A Luneta Mágica/III/VIII

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A Luneta Mágica por Joaquim Manuel de Macedo
Segunda Parte - Introdução, Capítulo VIII


Fiquei só, refletindo.

Eu ia de novo recorrer a magia, e, se alcançasse outra e igualmente poderosa luneta, talvez expor-me de novo às perseguições do povo.

Ter uma luneta mágica para não usar dela, seria criar para mim o martírio de Tântalo.

Usar da luneta mágica novamente obtida seria perigo quase certo para a minha segurança.

Reproduziram-se pois as minhas tristes apreensões, e os meus cuidados, e se me antolhava um tormento que ainda não provara, a certeza da visão, ou a impossibilidade de exercê-la pelo medo da perseguição. . .

Portanto era minha sina sofrer sempre, ser sempre como o proscrito dos homens!

E todavia em todo caso eu desejava, eu queria poder ver.

Mas se a magia era uma ciência sobrenatural, porém verdadeira, pois que operava as maravilhas que eu experimentara, e contava ir experimentar, por que não poderia ela também livrar-me da reprovação publica e torná-la mesmo se não em estima ao menos em tolerância ou indulgência?

Resolvi-me a falar sobre este assunto ao mágico, a quem regato capaz de realizar impossíveis.

Não compreendo, não posso admitir a pertinácia, com que o meu amigo Reis nega-se a reconhecer o miraculoso poder do armênio.

Ou eu me engano muito, ou anda ai receio pueril de expor-se ao ridículo, e de passar por explorador de suposto charlatanismo na opinião dos espíritos fortes.

Os espíritos fortes! Não conheço espíritos mais fracos do que esses que se dizem fortes. A sua força consiste na negação de tudo quanto não podem explicar ou pelos sentidos ou pela sua razão que só resolve dentro do círculo das idéias que recebe pelos sentidos. A sua negação 6 pois um trono consagrado à ignorância, e firmado no materialismo.

Dantes eu não sabia reconhecer a profundeza destes erros filosóficos; graças porém à influência da minha luneta mágica, e principalmente à visão do mal, acho-me curado da minha miopia moral.

Faz-me pena, não digo a incredulidade, porque não a admito, mas a obstinação do meu amigo Reis.

Um homem que tem nas suas oficinas um mágico da força do armênio, e mágico que lhe oferece prodígios, teima em não querer experimentar ao menos a capacidade extraordinária, os trabalhos estupendos desse esclarecido adepto da cabala.

Só o receio do ridículo, e o respeito exageradíssimo aos espíritos fortes pode explicar semelhante procedimento.

Pois eu tenho para mim que em proveito da humanidade, e em especial serviço ao público brasileiro, devo comprometer tanto quanto me for possível o Reis.

Se eu conseguir, como espero, segunda luneta mágica tão admirável como foi a primeira, anunciarei pelos Jornais a existência do armênio nas oficinas do Reis, e a diversidade e surpreendentes condições dos instrumentos óticos que ele pode temperar no fogo da magia.

Tenha o amigo Reis paciência, hei de comprometê-lo, e as justas exigências dos seus fregueses e do público o obrigarão a aproveitar-se da habilidade magica do armênio, e a facilitar a todos os instrumentos óticos por este preparados.

Se assim não quisesse, cumpria-lhe não ter e não conservar esse mágico em suas oficinas.