A alma do outro mundo/VII

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A alma do outro mundo por Guimarães Júnior
Capítulo VII

Havia festa no Jordâo. Era domingo.

O dia amanhecera risonho, azul, resplandecente e tentador como as primeiras alvoradas do paraíso perdido. As jandaias em grupos compactos voavam sobre a estrada e perdiam-se pelas matas sussurrantes, desprendendo gritos de felicidade e de alegria!

O sol dardejava raios de fogo, e as patativas, entre os ramos floridos do cajueiro, desfiavam o seu rosário de melodias fugazes e pérolas cristalinas!

O domingo em todas as aldeias do mundo é o dia por excelência, o grande dia, o dia da roupa nova é das gargalhadas expansivas! Os braços, habituados ao rude trabalho, descansam em redor da franzina cintura de um filhinho que sorri, e enquanto o lavrador desenrola ao companheiro o rol das suas íntimas esperanças, com o rosto alegre e os olhos cheios de saúde e de fé, as raparigas de vestidinho enfeitado espiam o janota da aldeia que passa orgulhoso à sombra de um chapéu cor de cinza, o chapéu dos domingos, o chapéu falado! Ou escutam embebidas em casto arroubo, a melancólica toada da viola que parece desfazer-se no ar em rios de lágrimas!

Santo dia do domingo! O roceiro adora-te como a elegante a noite do baile, e o político a desejada hora das eleições! Em cada murmúrio das tuas brisas, oh! Mimo da primavera! Em cada uma das tuas brisas ondula a nota celeste de uma canção desconhecida, e o sol que te anuncia encontra sempre abertos, para recebê-lo, o cálice palpitante das flores, os lábios vermelhos da infância e o coração enternecido dos pobres!

Quase à beira do rio estavam os habitantes do lugar empenhados em levantar um alpendre, largo, coberto de folhas secas, e sustentado por umas enormes estacas adornadas de folhas e ramas frescas! As pilhérias, as farsolas, as graças trocavam-se vivamente entre os trabalhadores folgazões com uma prodigalidade excessiva. Que seria aquilo? Alta novidade! Alta novidade no Jordão! O Pedro Cambraia tirara em um quarto da loteria a sorte grande! Nada mais, nem menos do que um conto e não sei quantos mil-réis!

O Pedro Cambraia era um sujeito de 42 anos, baixinho, nédio, luzidio como uma moeda de cobre novo! Não era nem feio nem bonito, engraçado nem tolo; mas possuía uns olhos esverdeados de faiscantes malícias, e dançava o samba com tal método e brilhantismo, que fazia dizer aos companheiros:

— Cambraia, esse, antes de nascer, já sabia o passo do caranguejo! — (O caranguejo é uma das variantes mais distintas do samba do norte.)

Veio-lhe o apelido de Cambraia por um fato excêntrico que se deu em sua vida. Pedro Gonçalo, que assim se chamava o sambista, em se lhe devendo alguma coisa, tornava-se uma legítima praga em couro e cabelo! Atormentava o devedor, perseguia-o, achincalhava, atordoava, e chegava até a provocá-lo às vezes. Como atestado de seu caráter bulhento, a ponta de uma faca inimiga deixara-lhe no meio do rosto um valente talho, que se transformara em eterna cicatriz. Havia um único meio de se não brigar com o Cambraia: era não lhe dever nada.

Maria Escolástica, uma donzela do lugar, pedira-lhe emprestada certa quantia para comprar nas mãos de um mascate aventureiro um corte de cambraia.

Dizia a pobre da rapariga que aquela fazenda havia de servir-lhe no dia do noivado. Pedro Gonçalo emprestou o dinheiro com pequeno prazo e... sem juros! Mas desse momento por diante, a incauta Escolástica ficou hipotecada ao insaciável credor.

Cansado de esperar, Pedro dirigiu-se sem mais cerimônia à rapariga. Maria Escolástica tremeu quando pôs os olhos na cara do Cambraia. A cicatriz rubra e coruscante saltava-lhe à flor do rosto. Era esse o prenúncio de tempestade iminente!

