A Mortalha de Alzira/II/XII

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A Mortalha de Alzira por Aluísio Azevedo
Segunda Parte, Capítulo XII: A dúvida


A tarde sucumbia lentamente, enchendo a natureza com a sua triste alma lamentosa. As cigarras estridulavam nas sonolentos frondes dos arvoredos, como um contínuo gemido do crepúsculo que agonizava. O sol, cansado do seu esplendor, fugia ao longe, cambaleando por uma escadaria de púrpura real. Os lavradores recolhiam-se à casa, com a ferramenta ao ombro, e crianças brincavam no eirado ouvindo às Trindades.

Entretanto, na modesta sala de jantar do cura de Monteli, a velha Salomé, com o queixo apoiado à mão, o olhar perdido ao acaso, meneava a cabeça defronte do Dr. Cobalt, e parecia deveras desconsolada.

O médico tomava notas na sua carteira.

— Ele não se queixa de nada?... perguntou depois de uma pausa, a estorcer nos dedos o lábio inferior.

— Não, senhor doutor, não se queixa de nada!. . . E é isso o que eu estranho!. . .

— Não tem dores de cabeça?. . . Vertigens, achaques nervosos?. . . insistiu aquele.

— Se tem, não sei. . . respondeu a criada, porque ele não se queixa nunca...É outra que eu estranho! . . .

— Come com apetite?. . .

— Tão pouco como dantes. . .

— Está mais expansivo?. . . Conversa?. . .

— Está na mesma. . . E isso também não deixa de causar-me certa estranheza!

— Dorme bem?. . .

— Ah! Quanto a isso, acho que até dorme demais!. . . Ultimamente, mal toca às Trindades, já o senhor vigário está procurando a cama!... Só nisto mudou durante a ausência do sr. doutor... Dantes levava às vezes acordado até que horas da madrugada, e agora, é anoitecer, e já ninguém o detém de pé! Deu para isso desde aquela célebre noite em que o vieram buscar para ir à Avenida de Blancs-Manteaux.

O médico tomou novas notas e perguntou depois, sem desfilar o olhar de onde o tinha pregado:

— Ele anda muito durante o dia?... Fatiga-se?...

— Não sai agora de casa senão para os seus deveres . . .

— Não passeia?...

— Agora, nunca. Dantes ainda o fazia algumas vezes, e quase sempre demorava-se por aí, margeando o rio ou percorrendo a serra; mas depois da ida ao castelo d'Aurbiny, nunca mais fez desses passeios. Mal acaba o que tem de aviar aí por fora, volta logo para casa e, chegando a noite, deita-se, haja o que houver! . . .

— E dorme logo?. . .

— É deitar-se e pegar logo no sono.

— E o sono é sossegado?. . . é profundo?. . .

— Pode vir a casa abaixo, que ele não dá por isso! Só desperta na manhã seguinte, ao raiar do dia. E nunca vi procurar a cama com tamanha sofreguidão! . . . Até parece moléstia, Deus me perdoe!

— Singular!.. . muito singular!. . . resmungou o doutor, sem largar o lábio.

— Nem sei o que me parece aquele modo de dormir!... tornou a criada, com um suspiro em que denunciava toda a sua tristeza pelo estado do amo. Tenho meus receios de que haja praga! Virgem Santíssima! Há no mundo tanta boca danada, e o senhor vigário tem sido perseguido pelos padres que vieram de Paris!...

Cobalto, interrompeu-a.

— Ele não lhe tem contado nada a seu respeito, minha boa amiga?. . . perguntou.

— Qual nunca esteve comigo tão fechado como agora. . .

