A Mortalha de Alzira/II/I

Wikisource, a biblioteca livre
< A Mortalha de Alzira
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
A Mortalha de Alzira por Aluísio Azevedo
Segunda Parte, Capítulo I: Emurchecer de uma flor


Seis meses são decorridos depois que Ângelo foi para Monteli, e poucas cousas extraordinárias se têm passado com as personagens que figuram nesta amorosa narrativa.

O Dr. Cobalt, durante esse tempo, apresentou à Academia Francesa um livro de fisiologia e de filosofia, revolucionando a ciência de então com as suas novas idéias materialistas. A obra fez grande alvoroço e foi condenada a um tempo pela Sorbona, pelo Papa e pelo Parlamento. Mas ele, sustentado entusiasticamente pelos discípulos de Moraud, Picard e Hecquet, não desanimou e prometeu voltar a campo, armado agora para a luta com um novo trabalho, ainda mais formidável que o primeiro, em que se propunha provar que as famosas convulsões, provocadas pelo milagroso diácono Paris, no cemitério de Saint-Médard, nada mais eram do que fenômenos nervosos da histeria, moléstia que só então começou a ser estudada e conhecida em França.

Bouflers, esse, coitado! havendo escrito uma sátira contra o duque de Choiseul, que nunca mais o perdeu de vista, caiu na tolice de aceitar os ternos favores de demoiselle Tiercelin, então mantida pelo rei no seu famoso serralho do Parc-aux-cerfs, e teve a infelicidade de ser descoberto nos seus amores por aquele ministro, que o denunciou a Luís XV, e o fez prender e encerrar na Bastilha. Lá ficou.

Frei Ozéas, pelo seu lado, três meses depois de permanecer em Monteli, fora acometido pela peste; esteve à morte, e vira-se forçado a separar-se do filho por algum tempo. Persistia muito enfermo, e ainda em perigo de vida, num hospital para onde o levara o Dr. Cobalt.

Quanto a Alzira, depois de novas e inúteis tentativas para conseguir arrastar Ângelo a seus braços, precipitara-se de novo na antiga vida dos prazeres largos, e continuava em Paris a servir de retorta ao ouro dos libertinos, cada vez mais terrível e funesta para os seus amantes.

Diziam que a devorava uma implacável sede de orgias e loucuras, a qual nenhuma virtude, por mais sólida, resistia.

Ângelo, entretanto, ia resignadamente cumprindo o seu estreito e obscuro destino de pobre pároco de aldeia.

Estava, porém, muito mais magro, mais pálido, mais concentrado e mais triste.

Fugira-lhe das faces a cândida frescura da sua mocidade, fugira-lhe dos olhos aquele puro e ardente brilho, que era como o reflexo da sua apaixonada alma de inspirado asceta, fugira-lhe dos lábios a purpurina flor dos seus sorrisos virginais, e agora todo ele nada mais era do que a trêmula sombra do que dantes fora.

Sombra lenta e misteriosa, que em silêncio se arrastava pela vida, ofegante e curvada, como se sobre ela andasse a pairar eternamente o anjo da melancolia, roçando-lhe os cabelos com as suas asas úmidas de pranto.

Impressionava vê-lo, à hora do crepúsculo, errar no jardim entre as lousas mortuárias, com a fronte pendida para a terra, como se estivesse a procurar o derradeiro abrigo no seio dessa mãe melhor que as outras, que nunca enjeita os filhos.

Impressionava aquele negro vulto, arrastando a túnica pela areia dos caminhos, para levar, aos que sofriam menos do que ele, a misericórdia da sua consolação e do seu amor.

Uma noite, já nove horas tinham dado, e Ângelo não aparecia em casa.

A velha Salomé, aflita, ia de vez em quando à janela e voltava desapontada, agitando os ombros e sacudindo a cabeça.

— Que digo eu?. . . exclamou ela sozinha, olhando a estrada deserta. São quase dez horas, e o senhor vigário ainda fora!. . . Vão ver que está por aí à cabeceira de alguma vítima da peste, sem se lembrar de que não tem no estômago mais do que uma xícara de leite e um pedaço de pão! Ah! definitivamente. . .

Um relâmpago cortou-lhe a palavra.

— Chit! Santa Bárbara! Vamos ter tempestade! E o pobre homem por onde andará?. . .

Ia a sair da janela. Mas uma voz gritou-lhe lá de fora, estrangulada pela ventania.

— Ó tia Salomé!

— Ah! disse ela. É você, mestre Jerônimo?...

— Não pensei achá-la acordada!

— Pois se o senhor vigário ainda não chegou!. . . Entre.

Foi abrir a porta, e mestre Jerônimo, um hortelão da vizinhança, penetrou na modesta sala, trazendo seguro pelo braço um rapazola de uns doze anos, que mal se podia ter nas pernas de tão ébrio que estava.

— É que, declarou o hortelão, encontrei no caminho este mariola no bonito estado em que o vê, e

trouxe-o porque calculei que ele com certeza não acertaria com a casa!