— Maria Escolástica, você paga ou não paga o cobre?

— Ouve cá, Pedro.

— Já há um mês e 18 dias que me andas prometendo, e nada, minha dona! Isso não tem cabimento. Você me conhece! Você sabe quem eu sou, Maria Escolástica!

Pedro Cambraia estalou com a língua e arqueou o braço, firmando os dedos na cintura.

— Mas, se eu não tenho dinheiro, filho de Deus!

— Por que pediu emprestado, então? É botar já para aqui os cobrinhos, minha tafulona, que eu hoje não estou bom!

A Maria Escolástica via-se em apuros, e, por mais tratos que desse ao juízo, não achava meio de desvencilhar-se da teia.

Pedro Gonçalo repetiu três ou quatro frases mais, carrancudo e mastigando as palavras surdamente.

— Ah! Não me pagas? Não me pagas? Pois passe-me o corte de cambraia!

— Quê!

— Dá cá a cambraia, Maria Escolástica! Vou mandar fazer roupa para mim!

— Você anda mal da bola!

— Dá cá a cambraia, mulher!

A rapariga, atemorizada por um gesto furibundo do implacável credor, entregou-lhe a fazenda que compunha as delícias de uma velha caixa de pinho.

No primeiro dia de festa, Pedro Gonçalo apareceu à porta de casa com um largo chambre de cambraia, através do qual viam-se-lhe os suspensórios flamejantes como dois raios cruzados!

Os habitantes do lugarejo, prevenidos por Maria Escolástica, receberam o vestuário original do sambista com uma homérica risada e uma palmaria digna da claque do mais turbulento teatro.

Desse dia em diante, Pedro Gonçalo ficou sendo Pedro Cambraia para os amigos e desconhecidos.

O apelido agarrou-se-lhe à pele como uma nova túnica de Nessus.

Às duas horas da tarde deu-se por pronto o alpendre, subindo ao ar uma ruidosa girândola no meio de gritos, ovações e vivas entusiásticos. O Pedro Cambraia não estava em si de contente; esfregava as mãos, esfregava os pés, esfregava o nariz com crescentes sinais de incomparável prazer.

José Paz aproximou-se ao grupo.

— Olá, Sr. Paz! Veja se falta logo com a Rosinha! — bradou o Cambraia.

— Nem pensar nisso é bom. A Rosinha diz que está um bocadinho incomodada, mas vem para a festa!

Várias vozes interpelaram o anfitrião:

— Você não deve se esquecer da gente dos Duros, Cambraia! Se a Rosinha viesse, o negócio cheirava melhor!

— Há de vir; por que não? Daqui a pouco vou convidar o Cosme Ribeirão.

— De Olinda, quem vem?

— O Teto...

— Viva! Ferve o samba hoje!

— Eustáquio, o Leopoldo, a Rita dos Prazeres.

— E a Justina miudinha?

— Diabo! Eu não posso me partir em cinco pedaços! Quem quer ir em um pulo aos Prazeres chamar o Manuel do Ó?

— Eu vou, so Cambraia!

— Assim, rapaz; serve para alguma coisa.

— A Fortuna disse-me que não faltava!

Chegava azafamado neste momento o Chico valente.

— O homem do violão já está falado, so Pedro! — disse ele sacudindo a cabeça donde jorrava o suor em bicas. — As duas guitarras também vêem; eu cá por mim já afinei as cordas e comprei outras no Ramos dos Duros! Flauta, nicles!

— Não faz mal. Em havendo guitarras, violão, maracás e botija. O filho do Neco toca botija!

O pequeno aludido conchegou-se ao bando, luzindo de felicidade. Um foguete esquecido subiu aos ares, estrondando majestosamente.

— Viva o Pedro Cambraia!

— Viva o Pedro Cambraia!

— Viva, minha gente, e viva Nosso Senhor Jesus Cristo também, que não se esquece dos pobres.

— Amém!

