Ai quem tal bem merecera!

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Soliloquio de Me. Violante do Ceo ao Divinissimo Sacramento: glozado pelo poeta, para testemunho de sua devoção, e credito da veneravel religiosa. por Gregório de Matos
XX
Poema agrupado posteriormente e publicado em Crônica do Viver Baiano SeiscentistaOs Homens BonsPessoas Muito Principais
Mote

Ai quem tal bem merecera!
que de vós não se apartara!
ai quem melhor vos amara!

ai quem só em vós vivera!


1Ai quem bem considerara
na glória só de vos ver,
que abrasado em seu querer
salamandra vos buscara!
ai quem tanto vos amara,
que tudo por vós perdera!
ai quem por vós padecera!
ai quem já pudera ver-vos!
ai quem soubera queter-vos!
Ai quem tal bem merecera!

2Quem bem convosco se unira,
meu Senhor, e por tal arte,
que juntos em qualquer parte
um, e outro amor se vira!
quem tanto bem conseguira,
e quem tanto vos amara,
que um instante não deixara
de assistir-vos cuidadoso!
e quem fora tão ditoso
Que de vós não se apartara!

3Ai quem soubera adorar-vos
de tal sorte, meu Senhor,
que deixara o próprio amor
nas pertendências de amar-vos!
quem, a alma querendo dar-vos,
o coração não deixara,
que desse modo lograra
a glória, Senhor, de ver-vos!
ai quem soubera querer-vos!
Ai quem melhor vos amara!

4Quem morto se imaginara
nas glórias da humana vida!
vida em bonanças perdida,
vida, que a morte prepara:
ai quem tão só vos buscara,
que para o mundo morrera!
quem por ganhar-vos perdera
todas as glórias do mundo!
ai quem morrera ao imundo!
Ai quem só em vós vivera!