— É singular!... resmungou o médico. É singular!... Os fenômenos que observo neste enfermo, desmentem as minhas experiências já feitas nos hospitais! . . . É um caso singularíssimo de histeria no homem! . . . Ah, meus colegas, meus colegas obstinados em que a histeria tem a sede no útero!. . . Queria vê-los aqui, e haviam de confessar que ela não passa de uma nevrose encefálica!... Platão com o seu sistema de útero desesperado por conceber, com o seu útero que dana e faz cabriolas até ao cérebro, é um visionário, como todos os seus discípulos espalhados pelas nossas academias!... No século dezenove compreenderão talvez o que hoje negam tão obcecadamente! Caturras! Não percebem que o vasto mundo dos nervos é tão grande, tão complicado e tão extraordinário, como todo um mundo planetário!. . . Falam em psicologia, falam em intelecto, e não falam nessa cousa ainda hoje sem nome— a vida autônoma dos nervos; isso, cujo conjunto pressinto e vejo pelas suas fenomenais manifestações, e habita uma parte material de nosso corpo, tão importante que pouco conhecida e estudada até hoje! isso, que há de encher uma época no mundo dos sábios e produzir uma grande revolução científica! Ah! não poder eu viver daqui a cem anos!. . . ou não ter talento, gênio, para poder adivinhar o que os outros mais tarde descobrirão. Maldita seja esta minha cabeça inútil, e maldita seja a medicina! E maldita principalmente seja esta minha ausência de Monteli, durante a qual tantos progressos fez o meu doente na sua desconhecida moléstia!... Ah! mas hei de chegar a um resultado, ou enforco-me no primeiro lampião ou na primeira árvore que encontrar pelo caminho! E, voltando-se vivamente para a tia Salomé, a limpar, ofegante, o suor da testa, perguntou:

— E ele em que estado acorda?. . .

— Ora, sr. doutor. . . Cada vez mais acabrunhado e abatido. . . respondeu a boa velha, sarapantada de todo com o ar perplexo do médico. As tais horas de sono do senhor vigário, em vez de lhe darem novas forças e fazê-lo rijo, a modo que o deixam mais prostrado. . . Acorda cansado nem que se chegasse de uma viagem muito longa, ou que então largasse naquele instante um serviço muito forte!. . . Levanta-se da cama quase cambaleando, as suas orações fá-las ele tão fatigado como se passasse a noite em claro, barbeia-se caindo de sono, e depois assenta-se um bom tempo, descansando. Se eu não vier chamá-lo para a missa, é capaz de ficar aí todo o santo dia, a cismar!. . .

— Diabo! exclamou o médico com uma palmada na perna. Diabo! esta minha ausência foi um transtorno infernal! A nevrose chegou a um ponto em que se torna quase incurável!. . . Ah! mas, haja o que houver, carrego-o amanhã mesmo para o novo hospital de nevropatas que acabei de abrir, e vou fazer nele as minhas primeiras experiências da aplicação da água fria por meio de duchas graduadas! Está decidido! E é bem possível que eu, daqui a pouco tempo, esteja apresentando à Academia de Ciências o meu livro novo sobre o grande mundo dos nervos! . . .

E voltando a ter com Salomé:

— Não veio de Paris ninguém visitá-lo, além dos devotos do milagre?. . .

— Ninguém. . . respondeu ela.

— Diga-me uma cousa, tiazinha. . . mas fale com franqueza, que é para o bem do nosso doente. . . Nunca descobriu no vigário qualquer inclinação por alguma mulher? . . .

— Credo, senhor doutor!... exclamou Salomé, benzendo-se. Credo, Pai Santíssimo! Pois então o senhor vigário seria lá capaz de?... Ele, que é um santo! Valha-me a Senhora dos Aflitos, que até senti um engulho no estômago!

— Não há dúvida! Carrego-o amanhã mesmo para o hospital!. . . Vou daqui tratar do que me falta para poder levá-lo!

Salomé, que tinha ido até à janela, voltou para segredar apressada ao médico:

— Ele aí vem!. . .

Cobalto, pôs-se logo em retirada, e disse precipitadamente à velha:

— Continue a observá-lo. Volto em breve. Segredo, hein?... E tome lá para o seu rapé!

