A Pata da Gazela/IX

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A Pata da Gazela por José de Alencar
Capítulo IX

Depois daquela noite Leopoldo viu Amélia duas ou três vezes; e de todas sentiu a mesma impressão que lhe causara a presença da moça em casa de D. Clementina.

Era o mesmo desencanto, a mesma insistência de seu espírito para enxergar a formosura da donzela através de um prisma deforme e caricato. Nessas ocasiões ele sofria diante da moça a fascinação do horrível, como o poeta sofre muitas vezes a fascinação do belo em face de um objeto desgracioso. Era então um poeta pelo avesso; um vate do monstruoso. Tinha na imaginação um gnomo de Victor Hugo: criava Quasímodos e Gwynplaines do sexo feminino com uma fecundidade espantosa.

Quando porém a moça desaparecia de seus olhos, operava-se em seu espírito completa mutação. Esquecia completamente o aleijão, para só lembrar a linda e graciosa figura, que poucos momentos antes sua vista repelia. Amélia ausente vingava Amélia presente. O coração do mancebo detestava tanto esta, quanto adorava ainda a outra.

— Este amor é um inferno, pensava ele; tem um vício orgânico. Há de viver de dores e lágrimas; há de alimentar-se de minhas tristezas. E assim irá definhando até morrer de consunção, depois que me tiver devorado todo o coração. Que importa? Servirei de pasto a este abutre. O que somos nós afinal de contas? Uma presa; enquanto vivos, a presa das moléstias e das paixões próprias ou alheias; depois de mortos, a presa dos vermes ou das chamas.

Com tal disposição de espírito voltou ele dias depois à casa de D. Clementina. Nesta noite havia uma pequena partida; Leopoldo contava, pois, encontrar Amélia.

Ali estava com efeito, vestida de escarlate e branco; e adornada com a sua graça arrebatadora. Quando o moço entrou, ela dançava com as costas voltadas para a porta e não o viu; porém, momentos depois virou o rosto como se obedecesse a um impulso estranho, e encontrou o olhar ardente de Leopoldo.

A moça fez insensivelmente um movimento para afastar-se, que entretanto a aproximou da porta. Aquele olhar que a atraía ao mesmo tempo que a repelia, causou-lhe um desvanecimento misturado de terror. Felizmente a terceira figura da marca da contradança começava, e a distraiu de sua emoção.

Estava ela outra vez parada conversando com o par, quando sentiu um calafrio; sem ver, conheceu que o mancebo se aproximava, que seus lábios se abriam para dirigir-lhe a palavra:

— Minha senhora, terei a honra de dançar com V. Exa a seguinte quadrilha...

Continham uma pergunta ou uma asseveração estas palavras? Fora impossível dizê-lo. O tom parecia mais afirmativo do que interrogativo, porém o olhar do mancebo esperava, se não exigia resposta.

A confusão da dança permitiu a Amélia esquivar-se, sem responder. Quando, terminada a quadrilha, voltou a seu lugar, ficou perplexa. Tinha ela se comprometido ou não a dançar a seguinte quadrilha com Leopoldo? Não respondera, é certo; mas recordava-se vagamente de ter feito uma leve inclinação com a cabeça. Sem dúvida o moço vira esse movimento e o tomara por um sinal de assentimento.

Quando um de seus inúmeros admiradores vinha pedir-lhe a próxima quadrilha, ela respondia hesitando que já tinha par; apenas o cavalheiro se afastava, arrependia-se de não o ter aceitado, rompendo assim o compromisso tácito; e ficava ansiosa por outro convite. Entretanto novo par se apresentava, que recebia a mesma recusa.

Nesse jogo, muitas vezes repetido, passou o intervalo. O piano deu o sinal da quadrilha; Leopoldo aproximou-se de Amélia, e inclinando-se, sentiu no seu estremecer o braço tépido de Amélia. A moça não teve consciência do que se passou até o momento em que o moço a conduziu a seu lugar. Recordava-se apenas de que seu par lhe falara por muito tempo, com a voz baixa, porém palpitante de emoção.

