A tacha maldita/VII

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A tacha maldita por Manuel de Oliveira Paiva
Septimo


I


A noite estava linda, mas escura.
Através das colunas elegantes
Dos coqueiros, que erguem verdejantes
Os zimbórios dos templos da espessura,

Uma constelação de luz fulgura:
Ora descendo às ervas rastejantes,
Misturadas de orvalho, cintilantes;
Ora subindo às faces de candura

Das morenas gentis da Fortaleza;
Ora esbarrando em férvida fogueira;
Ora mostrando a extensa e lauta mesa;

Ora metida, em ar de alcoviteira,
Nas cortinas de um leito de princesa,
Da festa a mais bonita e mais faceira.


II


E canta-se modinhas, de permeio,
Com a salva de palma estrepitosa,
Gemendo o violão à mão calosa,
Arrancando do peito ébrio gorjeio.

Tira-se par. Passeia-se bem cheio
Por dançar co'a menina mais formosa;
Mesmo porque a rosa é sempre rosa
E... bem vestido, moço algum é feio.

Aqui uma viva, e mais além um bravo.
Cumprimentos daqui, dali carícia...
— Pulo fora daqui qualquer malícia;

Pois que! Não pode a rosa ver o cravo? —
Afinal, se discute sobre escravo.
Rompe estridente a música da polícia.

 

III


No outro dia, encontrando o meu João
No Passeio, de noite, quinta-feira,
Lá fui a lhe dizer alguma asneira,
Uns parabéns e apertar-lhe a mão...

— Como está o Senhor? Não foi então
A nossa festa, ontem, quarta-feira?
— Dona Izabel, perdoe a ação grosseira,
Tenho estado doente do pulmão.

Parabéns, pelo belo matrimônio,
A ti, meu bom João. Sede felizes,
Jamais vos chegue ao peito o estramônio.

— Conhecemos da sorte os mil matizes:
De lzabel e João nunca o demônio
Senhor poderá ser, mesmo infelizes...