Atirou-lhe uma moeda e fugiu; enquanto Salomé, indo abrir a porta, considerava de si para si:

— O vigário estará sofrendo da cabeça, mas este médico, pelos modos, não regula melhor que ele. . .

E abriu a porta a Ângelo, que entrou da rua, mais taciturno e mais sonâmbulo do que nunca.

A criada foi ter ao seu encontro e deu-lhe as boas noites.

O infeliz não respondeu.

— Coitado!... pensou ela, considerando-o da cabeça aos pôs com um olhar de lástima. Como ele está hoje!. . . Nem deu pela minha presença!. . .

E tomou-lhe o braço, para perguntar-lhe, gritando, como se falasse a um surdo:

— O senhor vigário quer que eu vá buscar a sua refeição? . . .

E, como ele. ainda desta vez não respondesse, a boa velha afastou-se lá para a cozinha, resmungando:

— É melhor mesmo que o doutor o leve, para ver se o endireita!. . .

A intriga dos invejosos vingara finalmente. Angelo era já pelos seus superiores considerado louco; o arcebispo suspendera-lhe as ordens por tempo indefinido, e ameaçava de excomunhão todo aquele. que fosse a Monteli em romaria devota.

Entretanto, ele parecia indiferente e alheio a tudo isso, e continuava escravo dos seus dolorosos enlevos, como se o seu espírito vivesse com efeito em um outro mundo, um mundo só dele conhecido, um mundo longe da terra e longe das suas duras melancolias religiosas.

E, cada vez mais taciturno e sombrio, seu vulto, quando agora vagava pelas estradas, já se não detinha aos gemidos dos desgraçados, nem ao riso alvar dos imbecis que escarneciam dele.

Salomé tinha razão: a cousa única que o preocupava agora, era o sono. Ângelo queria dormir tanto quanto possível, para sonhar muito. O delírio conquistara-o de todo. O sonho vencera a vida real.

Ângelo foi até ao seu quarto e parou junto à cama.

— Eis enfim o momento de dormir!... pensou ele. Dormir!— estranho modo de morrer! . . . Sonhar! — estranho modo de viver!. . .

E atirou o chapéu para o lado, desfez-se do capote e continuou a meditar:

— Sim, murmurou, sacudindo a cabeça; sim, eu vivo nos meus sonhos, e mentiria se dissesse que os não desejo... Desejo-os ardentemente; volto deles com a consciência aflita e dolorida, mas durante as longas horas do dia, nada mais faço que chamar pela noite, para poder correr aos braços de Alzira!... Será vida o sonho?. . . E por que não?. . . por que supor que esta é vida verdadeira e a outra não?. . . Por que, se ambas têm a mesma razão de ser? as mesmas dúvidas, as mesmas incertezas! . . . Não são ambas um mistério?. . . Saberei por acaso o que eu era antes de nascer e o que serei depois da morte?. . . De onde vim?. . . Para onde vou?. . . Eis o mistério!. . . A vida, qualquer que ela seja, não será sempre um ligeiro sonho que se esvai entre dois nadas? Sair de um ventre de mulher, para entrar no ventre da terra! . . . Eis tudo o que se sabe! . . .

E começou a espacear pelo quarto, gesticulando.

— Sim! Qual das duas vidas será a verdadeira?... Qual das duas será mentira e sonho?... Poderei afirmar que existo nesta?. . .

E começou a apalpar as mãos, e a estorcer, uns contra os outros, seus dedos magros e pálidos.

— Este meu corpo será com efeito meu, e será com efeito um corpo?. . . Ele com efeito existirá?. . . Eu o estarei vendo, ou tudo isto será ilusão?... (E apertou com força, entre os dedos, a carne do seu braço.) Todos estes objetos que me cercam, existirão com efeito?... Sim! Eu os vejo! eu os apalpo! Eu os sinto com o meu tato!

