A Profissão de Jacques Pedreira/V

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O amor é uma felicidade transitória, mas irradiante. Só quem nunca amou pode imaginar o amor eterno. Só quem ignora as delícias dos primeiros tempos de uma paixão na agradável posição de amado, pode acreditar possível o segredo no amor. Não é preciso ser indiscreto, não é preciso dizer palavra. Cada gesto, cada olhar, cada inflexão do homem amado revela o deus que comeu ambrosia. Os outros homens ficam, sem saber por que, irritados, e mesmo muito amigos, procuram falar mal do feliz. As mulheres, todas as outras mulheres sentem de súbito uma incompreensível simpatia. E uma corrente misteriosa que põe o mundo exterior no segredo. De um lado aumenta a atração, de outro os homens se tornam ainda mais pólo negativo. A sabedoria do profissional é mudar imediatamente de amante para conservar a atmosfera. Jacques não era um profissional. Mas logo percebeu que entrava mais no mundo, muito mais do que quando se formara ou começara a vida prática. Certo não era nenhum ingênuo, nem caíra nos braços de Alice para aprender essa coisa difícil que no século XVII chamavam arte de amar e no século XX chamam sport do engano. O fato, porém, é que nem a criada iniciadora, nem as sestas passadas com a quase virgem Ada na casa do barão, nem a italiana oxigenada do desagradável incidente da sopa e da cautela, nem as pequenas de várias nacionalidades encontradas nos clubs e nos music hall, lhe tinham dado a satisfação pessoal, a plenitude, a segurança da sua vitória como o apetite, a violência amorosa de Alice. Nas ações menos importantes, Jacques sentia-se excepcional. Ao chamar o criado para a fricção de água-de-colônia, ao levar o garfo à boca, ao tomar um aperitivo, mesmo só, a caminhar no seu quarto, era como se conduzisse um objeto raro, alvo das atenções alheias. Está claro que não correspondia a tanto amor. Um rapaz de linha não se compromete assim. Gozava, entretanto, muitíssimo, assistia com aplausos ao ato de Alice, tanto mais quanto de um momento para outro aquelas senhoras que o tomavam por um menino de maus costumes, revelavam uma complacência curiosa. Curiosa e prometedora. As senhorinhas, como Laura Gomes, faziam alusões veladas.

— Já ninguém o vê, Jacques, a não ser com a política...

A Viuvinha Ada Pereira retivera-o numa das recepções de sua mãe a tarde inteira a conversar. Jacques não tinha uma palestra muito variada.

A viuvinha, ao contrário, gostava de conversar. Mas dava-lhe a deixa, trazia a baila assuntos possíveis. Não se conteve:

— Conte-me alguma coisa de novo.

— Não há nada, nada.

— Ora, conte-me a sua vida.

— E logo esse corte num ponto tão interessante do folhetim!

Gina Malperle, cada vez mais íntima amiga de Mme. Andrade, uma das três irmãs, que no momento disputavam o bastão da beleza, levou certa vez dois minutos com a sua mão presa, enquanto a admirável Andrade descia do seu papel de deusa e parecia requerer o voto daquele Páris último aeronave. Era a roda toda, indireta, mas visivelmente. E não só a roda. As mulheres livres olhavam-no de outro modo, tratavam-no de outra maneira.

— Tiens! voilà ]acques...

Era uma festa, nos salões de ceia dos clubs. Talvez Jacques exagerasse. Mas até nas ruas, nos tramways, rapariguitas pobres, senhoras desconhecidas, fixavam-no com a volúpia feminina que é a volúpia da serpente, a virtude de olhar e esperar. Com a sua educação, Jacques não cairia na vulgaridade de se julgar irresistível, como qualquer caçador de rua. Mas os fatos provavam, e ele, por um fenômeno reflexo, estava mais cheio, mais bonito, mais radiante.

— Este menino sua amor! - exclama a venerável Sra. Ataíde.

Todos os meninos suam amor, antes dos vinte anos, quando têm a amá-los uma criatura bela e ardente...

