A Profissão de Jacques Pedreira/IV

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"Conhece-te a ti mesmo", disse o sábio. Era um sábio antigo. O verdadeiro saber está em cada um ignorar-se a si mesmo. Que seria da vida, se todos, ou a maioria, ou mesmo uma pequena parte tivesse idéia justa do seu valor? Há calamidades em que se não pensa, nem mesmo quando se é sábio e antigo.

Jacques percebia nitidamente que outro momento não havia surgido igual para uma vida aventureira de negociatas. Mas uma indolência, por demais moral e por demais física parecia afastá-lo desse ambiente de ativa persistência. Dois dias acompanhou Jorge de Araújo a ver as obras. Jorge, porém, tratava-o como uma visita e ele não podia perder a mania de que era muito superior ao amigo rico.

— Meu caro, dentro de dous anos, realizo a independência - dizia-lhe Jorge.

— Como?

— Negócios...

Negócios! Palavra mágica, palavra que, cada vez mais vaga, toma no Brasil proporções enormes e ao mesmo tempo, sutis - negócios!

Sabedores de que Jorge, com capital, repartia, vários numerosos cavalheiros passavam o dia a correr ao seu escritório, oferecendo contratos, concessões., negócios. Jacques, com o seu hereditário cinismo ingênuo, estava espantado. Nunca, na sua vida, imaginara que se fizesse dinheiro sobre o dinheiro, tão rápida e tão fantasticamente.

Pelo escritório de Jorge viu passar o Carlos Chagas, viu passar o Dória e viu também passar outros construtores, o Eleutério Souto, o maior bluff à espera de casamento rico, tendo um escritório com arquitetos franceses, o belo Passos Vieira, sem o mínimo talento, mas quase milionário, outros. Quem tivesse uma amizade imediatamente tratava de empenhá-la, de pô-la no prego. Mas Jorge dizia:

— São intermediários demais. Já agora não precisamos.

— Como não?

— Vamos de cara. Os próprios detentores dos negócios dão à gente...

— Com condições?

— Com boa vontade - fazia o industrial, subitamente discreto. - Mas os intermediários! Imagina que há um mês para certas obras orçadas em dois mil contos, recebo propostas trazidas por diversos rapazes. Algumas tinham a letra do próprio diretor da repartição, que prometia abrir concorrência. Mas eu conheci o diretor sem níquel, num club de prontos.

— Quando?

— Quando eu também era "pronto". E vi bem que ele embrulhava os rapazes, estando feito com uma casa amiga de que é sócio secreto.

— Mas é um imoral.

— Qual de nós é moral, Jacques?

Para aquele meio tudo era dinheiro. Jorge trabalhava das seis da manhã às seis da tarde. Depois lavava-se, perfumava-se, vestia-se e aparecia para o vermouth, numa confeitaria da moda, no seu lindo automóvel de sessenta cavalos. Aí era o mundano. Fazia-se uma roda em que aparecia Godofredo, sempre doente e sempre inquieto, Otaviano Soares, um jovem ambíguo, vários industriais de diversas nacionalidades, inclusive um irlandês e um turco. De raro em raro, o Barão Belfort, esse curioso das emoções alheias, parava um pouco, ao vir do club, que ficava na Avenida, a dous passos.

Jacques sofria sem saber que sofria, com a promiscuidade daquele pessoal. Gostava muito mais da outra roda, da roda da Cavé, às quatro. ti estava no seu elemento, com gente conhecida, que já tinha chegado. E ficava calado, porque só sabia falar ingenuamente mal da honra dos seus conhecidos. Oh! A existência não era afinal apenas o seu reduzido grupo, as suas reduzidas pândegas e reduzidíssimas idéias. Bem sabia. Teimava desembaraçar-se de uma série de preconceitos, que o prendiam a uma casta sem dinheiro. E não podia, quando era preciso... Certo, o jovem encantador não refletia, com tanta clareza. Mas sentia. E sentir é tudo.

