A Mandinga/III

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A Mandinga por João Simões Lopes Neto
Capítulo III


Livre e refeito do valente susto que o trambolho do Mutuca lhe causara, o Elesbão Soares estugou o passo, e, tomando uma rua escusa, na direção dos potreiros da Várzea, ia murmurando.

— Ah! se eu pudesse, se eu pudesse!... Mas como?

Por fim, procurou orientar-se.

Neblinava sempre, e de tal modo, que quase não se distinguiam os vultos a dois passos.

Em frente a um cercado de tábuas, dividido ao centro por um portão pintado de verde escuro, o Elesbão parou e, tateando, passando a mão espalmada, de cima para baixo e da direita para a esquerda, sobre as tábuas encharcadas, descobriu a aldabra como a qual bateu três vezes.

— Quem bate? Perguntou-lhe uma voz enrouquecida, denunciando o mau humor do locatário.

— Sou eu, o Elesbão da tia Maricota.

— Ahn! Está bom. Já aibro.

Seguiu-se o rumor de ferros a rangerem, de trancas retiradas, e o portão abriu.

— Já não esperava, seu Elesbão. Tão tarde, e com uma noite destas!

— Tive que fazer. Já começaram?

— Sim, senhor, há muito tempo.

— E tem muita gente?

— Pouquinha. Eh! Eh! polícia de seu João Afonso tem atrapalhado muito papai Caboclo.

Raio de jorná anda sempre falando. Parece que não tem mais que faze.

Enquanto falavam, o interlocutor de Elesbão, que não era outro que o velho Jerônimo, uma espécie de cérebro da caverna do Caboclo, tornou a fechar o portão, cautelosamente, e puseram-se ambos a caminho para o interior da morada.

Fizeram alguns passos, por um terreno de pântano visguento, úmido, que se pregava à sola das monumentais botinas do Elesbão, e dois minutos depois achavam-se diante de uma cortina da aniagem, tendo ao centro desenhada a carvão, uma grotesca cabeça de galo, e que os separava da sala das sessões do Caboclo. Um pandemônio a tal sala.

Imagine-se uma peça retangular, de três ou quatro metros de lado, um assoalho, sem forro, com as paredes afumaradas, cheia de retábulos esquisitos, figuras de monstros, nódoas de gorduras e cusparadas.

Tamboretes aqui e acolá carregadas de miçangas, cabeças de galos pretos, penas de aves, pedaços de ossos, caudas de boi, bonzos, relicários, corujas empalhadas, uma horrível miscelânea de objetos misteriosos, que punham um arrepio no fio de lombo dos iniciados de surpresas, nas tenebrosas práticas do Caboclo.

Ao fundo, uma mesa de pinho ensebada, mal tapada, com um jornal enxovalhado e, sobre ela, um figurão de três pés de altura representando o fetiche de que o Caboclo era, na terra, e fiel sacerdote. A beira, ao alcance da mão do sacerdos, que se acocorava a um lado, sobre um mocho, ajaezado com farrapos de cores faiscantes — uma cabeça de boi, seca, pelada, muito branca, denunciando meticuloso cuidado no seu tratamento.

O quadro era iluminado por uma lâmpada de lata. Onde se queimava azeite de peixe, presa a uma trave do teto. Três velas de cera de um amarelo escuro, quase brônzeo, disposta triangularmente na mesa do oráculo, de um modo que ao centro lhes ficava a cabeça de boi, completava esse sumaríssimo processo iluminativo, aliás muito adequado às circunstâncias e ao local.

O fumo que se desprendia da lâmpada e das velas tornava a atmosfera baça, pesada, opaca, úmida e de um tão acre cheiro de resinas, que nauseava.

Quando o Elesbão e o porteiro entraram na sala dos encantos, havia alí uns seis indivíduos, entre eles, o Maximiliano, doceiro afamado, de casaco curto e as calças muito esticadas, e um vulto de mulher completamente embuçado e de pé, à distância, como se lhe repugnasse a companhia de toda aquela gente tão hipoteticamente limpa, tão oposta à sua condição social...

Elesbão, ao levantar a cortina, piscou muitas vezes os olhos para habituá-los àquela luz de interior de mausoléo que cansava e, entre o receio, o enfado e o desejo, pondo um pé adiante e logo recuando, como quem quer mas não tem ânimo, aproximou-se da mesa.

