A Menina do Narizinho Arrebitado/III

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
No palacio real
por Monteiro Lobato



NO PALACIO REAL

D

E volta ao palacio real teve a menina occasião de visitar numerosas salas, lindamente enfeitadas com avencas, samambaias e musgos de todas as cores. Viu tambem a bibliotheca, cheia de livros onde os sabios escreveram toda a historia do reino. E lá estava, ainda, folheando-os, um por um, quando um grillo recadeiro veiu chamal-a para o jantar. Foi, sentou-se á mesa ao lado do principe, e muito admirou o bom gosto com que tudo estava arrumado.

— Artes das senhoras saúvas, disse Escamado. São ellas que colhem as florinhas do campo e enfeitam estes vasos.

A Menina do Narizinho Arrebitado (pag 17. crop).png
Os pratos eram lindas conchas côr de rosa, e as terrinhas, busios de brilhante esmalte. Grillos verdes serviam de criados e traziam da cozinha os pratos em que um caranguejo gordo, de avental branco e gorra, ia dando os ultimos retoques. Veiu uma deliciosa sopa de barbas de camarão, e, depois, lombo de marisco, filé de cigarra, entrecosto de mãe-d-'agua, omelete
A Menina do Narizinho Arrebitado (pag 18. crop).png

de ovos de tainha. Para a sobremesa trouxeram mel de jity em petalas de magnolia, e mil outras preciosidades.

Emquanto jantavam, uma excellente orchestra de cigarras, piuns e pernilongos, afinadissimos, executava lindas musicas compostas pelo maestro Sabiá-do-campo. Vieram depois os dançarinos tangarás e dançaram graciosos bailados.

Em seguida appareceu um papagaio real que tinha fama de orador. Subiu á tribuna de um poleiro de ouro e fez um bello discurso a respeito da arte de falar. Nesse discurso provou que os homens tinham aprendido a falar com os papagaios, e não os papagaios com os homens, como diz a sciencia destes. Uma chuva de palmas acolheu suas palavras.

O mesmo não aconteceu, porem, com a poetiza Lagartixa, que principiou a recitar uma longa poesia e engasgou no meio, acabando o recitativo em chôro e faniquito. Para destruir essa má impressão vieram tres vagalumes magicos que fizeram varias sortes, sendo muito apreciada a sorte de comer fogo.
A Menina do Narizinho Arrebitado (pag 19. crop).png

Narizinho, encantada, batia palmas a cada novidade e ria-se muito das graças e micagens que o bôbo da côrte fazia. Este bôbo era o caruncho Carlito Pirolito, um corcudinha pegado dentro dum caroço de milho e criado pelo principe para divertir a côrte. Durante o jantar sentou-se ao lado de Narizinho e não parou de fazer diabruras e molecagens o tempo todo. E assim correu a alegre refeição, deixando no espirito da menina recordações inesqueciveis.

Logo que saiu da mesa recolheu-se Narizinho ao quarto afim de preparar-se para o baile da noite. Para servil-a encontrou lá Dona Aranha, a melhor costureira do reino, e tambem varias mucamas formigas. Dona Aranha adeantou-se e disse respeitosamente:

— Quer a menina examinar nossa collecção de vestidos de baile?

— Com muito gosto, respondeu Narizinho, encantada.

As formigas, incontinenti, abriram os guarda-roupas, delles retirando uma porção de vestidos luxuosos, cada qual mais lindo. Um era feito de céo azul todo enfeitado de estrellinhas. Outro, de petalas de rosa com entremeio de myosotis. O que mais encantou Narizinho, porem, foi um vestido de cauda, feito de teia de aranha e enfeitado com diamantezinhos de orvalho.
A Menina do Narizinho Arrebitado (pag 20. crop).png

Não podia haver coisa mais linda e Narizinho bateu palmas de alegria, deixando a aranha toda cheia de si porque esse vestido era inteirinho obra della; ella mesma fabricára o fio, tecera a gaze e ella mesma o cosera.