Os outros também sentiam que Jacques era melhor para divertir-se. conservava-o. Por simpatia? Por uma série de vagos interesses. Jacques era sempre decorativo. Quando pensava explorar o ousado Jorge, era de fato este que o aproveitava. Quanto a Godofredo, a verdade é que o a tratava, como uma criação mundana. Uma vez foi buscá-lo às seis horas, com o Jorge, à redação. Jorge falara por telefone. O telefone não se entendia. Deram então uns passos até lá. Jorge foi de mesa em mesa, a distribuir cumprimentos. A imprensa é uma grande força e o menor dos reporters podia prejudicá-lo, dando notícias dos desastres cometidos pelos seus automóveis, como podia fazer-lhe bem, levando qualquer negócio. Depois, conferenciou com Godofredo. Jacques não conhecia esses jornalistas, e, como todos da sua roda, não os tinha em grande conta - principalmente porque não tinham nem dinheiro nem nome. Só conhecia os donos dos jornais e três ou quatro cronistas, que como o Godofredo eram complexos: imprensa, aristocracia, política e chelpa. Quando terminou a conferência, Godofredo levou a conversa para um terreno mundano. Assim espantava os companheiros (as suas relações!), fazia espantar a Jorge e reduzia o pobre Jacques.

— Então é definitivo o divórcio da Zurich?

— Não sei, não; mamãe contou-me.

— Quem pede é ela.

— Como devem estar desgostosos os amigos do marido!

— Também o marido, recebida a herança da tia, batia-lhe.

— E não se pode dizer que não tenha bom coração.

— Apenas, agora é um coração que bate demais.

E falaram de Laura, que andava só com o Chagas, pela rua, à americana; e falaram de Mme. Gouveia, cuja paixão pelo hipismo levara-a a se fazer acompanhar por um jockey, o Gonzalez, argentino. Dilaceraram com dente afiado a honra de todo bando. Jacques tinha uma repulsão invencível por gente malvestida. De modo que, insensivelmente, o seu comentário agressivo ficava na roupa:

— O Gonzalez, com aqueles casaquinhos curtos e sujos.

— Um homem que foi lad da coudelaria do Espínola roleteiro.

Quando saíram, Jacques viu que se excedera servindo de trípode para o elegante cronista. Jorge tinha um riso amarelo, e ele ouviu, ainda a descer, o secretário indagar de Godofredo:

— Quem é esse idiotinha?

Para qualquer cousa na vida, é preciso antes de tudo persistência. Persistência e o esquecimento de sua classe. Jacques sentia que lhe faltava persistência e ou que espantava ou faziam por não lhe ligar importância, quando deixava os seus amigos. Aos poucos, foi deixando de ir ao escritório de Jorge, mas sendo cada vez mais o seu companheiro da noite. A vida é um prazer. Devemos gozá-la enquanto é tempo. O barão, que uma vez passava do club, tomou-o no seu carro.

— Levo-te até casa.

Jacques aceitou com vontade de pedir uns conselhos ao velho dandy. E o barão foi-lhe ao encontro.

— Então, como vai a linda criança na advocacia?

— Qual, barão, não tenho jeito.

— Não tem mesmo. Meu caro Jacques, o Rio de Janeiro é outro depois da Avenida Central. A mocidade de antes da Avenida era composta na sua maioria de estudantes alegres e despreocupados. Formado o estudante, ia tratar da vida, segundo as suas posses, depois de guardar os versos maus do tempo de menino, a recordação dos amores e a recordação das pândegas. Em regra geral, não havia senão ambições relativas. Com a abertura das avenidas, os apetites, as ambições, os vícios jorraram. Já não há mais rapazes. Há homens que querem furiosamente enriquecer e esses homens são ao mesmo tempo pais e filhos. Faz-se uma sociedade e constituem-se capitais com violência. E uma mistura convulsionada, em que uns vindo do nada trabalham, exploram, roubam para conquistar com o dinheiro o primeiro lugar ou para pelas posições conquistar o dinheiro...