Justamente, nesse momento, o Caboclo, resmungando palavras cabalísticas, passava e repassava nas mãos uma madeixa de cabelos, que algumas vezes, levava a altura de uma das velas.

Percebendo que se lhes aproximava um estranho, ergueu a cabeça e perguntou desabridamente:

— Que qué pecadô?

— Vim aqui, pai Caboclo, disse-lhe Elesbão, como te mandei prevenir para que faças uma consulta.

— Alguma pouca vergonha, não? remédio para paixão?

— Talvez.

— Pois, espere. Xererê está trabaiando noutra quiston.

E, sem cerimônia, entregou-se de novo à sua sobrenatural tarefa.

Elesbão conservou-se de pé, com as feições alteradas e já com muita vontade de se mandar mudar sem dizer ao que ali tinha ido.

Decorreu um quarto de hora ainda, e, por fim, o Caboclo, tendo terminado a consulta, virou-se para o Maximiliano, dizendo-lhe secamente:

— Moço há de vortá. Xererê diz.

O Maximiliano deu um suspiro de satisfação e esticou mais as calças.

Elesbão, após, contou o seu caso, narrando ao Caboclo as apreensões que o minavam sobre o amor que tão rapidamente o invadira pela rapariga da porta da igreja.

Fez-lhe o retrato da sua beleza, contou-lhe o incidente do leque, as disposições em que estava de descobri-lá e apanhá-la, fosse ela solteira, viúva ou casada.

O Caboclo, neste ponto atalhou logo, fazendo um gesto ao Elesbão que lhe chegasse o ouvido aos lábios e segredou-lhe, tão claramente como o se apreendido o Coruja.

— Se for casada, custa mais caro.

O Elesbão enfiou, vendo que o Caboclo, era um finório e se fazia passar por cassange, mas engoliu.

Enquanto o Elesbão fizera a narrativa ao Caboclo a mulher embuçada estremecera a miudo, abrira um pouco a manta para ouvir melhor, e não raras vezes, um fino sorriso misterioso lhe enflorara os lábios.

— Aquele é o senhor do leque, murmurou. O que ele virá aqui fazer, meu Deus?

— E eu que não posso sair agora!

O Caboclo, voltando ao seu papel de feiticeiro, engorolando as palavras, e entremeando-as de frases misteriosas, ouviu o Elesbão e disse-lhe:

— Precisa pecadô traze quarque cosa dessa muié para Xererê dize.

— Mas que coisa pai Caboclo?

Nesse momento, o Jerônimo levantando o reposteiro de aniagem, chamava:

— Nhan Pombinha! Carro está aí.

O Elesbão, naturalmente, voltou-se na direção ao gesto de Jerônimo e fosse pelo que fosse, tornou-se pálido.

A Pombinha não respondeu, nem se ergueu logo do lugar.

Esperou alguns instantes para que os olhares, que se tinham voltado todos para ela, se distraíssem.

Tinha um grande acanhamento em sair assim, diante de seis tipos que não conhecia, ela a Pombinha, tão festeja cá fora, na sociedade elegante.

De resto, podia estar sossegada. O esposo só poderia chegar no dia seguinte, pelo trem da tarde, e pelos seus cálculos, deviam ter apenas duas horas da manhã.

Está claro, e o leitor já percebeu que o que ela queria, sem a si mesmo o confessar, era ouvir o desenlace da consulta do Elesbão.

O Elesbão repetia a pergunta:

— Mas que coisa? Pai Caboclo.

— Lenço, camisa, meia, cabelo, coisa assim chegada ao corpo.

— Homem! chegada ao corpo? Isso há de ser-nos difícil arranjar.

— Pecadô não tem dinheiro?

— Sim, algunzinho.

— Pecadô dá dinheiro a papai Xererê (o Bonzo) e Caboclo arranja.

Pombinha, ao ouvir isto, levantou-se, não sabendo bem se devia indignar-se ou poupar ao Xererê o trabalho de fazer sugestões ao Caboclo, oferecendo ao Elesbão... não, isso não!

Mas, não era certo que ela também ali fora consultar o Caboclo sobre o seu encontro com o Elesbão? De que devia indignar-se ou de admirar-se? Ela, em suma, achava-se mais culpada, pois não se pertencia.