Alice dos Santos também não fazia por ocultar em público a sua conquista. As pessoas que a recebiam e a cumprimentavam ficaram hesitantes. Algumas damas invejaram-na. Outras encheram-se de ternura. A relíquia da monarquia, Sra. de Muripinim, deu para tratá-la de "minha filha", contando-lhe velhas histórias da Quinta, em carros do paço, os bailes dos mordomos, os flirts dos príncipes, a mania que o imperador tinha de trair a imperatriz só com atrizes.

— Era um sábio, minha filha, gostava muito de teatro.

A venerável mãe de Eleonora dissera:

— Se essa menina engana o marido, o caso é com o marido.

E D. Malvina teve um fraco de agradecimento maternal, satisfeita com a paixão inspirada pelo filho. Deu uma porção de conselhos graves e impertinentes a Alice, que aliás não os poderia seguir. No estado de espírito em que se encontrava a esposa do deputado vegetarista, só podia considerar o casamento a província do amor. Jacques era a capital, a capital mundana. Ela começava a realizar nele o que desejava realizar com a cidade. Tê-la sua, dominada, inteiramente sua. Depois da cena do automóvel surgiram as necessidades crescentes e a urgência dos primeiros encontros. Era impossível ser sempre no automóvel. Impossível e perigoso. Não pareciam convenientes os alvitres lembrados por Jacques, assaz sem dinheiro: um ou dois hotéis na Tijuca, em Santa Teresa.

— Não convém.

— Que há?

— E toda essa gente que te há de ver? Não, não.

Uma casa comum, casa do oficio, seria muito reles. Alice não iria, nem ele lembrou. No terceiro dia, porém, Jacques foi visitá-la a casa, às duas horas. Ela recebeu-o como uma criança. Assim que o criado voltou as costas, caiu-o de beijos, e ele já julgava o salão agradável, quando vieram anunciar as Soares, relações políticas do marido, gente das Alagoas, de passagem para a Europa. Não se podia estar naquela casa tranqüilo! Jacques então lembrou-se de Godofredo, do quarto de Godofredo. Era a solução. Godofredo seria discreto. Ao demais, nem precisava saber de que se tratava. Correu a procurar o cronista. Godofredo estava num dos dias de mau humor. Não se podia dizer que estivesse pálido. Era verde demasiado, eram grandes olheiras. De instante a instante torcia os dedos. Os negócios não lhe corriam bem decerto, as relações políticas divertiam-se contra o seu valor.

— Que tens?

— Nada, complicações morais.

— Os negócios?

— Ah! os negócios. Já vens tu com a seca dos outros também. Negócios! Que negócios! Não faço nenhum. Antes fizesse. Não é culpa minha. Mas ainda dou o tiro definitivo.

Invariavelmente, como sempre, nesse grave assunto, contradizia-se. Jacques aproveitou.

— Tens duas chaves de trinco?

— Eu?

— Sim, do teu quarto.

— Não tenho quarto.

— Como?

— Tenho a frente de uma casa.

— Vais emprestar-ma durante o dia.

— Emprestar, para quê?

— Segredo...

— Ah! bravo.

Mas explicou como era impossível: uma rua cheia de vizinhança sempre à janela; a casa com uma dúzia de crianças, que vinham para a porta, por não ter as janelas, e o seu quarto cheio de livros, papéis, uma trapalhada, uma barafunda! Jacques não se sentiria bem e a pessoa, que devia ser de sociedade, também não.

— Tenho uma grande biblioteca. Não imaginas. Na mesa, papéis, escovas, velas, frascos de essência (porque só escrevo cheirando heliotrópo e violeta), um inferno!

Havia, entretanto, a solução. O Barão Belfort era um dos quatro ou cinco homens da cidade possuidores de garçonnieres dignas de receber pessoas decentes. Ocupara-a, havia dois meses, com uma anedota sentimental de somenos importância. Podia cedê-la. Iria ele, pessoalmente, se Jacques achasse imprudente aparecer.