Assim fora. Passada a primeira confusão da quadrilhas Leopoldo, fitando o olhar no semblante da moça, deu expansão aos sentimentos que lhe tumultuavam dentro d' alma. Com a fronte baixa e as faces cheias de rubores, Amélia parecia absorvida e reconcentrada enquanto o moço falava. Dir-se-ia que ela não o ouvia.

— A senhora acredita, D. Amélia, na atração irresistível, que impele duas almas entre si, e as chama fatalmente a se unirem e absorverem uma na outra?... Eu acreditava nessa força misteriosa, mas ainda não tinha chegado o momento de experimentá-la em mim, de sentir em meu ser este elo divino que prende as almas através do tempo e da matéria. Senti-o há vinte dias, quando a vi pela primeira vez, quando a senhora se revelou ao meu coração.

Leopoldo referiu as emoções que sentira, na ocasião de seu primeiro encontro com Amélia; a impressão que ela deixara em seu espírito; e os sonhos em que se embalara sua imaginação nos dias seguintes.

— Tive então, continuou o mancebo com acento profundo e comovido, tive, então, e depois, a prova de que esse enlevo de meu ser. essa abstração de minha existência para absorver-se noutra, era a atração moral e nada mais. Via, admirava, adorava na senhora uma coisa somente: sua alma. Não sabia, ainda hoje não sei, se a mulher que eu amo é bonita para os outros; sei que para mim é de uma beleza divina. Perdesse ela a graça e a formosura que aos outros seduz, para mim seria a mesma; eu havia de adorá-la com o mesmo ardor. Sua alma é filha de Deus, e como ele de uma magnificência imortal. É uma estrela que não tem eclipse.

Leopoldo inclinou a fronte para falar quase ao ouvido da moça:

— Outrora julgava impossível que se amasse o horrível. Agora reconheço que tudo é possível ao amor verdadeiro, ao amor puro e imaterial. Não só reconheço, mas sinto-me capaz de nutrir uma dessas paixões mártires! Oh! sinto-me capaz de amar o anjo ainda mesmo encarnado em um aleijão! . . .

Leopoldo falou ainda por muito tempo de seu amor a Amélia, sem que ela se animasse a interrompê-lo. Aquela palavra ardente, impetuosa, embora vendada por certo pudor d'alma, a subjugava; ela não tinha coragem, nem mesmo vontade de subtrair-se à sua influência.

Quando Amélia, conduzida por Leopoldo, se dirigia a uma cadeira, D. Clementina aproximou-se:

— Ah! Eu queria apresentá-lo, disse a Leopoldo; mas não teve paciência para esperar.

Depois reclinando ao ouvido de Amélia, perguntou-lhe:

— Então? Não lhe disse que a achava muito bonita?

— Ao contrário, D. Clementina; deu-me a entender que me acha horrível.

— Ande lá.

— Deveras!

— É impossível.

Amélia, sentando-se, evocou a lembrança de Horácio, para fazer no seu espírito o paralelo entre o elegante leão e o estranho mancebo com quem acabava de dançar. Um tinha todas as prendas que seduzem a imaginação: era formoso, trajava com esmero, conversava com muita graça. O outro não possuía nenhum desses atrativos; seu exterior alheava as simpatias; quando falava difundia a tristeza no espírito dos que o escutavam.

A moça não concebia que se preferisse Leopoldo a Horácio; e contudo não podia esquivar-se completamente à influência daquela imagem pálida, que lhe aparecia no meio dos sonhos mais brilhantes

Muitas vezes, depois de algumas horas agradáveis passadas junto do leão, quando a moça, recolhida à sua alcova, repassava na memória os doces protestos de amor que ainda lhe ressoavam ao ouvido, de repente surgia a lembrança de Leopoldo. Parecia-lhe então que da fronte do mancebo se desprendia uma sombra para anuviar seus pensamentos risonhos.

