A Luneta Mágica/IV/X

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A Luneta Mágica por Joaquim Manuel de Macedo
Segunda Parte - Visão do Bem, Capítulo X


Mostrei-me pensativo e menos alegre ao almoço; Anica reparou nisso, e perguntou-me docemente qual podia ser a causa da minha melancolia.

Disse-lhe que tinha dormido mal, porque levara toda a noite a sonhar com ela; a resposta a fez sorrir, e livrou-me de mais explicações.

Nada é mais agradável à mulher do que o culto, e a turificação à sua vaidade.

Logo depois sai para visitar o meu amigo Reis, e dar-lhe conta da força, e do poder maravilhoso da minha luneta mágica.

Uma vez por todas fica declarado que o público da capital, como os meus parentes o tinham feito, deixou-me com a mais completa e absoluta tolerância ou indiferença no gozo pacífico e pleno da minha nova luneta mágica, conforme o armênio o havia garantido.

Ao chegar à casa do meu amigo Reis, um homem, que com ele conversava no armazém, voltou imediatamente as costas ao ver-me entrar, dizendo-lhe em voz baixa algumas palavras.

O Reis veio logo receber-me com a sua habitual e natural amabilidade.

Sem que rogado me fizesse, confiei ao excelente amigo tudo quanto se passara no dia antecedente em relação à minha nova luneta mágica.

— E não haverá nisso ainda muita influência de imaginação? perguntou-me o Reis sorrindo-se.

— Sempre incrédulo! respondi-lhe eu; não há meio de convencer a um homem que não quer ser convencido.

— Lembra-se da visão do mal?

— Muito.

— Que me diz dessa visão agora?

— Que era caluniadora e perversa.

— E por que não será traidora e falsa a visão do bem?

— Suponhamos que o seja; ainda assim a magia de que duvida é uma realidade, embora seja maléfica.

— Proponho-lhe uma experiência...

— Aceito-a.

— Vê aquele homem que nos dá as costas?

— Vejo-o

— Vou esconder-lhe o rosto com um lenço e o senhor que já o julgou pela visão do mal o julgará pela visão do bem e me dirá quem é ele.

— Estou pronto: não sei se poderei dizer quem ele seja, porque ignoro se a luneta mágica estende a tanto o seu poder; mas tenho a certeza de ver, de apreciar e de patentear o seu caráter, e as suas qualidades boas ou más.

— Experimentemos pois, disse o Reis.

E logo foi cobrir com um lenço de seda roxo o rosto do seu amigo ou freguês, que assim perfeitamente seguro de não ser conhecido, voltou-se para mim, e ficou firme, como se fosse uma estátua.

A um lado entre mim e o desconhecido o Reis nos observava risonho.

Fixei a minha luneta, e principei logo a falar, descrevendo o que via.

— Rosto comprido, magro, um pouco moreno, cabelos que começam a esbranquecer... este homem tem mais de cinqüenta anos de idade . . .

E seguidamente fiz o retrato do desconhecido.

O Reis ouvia-me admirado.

No fim de três minutos de observação senti que a visão do bem abria ao meu olhar a alma do desconhecido:

— Mal julgado por alguns; mas nobilíssimo caráter! este homem é procurador de causas no foro, e muitas vezes sacrifica seus interesses pessoais, servindo a ambos os litigantes contrários no empenho da conciliação e da harmonia; com o seu trabalho honrado e sábia economia tem adquirido alguma riqueza, e sabe acudir às circunstâncias difíceis dos seus amigos, emprestando-lhes dinheiro a juros; os velhacos o chamam por isso usurário; em seu lar doméstico pede à esposa e à filha diligencia, zelo e labor para fundamento da segurança do futuro; ele trabalha, a mulher trabalha, a filha trabalha, e a riqueza da família aumenta, e com o trabalho a moralidade do lar doméstico aprofunda raízes. E um homem útil à sociedade; severo em seus costumes, austero na educação da filha, na direção da esposa, no governo da casa, é um modelo de chefe de família, um exemplar, que por muitos pais e maridos deve ser copiado. Este homem chama-se . . . ah! . . .

— Que é isto? perguntou-me o Reis, notando a minha súbita surpresa.

Este homem chama-se Nunes... perdão meu velho e bom amigo! exclamei avançando dois passos para ele; perdão!... A visão do mal me tinha pintado o senhor com horríveis cores! perdão! perdoe-me! a calúnia não foi minha, foi da visão do mal que era aleivosa e malvada!

Vendo-se reconhecido, o velho Nunes tirou o lenço que lhe cobria o rosto, e deu-me apertado abraço.

— Perdoa-me? perguntei-lhe.

— Com uma condição...

— Qual?

— Há de remir a sua dívida: hoje mesmo juntará comigo.

— Com o maior prazer.

— Então também me perdoa? perguntou-me o velho Nunes por sua vez.

— O que, meu amigo?

— O mal que involuntariamente lhe causei; confesso que confiei a algumas pessoas o segredo da sua primeira luneta mágica; mas não fui eu quem inventou as falsidades que o comprometeram na opinião do povo.

— Tudo isso está passado...

— Ainda bem!

— Amigo Reis, eu quero agradecer ao armênio...

— Vou chamá-lo já, ou antes, venham comigo.

Seguimos o Reis, e quando chegávamos à porta do misterioso gabinete, esta se abriu, e o armênio apareceu, como se nos estivesse esperando.

— Para que me incomoda? disse-me ele rudemente; o dia em que precisará de mim, não chegou ainda. Deixe-me, vá gozar a visão do bem.

E trancou-nos a porta.

O velho Nunes observou, sorrindo:

— Positivamente a magia não tem escola de boa educação.

— Não, disse eu com tristeza: o armênio está ressentido da minha desobediência; ele tinha-me aconselhado que me abstivesse da visão do bem.

— Enganas-te, criança! respondeu de dentro do gabinete a voz do mágico: o que aconteceu devia acontecer.