— Fico-te muito agradecido.

— Com que então já conquistador?

— Oh! Godofredo.

— Fazes muito bem. Conquistas de primeira plana colocam sempre bem.

— E vais hoje?

— Hoje, não posso. - E irritado: - Não posso, é impossível. Estou com azar. Tudo falha. O barão seria capaz de negar.

Jacques submeteu-se ao fetichismo do homem superior, e no outro dia, o criado de Belfort, um criado francês, foi pessoalmente entregar-lhe uma chave de prata, com esta palavra a lápis, em papel timbrado do barão: Excelsior!

A garçonniere era de um gosto apurado e fino. Ficava numa das ruas que desembocam no Flamengo. A casa era própria. Constava de cinco peças. No salão pequeno havia por mobília um caro tapete, um baú medievo, um contador espanhol, algumas telas de Corot, de Turner, uma vitrine com esmaltes e medalhas antigas, cortinas pesadas de seda. Logo depois, uma sala maior, à XVIII século, laca e tapeçaria gobelino moderno. As paredes eram forradas de seda rosa. As cortinas eram de seda quase branca. Em medalhões, Lancret, Watteau, Boucher, três telas em que o amor se repetia galante. O lustre, em bronze verde fantasiava a escalada dos amores. Havia uma bergere, um divan, um leito, e o ambiente estava impregnado de essência de rosas. A seguir, a sala de banho, feita de mármore colorido, alabastro verde, e cristais de tonalidades mortas. O conforto e a higiene tinham organizado aquela peça. Havia o leito de mármore forrado por um tapete persa para as massagens, havia a máquina elétrica do leito condensador, tabuleiro de cristal com frascos de todos os tamanhos, em que se encontravam desde as essências perfumadas até a terebentina. E a piscina de alabastro verde, enchia pelo fundo de água morna, água a ferver ou água gelada. Logo depois vinha a sala de jantar, mobiliada ao gosto inglês, aconchegada e agradável. Por fim a cozinha, com um fornecimento em latas e garrafas de tudo o que faz mal e sabe bem; vinhos da Hungria e da Borgonha, champagne, foie-gras, trufas...

— Homem esplêndido! - fez Jacques.

Era esplêndido, principalmente porque, à sua primeira necessidade frívola, presenteara-o com aquele luxo, com o uso daquele luxo. Jacques decerto não pensava em possuir o luxo. Bastava usá-lo. Sempre fora assim, e assim sempre seria. O efeito foi aliás fulminante na cabecita de Alice. O luxo, a elegância davam-lhe ao amor um supremo requinte. Ela sentia-se bem, sentia-se apreciada. Quando as mulheres amam, sentem coisas de que o bom-senso desconfiaria mesmo em estado de cometer imprudências. E foi no primeiro mês o grande duo fundamental nos dramas musicais de Wagner e em quase todas as existências. Ao acordar, Jacques tinha uma cartinha de Alice exigindo alguma futilidade ou a sua presença em qualquer lugar. Alice escrevia bem, abusava um pouco. Logo depois do almoço, o filho do Dr. Justino não se possuía. estava com Alice nas exposições, nos carros, nas conferências, nos teatros, em casa dos conhecidos. Até mais de meia-noite, às vezes nos bailes até pela madrugada, era do casal, conversando com o marido, valsando com a esposa, amado por ambos. Sim, porque Arcanjo amava-o com enternecimento, estava desvanecido com a companhia mundana de Jacques. À garçonnière nunca chegavam juntos. Ou vinha ela primeiro ou vinha ele. Quando ela chegava de automóvel ele chegava de carro, quando ele aparecia em auto, era ela que se fazia conduzir de trem. Alice transportara para o ninho um completo sortimento de dessous admiráveis, kimonos de levantar de seda leve, irlandas bordadas. Jacques nada levara.

— Meu amor! - dizia ela ao entrar, logo dependurando-se dos seus lábios.

