal; mas vejo bem que se ele puder, absorverá tudo quanto possuo.

Américo não é avarento, porque despende bastante para viver com decência e algum luxo; é porém o homem sedento de ouro, e para quem família, pátria e Deus se resumem no— ouro.

Enriquecer é a sua idéia: se chegar a possuir cem mil contos terá ambição cem mil vezes maior, e não fará bem algum à humanidade.

Entristeci-me profundamente, pensando no que acabava de ler no livro aberto da alma de meu irmão; logo porém, e como ansioso a procurar, a pedir uma consolação, fitei e observei por dez minutos a tia Domingas.

É uma senhora de sessenta anos, gorda, simpática, e perseguida de ataques erisipelatosos que a têm avelhantado mais que os anos; traz ao pescoço três ou quatro breves da marca, e na mão o rosário em que aponta as suas orações; sua fisionomia é plácida, tranqüila como a face de um pequeno lago, é um espelho da virtude da paciência, e nos seus olhos que a miado se voltam para o céu parecem brilhar os raios da esperança e da fé.

Mas a visão do mal mostrou-me em seguida a hipocrisia de sua face: a tia Domingas é invejosa e má; detesta as moças porque é velha; maldiz das traições e dos enganos do mundo porque não espera mais ser traída, nem enganada; benze-se, levantando aleives às vizinhas, ou propalando suas fraquezas; faz incríveis economias no governo da casa, esconde dentro do colchão e das almofadas de sua cama o dinheiro que poupa, e no principio de cada mês se lamenta da insuficiência da verba concedida por Américo para n manutenção da família: não dá um vintém de esmola aos pobres; arranca à rudeza e à calunia odienta dos escravos os segredos verdadeiros e falsos da vida intima de seus senhores, e faz das confidencias capítulos de acusação maledicente, acompanhados sempre de um— Deus me perdoe! na terra o acho, na terra o deixo! e pecadora que peca mil vezes por dia, pensa que engana a Deus, rezando, quando não peca.

Tem no mundo um amor, é sua filha; aborrece Américo; mas finge que o estima para ver se consegue casar Anica ou com ele ou em último recurso comigo; aborrece-o porque lhe inveja a riqueza que ele acumula, adorá-lo-ia, se Anica se tornasse senhora de metade da sua fortuna; não me ama, mas tolera-me, sou a seus olhos um genro obrigado na falta de Américo.

Pela força do hábito os lábios da tia Domingas estão em movimento incessante, porque sua boca repete maquinalmente as orações de seu rosário; interrompe, porém, as orações a cada instante no governo da casa para proferir pragas contra os escravos, chamando mil vezes pelo nome do diabo; mas não tem idéia deste pecado; porque reza, como peca, e peca como reza, sem intenção, nem consciência.

A tia Domingas é santa pela cara, e condenada pelo coração.

Retirei a minha luneta, sai da janela, e murmurei tristemente:

— Com que gente eu tenho vivido!... que desilusões, meu Deus! . que desgraça é perder como perdi a confiança nos parentes, e o amor que eu sentia por eles!!!