Ambições/IX

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IX


— «Visto isso, as festas encadeiam-se agora brilhantemente!? N’este diabo de terra é sempre assim. Passa a gente um inverno inteiro sem uma distracção que nos traga ao espirito refulgencias de luz, e depois vem as festas todas juntas, mal a elegancia da capital arriba a estas paragens... — dizia arrebicado, puxando os punhos engommados e estendendo o pé pequeno, calçado em botas de chagrin côr de tijolo, o Telles da botica nova.

D’um moreno terroso, magrinho, as orelhas a fugirem-lhe para a nuca, a pelle borbulhenta e quasi sem barba, fallando muito e depressa n’uma verbosidade saltante de nevrotico que se orgulhava de ser, assim como poeta incomprehendido, devorado pela Arte, — com A grande — e conquistador irresistivel.

— «É verdade, hoje e amanhã temos a romaria da Senhora do Monte, depois o pic-nic na Matta, e no fim, a coroar a série, o baile da viscondessa. Já tiveste convite? — respondeu o Vilhegas cavalgando uma cadeira, o chapéo molle deitado para a nuca e embrulhando um cigarro entre os dedos com minuciosa attenção.

— «Os Viscondes convidam me sempre, mas ainda não sei se os meus nervos me deixarão tolerar esse ruido.

Passava a mão pelos cabellos, encostando-se, nostalgico e sentimental, á secretária onde costumava escrever.

— «Homem, essa constante preoccupação é que te adoenta! Tens nervos como toda a gente; tens saude por sete, deixa te de manias.

— «Se eu não sentisse os terriveis symptomas que sinto!? O que quer dizer então este desespero de tudo e de todos, este odio ao banal que me torturiza e me distanceia da multidão, esta febre de movimento logo seguida das crises de passividade mais completa e absoluta?! Sou um neurasthenico, tenho a certeza.

— «Tanto pensas em sê-lo que te hasde tornar, isso é corrente. Mas eu não te largo, porque sem ti não vou ás festas.

— «Obrigadissimo por esse desejo, mas se eu não poder ir não vás tambem.

— «Isso é que é impossivel. A Hortensia vae e eu não quero faltar.

— «Não sei o que tu fazes com essa coisa! Casar com a Pillar, comprehendia-se, era a fortuna, era um futuro sem sobresaltos que preparavas; approvei a ideia desde que em Coimbra me contaste os teus sonhos de ambição.

— «Lembras te d’esse tempo, oh Telles? — perguntou o outro, a sério.

— «Se me lembro! Quando tu entraste pela porta dentro e me disseste que te matarias se te não emprestasse o dinheiro para a matricula!...

— «Era verdade. No ultimo anno, era a minha vida inteira que perdia! Quando penso!...

— «E afinal nunca se descobriu quem te roubou o dinheiro, pois não?

— «Nunca! O que diria o Antonio de Mello e meu pae e todos!?... Que eu tinha jogado, naturalmente. Ficava desacreditado! Salvaste-me a vida, crê.

— «Ora que ideia! Fiz o que tu ou outro qualquer faria no meu logar.

— «Fizeste o que poucos seriam capazes de fazer: pôr a tua casa, a tua bolsa, tudo quanto tinhas á minha disposição...

— «E tu não me pagas com amizade?!

— «E sincera que ella é: a unica grande amizade que tenho. A prova está em que não guardo um segredo para ti, não tenho pensamento que te não confie.

— «Ahi está o que desejo: como não tenho grandes ambições com as tuas me contento. E a proposito — que tolice é essa agora da Hortensia?

— «Então que queres? A Pillar era uma escada d’oiro para subir, esta é uma escada de corda, mas tambem por ella se trepa... Questão de tempo e de vontade. Metteu-se o diabo com aquelle negocio e foi um desastre!... Este é de mais trabalho, mas n’um paiz como o nosso tem tambem maiores vantagens.

— «Isso está muito bem, mas o que dirá a Candida? Não tencionas casar com ella?

— «Com ella, eu?!... Se a prima lhe tivesse deixado a fortuna, não digo que não.

— «Vê lá em que te mettes! Olha que essas mentiras e enganos não pódem dar bom resultado. Suppõe que a Candida falla...

— «O que hade ella dizer que a não comprometta mais do que a mim? Deixa, que ella não é tola e tem um medo ao João que a não deixa abrir bico. Além d’isso creio bem que desistiu da minha pessoa em favor da fortuna do Braga.

— «Pobre Braga! Paga na velhice todos os crimes da sua vida de avarento. Ella não tem escrupulos... Como tu cahiste na asneira de a namorar!...

