Ai Senhor, quem alcançara

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Soliloquio de Me. Violante do Ceo ao Divinissimo Sacramento: glozado pelo poeta, para testemunho de sua devoção, e credito da veneravel religiosa. por Gregório de Matos
VII
Poema agrupado posteriormente e publicado em Crônica do Viver Baiano SeiscentistaOs Homens BonsPessoas Muito Principais
Mote

Ai Senhor, quem alcançara
um bem tão alto, e divino,
que de meus ais o contino

a tais ouvidos chegara!


1Ai meu Deus, quem merecera
trazer-vos tão dentro d'alma,
que abrasado em viva calma
do vosso amor falecera!
Ai Senhor, quem padecera
por vós, e só vos amara!
ai quem por vós desprezara
tanta enganosa ruína,
e vossa graça divina
Ai Senhor, quem alcançara.

2Ai quem fora tão ditoso,
que soubera bem amar-vos,
e na ação de conquistar-vos
rejeitara o mais custoso!
quem, Senhor, tão sequioso
todo amante, e todo fino
elevara o seu destino
a beber da fonte clara,
que desta sorte lograra,
Um bem tão alto, e divino.

3Quem disposto a padecer
por vós buscara os retiros.
onde com ais, e suspiros
soubera por vós morrer!
quem sabendo comprender
desse vosso amor o fino
se elevara peregrino
por um amor de tal porte,
que me dera a melhor sorte,
Que de meus ais o contino!

4Só então fora feliz,
e fora então venturoso,
se conhecera ditoso,
que meus suspiros ouvis:
se minha dor admitis,
ditoso então me chamara;
oh se de uma dor tão rara
ouvísseis um só gernido,
e se um ai enternecido
A tais ouvidos chegara!