Rosinha, sentada na humilde cama, onde à noite invocara debalde as sombras protetoras do sono, deixava-se ir na torrente insondável dos seus desejos, das suas lembranças e das suas virgens aspirações, como um pássaro que abandona à correnteza da água as penas, uma por uma. A imagem de Adriano erguia-se adiante dela e abria-lhe os braços apaixonados; as últimas palavras dele soavam-lhe ainda aos ouvidos como os ecos de uma música terrível e meiga.

Estava jogada a principal carta de sua vida! Ela amava, a pobre rapariga! Amava com todos os sonhos e todas as ilusões de sua alma deslumbrada!

O ruído da bomba e os gritos festivos em honra a Pedro Cambraia despertaram-na de súbito e a conduziram à porta de casa. José Paz, de volta, dirigiu-se-lhe com um enorme sorriso na boca colossal.

— O Cambraia não quer razões, nem meias razões. Tu hás de ir à noite!

— Mas, meu paizinho...

— Está uma festa arrojada que faz gosto. Gente muita, e o Teto vem para o sanha. Ora, o Cambraia! Sempre acontecem coisas que fazem pasmar um homem!

Quem lhe diria a ele, que havia de tirar a sorte!

— Não é essa a felicidade! — murmurou Rosinha, como se repetisse as palavras de uma voz íntima e misteriosa.

Ouviam-se em repiques vibrantes os sinos da capela dos Prazeres.

— Sabes que há hoje um casamento nos Prazeres?

— Ah!

— A filha do Cândido ferrador com o José grande. Aquela há de ser sempre uma pequena de boa cabeça. O pai quis o casamento e ela zás! Não disse nem que sim nem que não!

Os olhos de Rosinha seguiram docemente o vôo dos coleiros, que se beijavam entre as louras espigas de milho, através da cerca.

Os repiques sucediam-se sem tréguas, e com uma energia miraculosa da parte do sacristão.

— A filha do Cândido nunca pôs pé no Recife, graças a Deus! — continuou José Paz, mirando de esguelha a filha. — O pai dela teve juízo, fazendo Nossa Senhora madrinha da moça! Por isso é que ela há de ser sempre abençoada pelo céu!

Rosinha ergueu os olhos úmidos e sorriu com a mesma dor com que os outros costumam chorar.

O matuto arrependeu-se e prendendo entre as suas a mão alva da menina,

— Estas tristezas todas hão de acabar um dia; não hão de, minha filha? Eu, palavra de honra, dava metade da perna direita só para não te ver mais aborrecida como andas!

— É meu gênio!

— Não é teu gênio, não! Foi aquela maldita!

E José Paz fechou a boca com a mão, sufocando o resto da frase imprudente.

— Sabes — prosseguiu ele — qual é o meio de te fazer alegre?

Rosinha olhou-o serena e terna-

— É seguires o caminho da filha do Cândido. Ainda ontem me disseram que as meninas tristes em solteiras mudam logo quando se casam.

A afilhada da milionária ergueu quase imperceptivelmente os ombros.

José Paz deu largas ao seu honesto pensamento:

— Eu cá por mim não era capaz de ir contra os teus gostos. Um rapaz trabalhador, honrado e bom que te pedisse...

— Deixe-se disso, meu paizinho.

— Era melhor — acudiu José Paz, ferindo intencionalmente as palavras — do que esses pelintras da cidade que procuram as moças pobres para desonrá-las e atirar com elas depois na estrada como um cachorro morto!

Rosinha cobriu-se de uma lividez mortuária e apoiou-se, para não cair, ao peitoril da janela.

Às sete horas da noite estava o alpendre ornado de lanternas de papel multicores e cheio de povo: velhos, velhas, rapazes, raparigas e meninos de toda a idade e feitio.

Afinavam-se as guitarras, afinavam-se os violões, as violas, as vozes e os pandeiros. Quatro ou cinco pequenos de botija em punho e faca erguida esperavam o sinal para acompanhar o fado.

O samba no norte é uma coisa digna de se ver. As toadas das cantigas em desafio prendem a alma e provocam os sentidos. Há certa poesia irresistível naquelas danças características entrecortadas de modas e trovas, que revela exuberantemente o mundo de sentimento da alma rude e ingênua do povo!

Minha gente venham ver
Minha prima o que me fez;
Trazia dois enganados
Comigo faziam três.

