A parasita azul/II

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A parasita azul por Machado de Assis
Capítulo II: Para Goiás


D’ahi a dias seguiam ambos para Santos, de la para S. Paulo e tomavam a estrada de Goyaz.

Soares, á medida que ia rehavendo a antiga intimidade com o filho do commendador, contava-lhe as memorias da sua vida, durante os oito annos de separação, e, á falta de cousa melhor, era isto o que entretinha o médico nas occasiões e logares em que a natureza lhe não offerecia algum espectaculo dos seus. Ao cabo de umas quantas leguas de marcha estava Camillo informado das rixas eleitoraes de Soares, das suas aventuras na caça, das suas proezas amorosas, e de muitas cousas mais, umas graves, outras futeis, que Soares narrava com egual enthusiasmo e interesse.

Camillo não era espirito observador; mas a alma de Soares andava-lhe tão patente nas mãos, que era impossivel deixar de a ver e examinar. Não lhe pareceu mau rapaz; notou-lhe porêm, certa fanfarronice, em todo o genero de cousas, na politica, na caça, no jôgo, e até nos amores. N’este último capítulo havia um paragrapho serio; era o que dizia respeito a uma moça, que elle amava loucamente, de tal modo que promettia anniquilar a quem quer que ousasse levantar olhos para ella.

— É o que lhe digo, Camillo, confessava o filho do commerciante, se alguem tiver o atrevimento de pretender essa moça póde contar que ha no mundo mais dois desgraçados, elle e eu. Não ha de acontecer assim felizmente; la todos me conhecem; sabem que não cochilo para executar o que prometto. Ha poucos mezes o major Valente perdeu a eleição so porque teve o atrevimento de dizer que ia arranjar a demissão do juiz municipal. Não arranjou a demissão, e por castigo tomou taboca; sahio na lista dos supplentes. Quem lhe deu o golpe fui eu. A cousa foi…

— Mas porque não se casa com essa moça? perguntou Camillo desviando cautelosamente a narração da última victória eleitoral de Soares.

— Não me caso porque… tem muita curiosidade de o saber?

— Curiosidade… de amigo e nada mais.

— Não me caso porque ella não quer.

Camillo estacou o cavallo.

— Não quer? disse elle espantado. Então por que motivo pretende impedir que ella…

— Isso é uma história muito comprida. A Isabel…

— Isabel?… interrompeu Camillo. Ora espere, sera a filha do Dr. Mattos, que foi juiz de direito ha dez annos?

— Essa mesma.

— Deve estar uma moça?

— Tem seus vinte annos bem contados.

— Lembra-me que era bonitinha aos doze.

— Oh! mudou muito… para melhor! Ninguem a ve que não fique logo com a cabeça voltada. Tem regeitado ja uns poucos de casamentos. O último noivo recusado fui eu. A causa por que me recusou foi ella mesma que me veio dizer.

— E que causa era?

— « “Olhe, Sr. Soares, disse-me ella. O senhor merece bem que uma moça o acceite por marido; eu era capaz d’isso, mas não o faço porque nunca seriamos felizes.” »

— Que mais?

— Mais nada. Respondeu-me apenas isto que lhe acabo de contar.

— Nunca mais se fallaram?

— Pelo contrario, fallâmo-nos muitas vezes. Não mudou commigo; trata-me como dantes. A não serem aquellas palavras que ella me disse, e que ainda me doem ca dentro, eu podia ter esperanças. Vejo, porêm, que seriam inuteis; ella não gosta de mim.

— Quer que lhe diga uma cousa com franqueza?

— Diga.

— Parece-me um grande egoista.

— Póde ser; mas sou assim. Tenho ciumes de tudo, até do ar que ella respira. Eu, se a visse gostar de outro, e não pudesse impedir o casamento, mudava de terra. O que me vale é a convicção que tenho de que ella não ha de gostar nunca de outro, e assim pensam todos os mais.

