A Luneta Mágica/IV/XI

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A Luneta Mágica por Joaquim Manuel de Macedo
Segunda Parte - Visão do Bem, Capítulo XI


Voltamos ao armazém e nos sentamos para conversar.

Eu estava outra vez de bom humor; a resposta do armênio tinha banido minha súbita tristeza.

— Então, meu amigo Reis?

— Não compreendo isto; mas em todo caso estou firmemente decidido a resistir ao armênio, e a não consentir, a não admitir no meu armazém instrumentos mágicos.

— E se os fregueses o exigirem?

— Negarei a realidade do que não compreendo.

— E se amanhã aparecer em todas as gazetas diárias da capital a noticia da minha nova luneta mágica?

— Confio na sua discrição.

— Pois não confie; fui eu que redigi a noticia.

— Oh! que fez? exclamou o Reis.

Depois serenou logo e tornou:

— Sofrerei o que já sofri; mas desta vez lançarei todas as culpas sobre o armênio que não fala e não aparece a pessoa alguma.

— Que teima!

— Não quero no meu armazém instrumento algum que não seja obra da arte e da ciência humana. Eu já teria despedido este maldito armênio, se ele não fosse o artista mais hábil consumado, e dedicado nas minhas oficinas; tudo que sai das suas mãos, do seu trabalho, pode-se dizer perfeito; mas reputo a sua pretendida ou real magia perigosa à sociedade, ofensiva da religião, capaz até de perturbar a ordem pública.

O velho Nunes desatou a rir.

— De que ri assim? perguntou-lhe o Reis.

— Da sua inocência, respondeu-lhe o velho; vivemos na terra, no pais das artes mágicas, e o senhor se arreceia de introduzir nela obras de magia! Meu amigo, o senhor está na cidade e não vê as casas.

— Como assim?

— Creia que há magias a cada canto; olhe: como é que empregados públicos, e homens de todos os misteres e condições vivem, ganhando cinco, e gastando cinqüenta em cada ano? Só por magia. Como é que um farroupilha há dois ou três anos se ostenta de súbito milionário? Só por magia. Como é que o Brasil festeja todos os anos o aniversário da sua constituição libérrima e vive, sem exceção de um dia, fora da lei constitucional e em plena ditadura, ou sob a vontade arbitrária, absoluta de quem está de cima? Só por magia. Acredite-me: há arte mágica na vida, na riqueza, no procedimento e na fortuna de muitos; há arte mágica nas misérias da administração, nas mentiras constitucionais do governo, nas zombarias feitas à opinião, no impune desprezo do povo, e até na paciência ilimitada dos que sofrem, há arte mágica..

— Basta, Sr. Nunes; no meu armazém se conversa sobre tudo, menos somente sobre dois assuntos.

— Quais?

— A vida alheia, e a política do estado.

— Pois fiquemos no que disse. Que horas são?

O Reis consultou o relógio:

— Duas e meia.

— É tempo; em nossa casa janta-se precisamente as três horas da tarde: a alegria seria completa, se o amigo Reis se sujeitasse a fazer hoje penitência conosco.

O Reis esquivou-se cortesmente ao convite, declarando que devia sua presença a um hóspede.

O velho Nunes e eu saímos.