Alguns Homens do Meu Tempo/Ramalho Ortigão

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Alguns Homens do Meu Tempo por Maria Amália Vaz de Carvalho
Ramalho Ortigão


A Hollanda[editar]

Desde que eu li a Hollanda, e devo ao auctor a immerecida e lisonjeira distincção de ter podido ler um dos primeiros volumes publicados―desde que li d'um folego este livro, verdadeiramente encantador, sinto em mim o desejo, quasi que a necessidade de fallar a respeito d'elle.

Será que eu julgue auctorisada e util a minha apreciação?

Não, decerto.

O que eu tenho é o irresistivel desejo de conversar com esse numero mais ou menos restricto de amigos desconhecidos, que todo o escriptor, por modesto e humilde que seja, tem a certeza, de possuir, ácerca d'essa obra superiormente bella, e que, apezar d'um tanto phantasista me parece consoladora e sã, fortificante e boa.

Mas, se eu sentia em mim essa vontade persistente e tenaz, porque é que a não tenho realisado ha mais tempo?

Simplesmente pelo motivo, porque hoje mesmo hesito em o fazer.

Ha receios, que se não vencem senão a muito custo, tanto mais teimosos, quanto mais prolongado foi o tempo em que os deixamos actuar sobre o nosso espirito.

Depois ha livros suggestivos, que fazem pensar; que despertam em nós um turbilhão de idéas, de pensamentos difficeis de definir e de fixar bem, mas que tambem nos acordam contradicções que talvez pareçam ousadias, criticas que talvez o publico julgue pouco auctorisadas e, por isso mesmo, imperfeitissimas.

Estes livros seduzem-nos, captivam-nos, mas assustam-nos um pouco, como alguma coisa de poeticamente concebido e realizado, que fica para álem dos dominios reaes em que nos sentimos á vontade. A Hollanda pertence a este numero de trabalhos, felizes e perigosos, encantadores e um pouco falsos.

Parece um bom companheiro de jornada que nos arrasta, abrindo-nos a cada instante horizontes intellectuaes só intrevistos de muito longe, rasgando-nos amplas janellas para o claro espaço, despertando-nos, com as suas observações quotidianas, um mundo inteiro de sensações adormecidas, mas ao pé dos quaes uma pessoa se sente desconfiada, temendo o demasiado prestigio, de imaginação, o optimismo excessivo do viajante...

E no emtanto não é como muitos julgarão, uma simples narrativa de viagem; é uma obra de arte e de moralidade.

E n'este momento dubio e atormentado da nossa nacionalidade, momento que uns julgam de irremediavel decadencia, outros de vigoroso renascimento mental, este livro que nos conta com a magia incomparavel, estranha e captivante do seu estylo, a historia d'esse pequeno povo, muito mais pequeno do que o nosso, que á sua poderosa força de resistencia, que á sua intemerata energia deveu o grande papel que representa na historia da Civilisação, este livro d'uma factura tão magistral, affigura-se-me, apezar dos seus pontos de vista, nem sempre rigorosamente justos, uma obra eminentemente e grandiosamente patriotica, uma fecunda lição indirecta, um appello ao que ha de mais nobre e de mais reconditamente sagrado na alma de uma collectividade nacional.

É sob estes diversos aspectos que elle tem de ser julgado pela critica.

Eu, porém, não venho julgal-o, o que seria pretenção; venho simplesmente, como já disse, conversar a respeito da impressão luminosa e profunda que elle deixou em mim.

Ha muito que Ramalho Ortigão é considerado um dos melhores criticos de costumes, um dos melhores coloristas da moderna arte; sabia-se que a sua faculdade predominante, essa faculdade da qual, no artista, todas as outras derivam, e na qual todas as outras se filiam, era a de ver o aspecto exterior das coisas com uma nitidez, uma precisão, uma minudencia e ao mesmo tempo uma largueza de observação, que podem chamar-se verdadeiramente geniaes.

Ora ver em todas as suas formas multiplas, sob todos os seus aspectos variados, na complexidade das suas linhas, no relevo dos seus contornos, na harmonia da sua côr, uma porção de arte ou uma porção de natureza; e saber transmittir vigorosamente, originalmente as infinitas impressões recebidas pelos olhos ao espirito de quem o lê,―esta faculdade tão rara e tão estranhamente difficil, que constitue talvez um dom de temperamento impossivel de adquirir-se pelo estudo ou pela vontade, basta só por si para singularisar e caracterisar um artista, e é esta, sem duvida, a grande faculdade de Ramalho.

Nunca, porém, as suas qualidades de estylo se revellaram tão largamente, a uma luz mais ampla, mais bella, mais intensa, do que n'este livro que em todas as litteraturas seria justamente considerado uma obra bella, e que hoje, na nossa, é um verdadeiro milagre.

Na Hollanda o paysagista, o pintor que fixa na tela, com realidade triumphante, as suas impressões ainda as mais rapidas, o coração honesto e enthusiasta, que vibra, apaixonado, ao contacto de todos os bellos, grandes e puros ideaes humanos; o artista que se embriaga com os espetaculos sempre novos da Natureza, revellam-se egualmente com a mesma felicidade e com a mesma pujança dominadora.

O humorismo tão singular, d'uma tão contagiosa e communicatica influencia, que transparece habitualmente em todos os trabalhos de Ramalho Ortigão, esse não faz mais do que polvilhar finamente, aqui e acolá, com uma poeira diamantina e translucida, as paginas d'este livro, que marca uma hora de enternecimento dôce e de viril enthusiasmo na vida do escriptor.

Como faz bem ao espirito desconsolado pelo espectaculo do cynismo universal, da indifferença dissolvente, ironica e desdenhosa, esta nobre explosão de fecunda sympathia, esta nota de commoção penetrante, que se levanta, n'uma especie de impulso heroico, convidando á lucta, convidando ao trabalho, convidando aos gosos austeros que dá o accordar da consciencia, e tendo apenas a felix culpa de exaggerar um pouco o bem que viu, e talvez de carregar em demasia o mal que se presenceia diariamente na nossa pobre patria, bem digna de melhor sorte...

