A recordação do passado

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A recordação do passado
por Eduardo Carlos Pereira
Publicado inicialmente em A Sensitiva, 21 de setembro de 1873.


Muitas vezes em nossos passeios, ao cair de uma blea tarde, por amenas campinas, respirando avidamente os aromas que nos traz a fresca brisa, já um tanto afadigados em uma das mão os olhos fitos em algum objecto, que todavia nenhuma impressão faz em nossas almas, afugentamos as trevas do passado com a brilhante luz do pensamento, e recordamo-nos paulatinamente dos tempos idos.

Neste desenrolar do passado, neste devolver do tempo, mutias vezes uma lagrima, assumindo a superfície dos olhos transborda e desfia-se silenciosa pelas faces.

O que significará esta lagrima?

No ancião, de fronte sulcada de rugas, de pele tisnada pelo ardente sol do tempo, de cabelos encanecidos, significa a saudade desse jardim florido, delicioso, que chamamos mocidade!

No mancebo, de olhar cintilante, de fronte febricitante, significa a saudade dos anos em que, infante, adormecia tranqüilo no regaço materno!

Este chora o tempo em que, deixando as faixas infantis, corria pelas areienteas margens de um queixoso ribeirinho, atrás da borboleta de asas douradas! Chora porque não goza mais das doces carícias de uma mãe! Chora porque o cruel destino tem, talvez, arrancado-o desapiedosamente dos braços de seus pais! Chora porque decerto necessita do vivificante calor do lar paterno!

Aquele voltando o seu batel, sulca as profundas águas do rio da vida, atravessa as espessas névoas de um passado longínquo, e entra, finalmente, em um campo esmaltado de flores; aí retração em sua memória dos acontecimentos de sua juventude. Lembra-se decerto que, tendo estado ausente por longos meses, voava ansioso a lançar-se nos braços dos autores de seus dias, irmãos e irmãs. Lembra-se também da amante querida, que lhe realizara os seus sonhos de ventura. Lembra-se de tudo isso e chora!... Chora porque a rosa de suas ilusões desfolhou-se, e em cada folha que caiu sofreu uma decepção! Chora porque seu coração sente açguma cousa e ei-lo que se expressa com sua eloqüente linguagem!

Quero passado seja alegre ou triste, quer semeado de flores ou espinhos, o grito é sempre o mesmo, ele é sempre recordado saudosaente, é sempre chorado!