— Linette! - dizia ele, deixando-se beijar.

Alice, se tinha uns caídos muito brasileiros, isto e, muito torráozinh0 de açúcar a derreter e as palavrinhas ternas, melosas, em que a brasileira vence o record mundial, distanciando mesmo a chinesa, Alice era inteligente. A inteligência dera-lhe uma ousadia ainda acrescida pelo desejo mundano de parecer bem, de parecer como nos romances. Depois era empolgante e enebriante. Não se poderia dizer que um ensinava ao outro. Ambos aprendiam com a ingenuidade cínica que o amor incute, o amor ou o desejo, e ambos queriam trazer novidades. Quando ambos estão nestas disposições, as coisas vão sempre longe. Não haveria o Kama-Sutra, o "El-Ktab" e outros volumes do ritual amoroso, prolixos em novidades, se os casais perfeitamente convencidos não se entregassem à aposta de trazer impressões novas. O desenvolvimento das ciências é devido ao estímulo da primazia na descoberta, dizia um venerando homem. Depois, Alice tinha um espírito satírico que agradava nos intervalos. Fazia troça feroz das senhoras conhecidas, arremedando-lhes os gestos, caluniando-as. Vingava-se assim. Jacques, a fumar um turco ponta de ouro, ria francamente, e contava coisas...

— Elas também gostam de ti.

— Quem te disse?

— Adivinhei.

— Falso. Não gostam...

Alice estava convencida de que arrebatara o jovem a um batalhão de amorosas. Jacques era bem homem para não desiludi-la. Sempre convém mentir.

— Jura que eu sou a primeira?

— Juro - fazia ele rindo de tal maneira, que se comprometia ainda mais.

Depois dava-lhe conselhos que Alice recebia com docilidade, incutia-lhe gostos delicados para as toilettes, as jóias e dava informações muito apreciadas sobre a maioria dos seus amigos: o Bruno Sá, o Dr. Suzel, o Belmiro Leão, que deixara abertamente de cumprimentar Mme. Arcanjo dos Santos.

— Ainda zangadinho?

— Não imaginas, filha...

Um mês depois, a chama, como dizem os poetas românticos, começou de diminuir. Conservavam-se uma preferência carnal, o desejo de não acabar, mas acrescido pelo vago instinto da curiosidade que, como se sabe, limitou o mundo e o ensinou a ler em caracteres cuneiformes, sem mestre. Nenhum dos dois deu, porém, claramente, pelo caso. Estavam em plena season e chegara para o hotel em que moravam Bruno Sá e Suzel uma grande atriz. Era o hotel das notabilidades de todo gênero: diplomatas, artistas, argentários, industriais, políticos, grandes artistas, "grandes cavadores", como não deixava de resumir Godofredo. A atriz parisiense trazia outras encantadoras atrizes. Jacques ia jantar sempre lá, em companhia de Bruno. Godofredo, cronista, que fazia crítica dramática e visitava com freqüência o jovem ministro, lustro e fulgor, reclamo luminoso do hotel, apresentou-os. Apresentou com satisfação, porque esses parisienses teriam uma idéia limpa e francesa da nossa sociedade.

Imediatamente, a grande atriz foi de uma simpatia desvanecedora. E à hora de jantar, como em geral ela não aparecia, comendo nos seus aposentos, tal qual Mme. Sarah Bernhardt e Mme. Réjane, divertiam-se com as outras. De resto, a ilustre artista já lhes oferecera um jantar de que fazia parte um grande psicólogo, pago pelos governos sul-americanos para fazer conferências sobre a alma feminina em Buenos Aires, Montevidéu, Rio e Rosário.

Além desse acontecimento mundano importante - Jacques não tivera nunca a intimidade dos renomes universais - um outro preocupava a atenção, não só dele, como de Alice, como de toda sociedade: a grande festa de caridade em favor do Dispensário da Irmã Adelaide. Mme. de Melo e Sousa e a Baronesa Parckett, mãe de Eleonora, dirigiam o acontecimento. A princípio pensaram no Casino. O Casino era pequeno. Depois estabeleceram definitivamente tomar conta de um jardim público.