A ironia de Ramalho Ortigão, d'um relevo poderoso, d'uma subjugadora e victoriosa alegria, todos nós a conhecemos desde muito.

D'essa ironia, de que chispam relampagos multicores, fez elle a sua melhor arma de combate, contra a tolice, contra o erro, contra a vulgaridade, contra o ridiculo.

O que nós não sabiamos porém, é que elle, que pode rir assim, podia egualmente arrancar, pela commoção communicativa da sua palavra, em que o enternecimento põe modulações deliciosas, lagrimas aos nossos olhos, flores de poesia ao nosso coração.



Antes de mais nada, eu devo confessar que o meu temperamento, a minha indole, o feitio especial da minha imaginação, me tornariam absolutamente inapta para comprehender e admirar a nação hollandeza, senão vista e descripta pelos olhos peninsulares e pela phantasia tão eminentemente latina, tão colorida e illuminada, de Ramalho Ortigão.

Se eu fosse á Hollanda, voltava de lá, estou certissima, sem ter visto coisa nenhuma do que o illustre escriptor lá viu, a não serem, talvez, alguns d'aquelles primeiros aspectos, tão adoravelmente descriptos por elle, e em que, mais d'uma vez, a sua ironia deliciosa espreita sorrateiramente o leitor, como a avisal-o de que é necessario, apesar de tudo, contar sempre um bocadinho com ella, de que pode estar um pouco adormecida, levemente anesthesiada... mas que, emfim, está muito viva, graças a Deus, e não espera morrer tão cedo.

Cada vez me convenço mais de que ha antagonismos de raça ineluctaveis, visto que eu, depois de ter lido, verdadeiramente vibrante da feliz sensação de admirar, n'esse prazer de intelligencia que uma bella obra de arte nos produz, o livro de Ramalho Ortigão, me não decidi a fazer a minha malla, a pegar nos meus dois filhos pela mão, e a ir viver para todo o sempre na Haya ou em Amsterdam...

Não me decidi, não; não me decido, e era capaz de apostar que Ramalho Ortigão, apesar de ter voltado da Hollanda, como incontestavelmente voltou, moralmente fortalecido e engrandecido intellectualmente, rico de preciosissimas acquisições novas, que definem e accentuam largamente o seu progresso mental, ainda assim não deixaria, por ella, o nosso céo azul d'uma luz tão suave, o nosso clima amollecido e doce, a preguiçosa facilidade com que a vida nos emballa n'este cantinho de terra abençoado pela natureza, que o Oceano beija, lambe e acaricia, em cujas praias de areia dourada elle canta o seu grandioso canto de liberdade, mas contra o qual elle não investe em furia, obrigando o homem á eterna resistencia, á eterna lucta, á eterna e fatigante heroicidade...

O Oceano não foi para nós o mestre rigoroso, severo, exigente, implacavel, que disciplinasse a nossa alma e o nosso corpo no exercicio permanente de uma força e de uma tenacidade mais que humanas!

Elle imprimiu á nossa imaginação, ondulante e scismadora, a mysteriosa saudade que das suas profundezas desconhecidas se evola, com um effluvio de sonho!

Elle fez-nos os poetas de uma epopeia rapida, os aventureiros inconstantes de uma phantasiosa conquista.

Tambem a griffe d'esse leão indomado pousou na nossa alma nacional, mas que diverso o modo porque elle influiu em nós!

Bem sei que moralmente valem mais, incomparavelmente mais, as nações e os individuos que fazem o seu destino, que o subjugam, que o transformam, que o modificam, que o dominam, do que aquelles que o acceitam passivamente, n'uma inercia inutilmente contemplativa.

Mas, sob o meu ponto de vista feminino, que de certo não é o mais intrepido, que melhor não é deitar-se a gente ao sol, na areia luminosa, emquanto a vaga azul, coroada de espumas brancas, vem espreguiçar-se humilde aos nossos pés, vem lamber, vencida e cariciosa, a orla dos nossos vestidos, do que ter dia a dia, hora a hora, momento a momento, de disputar ao grande inimigo torvo, mysterioso, sombrio, que uiva, eternamente agonisante, a sua lamentação tragica, o sólo movediço e traidor sobre o qual construimos o nosso lar sagrado!...

É enorme, porém, bem o sei, a lição dada ao mundo por essa raça athletica e fleugmatica que a natureza educou, fortificou moralmente, e que ao mesmo tempo livrou do erro sympathico de ser imaginativa e cogitadora como nós.

Se ella, em vez de luctar com as temerosas ondas, se pozesse a contemplal-as de braços cruzados; se ella, em vez de indagar scientificamente os meios mais proficuos de vencer a permanente invasão das aguas, e de as aproveitar na cultura especial dos seus campos, se lembrasse apenas de fazer ao mar as odes mais soberbas e inspiradas, não existia já decerto, ou, se existisse, não tinha nem uma só das fortes qualidades que distinguem essa honesta, essa trabalhadora, essa robusta, séria e pezada Hollanda!

As nações são aquillo que as fazem as condições do seu sólo, os phenomenos do seu clima, a sua structura geographica, o temperamento e a origem da sua raça.

A Natureza, hostil, ensinou a esta o calculo, a previdencia, a tenacidade inquebrantavel, e tambem, deixem-me accrescentar, o frio e arido egoismo nacional; a humida vaporação eterna dos seus canaes e dos seus rios deu-lhe o amor intelligente dos interiores confortaveis, commodos e aquecidos, em que a Arte põe a sua nota soberba e luminosa, ou a bonhomia intima e doce dos seus aspectos; a lucta continua e ininterrupta para salvar do perigo a familia perpetuamente ameaçada, levou-a a sentir por esta um amor mais vivo, mais profundo, mais recatado e penetrante, ungido de protecção enternecida e de casto embevecimento, mas tambem um d'estes amores absorventes que não deixam logar para a sympathia universal, de que outras raças são superiormente inspiradas!