— E os outros? - fez Jacques, que não se interessava demasiadamente pela tirada de psicologia social do barão.

— Os outros? Os outros são constituídos de pedaços heterogêneos da passada sociedade. Não se defendem. Têm família, os preconceitos da família no fundo, mas adaptam-se para ficar. E fazem a alta roda ao lado dos dinheirosos do momento, e tomam os seus processos, explorando de vários modos a sociedade. Tu...

— Eu?

— Tu nasceste para viver à custa da sociedade sem te incomodares.

— Isto é o que o senhor diz.

— É a melhor maneira. Não te canses. É impossível bateres a vida, como teu pai, como alguns dos meus companheiros de club, como Jorge ou Godofredo. A ti será preciso que venha o prato feito. E vem. Vem, porque seria uma pena se não viesse. Olha, diverte-te, ama. Estás na idade de amar. Não sei quem disse que primeiro o amor, depois a ambição...

Como são agradáveis os conselhos quando vêm ao encontro da nossa própria opinião! Jacques seguiu-os imediatamente. O consultório do pai foi apenas um ponto, onde passava alguns minutos, entre as três e as quatro, quando lá aparecia. O resto era a vida de prazer. Começava no chá da Cavé, às quatro horas, e lá ficava até às seis. O seu grupo era o Dr. Suzel, Bruno Sá e Belmiro Leão. O Dr. Suzel, inteligente e fino, fazia por esquecer o que sabia numa preocupação lambareira do mulherio de sociedade. Conhecia uma porção de anedotas, contava as ligações de cada uma, e estava permanentemente apaixonado por várias damas.

Bruno Sá, de dinheiro escasso, mas hábil, conseguia ser o homem mais amável do mundo. Era impossível haver outro mais gentil e mais sorridente. Ao aproximar-se de alguém, dizia logo:

— Sim, senhor!

Para mostrar que concordava. As vezes acabara, na mais estrita intimidade, de demolir o indivíduo. Mas as senhoras gostavam dele. Era uma figura obrigada de todos os bailes e de todos os salões. Belmiro Leão herdara do pai. Vestia bem, dizia mal dos outros e conquistava também, além de senhoras honestas, algumas cocottes. Era o passadiço, devido a esta qualidade extra, por onde Jacques passava para a roda de Jorge de Araújo, roda de confeitaria, de casinos, de clubs de roleta. e de pensões de raparigas loucas. Belmiro Leão, ao demais, usava um monóculo sempre entalado no olho direito.

Os quatro, com um chá modesto, tomavam conta do estabelecimento, sabiam o nome dos caixeiros e falavam com a caissière em francês. O Rio elegante passava diante deles. Suzel e Bruno cumprimentavam todas as senhoras do tom, e marcavam mesmo algumas entrevistas para o mesmo sitio, mais cedo, antes da afluência. Belmiro e Jacques também saudavam as cocottes, as melhores, afinal um pouco da família geral (o mundo é uma família) porque tinham sido, eram, ou tinham de ser amantes dos maridos das senhoras do tom, conhecendo-as muito bem, às vezes pelo apelido de casa, e sendo conhecidas também não pelo nome de casa que as próprias cocottes acabam por esquecer, mas pelo nome de guerra do momento.

Impreterivelmente, entre as cinco e as seis, aparecia Alice dos Santos. Quase sempre em companhia da ilustre Argemira de Melo e Sousa. O flirt, interrompido pela insolência da falta à entrevista, eternizava-se. Jacques nunca seria capaz de conquistar. Com as mulheres era sempre hipócrita. Queria, mas ficava quieto, sabendo que, quando são elas a desejarem, tudo fica mais agradável. A conquista de Alice satisfazia no momento as suas ambições adulterinas. Mas não dava um passo, não mostrava a menor animação, sempre na defensiva, excitando Alice com a frescura da sua mocidade ardente.

De resto, tinha de ser.