— Não admira que não saiba amar, reflexionou Camillo pondo os olhos no horizonte como se estivesse alli a imagem da formosa subdita do tzar. Nem todas receberam do ceu esse dom, que é o verdadeiro distinctivo dos espiritos selectos. Algumas ha porêm, que sabem dar a vida e a alma a um ente querido, que lhe enchem o coração de profundos affectos, e d’este modo fazem jus a uma perpétua adoração. São raras, bem sei, as mulheres d’esta casta; mas existem…

Camillo terminou esta homenagem á dama dos seus pensamentos abrindo as azas a um suspiro que, se não chegou ao seu destino, não foi por culpa do auctor. O companheiro não comprehendeu a intenção do discurso, e insistiu em dizer que a formosa goyana estava longe de gostar de ninguem, e elle ainda mais longe de lh’o consentir.

O assumpto agradava aos dois comprovincianos; fallaram d’elle longamente até o approximar da tarde. Pouco depois chegaram a um — pouso, — onde deviam pernoitar.

Tirada a carga dos animaes, cuidaram os criados primeiramente do café, e depois do jantar. N’essas occasiões ainda mais pungiam ao nosso heróe as saudades de París. Que differença entre os seus jantares dos restaurants dos boulevards e aquella refeição ligeira e tosca, n’um miseravel — pouso de estrada, — sem os acepipes da cosinha franceza, sem a leitura do Figaro ou da Gazette des Tribunaux!

Camillo suspirava comsigo mesmo; tornava-se então ainda menos communicativo. Não se perdia nada porque o seu companheiro fallava por dois.

Acabada a refeição, accendeu Camillo um charuto e Soares um cigarro de palha. Era ja noite. A fogueira do jantar allumiava um pequeno espaço em roda; mas nem era precisa, porque a lua, começava a surgir de traz de um morro, pallida e luminosa, brincando nas folhas do arvoredo e nas aguas tranquillas do rio que serpeava alli ao pe.

Um dos tropeiros saccou a viola e começou a gargantear uma cantiga, que a qualquer outro encantaria pela rude singeleza dos versos e da toada, mas que ao filho do commendador apenas fez lembrar com tristeza as volatas da Opera. Lembrou-lhe mais; lembrou-lhe uma noite em que a bella moscovita, mollemente sentada n’um camarote dos Italianos, deixava de ouvir as ternuras do tenor, para contemplal-o de longe cheirando um raminho de violetas.

Soares atirou-se á rede e adormeceu.

O tropeiro cessou de cantar, e dentro de pouco tempo tudo era silêncio no pouso.

Camillo ficou sosinho diante da noite, que estava realmente formosa e solemne. Não faltava ao joven goyano a intelligencia do bello; e a quasi novidade d’aquelle que uma longa ausência lhe fizera esquecer, não deixava de o impressionar imensamente.

De quando em quando chegavam aos seus ouvidos urros longínquos, de alguma fera que vagueava na solidão. Outras vezes eram aves noturnas, que soltavam ao perto os seus pios tristonhos. Os grilos, e também as rãs e os sapos formavam o coro daquela ópera do sertão, que o nosso herói admirava decerto, mas à qual preferia indubitavelmente a ópera cômica.

Assim esteve longo tempo, cerca de duas horas, deixando vagar o seu espírito ao sabor das saudades, e levantando e desfazendo mil castelos no ar. De repente foi chamado a si pela voz do Soares, que parecia vítima de um pesadelo. Afiou o ouvido e escutou estas palavras soltas e abafadas que o seu companheiro murmurava:

— Isabel... querida Isabel... Que é isso?... Ah! meu Deus! Acudam!

As últimas sílabas eram já mais aflitas que as primeiras. Camilo correu ao companheiro e fortemente o sacudiu. Soares acordou espantado, sentou-se, olhou em roda de si e murmurou:

— Que é?

— Um pesadelo.

— Sim, foi um pesadelo. Ainda bem! Que horas são?

— Ainda é noite.

— Já está levantado?

— Agora é que me vou deitar. Durmamos que é tempo.

— Amanhã lhe contarei o sonho.

No dia seguinte efetivamente, logo depois das primeiras vinte braças de marcha, referiu Soares o terrível sonho da véspera.