Era preciso arranjar grátis o jardim, as obras necessárias para as transformações, uma tômbola formidável e um programa espantoso. O comércio, a indústria, a administração estendiam as mãos à alta sociedade para proteger os pobres. Estendiam e davam. A sua ação a isso se limitaria, como a ação do jornalismo seria a de fazer um reclamo permanente até o dia do espetáculo. A organização das comissões seria mundana. Os rapazes de gosto ociosos apareceram. Chagas fez uma planta do jardim com os lugares das barracas marcadas a bandeirinhas vermelhas. A importância das barracas variava, segundo o tamanho da bandeira. Dória, já expulso do seu meio, veio à cena como utilidade. O filho dos Viscondes de Pereira encarregou-se do capítulo sport, marcando regatas, corridas a pé, tobogã, gincana e algumas cousas irrealizáveis que lhe davam o pretexto para dizer:

— Qual! nesta terra tudo é impossível! Qual! estamos num país selvagem.

Godofredo ficava com a parte de teatros, muito contrariado aliás. A parte de teatro constava de uma comédia, naturalmente em francês, por amadores da nossa melhor sociedade, um intermédio em que figuravam por especial distinção o grande tenor Zenaro da companhia lírica, a notável atriz francesa e uma atriz portuguesa, que nenhuma das damas conhecia, por não freqüentar teatros, principalmente em português e finalmente, à noite, uma série de quadros vivos, com projeções elétricas, assunto religioso: "A Caridade". "A Samaritana". "Cristo e a Adúltera".

À escolha das diretorias das barracas, posto de sacrifício, presidia uma grande diplomacia. Só Mme. de Melo e Sousa poderia sair-se bem, pondo em relevo as personalidades dignas disso.

A primeira reunião do comíté organizador foi agitada.

Faltaram várias pessoas, censuradas aliás, e as comissões só foram nomeadas às onze da noite; comissão de angariar donativos, comissão de direção dos trabalhos, a de teatros, a de política, a das barracas.

— Falta alguma cousa - dizia Luísa Frias.

— Que falta?

— Não sei, mas falta.

— A parte infantil - rouquejou a Sra. Muripinim.

— É isso! é isso mesmo! - exclamavam de todos os lados.

— Quem se encarrega da parte infantil?

Ninguém queria. Era preciso pensar. Faltavam de resto mais cousas, para corser le programme.

— Tenho uma idéia - ganiu o Dória, que dava tudo para se conservar.

— Qual?

— Uma cartomante, que lerá a huena-dicha ao público.

— Estás louco? Todos quererão dar a mão.

— Descansem, é pago.

— Ainda assim.

— Lembro uma orquestra de fados portugueses.

— Mas isso, Dória, é impossível. Quem vai cantar fados?

— Esperem, explico-me, deixem-me explicar. Imagino uma orquestra de moças, tocando só bandolim.

— Ah! bem...

— Haverá uma jovem no Rio que não toque bandolim? Bem sei, Godofredo, que é desagradável. Mas tem um meio: não te aproximes, o jardim é grande. Escolhemos os últimos fados, os literários.

— Realmente - fez Etelvina Gomensoro, née d'Ataíde - conheço alguns; são lindíssimos...

— E depois muito distinto - decretou a ilustre Argemira.

— Mme. Gomensoro cantará os fados.

— Como quiserem.

Imediatamente a reunião inteira resolveu adotar o fado. Eram loucos pelos fados. Depois debateram a questão financeira.

— Deixem comigo o caso - liquidou Chagas, por alcunha "Ganhou o macaco". - Fiquem descansados...

Mas ao contrário do que imaginava, o oferecimento causou um discreto alarma. Chagas era um rapaz encantador, de muito bom gosto, que talvez por isso tinha a leviandade de não saber resistir nem às cocottes, nem ao baccara. O dispensário mudaria de nome.

