A tacha maldita/VIII

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A tacha maldita por Manuel de Oliveira Paiva
Octavo


           Mariana

E pois eu não dizia? O tal mulato João
É um grande patife, um grande safadão.
Fugiu da terra dele, andou por toda parte
Ganhando p'ra viver do fruto de sua arte.


        Marciana

Fugiu!!


        Mariana

E porque não!


        Marciana

        Cometeu algum crime?
De medo estou tremendo como um frágil vime!
Matou? Roubou? Feriu?


        Mariana

        Cousa muito pior!


        Marciana

Oh pobre de lzabel! Casar c'um celerado!
Que hei de fazer, meu Deus! Dizei-me por favor!
Valei-me, oh santa Mãe de Deus crucificado!


Mariana

Tarde piaste mísera, desgraçada avó!
Ai que não falo mais, está na garganta um nó!


        Chico

Mal venho eu chegando e vejo um tal berreiro?
Que quer dizer, pois, isto?


        Mariana

        É que o mulato João...
Marido de Izabel!... fugiu do cativeiro!


        Marciana

Ah!


        Chico

        D'onde?


        Mariana

        Da fazenda de um tal seu capitão,
Major, ou coronel da guarda nacional,
Um diabo qualquer! que reside em São Paulo.


        Marciana

        Mas quem lhe disse?


        Mariana

        Ouvi.


        Marciana

        De quem?


        Mariana

        No temporal
Que desabou de tarde, a venda do Gonçalo
Recebeu a dois homens desiguais na cor;
Um deles era João...


        Marciana

        Outro...


        Mariana

        Um libertador,
Que respondia assim ao esposo de Izabel:
— Ninguém lhe aconselhou para você fugir; —
Você foi se casar: pois vinho sem tonel
Não se deve comprar. Enfim vou lhe servir. —


        Marciana

        E depois?


        Mariana

Conversaram baixinho... depois
Passou enfim a chuva e foram todos dois.

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Havia de afinal, por cúmulo de desdita,
Manchar o sangue meu aquela desgraçada!
Manchaste o sangue meu, co'a tacha vil maldita
Hás de ser infeliz! neta amaldiçoada!...