Alice dos Santos era um caso de frivolismo mundano e sensual comum. Passara até os vinte e três anos na província, com a atenção voltada para a vida elegante da capital. Fizera assim uma idéia exagerada de tudo: da moda, dos divertimentos, dos homens, da liberdade, dos costumes, acreditando em quanta fantasia lia nos jornais e em quanta invenção narram os provincianos de volta, para se darem ares. Os seus modos causavam impressão. Ela os tinha, entretanto, porque os considerava extremamente cariocas. Ao casar com Arcanjo, muito mais velho e pobre, posto que com posição política, casara com a mira de vir instalar-se no Rio, desejo a que se recusara sempre o velho estancieiro, seu pai; e não só para gozar os refinamentos da cidade como para dominar e ser a primeira entre as senhoras faladas pela beleza, pela fortuna e pela posição. O cuidado com que se comparava à fotografia das grandes damas nos jornais ilustrados para se achar melhor sempre! A pertinácia com que estudava nos magazines mundanos a tecnologia, a língua confusa da alta roda, aliás tão limitada! Quando chegou, não quis usar nenhum dos antigos vestidos, nenhum dos antigos chapéus, que, entretanto, já eram grandes. Esteve incógnita oito ou dez dias, à espera de toilettes estupendas.

O marido era uma figura doente e simpática, que lhe fazia sempre as vontades com uma resignação de intendente. Realmente Arcanjo era doente como Rockefeller, dadas as devidas proporções de riqueza. Incapaz de falar na Câmara, porque dele se apoderava um tremor, que Godofredo dizia ser o prévio remorso da asneira - além da mulher, só duas coisas o preocupavam: o esperanto e o vegetarismo. Ambas tinham com a língua, que não utilizava nos debates parlamentares. Vegetariano era-o por completo. Dedicara-se até a estudos especiais e nesses estudos vieram a causar-lhe inquietação as conclusões de um célebre médico num congresso de patologia geral sobre a influência dos legumes no caráter. Arcanjo sabia na ponta da língua que o espinafre desenvolve a ambição, a constância e a energia; a azedinha leva à melancolia; a cenoura é recomendada aos biliosos e aos maridos infelizes; a vagem incita à arte; o feijão branco convém aos intelectuais; o petit-pois é frívolo; a couve-flor agrada aos egoístas e a batata provoca o equilíbrio mental.

Para sentir-se possuidor de um caráter de primeira ordem, fora aos poucos misturando, tanto que acabou por almoçar e jantar panachée de legumes. Indicava aliás essa alimentação aos artríticos, concluindo sempre:

— É tão boa que o Dr. Zamenhoff continua vegetariano.

— Que Zamenhoff, Arcanjo?

— O pai do esperanto, a língua universal, a língua em que daqui a tempos poderei falar em qualquer país do mundo, quando esses países souberem o esperanto.

Era afinal um bom sujeito. Não há ninguém que não seja um pouco bom. A teoria do absoluto é impossível aplicada às qualidades.

Alice aceitava-o sem repugnância, pensando, aliás, noutra coisa. Esta outra coisa era a fixação na sociedade, "como devia ser". Era preciso montar casa, imediatamente. Arranjada a casa na Avenida do Entroncamento, uma nuvem de fornecedores caiu sobre eles, explorando-lhes a vaidade provinciana. Em toda parte é mais ou menos assim. Mas Arcanjo tinha a lutar com os empenhos dos políticos e as opiniões de algumas relações mundanas que valorizavam os fornecedores. Os colegas de política escreviam a pedido empenhando-se pelo fornecedor de tapetes ou pelo fornecedor de louça. Arcanjo recebeu até por intermédio de um agente de mobílias uma carta do seu Grande Chefe, dizendo textualmente: "precisamos ajudar os nossos amigos".

— Amigos dele! Nem o conheço! Com certeza reforma algum compartimento do seu paço!