Todas as virtudes e energias, todas as bellas qualidades humanas e sympathicas, de que Ramalho Ortigão nos faz no seu livro a attrahente pintura, todos os defeitos tão graves que não quiz vêr, mas que existem n'ella, deve-os a raça neerlandeza justamente a essa tensão de vontade que ella exerce incansavelmente desde seculos, e que tanto lhe modificou a indole primitiva.

E apesar de eu sentir que ella nos é superior em tanta maneira, porque é que me não resolvi ainda a ter-lhe um bocadinho de affecto?

Não sei! É talvez um capricho de mulher, indigno de manifestar-se á luz do dia, irracional, como tanta cousa feminina; mas que eu teria escrupulo de não confessar aqui, com intrepidez heroica.

Não é na verdadeira Hollanda―não direi na Hollanda em carne e osso, mas em agua e lodo!―que eu gostaria nunca de viajar.

Na outra, sim. Na Hollanda de Ramalho Ortigão, n'essa fulgurante e magnifica Hollanda, tão deliciosamente phantasista, perco-me eu a cada instante n'um enlevo de admiração sentida, e é das suas paginas, coloridas como um quadro de Rembrandt, que eu tento dar, aos que as não leram ainda, uma idéa, posto que imperfeita, remota, incompletissima.



O estylo d'este livro é uma verdadeira festa para o ouvido, e direi mesmo para os olhos; tanto as palavras teem n'elle uma côr, um relevo, um encanto, estranhos e indiziveis. Ha periodos que são quadros.

Parece que o escriptor poz na sua palêta todas as côres, na sua pintura todos os tons, toda a luz do sol no objecto que contemplou.

Nunca a lingua portugueza adquiriu flexibilidade mais ondeante, energias mais dominadoras, graça mais sinuosa e mobil, ondulações mais serpentinas, rythmo mais harmonioso, poder mais intenso, vitalidade mais estranha.

Esta lingua, que modernamente poucos operarios teem affeiçoado para as exigencias multiplas e caprichosissimas da Arte contemporanea, tem nas mãos de Ramalho Ortigão umas docilidades de mulher do Oriente, uns langores submissos de escrava creoula, uma energia mascula, uma limpidez matinal, uma intrepidez heroica, um sabor vivo e são das coisas, que penetra o leitor do mais requintado goso intellectual.

Ha todas as notas n'esta orchestração soberba.

Dir-se-hia que esta prosa tem a cadencia melodiosa, o movimento rythmico do verso mais cinzelado e mais perfeito, do verso de Heine ou de Victor Hugo.

Como apropriadamente e obedientemente ella se cinge aos milhares de assumptos que trata e revolve! Philosophia, historia, politica, religião, costumes domesticos, costumes publicos, a Arte em todas as suas manifestações, a Natureza em todos os seus aspectos―tudo ella toca, tudo descreve e pinta, abraça, penetra e faz comprehender.

É simples e é pittoresca; é grave, comica e enternecida; é apaixonada e austera; tem a poesia meiga das coisas intimas; tem a adjectivação opulenta das descripções pomposas; tem a riqueza decorativa e a suavidade recolhida e casta; é transparente como uma renda de Malines ou de Alençon; é translucida como um diamante ou como uma saphyra; é fresca e diaphana como a neblina da madrugada; é perfumada como um cacho de lilazes; é rendilhada como uma joia da Renascença.

Ri, canta, chora, pinta, descreve, raciocina, fustiga; e sempre faz pensar, acordando dentro de nós o bando das idéas mal definidas e informes, que dormem, como pombas cançadas, no espirito de todo o ser que pensa e que soffre.

Eu tenho pena de não poder arrancar das paginas do volume alguns periodos, alguns trechos de prosa que me ficaram vibrando cá dentro como a melhor das musicas.

O livro abre com um capitulo de historia, intitulado―As origens.

Destaca-se d'elle, com uma nitidez viva de contornos, a figura poderosa e sympathica do grande revolucionario hollandez Marnix de Sainte Aldegonde, a quem, juntamente com Guilherme de Orange, o Taciturno, se deveu a definitiva formação e a independencia da patria, o homem que á frente da Liga dos Maltrapilhos resistiu a Filippe II, e impelliu a Hollanda no caminho da sua libertação nacional e religiosa, fazendo d'este pequeno paiz, d'uma heroicidade séria e reflectida, uma especie de vanguarda dos exercitos revolucionarios que conquistaram mais tarde, com tanto sangue e tanto martyrio, a liberdade do seu governo interno e a liberdade da sua consciencia.

Veem depois Os primeiros aspectos, a que eu já me referi. A verve encantadora de Ramalho esmalta adoravelmente algumas d'estas paginas.

Estes primeiros aspectos tem coisas engraçadissimas e que não esquecem mais.

Lembro-me de um verdadeiro drama que podia intitular-se a Venda de um repolho, passado entre uma creada de Amsterdam e um vendedor ambulante de hortaliças, em que a phrase, o movimento e a acção comica são incomparaveis.

Todo o feitio de observação especial de Ramalho se revela n'este capitulo caracteristico e vivido, para fallar á moda.

Os espantos do viajante recem-chegado são tão legitimos, nós partilhamol-os tão do intimo d'alma, que nos movem tambem, que nos agitam, que nos fazem morrer a rir. É toda uma Hollanda ratona, que surge, á flor da nossa imaginação.

O escriptor estava-a então vendo com os olhos do seu corpo. O sentimento, o raciocinio, a admiração despertada por uma longa serie de virtudes,―de virtudes moraes, de virtudes civicas, de virtudes patrioticas, de virtudes de toda a especie,―não tinha ainda irrompido violentamente de dentro do moralista que ha em Ramalho, tornando-o cego para todos os ridiculos, surdo para todas as notas discordantes. E os quadros succedem-se com uma vivacidade triumphadora, e a gente segue-os espantada do poder de realidade palpavel, que uma penna, correndo sobre uma folha de papel, pode ás vezes attingir.