— Não, não - disse a Sr.ª Pedreira - precisamos de nomes para impor aos negociantes, senhoras de posição.

Alice irradiava. Era da comissão que iria convidar o presidente da República, era chefe de uma barraca de flores, entrava nos quadros vivos, e como Belmiro Leão, por indicação de Argemira, fazia parte da comissão, teve o prazer de vê-lo vencido vir cumprimentá-la.

— Somos companheiros?

— Da santa cruzada do bem. Os pobres antes de tudo.

— Há várias espécies de pobres.

— Eu só não tolero os pobres de espírito.

— Pois admira. Os pobres de espírito são a melhor gente deste mundo.

Em compensação, Jacques sentado entre Luísa Frias e Laura Gomes, num flirt perfeitamente agradável, sentiu-se de repente nomeado para a comissão da política. As suas relações obrigavam-no a pertencer a essa comissão com Arcanjo dos Santos e a Viuvinha Amélia. Era aquele pretexto que o punha em contato com os detentores dos dinheiros públicos. Quem diria? A vida é uma surpresa.

No dia seguinte, a garçonnière ficou deserta. Alice dos Santos ia com o comite diretor ao jardim público, tomar disposições sur place, porque a planta do Chagas fora declarada inútil. Iam as Sr.as de Melo e Sousa, a Baronesa Parckett, a encantadora Gina Malperle, Mme. Gouveia, e como homens, só Bruno Sá, Suzel e Belmiro Leão. Era como eles gostavam os três - de andar, só os três, benditos entre as mulheres. Suzel tinha um apetite pueril pela Baronesa Parckett, Bruno dizia cousas sérias à Malpene, Leão, naturalmente, caminhava com Argemira e Alice. E como chovera na véspera e o dia estava sombrio, pelas aléias desertas errava uma vaga e úmida melancolia.

— Gosto tanto dos jardins. Um jardim assim faz pensar no amor.

— Se o amor foi revelado num jardim!

— Mas eu penso no amor de outrora e não no de agora. O amor num jardim.

As senhoras levantavam um pouco os vestidos escuros para dar volta nos lugares em que a água empoçara. Havia sorrisos que diziam mais do que as palavras, por serem imensamente vagos e tênues. Luísa estava com frio. E da festa foi impossível fixar qualquer cousa além da hora.

— Aqui ficava bem uma barraca...

— E aqui...

— Também...

— Onde ficará a vendedora de cartões postais?

Frases cansadas, sem ânimo, como se fosse uma fadiga superior às forças gerais, animar o velho parque melancólico com uma festa mundana. E cansados todos, estavam, entretanto, gostando. Deram uma longa volta, para fazer apetite para o almoço. Alice voltou só, no coupé-automóvel, abstrata.

Nessa ocasião, Jacques preparava-se para ir à Câmara, encontrar Arcanjo. Vestiu-se com um apuro inglês. Fincou na gravata escura a pérola com a qual Alice revelara desejá-lo logo. E foi, pausado. A festa de caridade ia introduzi-lo no meio que almejava entrar, mas de modo elegante, sem rebaixar-se. Munido do cartão dado por Godofredo (era o segundo de que se utilizara, porque até então só usara o do cinematógrafo) - entrou pelos corredores que ladeiam o recinto. Estavam num grande dia na Câmara. Os corredores tinham cento e vinte pulsações por segundo. Jacques passou a custo para uma cancela do deplorável recinto a descobrir Arcanjo. Afinal deu com ele, sentado, pálido. Arcanjo viu-o também, mas não se moveu. Nem o saudou. Jacques esperou meia hora, prestando atenção ao discurso.

O discurso era inverossímil de idiotice. Fazia-o um dos mais aplaudidos parlamentares. Jacques não gostava de discursos. Tinha razão de resto. Estava com a opinião de um estadista eminente, James Balfour, que já disse: "As criaturas que fazem ou ouvem discursos em vez de jogar o golf são incapazes de apreciar as possibilidades da existência".

