A Luneta Mágica/II/XXXI

Wikisource, a biblioteca livre
< A Luneta Mágica
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
A Luneta Mágica por Joaquim Manuel de Macedo
Primeira Parte - Visão do Mal, Capítulo XXXI


E em certos casos de que vale a consciência ao homem contra s guerra teimosa e perversa dos outros homens?...

Nem Hércules contra dois; que poderá um contra todos?...

Aqui estou eu certíssimo de me achar em meu perfeito juízo e com serias apreensões de ver-me obrigado a endoidecer em breve.

Os meus parentes, os meus conhecidos, e todos crêem ou fingem crer, e dizem, proclamam, gritam por toda parte que estou doido.

Há situação mais horrível e ameaçadora?...

Considere-se cada qual no meu caso.

Em casa apenas levantado da cama, e durante o dia todo a família os parentes com hipócritas aparências de compaixão a repetiram mil vezes: — "coitado! está doido..."

Os falsos amigos em suas visitas dizerem-me: — "trate-se! creia que a sua cabeça não está boa..."

Na rua, no passeio, no teatro, em toda parte uns a rir e a gritar: — "está doido!"; outros com voz lastimosa a murmurar: — "pobre moço! está doido".

Durante a noite guardas possantes velando no quarto do doido.

E oito, quinze dias seguidos, um mês, família amigos, conhecidos, desconhecidos, toda a população de uma cidade a repetir de hora em hora, de minuto a minuto, incessantemente: — "está doido! está doido! "

Quem seria, quem é capaz de resistir a semelhante impulso violento para a loucura?...

De que vale em tais casos a própria consciência contra esse acordo geral que a condena?...

O homem mais forte cede exasperado à convicção de todos, e em breve prazo começa a duvidar de si...

E desde que começa a duvidar de si, começa a enlouquecer...

Oh! é horrível!... e um martírio que os algozes mais ferozes nunca imaginaram!

Mas eu hei de reagir!

Zombarei da fúria desses monstros que se chamam homens.

Sinto-me grande, porque sou um a assoberbar a todos.

E para assoberbá-los é condição indispensável sofrer com frieza, resignação, e sem desesperar: saberei fazê-lo; e além da frieza e da resignação no sofrimento, é também essencial o mais profundo desprezo da humanidade.

Oh! é impossível que eu a despreze mais!