Pouco a pouco, os olhos namoram-se da estranhesa imprevista de todos aquelles aspectos. O artista entrega-se inteiramente á novidade, á graça especial e desusada de que elles lhe apparecem impregnados; a curiosidade do espirito, eminentemente observador, acorda, atrahida por tantas revelações subitas d'um modo de vêr, de viver, de sentir, tão diverso do que elle conhece desde a infancia; e então o pintor, abstrahindo de comparações, de philosophias, de ideas complexas, que lhe transtornariam a limpidez perfeita do seu apparelho optico, pega da palêta, põe n'ella as côres mais finas, mais ideaes, mais delicadas, d'um esbatido mais doce, d'uma suavidade mais penetrante, d'uma fulguração mais radiosa e mais deslumbradora, e começa a pintar, á luz do céo da Hollanda, aquosa e esmaecida, as raças, as physionomias, os trajos, as figuras que destacam n'um meio pittoresco e caracteristico, os grupos que passam enlaçados, essa festiva, essa apparatosa procissão d'um povo em festa!

Vejam, por exemplo, este fragmento d'uma pagina consagrada ás mulheres da Frisa, que fica cantando no ouvido, como a estranha musica em que se fundem todas as graças melodicas de uma lingua opulentissima.

«As mulheres da Friza são de um encanto estranho. Muito altas, direitas, serias, caminham todas―as mais humildes, as mais obscuras―com uma magestade simples de princezas, e teem nas maneiras uma graça altiva, casta, ondulante e fria, que lembra a origem aquatica que se lhes attribue, como filhas de antigas sereias do Mar do Norte. Os pés estreitos, as mãos longas e afiladas, o pescoço alto, o busto vigoroso, o vestido preto, que todas usam, liso, cingido ao corpo, comprido, de mangas justas e curtas, completam a expressão eminentemente aristocratica d'estas figuras sacerdotaes de uma belleza quasi sagrada, como a dos marmores classicos da esculptura antiga.

«O toucado frisão de uma retrospectividade bysantina, envolvendo-lhes a cabeça em rendas e em placas d'oiro polido, imprime-lhes uma feição cultual, uma vaga analogia de sacrario e de altar. O tradiccional capacete, casco d'oiro em duas peças, semelhantes na forma a uma dupla cobertura destinada aos dois hemispherios do cerebro, cobre-lhes inteiramente o craneo; escondendo o cabello com uma austeridade guerreira, deixando apenas desvestido o espaço da fronte e o alto da cabeça envolto em renda branca. Algumas d'estas physionomias de donzellas são inteiramente insexuaes, de grandes olhos suaves, o rosto do mais correcto oval, o nariz longo e fino, a boca cortada n'um traço recto, innocente e calmo, sem vestigio algum do movimento e qualquer musculo em que vibrasse a malicia, o apetite ou o desdem, bellezas de uma serenidade gothica, não contaminadas pela nevrose dos seculos da analyse, errantes n'uma especie de somnambulismo nostalgico e anachronico, entre as paixões modernas, taes como os poetas contemporaneos poderiam apenas imaginal-as, brancas e frias, coroadas de boninas, com um livro na mão, esculpidas em alabastro e deitadas sobre um tumulo feudal, ou de escapulario de monjas, com a cabeça aureolada por um disco de luz, n'uma vidraçaria de cathedral entre as companheiras de Santa Ursula.»

Momentos antes―vejam o contraste!―Ramalho referindo-se á extravagante meticulosidade do aceio hollandez, tinha-nos feito, com a riqueza de vocabulario mais atroadora, uma descripção de todas as vassouras, espanadores, utensilios de limpeza que são indispensaveis ao mais humilde dos ménages, descripção que deve ficar positivamente como um modelo do genero!

É assombroso todo este capitulo, d'uma variedade de kaleidoscopo, ao mesmo tempo comico e pathetico, enternecido e alegre, pittoresco e philosophico, fazendo desfilar deante do nosso deslumbrado olhar, n'um delicioso capricho de magica, todas as scenas, todos os quadros, todas as visões e todas as idéas!

Nos Campos e Aldeias está na sua verdadeira especialidade o paysagista, o pintor, o homem que sabe vêr melhor tudo o que vê.

Eu, por exemplo, ia aos campos da Hollanda, e sahia de lá com a impressão indefinida, confusa e tristonha, de ter visto uma enorme planicie chata e verde,―um gigantesco prato de espinafres―sem accidentes de terreno, sem caprichos imprevistos de scenario, com muitos moinhos a cercarem-n'a e muitos rêgos de agua mais ou menos largos, mais ou menos profundos a desenharem por toda ella os seus xadrezes, d'onde se levantam, de madrugada e ao pôr do sol, humidas vaporações insalubres.

Ramalho Ortigão vê e faz-nos vêr, pelo encanto magico da sua penna que é um pincel, tudo que alli viram de vago e simples, de indefinido e penetrante, de terno e de melancolico, os grandes artistas hollandezes, os mestres incontestados e inexcediveis de toda a moderna escola de paisagem.

E o seu estylo opulento pinta as metamorphoses, as variações infinitas d'essa luz, as colorações prysmaticas d'esse ceu cheio de neblinas transparentes, as decomposições phantasticas das nuvens, a admiravel riqueza sintillante e tremelusente que os espelhamentos do sol põem nos lagos tranquillos e nos lympidos canaes, as harmonias do tom, as gradações infinitas do eterno verde, a calma doçura tranquilla,―tudo emfim que aos seus grandes amigos sinceros e eloquentes a velha natureza inspira, em todas as suas apparencias multiplas, em todas as suas transfigurações multiformes.

Ha n'este capitulo uma comparação entre a velha barca hollandeza, que elle chama o phantasma benigno da patria, a aquatica alma errante do paiz,―essa barca onde o hollandez navega paxorrentamente, levando comsigo a mulher, a pequenada, o gato, o cão e os passaros―e a nossa pittoresca e extincta falua do Tejo e do Douro, que me pareceu verdadeiramente encantadora.