Jacques apreciava as possibilidades da existência. E, depois, naquele movimento febril de homens a suar, a falar uma língua incompreensível, entre reporters, taquígrafos, redatores de debates, contínuos, parasitas, agentes de negócios, pedintes com ar triste e mesmo deputados, só deputados eleitos pelos presidentes dos Estados respectivos, não podia deixar de sentir-se superior. Superior, por quê?

Não o sabia, nem o era. Mas assim o fizera a educação e também a herança, desenvolvendo-se num meio propício. Os verdadeiros amigos de Jacques podiam jurar-lhe que qualquer daqueles contínuos era mais útil e mais inteligente. Não o acreditaria. Ele era importante, mais importante, apesar de não ter qualidade alguma superior para compensar as más disposições iguais às de todos os homens, mais ás dos da sua condição. E o seu meio, composto afinal de elementos desencontrados da sociedade, desde o jogador titular ao explorador sem escrúpulos, meio de que conhecia as histórias desagradáveis, era o único tolerável e o único possível. O resto não passava de poeira.

Não daria importância ao maior gênio, sem que a sua roda, em grande parte letrada, como ele, não dissesse que esse gênio era mesmo gênio. A roda nunca dizia, mas crismava alguns mortais felizes, o que era uma compensação. Assim, como em nenhum salão, em nenhuma "pensão de artistas", em nenhum dos clubs em que seu pai jogava, não ouvira falar do gênio de nenhum deputado, além do Arcanjo e do Inocêncio Guedes, o inexorável recitador do Smart-Ball, considerava aquele pessoal inferior. Ele, Jacques Pedreira, condescendia em ir vê-los.

Mas ninguém lhe ligava importância e o discurso era enorme, Jacques resolveu pedir a um continuo que lhe levasse o cartão a Arcanjo.

— Não está.

— Está! Está ali.

— É verdade, não tinha reparado. Mas não posso.

— Por quê?

— A. Ex.ª está tomando parte no debate.

— Por quem é, leva-me este cartão. O Dr. Arcanjo espera-me.

O contínuo tomou o cartão e deu uma porção de voltas pelo recinto, antes. Afinal decidiu-se, e Jacques viu que Arcanjo fazia um gesto de contrariedade, erguia-se. Quando Arcanjo se aproximou, notou que estava palidíssimo.

— Bom dia, há meia hora que o espero.

— Ah! Queres falar comigo?

— Venho para o negócio do Dispensário.

— Que Dispensário?

— Oh! Pareces que estás a brincar. O Dispensário da Irmã Adelaide.

— Desculpa. Temos uma sessão muito importante - fez o outro, dominando a alteração da voz. - Mas hoje é inteiramente impossível. Não temos tempo.

— Ah! bem - disse Jacques, seco.

— É uma pena aborrecer-te, mas tem paciência. Queres que te mande abrir uma das tribunas?

— Não, muito obrigado. Ouvir discursos...

— Às vezes são coisas sérias. Até logo.

E afastou-se. Jacques ficou rubro de cólera. Idiota! Tratara-o evidentemente mal. Por que estava na Câmara? Dava-se então à importância o Arcanjo! Com ele, porém, fiava mais fino. Não poria mais os pés naquele lugar. Contaria a Alice o procedimento do marido. Era inacreditável!

Tão incomodado ficou que voltou imediatamente a casa, imaginando várias vinganças. Entrou direito para os seus aposentos. Atirou o chapéu alto para cima da mesa. E arrancava o frack, quando o copeiro entrou com uma carta.

— Trouxeram minutos depois do senhor sair.

Vinha de Alice. Também essa senhora não passava um dia sem escrever. Abriu-a com raiva. E leu:

"Ele desconfia. Recebeu uma carta anônima, que conta tudo. Salva a situação no momento e deixa, por minha conta o resto. Até à morte..."

— Bolas! - fez Jacques, sentando-se na cama. - Que complicação!

Era como se tivesse recebido uma pranchada no alto da cabeça.