Agora que entre candores

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Soliloquio de Me. Violante do Ceo ao Divinissimo Sacramento: glozado pelo poeta, para testemunho de sua devoção, e credito da veneravel religiosa. por Gregório de Matos
IV
Poema agrupado posteriormente e publicado em Crônica do Viver Baiano SeiscentistaOs Homens BonsPessoas Muito Principais
Mote

Agora que entre candores
a vosso amor dais a palma
escutai, Senhor, uma alma,

que por vós morre de amores.


1Todo amante, e todo digno
vos veio estar neste trono,
prestando ao amor de abono
quilates do ardor mais fino:
porém, Senhor, se contino
abrasado estais de amores,
entre tantos resplandores,
que por fineza ocultais,
vede, que nos abrasais
Agora, que entre candores.

2De amor tão qualificado
digo, ó cordeiro bendito,
que vos aclame infinito
tanto espírito elevado:
que eu vos não louvo ajustado,
bem que supra afetos d'alma,
pois meu amor nesta calma,
sendo do vosso vencido,
reconheço, que subido
A vosso amor dais a palma.

3Mas por amor tão subido
ouvi, como tenro amante,
este pecador constante,
que se chega arrependido:
seja de vós admitido
o pranto, em que se desalma
para crédito da palma,
que dais a vossos amores,
dos humildes pecadores
Escutai, Senhor, uma alma.

4Ouvi desta alma humilhada,
Senhor, um fraco conceito,
e é, que entreis em meu peito
a fazer vossa morada:
achareis de boa entrada
tormentos, ânsias, e dores,
que deram os malfeitores
em toda a vossa paixão,
e vereis um coração,
Que por vós morre de amores.