E ainda aqui―que a Hollanda me perdoe!―eu prefiro a nossa falua, a nossa alegre falua, que a civilisação afugentou e inutilisou, essa falua onde tudo era pittorescamente meridional, e onde o arraes contava historias picarescas que faziam rir os passageiros, e lhes aligeiravam as horas de longa jornada, feita sem commodos de especie alguma, mas com luz, mas com sol, mas com a farta alegria da natureza a envolver e a illuminar por dentro a alma de uma pessoa.

A mim, valha a verdade, não me seduz muito nem a barca nem a falua, a não ser como ornato decorativo da paisagem. Mal por mal, em todo o caso, antes a falua, por que essa ao menos é animada e palreira, jocosamente expansiva!

Nas Cidades hollandezas, de um luxo tão intelligente, de uma riqueza tão racionalmente distribuida, em que a arte accumula os seus thesouros, a beneficencia as suas admiraveis instituições, a solida e bem entendida civilisação as suas escolas, as suas universidades, os seus institutos, os seus lyceus, as suas bibliothecas e museus, os seus jardins botanicos e de acclimação, os seus estabelecimentos de instrucção, de sciencia, de caridade, de commercio, de industria e de recreio, n'essas Cidades em que se condensa toda a vida intellectual da livre e laboriosa Hollanda, a alma do escriptor, tão moderno nas suas aspirações e nos seus ideaes, dilatou-se n'um impulso de robusta e fecundante alegria! Vê-se que elle admira aqui, sem esforço, sem idéa reservada ou preconcebida, a enorme expansão moral, mental, economica e artistica, d'este povo que merece um logar de honra incontestavel entre os povos modernos da Europa, d'este povo que, depois de crear pelo trabalho incessante, a sua riqueza enorme, fez d'ella um elemento de civilisação, de moralisação, de desenvolvimento nacional, de felicidade e de paz interior.

A pintura feita pelo brilhante escriptor de todas as instituições, pela existencia das quaes a Hollanda affirma a sua extraordinaria superioridade, como nação educada, como nação caridosa, como nação artistica,―é de fazer chorar de tristeza, de desalento e de inveja todo o portuguez que tenha um bocadinho de coração.

Comparar o que nós fazemos com o que esse povo tem feito, horrorisa!

Mas por doer, a lição nem por isso deixa de ser proficua.

Agradeçamos a quem nos aponta implacavelmente, serenamente, o pouco que nós somos ante a Civilisação, ante o moderno Ideal, e o muito que precizamos caminhar, para merecermos o nome a que ouzada e immerecidamente aspiramos.

Não é quem nos emballa e adormece com lisonjas banaes, tão mentirosas quanto inuteis, que é nosso amigo, e nos presta um leal serviço.

Ramalho Ortigão com este livro, que é um exemplo e um castigo, que é um incentivo, que é um grito de alarme lançado em meio da nossa preguiça, da nossa indolencia, da nossa empavezada e burgueza vaidade, fez, como eu já disse, mais do que uma obra bella, fez uma obra boa, de que nos cumpre aproveitar a utilidade immensa.

No meio das paginas inteiramente consagradas pelo auctor á descripção e á enumeração de todas as coisas feitas pela raça neerlandeza em favor do seu proprio engrandecimento, e da sua propria illustração, paginas que parecem escriptas por um Taine com entranhas e com alma, Ramalho interrompe-se por momentos, e n'uma lingua idylica e harmoniosa, n'uma lingua em que ha eccos de Shakespeare e visões de Ariosto, n'uma lingua que parece feita de gotas de luar e de raios do sol, de aromas indefinidos, de vagas scintillações fatuas, de vibrações de harpa eolia occulta entre os salgueiros, faz-nos a pintura palpitante, luminosa, musical, colorida, da Floresta da Haya, d'esse bosque sagrado que elle julga proprio para abrigar, na sombra estranha e dôce da sua densa ramaria mysteriosa, os amores profundos e tragicos, as sublimes paixões heroicas da lenda e da historia, o somno esquecido e calmo dos grandes deuses mortos, os divinos dialogos ardentes que os poetas puzeram na bocca dos seus amantes immortaes.

As casas e os individuos revellam-nos a delicada e fina efflorescencia que brota naturalmente do ideal religioso, moral, politico e artistico da raça hollandeza. Tal é o paiz, tal a familia.

Esta é sempre o reflexo do modo de sentir e pensar collectivo; e nunca á nação moralisada e instruida, livre, conscia e sabedora dos seus direitos e dos seus deveres, correspondeu outra coisa que não fosse a familia fortemente constituida, vivendo na ordem e no equilibrio dos sentimentos e das faculdades.

N'este ponto são bem mais felizes as nações protestantes, as raças saxonia e germanica, do que a nossa raça latina tão profundamente eivada da mais esterilisadora decadencia.

É que n'essas raças não existe tão profundamente accentuado o divorcio religioso entre o homem e a mulher; ahi, como frisantemente o faz notar o escriptor da Hollanda, embora, mais tarde, no seu livro de John Bull se contradiga n'este ponto, a religião é o facto culminante da familia.

A sagrada communhão do espirito existe entre todos os membros da mesma familia, entre todos os que se reunem, penetrados de affecto, ternamente aconchegados em torno do mesmo lar.

O chefe de familia tem, por assim dizer, a direcção espiritual de todos os seus; e elles acceitam livremente essa lei religiosa que lhes foi ensinada, d'um modo tendente a desenvolvel-os, não a amesquinhal-os e a a entenebrecel-os para sempre.

