A Pulseira de Ferro/XII

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Deixando a casa do padre, Veloso saiu a meditar na transformação extraordinária que se passara na alma do seu amigo, desde o maldito incidente do enjeitadinho: fora um terremoto. Resolveu ir à redação daGazeta,a ver se evitava maiores dissabores. Camacho era o homem de mais talento no município, e tudo se deve esperar de um homem de talento que está convencido de que o é, e que tem rancores a pôr em dia.

AGazetaera composta e impressa na própria casa de Albino Gomes, Rua da Constituição, perto do Cemitério. Caminhando para lá, Veloso matutava nas razões que teriam levado - não Camacho a escrever o artigo, porque isso estava suficientemente esclarecido pelo incidente do adro, que o padre lhe contara, mas o Gomes a consentir na publicação. Cauto e calculista, Gomes teria impugnado o artigo, mas Camacho haveria insistido. A Gomes não lhe convinha perder o único homem que em Candeias era capaz de encher, regularmente, e com proficiência invariável. todas as semanas, as duas páginas que naGazetase reservavam à redação.

Depois, Gomes era parente chegado do fogueteiro, detrator contumaz do vigário desde o caso dos fogos encomendados para São Paulo - e não há nada que facilite e promova a união de duas almas como os laços cordiais de um ódio comum.

Chegando à tipografia, Veloso, por fortuna, encontrou o estabelecimento funcionando. Ao bater à porta, ouviu lá dentro o ranger do prelo, e alegrou-se. Veio abrir-lhe o próprio Gomes, com as mangas da camisa presas acima do cotovelo por elásticos, e a cara escorrendo suor entre os tocos crescidos da barba.

- Ainda atarefado com o jornal de hoje?

- Ainda. Entre, doutor.

Veloso entrou para a tipografia, onde entre caixotins alinhados junto às paredes se erguia o vulto gótico de um velho prelo, que era pouco mais que uma grande prensa com rodas. E Gomes, enxugando a testa na manga, acrescentou com a mais tranqüila naturalidade:

- Estamos acabando a tiragem. São trezentos e vinte e cinco exemplares. Candeias cresce.

- E com ela a alavanca do seu progresso, amigo Gomes. Pois é tocar para diante... Mas escute. Vim ver se você me arranja os últimos números doMonitor.Não o recebe?

- Recebo. Já lhos dou, com todo o prazer.

Deslizando, habilmente, de assunto para assunto. Veloso voltou aos domínios privados daGazeta,louvou-lhe os progressos, a feitura, o critério dos seus artigos, a graça das suas "Variedades"... Aqui, Albino sorriu modestamente.

- O doutor lê aquilo? Eu faço essa coisinha por passatempo, nas horas vagas, colhendo aqui, colhendo ali, por jornais e almanaques... O caso é que tem leitores, principalmente ai pelas famílias.

- Mas em grande número, meu amigo. Depois, Veloso referiu-se, como se se tivesse lembrado disso no momento, ao artigo dedicado a frei Antônio Jeremias.

- Muito bom, e justo. Mas houve quem lhe achasse uma certa intenção de alfinetar o nosso vigário...

Gomes protestou que não. E, muito inocente:

- Ali não se fala no vigário, nem se alude individualmente a ninguém. Onde é que descobriram a alfinetada? Agora se a carapuça lhe serviu, a culpa é que não é nossa!

- Em todo caso você reconhece que há uma carapuça, que podia servir ao padre.

O impressor tartamudeou evasivas. Veloso mudou de assunto. Lembrou a impressão deixada pelo artigo sobre a Paixão do Senhor, na Semana Santa, - o melhor artigo, talvez, de Camacho inteiro, e que por sinal fora calorosamente louvado pelo vigário. Discorreu sobre as tremendas dificuldades com que luta a imprensa neste pais onde o povo é analfabeto e onde os mandões são, geralmente, piores que analfabetos, porque nem sequer são analfabetos perfeitos. Por fim, alisando a copa do chapéu na manga do paletó, como quem se aprestava a partir:

- Pois muito obrigado peloMonitor!Até breve.

E, na porta da rua, até onde o acompanhara o dono da casa:

- Olhe, seu Albino, devo-lhe várias obrigações, quero-lhe dever mais uma: poupe-me o vigário.

- Mas, doutor, não demos uma linha contra o vigário.

- Acredito. Mas a impressão que se tem é que vocês visaram ao padre.

- Não senhor, ninguém pode...

- Perfeitamente, "seu" Albino. Mas escute, peço-lhe que evite daqui por diante a publicação de qualquer coisa que possa dar a idéia, embora muito vaga, de uma remota censura ao vigário. E sabe por que? Porque anda doente, coisas de estômago e de rins, uma complicação, está ouvindo? Para que é que havemos de agravar a aflição ao aflito?

- Nós nada fizemos para isso, doutor.

- Bem sei, bem sei. Até logo. Volte ao prelo, dê luz a esta gente. E mande buscar lá em casa, quando quiser, oLunário Perpétuoque lhe prometi. Pode-lhe ser útil para as "Variedades

- Oh! sr. doutor, muitíssimo agradecido! exclamou o tipógrafo, numa reverência ao bacharel que se afastava devagar, assoviando despreocupadamente entre a barba grisalha.