— Vejo que a menina tem muito bom gosto! disse a aranha lisonjeada. E, linda como é, si fôr com elle á festa, certamente que será a rainha da noite.

E poz-se a vestil-a, deante

A Menina do Narizinho Arrebitado (pag 20. crop) - 2.png

de um espelho de prata. Penteou-lhe o cabello á moda do reino, calçou-lhe nos pés lindos escarpins de ouro e, nas mãos, luvas fabricadas com pellica de pecego. Deu-lhe depois um maravilhoso leque bordado a raios de sol sobre asas de mãe-d'-agua.

Narizinho não cabia em si de gosto e mirando-se, ao espelho, duvidava dos proprios olhos:

— Serei eu mesma uma fada das Mil e Uma Noites?

Quando julgou que já estivesse prompta veiu a Aranha com varios cofres cheios de diademas, collares, anneis e braceletes capazes de dar inveja ás mais opulentas princezas do mundo.

Narizinho escolheu as mais lindas e assim recamada de ouro e brilhantes ficou a scintillar como um sol.

A Menina do Narizinho Arrebitado (pag 21. crop).png

— Está "quasi" prompta, disse a Aranha.

— Quasi? disse Narizinho, sorrindo. Pois falta ainda alguma cousa?

A aranha respondeu mandando vir escrinios com pó das asas das mais raras borboletas e polvilhou-a inteira de azul furta-côr. Que maravilha! O proprio espelho chegou a abrir a bocca, espantado de tanta formosura.

Subitamente a porta abriu-se e appareceu o principe.

— Senhora, disse elle, a côrte reunida no grande salão aguarda anciosa a rainha da festa. Vinde!

E, dando-lhe a mão, conduziu-a com grande cerimonia ao baile.

Mal Narizinho entrou, pela sala real correu um murmurio de admiração, muito explicavel, visto como jamais apparecera em Aguas Claras creatura assim tão deslumbrante. E começaram a cochichar que com certeza era a propria Fada dos Rios que se encarnára na menina. Algumas damas chegaram
A Menina do Narizinho Arrebitado (pag 22. crop).png

a morder os labios de inveja quando Narizinho passou á frente dellas, pelo braço do principe, em direcção ao throno. E uma feia barata descascada, amarella de inveja, murmurou ao ouvido de uma besoura de pernas cambaias, torcendo o nariz:

— Nem porisso!...

Mas um gentil grillinho verde que estava atrás ouviu o desabafo da invejosa

A Menina do Narizinho Arrebitado (pag 22. crop) - 2.png
A Menina do Narizinho Arrebitado (pag 22. crop) - 3.png

e castigou-a, ferrando-lhe uma terrivel dentada na perna secca. A barata gemeu de dôr mas aproveitou a lição, ficando bem caladinha o resto da noite.

A sala estava que era um céo aberto. Em vez de lampadas havia no tecto, pelas paredes e pelos vasos, formosos buquês de raios de sol colhidos pela manhã. Flores em quantidade, lindas flo
A Menina do Narizinho Arrebitado (pag 23. crop).png
A Menina do Narizinho Arrebitado (pag 23. crop) - 2.png
A Menina do Narizinho Arrebitado (pag 23. crop) - 3.png

res do campo, arrumadas em festões pelas senhoras abelhas. Em redor da sala, sentada em cadeirinhas de madreperola, a nobreza da côrte, em trajes de gala, esperava as ordens do principe.

Havia de tudo. Besouros sérios, de oculos e casaca preta. Baratinhas de mantilha, com myosotis no cabello. Abelhas douradas muito finas de cintura, com laços de fita nas asas. Moscas azues; rãs de todas as côres; lindas mães-d'-agua de corpo esguio e leves como bailarinas; camondongos de collete branco e sapatos de fivella; borboletas com toucadinhos de gaze; mariposas, ma
A Menina do Narizinho Arrebitado (pag 24. crop).png

mangavas... Havia ainda peixes de todos os formatos, caranguejos cascudos que só andam de lado; camarões que se atrapalhavam com tantas pernas; mariscos de casca aberta como livros; caramujos que carregam a casa ás costas e andam apalpando o caminho com as trombas. Havia até um velho kagado de olhinhos pretos e casca envernizada de novo.