Agora, segredavam o Caboclo e o Elesbão, fazendo grandes gestos de entusiamos e calor. Que diriam eles? Inquiriu-se a Pombinha.

Em silêncio pesado, de subterrâneo, fez-se em seguida.

Desesperada, por não poder ouvir o que ciciavam Elesbão e o Caboclo, Pombinha foi dirigindo-se para o lugar da saída, atabafando-se ainda mais as mantas que a embuçavam. O Caboclo, interrompendo o colóquio com o Elesbão, voltou-se surrateiramente para o lado que passava a Pombinha.

— Já vai Nhanhã?

— Sim.

— Não esquece. Moço há de caí. Mande buscá chinelo pé esquerdo dele, prá trazê a Papai Caboclo.

— Está bem.

E pos a mão na cortina, rasgada secamente, com um gesto de nojo, para sair do antro.

Mas, nesse momento, um ruído estranho de vozes que altercavam em tom irritado, de golpes metálicos desferidos na madeira do cercado, de cães que acoavam ao longe, e cujos latidos acordavam os ecos, de apitos que trilhavam como um exército de grilhos monstruosos, um ruído confusamente feito de tudo isso chegou aos ouvidos da assembléia do Caboclo, que com os demais se pos de pé, estarrecido, pálido, de olhos esbugalhados.

Pombinha, gelada, deixou cair a cortina, que, naquele instante arregaçara...

O ruído crescia, avolumava-se, tornava-se, as vozes mais distintas, percebiam-se mesmo algumas frases, como Hei de acabar com esse canalha! Vai tudo para o buque! e outras, igualmente ameaçadoras.

Os fregueses do Caboclo parecaim fincados no chão como postes.

Por fim, uma massa informe de homens fardados e a paisana, alguns de chanfalhos em punho, trazendo pela frente o Jerônimo já muito amassado a soco, irrompeu na sala de sessões.

Só então o instinto de conservação, o desejo veemente de evitar a caçada da polícia inspiraram aos fregueses do Caboclo e a ele próprio a iniciativa de se porem a salvo.

Num abrir e fechar de olhos, os fregueses de Xererê — a Pombinha primeira de todos, procuraram as duas únicas janelas que deitavam para os fundos da casa, e de atropelo, embrulhados um com os outros, sem atinare mais com que faziam, galgaram os peitoris, e correram em direção aos casebres vazios que por ali havia.

Nem a escuridão plúmbea da noite, nem a neblina, nem a lama do terreno, os impediu de procurar um abrigo.

A esse tempo, os policiais desabavam na sala das sessões, esquadrinhando todos os cantos, apreendiam as miçangas, os enguiços, os bonzos, a madeixa de cabelo, tudo, entre os gritos de Jerônimo: Vovô Xererê me salve! Vovô Xererê me salve!

Não vendo ninguém na sala, os policiais se espalharam em várias direções, procurando os fugitivos, por toda a parte.

O Maximiliano e outro sujeito sem saberem como, encontraram-se entalados dentro de um quartinho ladrilhado de tijolo sem o menor resquício de mobília. E acantoaram-se no lugar mais esconso, acontoaram-se mesmo tanto, que Maximiliano exprobava o companheiro, fazendo sibilar muito os sss:

— Moço, não me amachuque asss calçasss. Meu Deus! Esteja quieto! Ah! Minha Nossa Senhora!

Por outro lado, a Pombinha e o Elesbão, sem se conhecerem ainda bem, como já mostramos, e azoinados pelo terror, atropelados pela perseguição que lhes fazia um policial mais afoito e mais conhecedor do terreno, meteram-se num grande caixão que servia para guardar milho, à cocheira contígua.

Dona Pombinha entrou primeiro, apanhando os vestidos e as mantas enrolando pudicamente com elas as pernas, Elesbão segui-a, encafuando-se como poude, mas, como tinha os pés muito grandes, deixara-os entalados entre a tampa e caixão de milho, bracejando lá dentro aos encontrões com dona Pombinha.

Por desgraça, quando ambos tinham já arranjado o melhor meio de se estirarem, o Elesbão tratava de puxar os pés das talas em que se pusera, o policial chegava, trepava sobre o caixão, esmagando as canelas do Elesbão, e batendo com os costados da espada sobre o móvel, bradava:

— Ah! Ah! sempre os apanhei!!

Continua...
D. Salústio
Correio Mercantil, 22 de outubro de 1893.