A Luneta Mágica/II/XX

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A Luneta Mágica por Joaquim Manuel de Macedo
Primeira Parte - Visão do Mal, Capítulo XX


A minha vida se tornava mais pesada, insuportável fardo. Não havia para mim na terra nem consolação, nem luz de esperança; se me tivesse faltado a profunda fé em Deus, e a educação católica, o meu recurso teria sido o suicídio porque a visão do mal me levara ao desespero.

Compreendi bem o horrível suplício da minha vida.

Em três parentes que eu possuía no mundo descobri três ignóbeis exploradores da minha fortuna e do meu infortúnio.

Em dois amigos quase da infância achei dois miseráveis sem moral, nem consciência.

Fiquei sem as santas prisões da família e sem a doce confiança da amizade.

Quis tomar conta dos meus bens e criar para mim uma família e empenhei-me em acertar com um bom procurador, e com uma donzela digna de ser minha noiva, e todos os procuradores que estudei, eram homens repulsivos e alicantineiros e todas as donzelas que observei me inspiravam repugnância, pelas suas ruins qualidades morais, e gravíssimos defeitos.

Para qualquer lado que me voltei, fitando a minha luneta, vi somente sob falsas aparências corações corrompidos pelos vícios, ou enegrecidos pelo crime.

Não houve uma exceção!... todos os homens hediondos, todas as mulheres ainda piores que os homens! 0 mundo pareceu-me povoado por demônios de ambos os sexos; porque fora absurdo acreditar, que somente na cidade do Rio de Janeiro toda a população nacional c estrangeira fosse má e estivesse pervertida.

Descobri no sol fontes de terríveis calamidades, no beija-flor uma criatura malvada; na imprensa uma instituição condenável, em estabelecimentos de caridade lições e praticas de desumanidade.

Descri do advogado, do padre, do sábio, do artista, de todos e de tudo!

Achei-me na terra sem um parente amado, sem um parente possível, sem uma noiva possível sem sociedade possível.

Em todos vi o mal; porque em breve desconfiei mesmo daqueles, que não estudara por mais de três minutos com a luneta mágica.

A visão do mal me causava já certa espécie de terror; um dia lembrou-me fitar a luneta no prato que acabavam de servir-me ao jantar; mas estremeci, e não a fitei, receoso de encontrar veneno; que me importava ser envenenado?... era melhor não ver.

Foi assim que passei mais outro mês que se arrastou como um século

Que viver de torturas!

Tende piedade de mim, meu Deus! tirai-me deste mundo, onde eu vivo só, absolutamente só em solidão infernal, ou com um único, inseparável, amaldiçoado, mas implacável e sinistro companheiro, com o mal que eu vejo em tudo, em todos, em toda a parte.