— «Tu, que és o unico senhor d’este segredo, a perguntar-me isso! A culpada foi só ella.

— «Sim, eu sou o unico a quem o disseste, mas quem o diria á Pillar?

— «Não posso comprehender. Na minha vida dão-se coisas que eram para fazer succumbir outro de menos coragem.

— «Seria a propria Candida?

— «Cheguei a pensar isso, mas pelo susto da ultima hora convenci-me de que não foi. A Engracia é que talvez desconfiasse... Não sei! Acautellava-me tanto...

— «Foi um desastre. A Pillar gostava de ti a valer.

— «Isso!...

— «Era o menos para ti, homem pratico, mas era alguma coisa.

— «Já passou o tempo do teu amôr e uma cabana... Não se compra nada com essa moeda.

— «Mas quando se allia a fortuna ao amôr é a felicidade na terra.

— «Homem, já parece estylo de noticiarista!

— «Faze troça, faze... Mas, emfim, com essa vá, comprehendia que sacrificasses a tua liberdade, agora com a Hortensia que não tem vintem!...

— «Vocês, os poetas, não sabem nada da vida. Pois uma protecção como a do Maximiano Carneiro não vale uma grossa fortuna? Deixa me casar com ella e tu verás como me hasde ver deputado, chefe de repartição, director de companhias, ministro, sei lá!... Tudo.

— «Tu? mas como?

— «Pois o Maximiano, que tem empregado a familia inteira, que tem criado logares para simples parentes da mulher, para amigos, para influentes do bairro, pode-se dizer; o Maximiano, que custa ao país com a sua parentella e afilhados mais de um conto de réis por dia, não ha de pôr toda a sua influencia e esperteza em campo para fazer subir o marido da filha?...

— «Talvez tenhas razão.

— «Já se vê que tenho.

— «Bom, isso é que eu desejo. Mas tu gostas da pequena?

— «O bastante para me divorciar sem desgosto, se me fôr preciso.

— «Tem graça! És impagavel!... — E ambos desataram a rir, n’um gosto franco de rapazes que se divertem com futilidades.

— «Agora outra coisa, — disse d’ahi a momentos, quando já acalmado o riso, o Telles: — o que me dizes áquella inglezita que veio com a Viscondessa, será rica?

— «Creio que não. A Hortensia disse me que é filha d’um trampolineiro que, depois de ter roubado meia Lisboa, fugiu para o Brazil. Ella foi educada com um tio riquissimo e inglêsmente excentrico. Parece que lhe não deixa nada porque ella até veio para aqui por estarem mal.

— «Essa é que é interessante e bonita, d’uma graciosidade de bibelot, um verdadeiro encanto physica e intellectualmente. Vou fazer-lhe a côrte, tu que dizes? Tenho bastante para me conceder a extravagancia de casar por paixão.

— «E passares a vida a dedilhar a lyra. É bonito, mas pouco substancial. O que me parece é que o João te toma o passo...

— «Ora! Entre mim e o João não pode haver hesitações para uma mulher intelligente como ella é.

— «Pois se queres começar o cerco vamos até á romaria.

— «E eu que os acompanho, disse da porta o Padre Mathias que entrava precisamente na occasião.

— «Olá, caro bispo, por aqui?! Com todo o gosto o levamos na nossa amavel companhia — respondeu expansivamente o medico, querendo já tornar-se popular á moda do Maximiano. — Sabe se o conselheiro já foi?

— «Venho agora de lá, tinham o carro á porta.

— «Sempre vieram os taes hospedes?

— «A baroneza d’Amieira, veio. E muita gente tambem para casa do Visconde. Este anno vae ser animadissima de concorrencia selecta a nossa romaria.

— «Pois vamos nós tambem até lá. Anda d’ahi, oh Telles, chama o rapaz e entrega-lhe a chave.

Dadas as ordens de patrão e recommendado tudo ao rapaz que servia ao pharmaceutico, dirigiram-se os tres para o largo á procura de carro que os levasse até lá cima, á capella da Senhora do Monte, que se destacava cheia de luzes no fundo escuro do céo.

Era desusado o bulicio em toda a terra e estradas da redondeza pois a romaria annual da Senhora do Monte tinha fama de ser a melhor da provincia. Com a civilisação que trouxera as diligencias e os comboios a preços reduzidos, perdêra talvez um pouco d’aquelle caracteristico verdadeiramente popular que a tornára das mais falladas e rendosas; começava a accentuar-se na villa o elemento burguez com suas mirabolancias de gostos e desdens pelo povo, que por lhe estar perto na origem cuidam affastar deixando de o comprehender.

Pelas estradas era ainda povo e bem portugues e regional o que cantava e dançava em ranchos, ao som da viola e dos ferrinhos.