A pombinha vai voando
Com penas que Deus lhe deu:
Contando pena por pena
Mais penas padeço eu.

E lá vem, de vez em quando, uma quadra meter-se na harmonia geral como Pilatos no credo:

Plantei o roxo n'água
O encarnado na areia,
O amor que não é firme
Com qualquer coisa vareia.

Pedro Cambraia repartia-se pelos convidados com uma verdadeira elegância grotesca. Era para este um copinho de aguardente, para aquele um gole de zurrapa, para aqui um aperto de mão, um abraço para acolá etc. etc.

— Teto! Teto! — gritaram várias vozes enternecidas com a tintura da cana nacional.

— Ferva o samba, minha gente! Entra na roda, Teto!

Tertuliano ou Teto era um rapaz magro amorenado, como por lá diziam, de olhos vivos e cintura delgada. Morava em Olinda; mas na redondeza de 40 léguas não se começava um samba sem ele chegar. Dançava como um corisco, e pulava como uma cobra.

— Corta jaca, Teto!

— O passo da tesoura! O passo da tesoura!

— O caranguejo!

Teto entrou e lançou ao chão com uma agilidade graciosa e chapelinho de palha. Estava em mangas de camisa e trazia uma gravata de seda vermelha, que ondulava-lhe ao pescoço, como a bandeira inglesa no mastro grande de uma fragata! As guitarras gemeram; as facas atacaram as botijas, os violões e as violas uniram-se ao ruidoso concerto com as suas longas e plangentes notas:

Batam bem nessa viola,
Deixem as cordas quebrar
Que eu quero espalhar saudades
Quero penas espalhar!

— Canta, Justina miudinha!

A Justina fez um amuo, e um tenor de primo cartello, um tal Leopoldo, ofereceu o concurso de sua voz à empresa lírica:

Meu bem, não fujas de mim,
Repara bem que sou eu;
Eu sou aquele amorzinho
Por quem você já morreu!

— Justina! Justina miudinha!

Uma fresca voz de mulher respondeu ao Leopoldo:

Meu coração é fechado
Como a flor da mangabeira,
Ninguém conhece os segredos
Desta flor, desta trigueira.

— A parelha! A parelha, gente boa!

Formou-se a parelha em um abrir e fechar de olhos.

Quem perdeu o anel
Do dedo mindinho
Passe a mão pelo chão
Bem agachadinho.

Minha parelha é boa
Lá se vai!
Fecha o tempo, gente,
Deixa, vai!

José Paz perdera de vista a filha na confusão do povo. Os curiosos cercavam o alpendre de modo a tornar impossível qualquer movimento além da dança, para a qual se formara um circulo especial.

Rosinha abria em vão a alma àquela onda de harmonias selvagens, em que se embalaram felizes os seus primeiros anos. Nada a atraía já aos costumes de sua terra e às lembranças do seu inocente passado!

Os instrumentos calaram-se por alguns instantes. Pedro Cambraia bateu palmas e atirou-se à roda sapateando como um possesso.

— Bravo o Pedro!

— Viva Pedro Cambraia!

As guitarras, as botijas, os violões, os maracás e as violas começaram de novo com um ardor estupendo. Empenhou-se a dança em todas as fileiras; algumas raparigas gentis e formosas, convidadas urgentemente pelo anfitrião, moveram o talhe e amiudaram os passinhos como os jururutis na grama orvalhada do mato.

A noite estava tranqüila, estrelada e tépida que era um regalo. A lua derramava sobre os vales e sobre os campos o vasto lençol, úmido e transparente.

Os vaga-lumes abriam a asa na doce escuridão, e o vento bulia na copa frondosa das mangueiras, de cujas folhas curvas pingava, baga a baga o consolador orvalho da noite!

Pouco distante do alpendre, à sombra de uma copada aroeira, conversava duas criaturas: uma mulher e um homem, como criminosos que evitam a presença de alguém.

A voz do homem dizia tímida e apaixonada:

— E que me importa a mim, santa do meu coração, que me importa o mundo, a vida, o futuro longe de ti!

— Este amor há de perder-me! — suspirava ela.