Horácio, sabendo onde Amélia passava as noites em que ele a não via, mostrara desejos de freqüentar a casa de D. Clementina; a moça porém opôs-se. Duas razoes atuaram em seu espírito.

Aquela casa servia-lhe de abrigo contra a sedução que exercia em seu espírito a elegância de Horácio. Quando sentia-se vencida, fugia para ali, onde recobrava forças para resistir de domar completamente o leão, soberbo de suas conquistas passadas.

Era essa uma das razoes; a outra era o receio de achar-se em face dos dois moços, repartida entre a sedução de um e a fascinação do outro. Pressentia que desse conflito, resultaria alguma coisa, que ela não podia definir, mas que a enchia de sustos e inquietações.

Por isso exigiu de Horácio que não fosse à casa de D. Clementina:

— Costumam lá ir algumas dessas pessoas que se ocupam em inventar novidades Sua apresentação, Sr. Horácio, daria pretexto a algum romance.

— Mas por que ainda freqüenta semelhante casa?

— Pedidos... bem sabe; nem sempre uma pessoa se pode recusar. Mas se o senhor aparecer lá, eu deixarei de ir.

— Esteja tranqüila.

Amélia continuou a passar de vez em quando uma noite em casa de D Clementina. A princípio não tinha dia certo, e sucedeu por isso que Leopoldo desencontrou-se dela duas vezes. Uma noite porém o moço perguntou-lhe:

— Vem sábado?

— Talvez.

Desde então o dia escolhido era o sábado, a menos que não precedesse aviso especial da dona da casa para alguma partida. Nunca mais houve desencontro; Amélia achava sempre o mancebo no seu posto, defronte da porta para vê-la entrar.

Em uma dessa noites deu-se um incidente que é preciso referir.

Falava-se a respeito de uma senhora casada, a quem o marido causava sérios desgostos. Pessoa que sabia das particularidades dessa família explicava o fato à sua maneira.

— Ela era muito linda, o marido a adorava; casou-se por paixão. Poucos dias depois de casada, teve ela uma grave moléstia que a reduziu àquele estado. Não há paixão que resista!

— Com efeito, sabe ser feia!

— Ninguém acreditará que foi bonita.

— Pois foi uma beleza.

Leopoldo, que ouvia calado, interveio:

— O marido nunca a amou!

— Asseguro-lhe que teve uma paixão louca.

— E eu afirmo-lhe que não; que ele nunca teve paixão pela mulher. O que ele adorava era unicamente a sua beleza, a forma; isto é, um acidente. O homem que ama a mulher destinada a ser companheira de sua existência, o complemento de seu ser imperfeito, não despreza essa mulher, porque a desgraça a feriu no invólucro material de sua alma. Ele pode sofrer com aquela desgraça; mas deve redobrar de amor e adoração, para que nem seus olhos vejam o defeito, nem ela, a mulher amada, se lembre nunca de que o tem para ele, embora o tenha bem claro para os indiferentes.

— É bonito de dizer! acudiu um apreciador das mulheres formosas.

— Todos dizem o mesmo, mas fogem das feias, observou uma senhora idosa, talvez por experiência própria.

— O que eu digo, minha senhora, já o experimentei em mim mesmo, replicou Leopoldo.

— Ah!

O mancebo cravou em Amélia um olhar eloqüente, e disse com a palavra lenta e calma:

— É verdade; já o experimentei em mim. Por que hei de ocultá-lo? Minha alma já passou por esta dura prova, e saiu triunfante. Hoje sei que tenho forças para amar até os defeitos da mulher que Deus me destinou.

Amélia perturbou-se com aquelas palavras, e o olhar ardente que parecia gravá-las em sua alma. Nessa noite retirou-se pensativa; e por muito tempo a figura pálida de Leopoldo esvoaçou na penumbra de seu leito de virgem.