Os carros de bois com suas pipas enramalhetadas, passavam para se irem collocar no sitio onde seriam esvasiadas pelos amadores da bôa pinga até que o carroceiro e vendeiro as levantasse n’uma exclamação de triumpho; e outra viria, e outra depois, fazendo — quantas vezes! — com que o vinho espumoso se tornasse em sangue rubro n’alguma d’essas richas de romarias e feiras em que ninguem tem razão, nem culpa... senão as pipas enramalhetadas que sobre os carros de bois são esvasiadas copo a copo.

Os pequenos negociantes da limonada, com as mesas á cabeça, mais as mulheres dos bolos e do pão corriam açodados para apanhar o melhor sitio da venda; e por toda a terra se sentia esse fremito de enthusiasmo que trazem as festas que estão bem dentro da alma e dos costumes d’uma população.

No largo da Fonte não havia quem se entendesse á procura de carros; a villa em peso ia para o fogo, e achavam de somenos importancia percorrer aquelles tres kilometros a pé, por entre o povoléo; mas o padre Mathias tinha conhecimentos e influencias e depressa arranjou uma carriola que levou os tres pela estrada nova em seguimento do char-à-bancs onde os Maximianos se tinha resolvido a acamar, como sardinhas em canastra, não tendo maneira de arranjar mais carros.

Como tinham combinado, João e Bella apearam-se na bifurcação dos caminhos e deixaram que a Viscondessa e a Candida, o dr. Ramalho e o Visconde, continuassem em carruagens pela estrada nova, com os mais hospedes, vindos propositadamente para assistir ás festas, e seguiram elles pelo caminho velho.

Subiram depois as escadas de pedra que se espreguiçam serra acima em largos degraus orlados de sobreiros seculares e capellinhas brancas em cada patamar.

Todo o campo estava cheio de gente, e desde a villa que um vozear surdo, como de mar batendo ao longe na penedia da costa, chegava aos ouvidos.

Grupos alegres estendiam-se pelo chão, chalaceando para espantar o somno, á espera do fogo d’artificio, outros dormiam já, no costume das noites começadas logo ao pôr do sol.

Os pobre aleijados e esfarrapados, começavam aqui e alli a escancarar as suas miserias, supplicando em vozes ladainhentas cinco reisinhos para tamanha desgraça... De tempos a tempos, para entreter o povinho, um foguete de lagrimas enchia o céo d’estrellas multicôres e abria todas as boccas n’um prolongado oh! admirativo.

Bella ia subindo ao lado de João, divertindo-se em observar esse «vivo muzeu ethnographico,» como ella dizia.

Achava graça a tudo, e parava a cada passo para ouvir uma cantiga ou vêr um rancho de raparigas a dançar. Desde o primeiro degrau, que começára a dar dinheiro a todos os mendigos, a comprar bonecos de pão e bugigangas sem importancia, só pelo prazer de comprar, de ter muita coisa que lhe recordasse mais tarde aquelle espectaculo novo para os seus olhos de quasi extrangeira.

Por mais que João lhe dissesse que era muito lá em cima, no alto do monte, no terreiro da capella, que a verdadeira feira se juntava, ella não queria crer que fosse mais pittoresco.

A noite puzera-se escura e quente, com relampagos de calor para as bandas da Serra.

Á maneira que iam subindo, a multidão dos romeiros ia augmentando, apertando-se n’uma gritaria, n’um desmancho e rudesa que quasi a allucinava, a ella que nunca estivera tanto em contacto com o povo.

Insensivelmente tomou o braço que João desde o principio lhe offerecêra e ella recusára na independencia orgulhosa de rapariga habituada a andar só.

Caminhavam difficilmente, empurrando a multidão que se entrechocava subindo e descendo pelo pequeno espaço deixado no meio das escadas pelas vendedeiras e mendigos.

Raparigas com lenços cahidos, os chales atados á cinta, as chinellas de côr com biqueira de verniz preto, riam alto, saracoteavam-se e fallavam mais desembaraçadas e vivas do que os homens que as seguiam. Esses, com chapeus braguezes enfeitados com imagens da santa, bonecas de pão e flores de papel, desciam deitando o tronco para traz e firmando-se bem nos sapatos de salto de prateleira e no varapau, cambaleantes, como se o habito de andar dobrados sobre a enxada lhes tirasse o de andar verticalmente.