— Este amor é o sangue do meu corpo e a luz do meu espírito. Olha para mim; assim. Como tu és bela Deus do céu! Parece que eu vejo nos teus olhos luzir a minha esperança tentadora e pura!

— Vai-te, vai-te! Podem ouvir-nos e encontrarem-te aqui!

— Não: ninguém me ouve, ninguém me vê, ninguém nos surpreenderá.

Cantava uma voz no samba:

Como correm sobre as águas
As penas do bem-te-vi,
Vôo minhas horas correndo,
Morena, por'mor de ti.

 
Este amor que me atormenta
Este amor que me consola,
Deixa cantá-lo meu bem,
Nas cordas desta viola.

Nas cordas desta viola
Hei de meu peito ferir,
Quando tu já não me amares
Posso deixar de existir.

— Deus me castigou no dia em que comecei a te amar. O que será de mim? O que será de mim, Virgem Santissíma, se tu me abandonares!

— Oh! Não fales assim, meu doce amor; o céu castiga se o repetires, porque é uma blasfêmia o que estás pensando! Eu nunca deixarei de te amar, e até, quem sabe se o destino me fará morrer a teus pés!

— Pelo amor de Deus, cala-te.

Este amor que me atormenta.
Este amor que me consola,
Deixa cantá-lo, meu bem,
Nas cordas desta viola.

A mais segura montanha,
Pode o tempo derribar,
Mas teu nome no meu peito
Não é capaz de apagar.

— Nunca farás isso! — murmurou a voz, suplicante e débil.

— Por quê? Encontras no mundo sacrifício maior que o teu amor?

— Mas é uma traição! Um crime contra meu pai, contra minha vida e contra Deus!

— E poderei suportar a ausência por tanto tempo? Ah! Mal compreendes os desesperos da minha saudade e os martírios do meu amor!

— Vem gente! — articulou ela, puxando-o vivamente para a sombra.

Não era ninguém; fora o ruído causado pelas asas de um bacurau medroso, que roçara na passagem os galhos da aroeira.

Ele prosseguiu dando à voz as modulações chorosas de um segredo ou de uma prece:

— Deixa-me, deixa-me ser feliz, um minuto, um segundo, um instante rápido como o pensamento ao menos! Não imaginas quanto minha alma precisa ser aliviada; como é digno de amparo este coração que agoniza por ti! Repara nas estrelas, na lua; bebe os aromas da noite amorosa e casta! Tudo ama, tudo crê, tudo espera, e tu fechas o ouvido à voz da minha paixão!

— Fala-me sempre! Sempre! Que esta boca perigosa e querida entre em toda a minha alma e mate-me enlouquecendo-me!

— Forma a roda, minha gente! — gritavam no samba. — lula, Teto! Eustáquio, então? Oh! Rita! Dindinha Rosa!

— Eu? — exclamou a velha assombrada. — Maiores são os poderes de Deus!

— Canta pr'aí, Fortuna! Raspa na botija, Catita! É lá, José Paz! Estás com cara de mal-assombrado!

— Rosinha! Rosinha!

Não te vás para tão longe,
Menina do meu pensar,
Que um cego de amor não pode
De tão longe te enxergar.

Respondeu a Justina miudinha:

Se para longe me vou,
É que vou atrás de alguém;
Vou seguindo a minha sombra,
Vou nos braços de meu bem.

— Rosinha! — chamava José Faz.

As raparigas procuravam-na arredando-se os grupos e apalpando-se todos os cantos.

— Ainda agora estava aqui! — observou uma delas.

Nesse momento apareceu a um lado, afastando a multidão, a pálida cabeça da filha de José Paz.

Os instrumentos atraíram de novo as danças e os cantos entusiásticos.

Os olhos de Rosinha febris volviam-se em torno de si.

Ao longe vibrava o surdo e fugitivo galope de um cavalo.

A voz de Leopoldo cantava:

Caiam flores uma a uma,
Seque o rio, acabe o mar,
Que eu não hei de te esquecer,
E nem deixar de te amar!

O galope do cavalo perdeu-se de todo, na distância.