A Pulseira de Ferro/VIII

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Padre Guilherme, como de ordinário procedia quando alguma coisa o preocupava, pensou logo em Veloso, e desceu a ladeira que ia da praça da Matriz para os lados do rio; despencou por ela, fazendo rolar pedregulhos às topadas, raspando o chão aos escorregões.

A casa do bacharel ficava a menos de uma quadra do ribeirão das Almas: uma casa larga e baixa, com quatro janelas a um metro do solo. A rua, ali, já era quase simples caminho: em vez de calçada, a casa tinha ao pé uma tira verde de capim e no lugar onde devera ser a sarjeta a água da chuva cavara uma boçoroca, que se ia dali aprofundando e alargando quase por todo o leito da rua, até bem perto do ribeirão. Entre essa fenda, onde os vizinhos vinham não raro despejar o seu lixo, e os lados da rua, onde dali em diante não havia mais que umas cercas de pau-a-pique amarradas com cipó, corriam dois trilhos de cabra, aos corcovos e aos serpeios, ladeados de touceiras de barba-de-bode, de juá bravo e de rubim.

Chegando a essa pacifica ponta de rua, onde só se via de quando em quando uma lavadeira que passava, um pescador com a vara ao ombro, ou um grupo de meninos vadios, atirados a exercícios de natação e a caçadas de passarinho pelo mato, o padre parou fatigado e pôs-se a contemplar aquilo tudo: a casa solitária de ar pobretão e tristonho, mas tranqüila e acolhedora, os quintais umbrosos, o céu de louça, a boçoroca por cujo fundo uma aguinha escorria entre canalículos rasgados na areia, clara, fresca, desferindo límpidos reflexos em suas cachoeirinhas microscópicas. E teve uma saudade doída de seus anos de criança, em Pirapora, a brincar com outros pequenos numas pontas de ruas plácidas e pitorescas, horas inteiras, de pés nus e de coração sossegado...

Por fim, deu um suspiro e foi bater à porta do bacharel, cuja única folha era mantida aberta por um tijolo. As pancadas do seu grosso guarda-chuva ressoaram pelo interior da casa como por uma cripta. Ao cabo de longos minutos, o padre ouviu que vinha lá dos fundos um lento arrastar de chinelos; depois, entreabriu-se a porta que separava o corredor da sala de jantar e enfiou-se pela fisga a cabeça meio calva de Veloso. Reconhecendo o padre, Veloso escancarou a porta e o semblante, e os braços:

- "Benedictus qui venit in nomine Domine!"

- Está almoçando?

- Ia começar. Almoçaremos juntos.

Padre Guilherme nada respondeu. Sem tirar o chapéu, foi ao pequeno lavatório colocado a um canto da vasta sala, junto ao poial onde bojava o ventre úmido do pote, com a sua concha de coco em cima da tampa em forma de palmatória. Encheu a bacia, lavou as mãos e, a enxugá-las, dizia ao amigo:

- Vá almoçando. Não quero nada. Sem fome. Venho só para lhe dar uma notícia.

Veloso, serenamente curvado sobre um frango loiro, a acariciá-lo com os olhos ao mesmo tempo que o retalhava com a faca, suspendeu a operação e ergueu a cabeça.

- Uma noticia?

- Uma notícia engraçada.

- Vejamos.

- Uma notícia que você não esperava: sou pai.

Veloso fincou os olhos na cara do padre:

- Que é que você está dizendo?

- É isso mesmo, sou pai. Há pouco fiquei sabendo essa novidade, que já é velha em Candeias. O Matias, veja você! é meu filho...

E o vigário ria amargamente, numa resignação fingida, palpando com a mão aberta o relevo ossudo da maxila, para um lado e para outro. Veloso tinha a flutuar entre a barba o seu sorriso bonachão. Depois de uma pausa, voltando-se para o padre:

- Saboreie este peito de frango... Olhe que tentação!

Padre Guilherme não reteve um gesto de impaciência - empurrou o prato, em sinal de recusa, e virou a cara. Veloso sorria. Mastigou tranqüilamente o que conseguira arrancar de uma asa que sustinha entre as pontas dos dedos, enxugou-as no guardanapo, e perguntou ao amigo:

- Mas você inquisilou-se deveras com essa história?

Padre Guilherme confessou que experimentava um sentimento doloroso de revolta. Não sabia dizer bem tudo quanto se passava dentro dele: era raiva, era cólera, era nojo, era desanimo... Ver-se vilipendiado miseravelmente, de chofre, quando ia mais contente e confiante pelo seu caminho! E por que? Por nada! por uma boa ação que praticara! porque recolhera nos braços um desgraçadinho, abandonado no chão como um animalejo importuno! Eis aí a sua falta!... a sua falta!... A falta de ser compassivo, a falta de não ser miserável a ponto de rejeitar com o pé aquele filho de Deus que a sorte lhe punha diante do passo! E o que mais lhe doía ao padre era a estúpida, a opaca, a brutal injustiça que se fazia a toda a sua vida de seis anos em Candeias. Não havia na vila um único indivíduo que o não conhecesse bem... Era como se vivesse numa casa de vidro... Gente venenosa e ingrata! Cainçalha tinhosa e feroz!