— O Robino como vem!... Virgem santíssima! . . . exclamou a velha, pondo as mãos nas cadeiras.

Não sei quando este rapaz tomará caminho! Por isso é que o maroto, mal acabou de ajudar a missa, desapareceu até agora!.. .

— Vinha da taverna do Bruxo, explodiu Jerônimo. Que quer? Os fidalgos do Roudier gostam de o ver assim, e não largam de lhe dar o que beber enquanto não o põem por terra! Súcia da vadios!

E, como Robino, no seu persistente cabecear, lhe desse um empurrão:— Fica quieto, ó rapaz! Ora já se viu que mona?. . . A este não leva a peste!

Robino empertigou-se e resmungou alguma cousa entredentes.

— Cala-te, gritou-lhe Salomé. Merecias é que te deixassem na rua como a um cão sem dono! Mal faz o Sr. vigário em conservar em casa semelhante biltre! . . .

— Ora! gaguejou o emborrachado. Ele o próprio vigário quem todos os dias me abre o apetite!. . . Ele à missa escorropicha a sua pinga com tanto gosto!. . .

— Cala-te, demônio! ralhou Salomé. Se estivéssemos no tempo do padre René, andarias mais direito! Isto te afianço eu!

— Ah! com certeza! afirmou o hortelão.

— O padre René bebia muito mais do que eu! . . . tartamudeou Robino.

— Não te calarás, cousa ruim?. . .

E Salomé voltou-se para o outro enquanto o pequeno, depois de um longo bocejo, adormecia encostado à parede.

— Tenho saudades do defunto vigário. .. declarou ela, com suspiro. Era uma boa alma!. . . Sempre bem disposto, alegre, amigo de pilheriar. . . E' o que não tem este agora, o padre Ângelo! . . . Não há dúvida que é muito santa pessoa, mas nunca vi criatura tão triste! . . . Até mete pena, coitado! . . .

— Ainda o não vi rir uma só vez. . . considerou Jerônimo.

— Muito! muito triste!... continuou a velha. As vezes, fica horas esquecidas à mesa, com os olhos pregados no teto, a cismar!... E a comida às moscas!.. Vão lá tirá-lo dali! Doutras vezes dá-lhe pra passear no jardim ou no cemitério, e então, adeus! E' preciso ir buscá-lo quase à força pra dentro de casa!

Põe-se então a andar pra baixo e pra cima, que nem uma alma penada, Deus me perdoe!

É que talvez esteja rezando... disse o hortelão, muito interessado com o que lhe contava a tia Salomé.

— Ainda ontem fui chamá-lo para falar ao filho do Mongol, que aí veio pedir-lhe que o casasse com a pequena do tio Jorge, e toquei-lhe no ombro. Pois acredita você, mestre Jerônimo, que o senhor vigário soltou um grito e ficou a olhar-me espantado, como se eu cá fosse algum fantasma?...

— E por que, tia Salomé?

— Ora! sei cá por quê?. . . Ficou mais branco que aquela cal da parede! E todo a tremer!. . . Já se vê, pois, que não rezava, porque ele quando reza, ouve-se-lhe a oração e vê-se-lhe o movimento dos lábios... Nessas ocasiões é até quando fica ao contrário um poucochito mais tranqüilo e de melhor humor. Cá pra mim, ninguém me tira da cabeça que ali anda tentação do cão!. . . Ali anda rabo de demônio!

— Ou talvez de saia!. . . acudiu o hortelão, coçando a cabeça.

— Credo, mestre Jerônimo! Não diga isso nem brincando, que brada aos céus! Aquilo é um santo! Olhe! Se frei Ozéas estivesse ainda aqui, juro-lhe que o senhor vigário não chegaria ao estado a que chegou! Até o acho meio apatetado! Deus me perdoe!

— Apatetado, tia Salomé? . . .

— Pois se lhe disser que de uma feita o deixei ajoelhado no altar depois da missa e que, voltando só à tardinha à igreja, para reformar o azeite da Virgem, encontrei o homem ainda na mesma posição!... Os braços abertos, os olhos ferrados na santa, e tremendo de frio, coitadinho! que metia dó! Chamei-o, qual "Senhor vigário! Ó senhor vigário!" Respondeu você, que lá não estava?. . . Pois assim respondeu ele! Afinal agarrei-o pelo braço e disse-lhe que aquilo não tinha jeito!

— Não tinha, decerto tia Salomé!

— Acompanhou-me tiritando. Você sabe como a capela é fria!. . . E mal deu alguns passos pelas lajes, desatou num pranto de choro, como eu nunca vi!

— Chorando?! Que me diz! tia Salomé?!

— Como uma criança, mestre Jerônimo! Nunca vi chorar tanto! Ao depois, meteu-se ali no quarto, não quis comer nada, e levou toda a noite a andar de um para outro lado, até que. . .

Mas interrompeu-se, porque a porta acabava de abrir-se, e Ângelo entrava na sala, com o seu passo lento e o seu ar triste e acabrunhado.

Fez-se silêncio.