A Luneta Mágica/III/IX

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A Luneta Mágica por Joaquim Manuel de Macedo
Segunda Parte - Introdução, Capítulo IX


Empreguei tanto tempo nestas reflexões, que de súbito as interrompi, quando o guarda do jardim veio dizer-me que era tempo de retirar-me, pois ia trancar as grades.

A noite se adiantava.

Deixando o jardim, pensei que não me convinha recolher-me a casa.

Meu irmão, minha tia, e a prima Anica bem poderiam desconfiar do meu primeiro e prolongado passeio depois da inutilização da luneta mágica, e ficando alerta, embaraçar a minha saída de casa em desoras.

Achei prudente este juízo, e resolvi-me a matar o tempo, passeando pelas ruas desertas da cidade.

E passeei... e andei, como o judeu errante; ninguém me perguntou quem eu era, nem me espiou os passos.

Míope nada vi; mas distraí-me, ouvindo o ruído anunciador da negligencia da autoridade pública.

Ouvi o ressonar de mais de um indigente que dormia nos degraus do alpendre de uma igreja, e perguntei a mim mesmo se não havia na capital do Império um asilo para a indigência sem teto, para a miséria esfarrapada e sem recurso.

Ouvi as juras e os protestos de jogadores infelizes ou roubados, que saiam em furor de uma casa, onde se cantavam árias italianas ao som do piano na sala da frente, e se arruinavam fortunas ao lansquenê em alguma saia do interior; e perguntei a mim mesmo por que a polícia, que invade a alçada de todos os poderes do estado, não manda trancar as portas das casas públicas de jogo, onde tantos mancebos devastam as riquezas de seus pais, tantos caixeiros fazem paradas à custa das gavetas dos amos, tantos inespertos são criminosamente despojados por jogadores trapaceiros.

Ouvi o estrépito da orgia das famosas mulheres impudicas, e dos velhos ricos, e jovens viciosos que de copo de champanha em punho, e com a voz da lascívia nos lábios entoavam cantos obscenos em honra do ridículo da velhice, da corrupção da mocidade, e do desavergonhamento da nudez e do o próbrio do sexo, do recato, do pudor, e da honestidade; e perguntei a mim mesmo que exemplo davam aos filhos esses velhos, que esperanças devam à pátria esses Jovens, que futuro esperavam as esposas e as filhas dos primeiros, as mães e as irmãs dos segundos.

Ouvi...

Deus me livre de dizer tudo quanto ouvi, rebentando do interior de certas casas, ou falando sem reserva nas ruas ao ruído abafado ou a algazarra vergonhosa do vício em dissimulação ou em desenvoltura.

Ouvi finalmente no dobre de alguns sinos o sinal de três horas da madrugada, e dirigi-me então a Rua do Hospício.

Como da primeira vez o Reis me esperava à porta de sua casa.