A Luneta Mágica/II/XXX

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A Luneta Mágica por Joaquim Manuel de Macedo
Primeira Parte - Visão do Mal, Capítulo XXX


Asseveram que estou doido, e eu me sinto no pleno e perfeito gozo de minhas faculdades mentais.

Mas de que me aproveita a consciência do meu estado, a certeza de que estou em meu juízo, se o mano Américo, a tia Domingas, a prima Anica, e toda a população do Rio de Janeiro me declaram doido ?

A opinião pública que dizem ser a rainha do mundo decretou que me acho vitima de alienação mental.

Vitima concordo que eu esteja sendo; mas alienado?... Protesto.

Doido por quê?... Porque tenho o privilégio de descobrir o mal que se dissimula; e porque não há máscara de hipocrisia, que resista à minha luneta mágica!

Doido! . . .

Ah! quantos homens de juízo não andarão por aí declarados doidos somente para que os golpes certeiros de suas palavras terríveis percam a força, com que devem ferir e despedaçar a imoralidade, os vícios ignóbeis e até os crimes de grandes figurões?...

Eu não creio, não posso mais acreditar na bondade ou na virtude de homem algum; todos são mais ou menos ruins, falsos, e indignos; há porém alguns que sem dúvida com o fim de ser mais nocivos aos outros, e para produzir maior dano, têm o merecimento de dizer a verdade nua e crua, e chamar as coisas pelos seus nomes próprios tornando-se verdadeiros e francos certamente ainda por maldade.

Pois bem: esses perigosos faladores são em breve denunciados ao publico sempre enganado, como — doidos.

Conversem um pouco e em voz baixa com a nossa capital, e hão de reconhecer os fundamentos desta observação.

Um exemplo: um desses homens de palavra solta e descomedida declara sem cerimônia e declinando nomes que tal e tal sujeitos que chegaram a titulares e são considerados, lisonjeados e adulados pela sua riqueza nas mais elegantes sociedades, mereciam antes estar ria casa de correção por terem enriquecido com abusos escandalosos e crimes, de que ele faz a história.— É doido.

Outro exemplo: um jornalista que escreve sem luvas de seda, chama na imprensa ao ministro que dilapida, dilapidador ao funcionário ou administrador que rouba, ladrão; e assim por diante sem limar o verso para que não fira. Que doido!

Terceiro exemplo: um desastrado falador diz a um pai cego e doido pelos filhos: — "os seus filhos são vadios e procedem indignamente;"— a um esposo de quem é amigo:— "a vida repreensível que vives, a depravação de teus costumes não só te nodoam, como talvez preparem a vergonha da tua casa... não desesperes tua pobre mulher: corrige-te". É doido, absolutamente doido.

E esses e outros semelhantes são doidos, e eu também estou doido; por que?...

Porque na sociedade a maior prova, o mais seguro sintoma de loucura é dizer a verdade sem rebuço, mesmo quando a verdade pode ser desagradável ou ofensiva.