A Luneta Mágica/III/X

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A Luneta Mágica por Joaquim Manuel de Macedo
Segunda Parte - Introdução, Capítulo X


Entrei.

Eu achava-me fatigado do longo passeio e pedi licença para des­cansar alguns momentos.

Sentei-me e respirei afadigado.

O Reis se conservou em silêncio ate que lhe perguntei:

— O armênio?

— Sem dúvida está no seu gabinete; não o preveni.

Eu não posso ver o que porventura terá de se passar dentro em pouco; conto com a sua condescendência para referir-me por miúdo o que não me 6 dado apreciar pela vista.

— Pode estar certo disso.

— Bem; já descansei: vamos procurar o armênio.

O Reis tomou-me o braço e disse:

— Vamos; se ele é, como pretende, verdadeiro mágico, deve ter adivinhado a sua visita; se o não é, surpreendê-lo-emos ou descuidado, ou dormindo.

E tínhamos apenas avançado um passo, quando o armênio mostrou-se à porta do fundo do armazém, trazendo na mão uma lanterna furta-fogo.

— Eu adivinhei a tua visita, mancebo, disse ele.

E fitando o Reis, acrescentou:

— Reconheça-me pois verdadeiro mágico.

O Reis não respondeu; evidentemente ficara confundido.

O armênio adiantou alguns passos para nós, e dirigindo-se a mim, disse-me:

— Criança! não te acuso pelo que fizeste: a tua desobediência aos meus conselhos era um fato previsto pela magia; es homem, tinhas de errar, como erraste.

— Não errarei outra vez, balbuciei humildemente,

— Errarás sempre, e tornarás a desobedecer-me.

— Não!

— Vê-lo-ás.

— Então conseguirei deveras outra luneta mágica?

— Sim, se a exiges.

— Peço-a de joelhos.

— Criança! para que teimas em querer ver?...

— Porque ver é viver.

— Eu te anunciei da outra vez que o que me pedias era o mal, o gelo do coração, o ceticismo na vida, e sabes que não te enganei.

— Mas ao menos eu vi, e agora de novo me acho cego.

— Criança! tu escolheste um dia benéfico, um domingo, uma hora propícia, a que antecede apenas ou vê despontar a aurora; ainda assim porém tu veras demais!

— Embora!

— Pedes-me uma segunda luneta mágica que te será fatal como a primeira.

— Já tenho por mim a experiência.

— Será o engano infantil na vida...

— Aceito!

— Será a credulidade insensata.

— Aceito!

— Será a inocência indefesa.

— Aceito!

— Será a zombaria do mundo e a cegueira da razão.

— Aceito!

— Por que, criança?...

— Porque eu quero ver.

— Verás demais!

— Aceito.

— Eu o sabia, e tanto que o altar está pronto e nos espera; já evoquei os espíritos elementares: nada falta; vamos.

Mas ao primeiro passo, o armênio levantou a lâmpada, inundou-nos de luz, e disse:

— Trazes vestidos de cor preta, que e antipática a Júpiter, cujo dia é hoje.,,

E fez com a mão um sinal que eu não vi com os olhos; mas a que obedeci, ficando imóvel, e como preso ao lugar que meus pés pisavam.

O armênio saiu do armazém para ir ao seu gabinete.

O Reis silencioso, eu estático, respirávamos apenas, dominados pelo prestigio do mágico que em breve tornou a aparecer, trazendo uma túnica de pano branco bordada de triângulos de prata.

Cumprindo as ordens do mágico tirei a sobrecasaca, o jaleco e a gravata que eram de cor preta, e vesti a túnica.

— Agora vamos, repetiu ele.

O Reis e eu seguimos em silêncio o mágico.