Mas atendeu também a um mercador de tapetes orientais recomendado pela bancada do Pará, acabou com vontade de montar outra casa, para satisfazer a todas as bancadas.

— Como se metem na nossa vida!

— Oh! filho, são os próprios fornecedores que vão pedir. Não viste com os automóveis?

Com os automóveis, uma das casas trouxera até uma recomendação do cardeal. Com um pouco mais trá-la-ia do Papa em pessoa. Era uma casa que fornecera automóveis por preços altíssimos para todos os serviços prováveis do governo, e distribuíra alguns grátis. Arcanjo e Alice, porém, impressionaram-se com a opinião dos seus conhecimentos da alta sociedade. Eram os primeiros, alguns rapazes, das melhores famílias, mas desses que preferem a transação ao trabalho. Também são esses que constituem sempre o piquete de reconhecimento da sociedade que se preza, passando uma vidinha de perpétuo regalo e explorando os pretendentes ao escol com um cinismo acima da expectativa. O primeiro a aparecer fora Carlos Chagas. Era correto, delicado, tinha esplêndidas relações, e como não se empregava em nada de confessável, resolvera ter gosto. Ter gosto pode ser uma profissão, dada a raridade do gosto. Era de resto sempre uma apresentação.

— Ah! "seu" Arcanjo - dizia atirando piparotes no ventre doentio do deputado vegetarista - gosto tenho eu. Aqui neste pais não se tem a noção do chic. Ninguém como eu sabe pôr uma mesa, arranjar um menu, decorar uma sala. Gosto tenho eu. Falta o dinheiro. Também quem já pôs fora três fortunas...

Sempre que se referia à moeda, precedia-a daquele determinativo que a realçava. Nunca dizia: dinheiro. Dizia sempre: o dinheiro. E com tal autoridade que era da gente pedir-lhe desculpa por vê-lo sem o dinheiro. Em duas palhetadas dominou o casal com decretos de elegância.

— Vi hoje uma jóia chic, cousa boa, que lhe vai a calhar. É para uma pessoa distinta.

Os esposos terminaram as dificuldades das escolhas, fazendo-o árbitro.

— Como achas?

— Não, como gosto distinto fica melhor assim.

Tinha gosto até a escolher o trem de cozinha. Os fornecedores, vendo a sua decisiva importância, procuraram ter gosto também. Ficaram os que tinham mais. Arcanjo devia ter pago preços de fábula pelo mobiliário, pela galeria de quadros, pela prataria. A casa já estava pronta quando Chagas, o Dória (que se dizia descendente dos Dória de Itália), o Raul Pereira, filho dos Marqueses de Pereira e outros rapazes da mais fina roda sem vintém lhe descobriram, um faqueiro histórico, faqueiro de setecentas peças de prata lavrada, oferta de um amigo em delírio ao Generalíssimo Deodoro. A esposa do Generalíssimo desfizera-se aos poucos do faqueiro colossal. Um colecionador reunira, porém, todas as facas, em que o proclamador da República - (os vendedores diziam-se no fundo, por chic, monarquistas) - nunca pegara. O faqueiro vinha à mão de Arcanjo por nove contos fortes, porque o colecionador tinha residência em Lisboa.

A casa ficou vistosa. Parecia um cenário de Antoine, quando se propõe reproduzir, na montagem das peças salões de luxo. Havia tapetes, bronzes, quadros, escadarias forradas de veludo cor de vinho e cor de granada, palmeiras em vasos de variados feitios, um coupé, um automóvel.

Alice, inteligente, consultava os costureiros, as modistas, os joalheiros, e aparecia cada vez mais desejosa de vencer. Mas sentia nitidamente a hostilidade dos leaders, das leaders mundanas.

A mãe de Eleonora Parckett dissera:

— Não posso freqüentar essa rapariga, que não é da nossa sociedade.

