A Luneta Mágica/II/XIX

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A Luneta Mágica por Joaquim Manuel de Macedo
Primeira Parte - Visão do Mal, Capítulo XIX


Em outra ocasião, passando pela Rua dos Barbonos, parei diante de uma casa consagrada ao mais piedoso e santo mister, e vi armado em sua parede aquele aparelho movediço que se chama— roda dos enjeitados.

Ora pois! disse a mim mesmo; aqui é impossível que eu descubra o mal; porque neste caso o mal está somente na mãe, ou na família cruel, que enjeita o recém-nascido; mas no seio que se abre para recebê-lo, salvá-lo, adotá-lo não pode estar senão o bem, a caridade, a santidade.

E fitei a minha luneta na roda por mais de três minutos: quem o diria?... a roda da piedade bem depressa pareceu-me antes protetora do vicio e da desmoralização, do que providência salvadora de inocentes criancinhas condenadas; essa roda afigurou-se-me leito ruim de falsa caridade, porta do abandono, da perdição, talvez algumas vezes do cativeiro dos míseros enjeitados; li no berço dessa roda cem lúgubres histórias, e recuando espantado, preferi a miopia à visão do mal, e cheguei a pensar que para muitos dos enjeitados e para a sociedade fora melhor a sepultura, do que a roda.

E retirei-me, meditando, refletindo sobre o que acabava de ver.

Fique de parte a questão moral, social da conveniência de tais estabelecimentos de caridade,

Que faz a roda ao enjeitado? Se pode, livra-o da morte; mas depois condena-lhe a vida: era talvez preferível deixá-lo morrer.

Ser ou não ser: se a instituição é de caridade, seja-o plenamente, não se desnature, recorrendo a meios que em regra geral são fatais aos enjeitados; se não pode sê-lo plenamente, não cumpre o seu fim.

Que faz a roda? Recebe o enjeitado, e depois enjeitado por sua vez. A verdadeira caridade não enjeitada.

A roda que faz? Dá os enjeitados a criar, a quem os vem pedir e os leva a dez, a vinte, a cinqüenta e mais léguas de distancia, e fica muito contente de si, porque paga a criação do enjeitado por dois terços menos, do que de ordinário custa o aluguel de uma ama.

E por esse preço insuficientíssimo criar enjeitados é negócio que se explora!

Que fortuna espera ao enjeitado que a roda assim por sua vez enjeita? Faz tremer pensá-lo.

O mísero inocente é feliz, se acha seios de mulher em que se aleite, e fica apenas analfabeto e sem educação; a sociedade é que não pode esperar ser felicitada por semelhante enjeitado de roda.

E o que não é feliz desse modo tão infeliz?...

E o enjeitado que fica reduzido a escravo da família que o foi pedir?... e o enjeitado que morre à mingua longe da roda que o enjeitou, e que paga sua criação muitos meses além da afortunada morte do mísero condenado?

E o enjeitado de cor preta, ou de cor menos branca, que tão facilmente substitui o escravo que morre, e que toma dele o nome para ser vendido pela perversidade de algum infame dentre os negociantes de criação de enjeitados?

Esta ultima idéia, a suspeita da possibilidade... talvez da realidade de tão grande crime penetraram no meu espírito, como punhais ervados que me rasgassem o coração.

Tudo pois que eu via no mundo era maléfico, pavoroso, medonho!