D'aqui provém a logica simples e sympathica de todos os seus actos e sentimentos. O drama deixa de existir como elemento natural da nossa alma e da nossa imaginação. O peccado não tem as mesmas excitações sensuaes, o cumprimento do dever é alguma coisa de mais serio, de mais sagrado e de menos complicado e contradictorio do que nos paizes catholicos, onde o padre, orgão da lei divina, ordena em geral o contrario do que o marido, orgão da lei social, exige e faz cumprir; onde a alma feminina vive entre a satisfação do desejo e os ardores do arrependimento, sempre oscillante, sempre inquieta, no eterno desiquilibrio, e na eterna vacillação enfraquecedora entre o bem e o mal, entre a culpa e a penitencia, entre o pequenino goso irritante de desobedecer, e o extase soluçante do confissionario, onde tudo se lava e se perdoa...

Ramalho Ortigão deixa entrever tudo isto sem o accentuar demasiadamente, limitando-se a fazer-nos entrar com elle em dois ou tres interiores que se lhe franquearam, e que elle pôde observar com a sua poderosa faculdade critica.

São adoraveis de bondade simples, de feliz contentamento, de paz serena e doce, estes interiores hollandezes, e ainda aqui, perante a superioridade da nação que estamos estudando, a nossa consciencia se curva humilhada, e a nossa alma se penetra de salutar inveja.

Todavia não nos deixemos ir completamente atraz do enthusiasmo, que tenta avassallar-nos diante d'estes quadros d'uma felicidade sem sombras, d'uma perfeição sem macula.

As paginas do humorista hollandez Dowes Slekker, que Ramalho cita,―talvez movido pelo remorso, que no fim de contas o punge de admirar sempre, de admirar incondicionalmente,―as paginas em que aquelle escriptor, mais na intimidade do seu paiz, da sua raça e do seu meio, do que o viajante que passa impressionado simplesmente pela seducção dos aspectos exteriores, escalpelliza duramente, e ferozmente os ridiculos e os vicios dos seus concidadãos, essas dão-nos a certesa consoladora ou cruel, consoante o ponto de vista em que nos collocarmos, de que a absoluta perfeição humana não é mais que um sonho radioso em que se entretem por momentos a nossa ambiciosa phantasia.

Em toda a parte a burguesia enriquecida e triumphante―e onde é ella mais triumphante e mais enriquecida que na Hollanda?!―hade ter os mesmos vicios, o mesmo egoismo desolador, a mesma ultrajante prerogativa de gosar, esquecida de todos os que soffrem!

Nas colonias, a fóra a parte technica, util pelas informações, pelos factos e pelos documentos de comparação que fornece aos competentes, o que a mim me agradou como artista foi a pintura da Batavia, foi essa invasão luxuosa e violenta da vida dos tropicos, da sua paisagem, da sua flora e da sua fauna; do ar feito de chammas, da vegetação monstruosa, da implacavel, soberba, subjugadora e invencivel natureza d'esses climas de mortifero encanto!

O ultimo capitulo da Hollanda intitula-se A Arte, e assim devia ser.

E pela arte que esse paiz tem principalmente direito a viver, venerado e querido, no espirito dos que pensam, e na alma dos que sentem. A arte é o disco luminoso que o cerca, é o nimbo em que elle nos apparece idealisado e engrandecido. A arte é a coroa suprema da sua realesa.

E depois a patria de Rembrandt e de Franz Halz justifica e faz comprehender a apotheose, o hymno de admiração enternecida que é este livro, elle proprio uma obra de arte, muito mais do que uma obra de critica.

Ninguem estava no caso de apreciar e de sentir melhor a arte hollandeza,―essa arte que teve, como nenhuma, a perfeição do detalhe na harmonia do conjuncto, a nota exacta na comprehensão larga,―do que Ramalho Ortigão, o escriptor que, no seu processo, realisa tão adoravelmente a formula naturalista d'essa inspirativa e grande escola, ante a qual os modernos se sentem ultrapassados e excedidos.

Pontos de vista notaveis, observações finas, analyse penetrante do assumpto, intuição maravilhosa de todos os segredos da arte―eis o capitulo que remata soberbamente este bello livro, d'um largo folego, d'uma ampla e serena inspiração.

O assumpto arrastou-me. Fui mais extensa do que tencionava, e ha n'esta critica um não sei quê audacioso na contradicção que a mim propria me espanta.

Julgarão os leitores menos benevolos que eu me arrogo os direitos de critica em assumptos de viagem e de arte que me são quasi extranhos.

E, no emtanto, no silencio do paiz, em face dos que tentam levantal-o trabalhando, ha uma desconsolação tão intima para a alma do escriptor, que a minha voz, por obscura que seja, tem, n'esta mudez geral, uma nota de sinceridade, uma aspiração de justiça, uma intenção de applauso, merecedôra d'uma certa indulgencia.

Não me arrependo de fallar, visto que se callam tantos que tinham direito de applaudir em alto e bom som.

Concluindo, repito o que já disse no principio do meu defeituosissimo esboço critico. Porque será que, apezar de tanta virtude sympathica e de tão nobre e levantado ideal, a Hollanda me impõe admiração sem me inspirar ternura absolutamente nenhuma?!

É porque sou meridional de mais para comprehender essa raça persistente, fria, fleugmatica e pesada, incapaz de expansão, incapaz de altruismo generoso, incapaz do dilettantismo intelligente, que eu tanto aprecio nos individuos e nas nações!

O que a elles, os bons hollandezes, lhes falta para me seduzirem, é a pontinha de febre, o grão de loucura, a chamma iriada e multicor que nós, a velha raça gasta nas exaltações e nos sobresaltos convulsos da nevrose que nos exhauriu a seiva, conservamos ainda na velhice que nos prostra... á sombra dos loureiros de outr'ora!

Elles teem a virtude e a força que dão a serena placidez, nós temos a agitação eterna e dilaceradora, á custa da qual se compram os requintados supplicios e as delicias de uma volupia morbida.