A mãe de Eleonora, ao que diziam, começara dançarina. Mas era falso. Luísa Frias denominara-a de "ave exótica". Havia outras ironias agudas. Alice percebeu que, se os homens em tal meio vencem com o dinheiro e braço, as mulheres podem vencer aliciando para o seu partido os homens. Apenas exagerou. Quando num baile, numa festa, na rua, no chá das quatro, nos dias de Mme. Pedreira, às quintas de Argemira, percebia ter agradado mais a um cavalheiro, sentia como a ebriedade da vitória e ultrapassava o flirt para irritar as proprietárias legítimas ou ilegítimas desse cavalheiro. O resultado era inteiramente desastroso. Os homens contavam uns aos outros, com perfeita discrição, os avanços da bela Alice, e o grupo de admiradores aumentava à proporção que a tolerância familiar esfriava. Venceria? Era ainda a mais honesta, era apenas uma vítima do esnobismo dos equilibristas da alta vida. E no fundo, nos seus nervos, só sentia um certo interesse por Jacques: Jacques com as suas largas mãos, a sua tez cor de pêssego, aquela boca tão carnuda e rubra, os dois olhos molhados, o cabelo negro, repartido ao meio. Jacques era o que lhe mostrava maior indiferença... Outra qualquer desanimaria, Alice, porém, tinha a Sra. de Melo e Sousa a seu favor.

A Sra. de Melo e Sousa passava por ser das mais ilustres damas da sociedade, fidalga de verdade, nobre de fato, inteligente, culta, requintada. A sua ascendência era conhecida de quatro séculos, sendo no Brasil anterior à vinda de D. João VI. As pequenas crônicas privadas davam-lhe na linha direta três monjas, quarenta adúlteras, cinqüenta generais, cinco artistas, dez juristas, vários diplomatas. Argemira mostrava-se culta com simplicidade. No seu tempo de moça amara muito, independente do marido, a quem aliás sempre respeitara, nas constantes viagens pelo estrangeiro. Agora, não velha, que senhora tão cuidada e de tão formoso espírito não envelhecia, mas apenas "datava" como se fosse do XVIII século, assistia a sorrir à eclosão da nova sociedade, amando a mocidade e amando o amor. Por isso, talvez protegesse os jovens, e, como sabia a crônica geral, perdia-os com anedotas autênticas da vida real de cada um, francamente corrosivas. Além do mais, Argemira queria ver caminhar o seu caro Jacques. Foi ela quem os aproximou de novo, sem a menor alusão à falta do lindo mancebo, fazendo-se encontrada como por acaso...

— A Alice recebe agora os seus amigos.

— Ah! meus cumprimentos.

— Arcanjo ainda não o preveniu?

— Ainda não.

E a linda Alice:

— Pois temos muito gosto.

Depois, era o chá a três, com conversinhas mais ou menos picantes, em que Alice flambava como um ponche, eram perguntas, indiscrições. A jovem tinha a idéia de que Jacques devia ser disputado por todas as mulheres. As mulheres pensam sempre assim, quando desejam, para sustentar e manter o desejo. E perguntava nomes de cocottes no Lírico e na Cavé, sorria maliciosamente, sempre que Jacques cumprimentava alguma dama. D. Argemira sabia conservar a atmosfera, divertida com o flirt. Jacques parecia tão agradecido... Um mês depois, Belmiro Leão apareceu indignado no chá das quatro.

— Olha - disse a Jacques - estive ontem na festa de caridade da Irmã Adelaide com a Alice e D. Argemira. É de força a Alice...

— É, ela contou-me que lhe disseste inconveniências e passaste uma cartinha embrulhando uma flor. Lemos a carta.

Belmiro Leão ficou rubro e indignado. Aquele processo da Alice parecia-lhe de uma depravação inqualificável. Não a cumprimentaria mais! Há coisas que não se contam. Nunca fizera papel de tolo. Ah! ia perder aquela impertinente no conceito público...

Jacques ficou glacial e ergueu-se logo.

— Mas olha, não tenho nada contigo; é com ela. Tens sorte, és o amante.

— Quem te disse que eu era o amante?

