A Luneta Mágica/III/VI

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A Luneta Mágica por Joaquim Manuel de Macedo
Segunda Parte - Introdução, Capítulo VI


Ao cair da tarde saí.

Em relação a meus olhos pouco importava que eu saísse de dia ou de noite; quis porem arriscar-me a aparecer à luz do crepúsculo para observar a impressão que a minha pessoa causava ao público.

Não me era possível apreciar expressões fisionômicas daqueles que reparassem em mim; mas eu tinha e tenho bom ouvido de cego, e não me escapariam nem o murmurar da maledicência, nem mesmo o sussurro da curiosidade revelada em trocas de palavras abafadas.

Caminhando vagarosamente, e com atenção dissimulada, porém viva, ouvi, e percebi o que alguns disseram, vendo-me passar.

— Míope ou antes cego, como dantes!

— Perdeu o encanto...

— Que encanto! caluniavam o pobre rapaz...

— Deveras?

— Foi vítima da mais cruel perseguição.

— Coitado!

— Querem-no cego para desfrutarem-lhe a fortuna...

— Que imoralidade!

Eis como pensavam e murmuravam quase todos ao considerarem o meu infortúnio.

Volúvel e caprichosa cidade! o seu juízo se modifica, e até muda completamente com o volver de alguns dias, e o objeto das maldições pouco a pouco se torna objeto de simpatias.

Estudai a capital; a nossa é provavelmente como todas as outras de iguais ou maiores proporções: os seus habitantes vivem sujeitos ao contagio moral dos sentimentos; uma opinião entra em moda, poucos a examinam e discutem, a novidade a recomenda, o contágio moral a espalha, mais tarde a reflexão começa a patentear-lhe as falhas, o espírito ressentido reage, a reação propaga-se por novo contágio, e se pronuncia fulminando-a, e então nem distingue o que ela pode ter de exatidão e de verdade entre os erros, aliás a principio aplaudidos como acertos.

A opinião pública é deslumbrante, mas leve e fugitiva; assemelha-se às fadas dos contos orientais, encanta, porém ilude; é igual às jovens formosas e facilmente apaixonadas, seduzem e cativam e mudam de amor em breve prazo.

Quando cheguei ao fim destas e de outras semelhantes reflexões, era noite, e eu me achava sentado em um dos bancos de pedra do jardim da Praça da Constituição.

Ninguém reparava em mim, senti-me ou isolado ou defendido pela indiferença de todos, e todavia, poucos dias antes eu tinha sido naquele mesmo lagar causa de alvoroço geral e vira a multidão fugir aterrada da minha presença, como se eu estivera na Ásia e afetado da poste negra.

É triste, miséria da humanidade! Aquela indiferença que em minhas apreensões desse mesmo dia, eu desejava tanto, e tanto pedira ao céu, aquela indiferença que era a paz que a população me concedia, acabou por fatigar-me, por despertar o ressentimento da mais estulta vaidade em minh'alma de pobre pecador.

A popularidade é sempre um pedestal em que o homem se levanta acima dos outros; mas a impopularidade também é pedestal, distingue pela reprovação ruidosa, e em vez de abaixar, também levanta, também arranca do vulgar a sua vítima, e para açoitá-la, eleva-a ao pelourinho, e mostra-a pela sua perseguição ou pelo seu ódio acima das proporções comuns da generalidade.

Eu já havia experimentado a distinção torturadora da aversão popular; eu já tinha sido notabilidade embora adiada, e senti-me abatido, desprezado, aviltado, reduzido à invisível nulidade pela indiferença com que me deixavam nem olhado no meu banco.

Houve um momento em que atiçado, impelido, enlouquecido pela influencia traiçoeira da mais estúpida vaidade, tive ímpetos de levantar-me, e de bradar àquela multidão que não me via: "olhai-me! persegui-me! eu tenho a visão do mal..."

Mas exatamente nesse momento alguém me tocou com a mão no ombro, e me disse ao ouvido:

— Até que enfim nos encontramos!