Nós conhecemos todos os martyrios, mas tambem todos os inebriantes gosos que dá a Imaginação. Nós buscamos na Dôr a suprema voluptuosidade sagrada, com que ella exalta e unge os seus dilectos, e não a trocamos pelas calmas e tranquillas alegrias d'essa boa gente pacata, pachorrenta, reflectida, egoista e séria, para quem a vida é um grato dever, para quem as scismas, as contemplações, as duvidas, os terrores phantasticos, são um accessorio inteiramente inutil, para quem o mysterioso alem-tumulo, que nos irrita e nos perturba, e nos chama, e nos allucina, e nos enche os labios de ironias blasphemas, e a alma de anciosas e ardentes interrogações, é uma certeza firme, accentuada, perfeitamente em regra, como um ramo de escripturação commercial?.....

O incognoscivel, que é a enorme região sombria, onde a nossa mente divaga attonita e deslumbrada, a elles nem os afflige, nem os preoccupa!

São felizes, no positivismo chato das suas ideias e das suas occupações! Nós somos os eternos mergulhadores do sonho, os eternos amantes da Visão! São felizes, nós somos loucos! mas eu amo a loucura com intermittencias geniaes, esta loucura com fecundos arrojos rapidos e apaixonadas ancias de um bem desconhecido, que escala o céu como o Prometheo do mytho hellenico, ou que se atira ao inferno, como o poeta que resume em si toda a sombria Edade Média!...

As Farpas[editar]

Tenho aqui, na meza em que escrevo, deliciosamente cartonado, o primeiro volume da nova e augmentadissima edição das Farpas.

Não entram n'este volume, que é todo de paysagens, aspectos maritimos ou campestres, scenas ruraes, costumes de aldeia ou de borda d'agua, de estações thermaes ou de pequenas villas provincianas―nenhum dos assumptos das antigas Farpas. Este volume é portanto inteiramente novo para nós, e não é tardia nem inopportuna a opinião da Critica a respeito d'elle.

Basta ter enumerado os capitulos que o compõem para se comprehender que o livro é delicioso. Não ha em Portugal quem, como Ramalho Ortigão, saiba vêr e saiba transladar para a sua prosa o aspecto exterior das cousas.

Para descrever uma paysagem, para pintar uma marinha, para nos dar a impressão nitida, precisa e firme, de um ou de muitos objectos, para desenhar, a traços inimitaveis de exactidão ou de pittoresco, a sillouette d'um monumento archeologico ou o fouillis encantador d'um salão moderno, é verdadeiramente incomparavel este escriptor, e não ha plasticidade egual á do seu estylo, em que á riqueza do colorido e á vida intensa se reune a technologia mais variada em todas as especialidades, fixando na encantador d'um salão moderno, é verdadeiramente incomparavel este escriptor, e não ha plasticidade egual á do seu estylo, em que á riqueza do colorido e á vida intensa se reune a technologia mais variada em todas as especialidades, fixando na memoria e no olhar a physionomia viva e real das cousas que elle pretende fazer-nos vêr.

Não é um psychologo, não é um devaneador.

É raro que elle se perca por um instante n'essa «floresta de almas», em que só vagueiam os apaixonados prescrutadores do invizivel, os sedentos de inacessivel Ideal, os interrogadores sombrios do eterno abysmo humano!

Elle, mais simples e mais são, prefere as largas estradas batidas de sol, em que a luz é intensa e fulgurante, em que as arvores parecem uma renda phantastica polvilhada de scentelhas d'oiro. Em quasi todas as organisações artisticas d'este fim de seculo, n'aquellas principalmente em que imperam a sensibilidade e a imaginação, ha um fundo de morbidez visionaria, uma tristeza indefenivel e inquieta, uma ironia dolorosa e triste, um desejo insaciavel de penetrar o impenetravel enyma do n Elle, mais simples e mais são, prefere as largas estradas batidas de sol, em que a luz é intensa e fulgurante, em que as arvores parecem uma renda phantastica polvilhada de scentelhas d'oiro. Em quasi todas as organisações artisticas d'este fim de seculo, n'aquellas principalmente em que imperam a sensibilidade e a imaginação, ha um fundo de morbidez visionaria, uma tristeza indefenivel e inquieta, uma ironia dolorosa e triste, um desejo insaciavel de penetrar o impenetravel enyma do nosso destino...


Ramalho Ortigão foge muito de preposito d'essas regiões vaporosas em que a flor azul do sonho desabroxa, a um luar doentio, as suas petalas ideiaes.

Robusto, equilibrado e são, ha n'elle um forte temperamento de artista, mas de artista que no seculo XVI teria podido desenvolver e exercer amplamente todas as suas faculdades, satisfazer o seu gosto do pittoresco, o seu amor do luxo, a sua preferencia pelas bellas coisas decorativas e espectaculosas.

Na Vida o que o interessa mais que tudo, é o colorido, a variedade, o brilhantismo, a graça, a correcção, a harmonia dos seus multiplos aspectos e das suas diversas formas.

A côr e a linha―eis os elementos que lhe bastam para a felicidade dos seus olhos, para as delicias da sua imaginação, para as necessidades do seu temperamento de artista!

Viajar muito, vêr muito, e pintar tudo o que vio, n'um estylo de colorista veneziano, com uma penna que é, ao mesmo tempo, escopro e pincel―eis a faculdade predominante d'este escriptor que, só errando a brilhante vocação que recebeu da Natureza, póde perder-se de vez em quando em abstracções philosophicas, sempre confusas, e em sabbatinas pedagogicas, sempre contrafeitas.

Elle não é um philosopho nem um educador das sociedades; é um artista! Abençoado quinhão o seu, incontestavelmente o melhor de quantos na terra se podem escolher!

Para demonstrar n'elle a superioridade do colorista, do pintor, sobre o philosopho e o critico, bastaria este volume de viajante, illuminado das mais bellas e radiantes paysagens, em que os aspectos ruraes, as marinhas, as scenas campestres, os quadros de aldeia se succedem, alegrando-nos a vista como um kaleidoscopo deslumbrador.

E eu não quero com isto dizer que Ramalho Ortigão, não seja um critico. Mas a sua critica, quando é superior, quando é frisante e verdadeira, é quando elle a executa pelo mesmo processo magistral de que usa nos seus livros descriptivos.