— Ah! bom, não sabia que era paixão. Cavalheiro...

Jacques saiu contrariadíssimo e encontrou na Carioca, ao subir para o coupé-automóvel, Alice e Mme. de Melo e Sousa. Há acasos fatais. A vida é um grande acaso.

Argemira pasmou:

— Por aqui a esta hora? Aposto que adivinhou a nossa presença?

— Não. Vou para casa.

— Está aborrecido? - indagou Alice.

— Não; estive com o Belmiro Leão e ele está furioso com a senhora.

— Comigo?

— Porque contou-me a cena de ontem.

— A quem poderia contar então? - fez Alice.

— Ora deve ser divertido o Belmiro. Venha você narrar-nos a cena por miúdo.

— Onde?

— No auto, conosco - disse logo Argemira. - Alice ia levar-me a casa. Levam-me os dous.

— Mas não chego.

— Vais no meio, um pouco apertado.

Alice um tanto trêmula, lembrou-se entretanto que era uma elegância espantosa essa de irem num carro apertadas várias pessoas. Jacques também estava trêmulo. Mas concordaram. Subiu primeiro Alice, depois ele. Por fim Mme. de Melo e Sousa. Jacques ficou na ponta do assento, entre o vestido roxo da ilustre dama e o vestido de veludo castanho de Alice, um vestido em que o seu corpo cheiroso parecia num estojo...

— Laranjeiras! - disse Argemira. - Para minha casa. - E depois: - Conte lá, menino terrível.

— Ora...

Jacques contava. Contava e sentia que insensivelmente o seu corpo ia tomando mais assento e que de Alice vinha um perfume doce, agradável, macio. Ela ficara silenciosa, olhando-o.

— Que me olha tanto? - indagou Jacques.

— Admiro a pérola de sua gravata.

— Bonita? Foi a mamã que ma deu.

— Gosto muito de pérolas.

— Quando não são as da Luísa Frias - interrompeu Argemita - falsas como a onda...

— Esta é verdadeira.

— Quem duvida? Você tem cada idéia...

— Não, que a senhora é muito perversa.

— Eu?

— Mostra-me a pérola? - pediu Alice.

Jacques tirou o alfinete da gravata. O automóvel dava solavancos. Passou-o à Alice, apertando-lhe os dedos.

— Tenha modos. Deixe de brincadeiras.

— Está enganada.

Mas viu que Alice se recostava e, pegando o alfinete pela ponta, roçava a pérola na face, nos lábios, no pescoço, pelas pálpebras, vagarosamente, como afastada do mundo, as narinas palpitando. Passou a mão na almofada e encontrou uma outra mão gelada, que tremia. O silêncio caíra de chofre. D. Argemira sentia, sem ver. Alice ofertava-se à pérola, que é a pedra de Vênus. Ele estava numa impetuosa onda de sangue e de desejo. Era o momento. O automóvel parou, sem que dessem por isso. Argemira saltou.

— Não os convido para entrar. É tarde. Merci pelo obséquio. Até logo à noite, não?

Nenhum dos dous respondeu. Eram incapazes de dizer uma palavra com senso. Em roda, como dizem os romancistas, o mundo se alheara, vago e indeciso. Ela só queria ele, ele. A sua carne vibrava um suspiro de apelo. Qualquer palavra seria inútil. Jacques puxou num rápido gesto os stores, soprou, no tubo acústico: devagar! enlaçou-a na violência da sua adolescência vitoriosa. Ela ainda meneou a cabeça, fugindo ao beijo almejado. Mas ele prendeu-lhe a face com as duas mãos e sorveu na sua boca vermelha a boca saudável de Alice.

— Mau! - fez ela. - Como demoraste! - E, numa ânsia tropical, o seu lábio procurou o dele, sorveu-o também, enquanto os dous corpos se enlaçavam na harmonia indizível do desejo.

E o automóvel, devagar, buzinava pelas ruas, ameaçando os transeuntes. Eram seis e meia da tarde.