Salomé, que entrara com a merenda, estacou a olhar para ele. desconsoladamente.

— Que estará o senhor vigário a fazer às voltas com aquela cadeira?... resmungou ela, notando que Ângelo tinha uma cadeira erguida nas mãos e a examinava com suma atenção. Parece admirar uma raridade! . .

— Sim, exclamou o pároco. Isto existe!

E arremessou a cadeira ao chão.

— Mau! mau! resmungou a criada. Hoje está para quebrar as cousas!. . .

E foi ter com ele. carinhosamente, depois de largar sobre a mesa a bandeja da merenda.

— Por que não trata de comer alguma cousa e recolher-se, senhor vigário?. . . Olhe que já são quase sete horas!. . .

Ângelo despertou:

— Sete horas? Já? Sim, sim, vou deitar-me! Preciso dormir! dormir muito!

— Mas há de primeiro tomar a sopinha de leite com pão! Vamos! venha para a mesa! (E conduziu-o até lá, puxando-o pelo braço). Assim! Agora beba um trago de vinho!

Ângelo obedecia, como uma criança, sem dizer palavra.

— Bem, disse a criada, quando viu que não conseguia fazê-lo comer mais nada. Agora pode recolher-se. Boa noite!

E saiu, soltando um fundo suspiro de lástima.

O presbítero continuou perdido nas suas cismas.

— Sonhar!. . . Sonhar!. . . Estarei eu sonhando agora, para daqui a pouco acordar nos braços de Alzira? . . não! mas isto existe!

E tomou de cima da mesa o canjirão de vinho.

— Tanto existe. .. prosseguiu ele. que eu posso quebrar este objeto! destruí-lo! (E despedaçou o canjirão contra a parede). Eu tenho um corpo que sente…tenho uma alma que dói! Ah! mas na outra vida palpita-me também o sangue dentro das veias! na outra vida a minha boca beija, os meus olhos choram, a minha carne treme de prazer e de dor! na outra vida governo os meus membros, dirijo os meus pensamentos, e piso a terra, e repiso o ar, e como, e bebo, e amo!

Nisto abriu-se surdamente a porta que dava para o interior da casa, e a veneranda figura do velho Ozéas desenhou-se contra a sombra.

Vinha abatido pela sua longa enfermidade; parecia mais velho e macilento. Afundaram-se-lhe de todo as faces e cavaram-se-lhe os olhos, onde transparecia agora, em vez do brilho místico que o iluminava dantes uma triste luz de mortal desesperança.

Imóvel, de braços cruzados sobre Lá euoamo eu peito, quedou-se a observar em silêncio o espectro do seu discípulo amado.

Ângelo que não dera por ele e continuava a monologar, gesticulando:

— Sim... sim... por que acreditar que esta miserável existência de cura de aldeia é a vida real, e a outra não? a outra que aliás é tão superior?. . . Sim! sim! Ou ambas são vida, ou são ambas sonho!... A única diferença é que lá eu vivo e gozo, ao passo que aqui. . . apenas choro o sofro. . . Ah! sonho por sonho, prefiro o outro! no outro sou feliz, sou livre, sou um homem como qualquer! não tenho senhor! não tenho Deus! Lá— eu amo— eu sou amado! Sim! sim! Prefiro a outra vida! Corramos aos braços de Alzira!

E encaminhou-se para o quarto com avidez.

Mas frei Ozéas, que lentamente se aproximara do discípulo, fê-lo estacar, interpondo-se-lhe na passagem.

— Oh! meu pai? . . . exclamou o pároco.

— Ângelo! disse o frade, abrindo os braços, enquanto as lágrimas lhe corriam pelas longas barbas brancas.

— Meu pai aqui!

— Sim! Venho em teu socorro, meu filho!

E Ângelo atirou-se-lhe nos braços, soluçando.