A orchestra era composta de cirgarras e passarinhos miúdos: canarios, pintasilgos, papacapins, corruiras, viuvinhas. A' frente della estava, de batuta no bico, um sabiá-do-campo, maestro de fama. Essa orchestra executou as musicas mais lindas do mundo, fados de rouxinol, canções de patativa, barcarolas de Martim-pescador. Uma lindeza!...

A Menina do Narizinho Arrebitado (pag 24. crop) - 2.png
Afinal o principe deu ordem para a quadrilha. A orchestra rompeu uma composição do maestro Colleirinha e os cavalheiros principiaram a
A Menina do Narizinho Arrebitado (pag 25. crop).png

tirar as damas. Quem marcava era um faceiro tangará, famoso mestre sala da côrte. Narizinho, sentada no throno, estava doidinha por dançar. Mas a quadrilha passou-se e ninguem veiu tiral-a. Logo depois, entretanto, a orchestra rompeu a Valsa Real e o principe, levantando-se, disse á menina:

— É chegada a nossa vez. Quer dar-me a honra desta valsa?

A Menina do Narizinho Arrebitado (pag 25. crop) - 2.png

Narizinho, que não queria outra cousa, desceu do throno e nos braços do principe rodopiou pela sala em gyros tão velozes que mais parecia em pião vivo. O kagado vendo aquillo cochichou para o caramujo: Si aquelle foguetinho te tirasse para dançar, que seria de ti, compadre?

Respondeu o caramujo:

— Talvez me sahisse melhor do que um cascudo da tua marca! E cada um riu-se por dentro da triste figura que faria o outro, porque no reino dos animaes, bem como entre os homens, ninguem se conhece.

A Menina do Narizinho Arrebitado (pag 26. crop).png

Terminada a valsa Narizinho voltou para o throno e assistiu a uma polka dançada por um caranguejo e uma tatorana vermelha, muito gorda, de grande faixa de gorgão na cintura.

Apesar do respeito devido ao principe, a côrte riu-se a mais não poder, e Narizinho chegou a perder o folego. Porque não havia nada mais comico do que o senhor caranguejo a pular passos de polka nos braços da senhora tatorana, que suava em bicas numa grande afobação. Quando a musica parou, a dama nem suster-se em pé podia, de tão cançada, e foi preciso carregarem-na a braços e entregal-a aos cuidados do doutor Caramujo. Depois desse comico incidente, surgiram na sala bailarinas libelinhas. Uma azul, outra vermelha, outra verde esmeralda, todas muito leves-e nervosas, começaram a bailar, treme-tremendo as lindas asas transparentes. Tão vivos e rapidos eram seus movimentos que aquillo mais parecia um bailado de raios de luz vivamente coloridos.

A Menina do Narizinho Arrebitado (pag 26. crop) - 2.png

Foi um deslumbramento. E estavam todos no maior encanto, suspensos no ar pela admiração, quando se ouviu barulho d'uma correria em frente do palacio.

Eram os grillos da guarda que entravam espavoridos e pallidos de terror.

— O escorpião negro! annunciaram elles, arregalando os olhos.

— O escorpião!... repetiram aterrorisados os convivas.

Foi o mesmo que annunciar a peste. As damas nervosas cairam para trás, desmaiadas; outras treparam em cima das cadeiras, gritando de pavor. A tatorana, com ataque de nervos, tombou desacordada nos braços do Caranguejo. O kagado fechou-se dentro da casca. Os caramujos encolheram-se dentro das conchas. E bichinho de asa não ficou nenhum que não voasse para o tecto.