Quando padre Guilherme acabou de falar, a Tereza, cozinheira da casa, vinha com a bandeja de café. Veloso tomou uma xícara, passou-a ao padre, pegou a outra e, mexendo devagarinho o açúcar depositado no fundo:

- Padre, você tem razão de estar furioso.

O vigário, por uma espécie de pudor sacerdotal, não gostou do termo e corrigiu:

- Furioso, não...

Veloso sorriu e emendou:

- Você tem toda a razão de estar sentido. Mas, quer que lhe diga? bem se vê que você faz a sua estréia de caluniado. E olhe, pensando bem, na sua idade!...

- Está gracejando.

- Nem de longe, meu amigo. A mentira e a calúnia são os nosso pão espiritual de cada dia! São a nossa arma predileta na luta da vida! São nossos utensílios de trabalho! São o mais inocente dos nossos brincos, o mais doce dos nossos passatempos! Mente-se e calunia-se por ódio e por despeito: é a fúria destruidora do homicida transformada em energia errante, - menos intensa, porém mais extensa, e mais durável. Mente-se e calunia-se sem ódio nem despeito; agrada, convém ao superior de "X" que "A" sofra a tortura de se ver pintado como um salafrário, exposto à risota e ao desprezo da multidão estúpida e cruel? Pois, alma de cachorro, "X" oferecerá esse prazer ao amo. Mente-se e calunia-se por interesse, por cálculo, por desfastio, por descuido, por graça. Mente-se e calunia-se por engano... E não só por palavras, mas também por pensamentos e obras! A mentira e a calúnia estão no ar que respiramos, estão na substância do nosso espírito. São uma secreção regular da nossa alma. Padre, mente-se e calunia-se até por virtude!

- Ora, essa! Sussurra o padre.

- Sim, por virtude - e são vocês, os sacerdotes, os maiores responsáveis desse aperfeiçoamento. O homem, descendente degenerado do gorila, estava fadado a ser um bruto feroz e leal, a ter a agressividade rija, direta e explosiva dos grandes vertebrados, que lutam à luz do Sol, atirando-se ao inimigo, sem cerimônias, sem disfarces, quando isso lhes dá na gana, mordendo, escoiceando, pisando, rasgando carnes, rebentando ossos, espalhando sangue, aos berros, aos guinchos, aos pinotes. Vieram vocês, e convenceram o bicho de que era preciso ser humano, ser humilde, ser desambicioso, ser compassivo, ser justo. Macaco caborteiro, o homem arrependeu-se então, gravemente, das culpas de seus semelhantes... E pôs-se a corrigi-las com fúria incansável: aquele roubou! aquele traiu! aquele é adúltero! aquele é avarento! aquele é falsário... O bruto ganhou em peçonha, em perversidade recolhida e fedorenta o que perdeu em brutalidade esbarrondante e sadia: já não assalta nem esquarteja o inimigo, amargura-lhe, comodamente, a existência; envenena-lhe os prazeres, se os têm; agrava-lhe as dores e as melancolias, que as têm pela certa; põe-lhe um sabor de lama na água que ele bebe, um cheiro excrementício nos perfumes que ele respira; entra-lhe pelo corpo com o pão que ele come, tornando-lho duro e dissaborido; precipita-se-lhe na torrente do sangue, e queima-o em febre; fustiga-lhe as fibras recônditas dos nervos, e chama-se insônia; põe-lhe nos olhos as lágrimas que ele deve estilar em silêncio, às escondidas, e é então a amargura que mata. E ninguém escapa! ninguém! Esse inocente, que você adotou por filho, já entra na vida ferreteado na testa com o labéu de fruto de uma união danada. Invejável destino!... Você, entretanto, só agora, aos quarenta anos... Não é a sua idade?

- Trinta e nove.

- Só agora, pela primeira vez, tem ocasião de se revoltar contra uma calúnia! E como, além de tudo, essa calúnia não é das piores, você, afinal, não me sai daqui sem os meus parabéns.

E Veloso, em seguida, pôs-se a desfiar o rosário das calúnias de que já fora vítima em Candeias - havia-as de todos os formatos e todas as cores. De repente, fazendo uma pausa, perguntou ao padre:

- Daqui aonde vai?

- Para casa.

- Quando sair eu o acompanho para, ali adiante, em cenário adequado, lhe contar uma história que vai achar divertida.

- Pois vamos lá.