Então sim, porque a licção ressalta naturalmente do aspecto exterior das cousas.

A toilette d'uma lisboeta aperaltada; a mobilia aprumada e symetrica d'uma casa burgueza; a sessão d'uma assembléa constitucional; o interior d'uma botica sertaneja; a apparencia d'uma egreja de cidade em dia de festa, etc., etc., etc., dão-nos a impressão directa e viva dos sentimentos, que todas estas cousas traduzem ou com os quaes todas estas cousas se relacionam.

Pelos puffs exaggerados, pelos altos tacões dos sapatos esticadissimos, pelo chapeu inesthetico, pelo espartilho ridiculamente apertado, por todos estes deploraveis symptomas d'uma imbecilidade que já vem de muito longe, comprehende-se tudo que o escriptor nos quer demonstrar: falta de educação, falta de gosto, falta de modelos artisticos, pressão secular de influencias deleterias e funestas.

Pela regularidade fria e systematica d'um interior de burguez, que nenhuma scentelha de arte espiritualisa ou illumina, percebe-se naturalmente a comprehensão acanhada e restricta que elle tem da vida e do encanto profundo e moralisador da intimidade domestica; vê-se a inaptidão artistica que o afflige, a impossibilidade absoluta e fundamental em que elle está de crear uma existencia, praticamente agradavel e espiritualmente feliz, em que se fundam, n'um accordo sympathico, as exigencias requintadas da civilisação e as satisfações mais puras da vida moral.

E por aqui diante, o mesmo processo de arte dá para a intelligencia os mesmos resultados.

É este o segredo que individualisa Ramalho Ortigão e que faz com que sendo elle um artista plastico, por assim me expressar, seja igualmente um notavel moralista.

É indispensavel porém que o leitor tire dos quadros a moralidade que d'elles deriva!


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N'uma advertencia muito bem feita que precede o livro, Ramalho Ortigão diz que as Farpas, são escriptas n'um espirito de dilettantismo emancipador e desinteressado e pelo que vi n'um artigo lido hoje mesmo, a palavra dilettantismo não foi tomada pelo critico na accepção que o escriptor lhe dera; não é pois fora de proposito, que eu aqui explique um pouco ao leitor, qual o dilettantismo de que Ramalho Ortigão se diz inspirado ao traçar os capitulos bellissimos das suas novas Farpas.

No conflicto enorme, desordenado e confuso de theorias, de systemas, de doutrinas e de hypotheses, em que o seculo XIX tem baralhado os seus desgraçados filhos, cada questão tem tantas faces, cada phenomeno é contemplado sob uma tal multiplicidade de pontos de vista, cada verdade é tão ondeante, elastica e malleavel, cada doutrina tem tantos aspectos, cada theoria apresenta tal somma de nuances, que se vae pouco a pouco perdendo, nas altas regiões do pensamento, aquella especie de homens de uma peça só, systematicos até á teima, fanaticos até á heroicidade, obstinados até ao pyrrhonismo, que de cada ideia só viam um angulo, que julgavam que a verdade era só uma, e não podia ser encarada por diversos modos!

Esses homens, fanaticos, no sentido mais amplo da palavra, tinham uma fé ardente n'aquillo em que tinham fé! uma paixão profunda pela ideia que serviam, e por isso, arcando com obstaculos terriveis, que nós já não conhecemos, obraram grandes feitos de que nós já somos incapazes!

Em philosophia, em religião, em moral, ou em politica, estes homens iam para diante, altivos, intemeratos, um pouco obcecados pela sua crença no absoluto, mas por isto mesmo inacessiveis ás mil influencias que neutralisam a vontade moderna, e sem perigo de cederem ás correntes contrarias que hoje sollicitam, de tão diversos pontos, o pensamento que quer ser imparcial, o desejo de verdade que quer ser sincero!

Em contraposição a estes homens capazes d'um só amor e d'um só odio, surdos ás vozes todas que contradissessem o á priori do seu sonho, existe hoje uma raça mais doente e mais fraca talvez, mas sympathica na sua indecisão, e perfeitamente moderna no capricho ondeante da sua sensibilidade!

E é a esses que inspira e dirige o espirito de dilettantismo de que falla Ramalho Ortigão.

Diz pouco mais ou menos Bourget, o systematisador moderno do dilettantismo, fallando de Renan o mais genuino dilletante de quantos se conhecem modernamente, que é mais facil perceber esta palavra do que definil-a com precisão.

E accrescenta: «é menos uma doutrina que uma disposição de espirito a um tempo muito intelligente e muito voluptuosa, que nos inclina simultaneamente para as diversas formas da vida e nos leva a emprestarmo-nos, ora a uma ora a outra d'estas fórmas, sem nos darmos inteiramente a nenhuma d'ellas.»

Dilettantismo e doutrinarismo―eis os dois polos do pensamento do homem!

O espirito de systema tende a desapparecer da elaboração mental d'este seculo, e á proporção que elle affrouxa desenvolve-se e cresce essa extranha faculdade―que faz uma especie de Proteo de cada entendimento, e que tomando a vida como uma illusão universal que ora se faz ora se desfaz, ora se tece a oiro e perolas, ora se destrama, phantasticamente, substituindo a nudez mais completa á opulencia mais asiatica, acha a verdade d'um momento em cada fórma passageira que encontra debaixo dos olhos.

Comprehendendo d'esta fórma o dilettantismo acha-se uma faculdade superior, um dom que póde multiplicar os gosos intellectuaes pela multiplicidade de pontos de vista que nos revella. Não encontro, porém, no volume das Farpas que tenho presente, a applicação d'essa faculdade, eminentemente subjectiva.

O que eu encontro e saudo n'elle é a obra d'um artista para quem a lingua portugueza é o instrumento mais docil e o teclado mais vasto e mais sonoro, e em quem a visão das cousas é tão violenta e tão intensa que possue o milagre de communicar aos outros a sua privilegiada lucidez.