Era tempo. O horrendo Escorpião Negro assomou á porta, do palacio, de ferrão arreganhado. Parou. Bufou de colera e correu pela sala um olhar de desafio.

— Quem é essa pequena humana que ousa penetrar no reino dos animaes? disse elle trincando os ferrões.

A Menina do Narizinho Arrebitado (pag 27. crop).png
Depois, vendo Narizinho de pé no espaldar do throno, pallida de espanto e muito atrapalhada com o seu vestido de cauda, arreganhou um sorriso feroz, marcou-a bem e investiu contra ella.

Um grito de horror encheu a sala, e todos os olhos fecharam para não ver a catastrophe. O Escorpião Negro avança, gingando o corpo. Está já a um metro da menina. Um passo mais e a alcançará com o seu venenoso ferrão.

A Menina do Narizinho Arrebitado (pag 28. crop).png

Narizinho, desvairada, olha para o principe, implorando soccorro. Era sua ultima esperança.

Escamado não vacilla um momento: arranca da espada e atira-se contra o monstro. Trava-se um medonho duello. A fera lança successivos botes de ferrão mas o principe apara-os com a espada, e depois de muitos golpes consegue acutilar a cabeça do inimigo. O Escorpião solta um berro de dôr e investe com redobrada furia.

Todos tremem pelo principe que corre sério perigo pela desigualdade das suas forças com as de um monstro daquelle porte. Mas o principe defende-se com heroismo, arremessando golpes sobre golpes á cabeça do Escorpião, embora já se sentisse cançado. E a lucta terminaria de um modo tragico si um facto assombroso não viesse mudar a situação . E foi que no melhor da batalha surgiu inesperadamente da cozinha uma bruxa de panno, armada de um espeto de assar lombo de porco.

— Emilia!... gritou Narizinho, que desde o caso do sapo, no dia da chegada, esquecera completamente a sua querida boneca.

A Menina do Narizinho Arrebitado (pag 29. crop).png

Emilia, em fraldas de camisa, avançou para o Escorpião e zás! zás! fura-lhe os dois olhos num relance. O monstro dá tamanho urro que o palacio estremece, e depois rebola-se no chão espumando de colera e dôr. Hurrah! Estava ganha a batalha, graças ao espeto da estranha creatura em fraldas de camisa.

— Quem é? quem é? interrogavam de todos os lados os bichinhos numa grande curiosidade de saber quem era a exotica heroina. Narizinho saltou do throno e veiu para ella de braços abertos.

— Perdôa, boa Emilia, ter-me esquecido de ti ! Mas deixa estar que pedirei ao principe que te faça condessa desta côrte — e abraçou-a, chorando. Em seguida dirigiu-se ao principe e beijou-lhe as mãos em agradecimento por haver arriscado a sua preciosa vida por amor della. Foi uma scena commovente. Mas, apesar da gravidade do momento, a barata invejosa espiou si o grillinho verde não estava perto e disse ao ouvido da besoura:

— Vae ver que isto ainda acaba em casamento...

E suspirou. Coitada! Eram ciumes. Apesar de velha e feia essa barata solteirona não perdera nunca a esperança de casar com o principe. A coróca não se enxergava...

A Menina do Narizinho Arrebitado (pag 30. crop).png

A festa parou ahi. Os convidados recolheram-se ás suas casas, inda assustados, emquanto cincoenta saúvas possantes arrastavam o Escorpião para fóra. Bem que esperneou elle, mas lá foi parar num carcere de pedra, com uma corrente de ferro no pescoço!...

— Bufa agora, ladrão! disse um grillo da guarda fincando-lhe um valente ponta pé no focinho.

— Alto lá! gritou o Capitão. É prova de covardia bater nos inimigos que não podem defender-se. E mandou fechar a entrada do carcere com uma pedra pesada para evitar que o povo lynchasse o prisioneiro.