— Estava eu ao pé de um rio, disse ele, com a espingarda na mão, espiando as capivaras. Olho casualmente para a ribanceira que ficava muito acima, do lado oposto, e vejo uma moça montada num cavalo preto, vestida de preto, e com os cabelos, que também eram pretos, caídos sobre os ombros...

— Era tudo uma escuridão, interrompeu Camilo.

— Espere; admirei-me de ver ali, e por aquele modo, uma moça que me parecia franzina e delicada. Quem pensava o senhor que era?

— A Isabel.

— A Isabel. Corri pela margem adiante, trepei acima de uma pedra fronteira ao lugar onde ela estava, e perguntei-lhe o que fazia ali. Ela esteve algum tempo calada. Depois, apontando para o fundo do grotão, disse:

— O meu chapéu caiu lá embaixo.

— Ah!

— O senhor ama-me? disse ela passados alguns minutos.

— Mais que a vida!

— Fará o que eu lhe pedir?

— Tudo.

— Bem, vá buscar o meu chapéu.

— Olhei para baixo. Era um imenso grotão em cujo fundo fervia e roncava uma água barrenta e grossa. O chapéu, em vez de ir com a corrente por ali abaixo até perder-se de todo, ficara espetado na ponta de uma rocha, e lá do fundo parecia convidar-me a descer. Mas era impossível. Olhei para todos os lados, a ver se achava algum recurso. Nenhum havia...

— Veja o que é imaginação escaldada! observou Camilo.

— Já eu procurava algumas palavras com que dissuadisse Isabel da sua terrível idéia, quando senti pousar-me uma mão no ombro. Voltei-me; era um homem, era o senhor.

— Eu?

— É verdade. O senhor olhou para mim com um ar de desprezo, sorriu para ela e depois olhou para o abismo. Repentinamente, sem que eu possa dizer como, estava o senhor embaixo e estendia a mão para tirar o chapelinho fatal.

— Ah!

— A água porém, engrossando subitamente, ameaçava submergi-lo. Então Isabel, soltando um grito de angústia, esporeou o cavalo e atirou-se pela ribanceira abaixo. Gritei... chamei por socorro; tudo foi inútil. Já a água os enrolava em suas dobras... quando fui acordado pelo senhor.

Leandro Soares concluiu esta narração do seu pesadelo parecendo ainda assustado do que lhe acontecera... imaginariamente. Convém dizer que ele acreditava nos sonhos.

— Veja o que é uma digestão mal feita! exclamou Camilo quando o comprovinciano terminou a narração. Que porção de tolices! O chapéu, a ribanceira, o cavalo, e mais que tudo a minha presença nesse melodrama fantástico, tudo isso é obra de quem digeriu mal o jantar. Em Paris há teatros que representam pesadelos assim, — piores do que o seu porque são mais compridos. Mas o que eu vejo também é que essa moça não o deixa nem dormindo.

— Nem dormindo!

Soares disse estas duas palavras quase como um eco, sem consciência. Desde que concluíra a narração, e logo depois das primeiras palavras de Camilo, entrara a fazer consigo uma série de reflexões que não chegaram ao conhecimento do autor desta narrativa. O mais que lhes posso dizer é que não eram alegres, porque a fronte lhe descaiu, enrugou-se-lhe a testa, e ele, cravando os olhos nas orelhas do animal, recolheu-se a um inviolável silêncio.

A viagem, daquele dia em diante, foi menos suportável para Camilo de que até ali. Além de uma leve melancolia que se apoderara do companheiro, ia-se-lhe tornando enfadonho aquele andar léguas e léguas que pareciam não acabar mais. Afinal voltou Soares à sua habitual verbosidade, mas já então não podia vencer o tédio mortal que se apoderara do mísero Camilo.

Quando porém avistou a cidade, perto da qual estava a fazenda, onde vivera as primeiras auroras da sua mocidade, Camilo sentiu abalar-se-lhe fortemente o coração. Um sentimento sério o dominava. Por algum tempo, ao menos, Paris com os seus esplendores cedia o lugar à pequena e honesta pátria dos Seabras.