Por entre a multidão festiva, amortalhadas de branco, pobres raparigas que a morte tinha poupado, iam depôr aos pés do altar onde morava a esperança da sua crença, com as tranças dos cabellos as ultimas lagrimas do seu piedoso reconhecimento. Penitentes, homens e mulheres, novos e velhos, com velas na mão, amparados por amigos e parentes seguidos pelos olhares respeitosos de todos, subiam de joelhos ou de costas os trezentos e tantos degraus de pedra, cumprindo promessas, quem sabe de quantas lagrimas feitas!...

— «Oh João, como é possivel que isto se faça e se consinta!? — dizia Isabella nervosa, apertando-lhe o braço quasi phrenetica.

— «Pois não se havia de consentir a consolação d’uma tão grande fé?

— «Fé?! Não diga isso. É ignorancia, fanatismo, loucura a d’estes desgraçados que nenhuma luz de razão illumina. É maldade da parte das leis e dos seus encarregados, deixar ao povo, que não tem liberdade para coisa alguma, liberdade para este horror... Subâmos depressa; ainda falta muito? O caminho parece-me hoje mais comprido...

— «É porque está aborrecida e cançada do barulho. Sentêmo-nos um bocadinho, quer?

— «Pois sentêmo-nos, mas alli mais no escuro, onde houver menos passagem, que sinto a cabeça esvaída.

Sentaram-se fóra da escada, sobre umas pedras, na sombra d’uma capella.

Ao lado d’elles e por toda a parte empurravam-se — fallavam, riam, apregoavam ou dormiam centenas de pessoas que assim se julgavam felizes, emquanto Isabella se sentia triste, — d’uma pungitiva tristeza que mais a encommodava por lhe vir assim, tão contra sua vontade e espectativa.

— «Estou arrependido de a ter acompanhado n’esta estravagancia, porque é uma verdadeira estravagancia, que devia prever a encommodaria deveras.

— «Porque? Estravagancia e desusada em mim, é isto. Pois que tenho eu de mais ou de menos para não sentir como elles, para não me divertir da mesma maneira, para me encommodar até o contacto d’esta bôa gente, que é portuguesa como eu, nascida sob o mesmo céo?!...

— «Miss Bella é um pouco mais inglesa....

— «Oh, mas muito pouco, quasi só pela amizade que dedico a meu tio. Mas sou toda portuguesa pela alma. Que differença ha pois entre nós?

— «A educação, minha senhora.

— «Que despresivel coisa ella é, para assim nos distanciar dos nossos irmãos!

— «Pelo contrario, que supremo ideal, que divina conquista do espirito sobre a materia... O que me differenceia a mim filho d’um homem nascido no povo, d’esses que por ahi se estendem sobre as urzes a dormir pezados somnos d’inconsciencia? Se meu pae continuasse a guardar ovelhas até homem e depois se agarrasse ao cabo da enxada, como os irmãos e parentes que por ahi ficaram, o que seria eu mais do que elles?!

— «Tem razão, comprehendo que deve ter razão; mas que quer? Eu esperava outra coisa, alegrias novas para o meu espirito na aproximação do povo, que só conhecia dos livros. Cheguei a sentir a sensação de que sonhava, de que me esmagava um pezadello. Agora estou melhor, podemos continuar.

— «Quando quizer.

Apezar de toda a sua boa vontade, Isabella não podia vencer o mal estar que lhe causava sempre o contacto com a multidão, e que sentira como nunca n’essa noite de festa; e foi, silenciosos, quasi tristes, que continuaram a subir por entre os vendedores e vendedoras que os disputavam uns aos outros, mostrando-lhes, uma a canastra de pão alvo, descobrindo outra a toalha de largo crochet para que vissem os loiros bolinhos d’ovos, ou mettendo-lhes á cara as bonecas de centeio cobertas de assucar, ou puxando-os para que escolhessem um cravo com verso ou uma imagem da Senhora, que era reproduzida infinitamente com o mesmo immovel sorriso d’imagem, a saia e o manto em balão e o menino nos braços... Foi quasi uma batalha vencida quando conseguiram chegar ao primeiro terreiro onde as barracas se enfileiravam como um acampamento: as do peixe frito á direita, com o vinho ao lado, e atraz as melancias em monte, as de quinquilharias sempre cheias de compradores, as mezas com os bolos e limonadas, os ourives estatelando sobre empoeirados cartões forrados de velludilho preto os cordões, as arrecadas e os anneis, ambição suprema das raparigas casadeiras.

Os assobios e os gritos guinchavam e estridulavam de todos os lados, punham uma nota de inconcebivel desafinação por sobre aquelle vozear ensurdecedor, onde mal se distinguiam as cantigas e os toques.

Bella parou, n’um assombro. Nunca os seus limpidos olhos azues tinham visto coisa que se assemelhasse á loucura d’esse remecher de gente que berrava e folgava de mil maneiras, sob a luz desegual e fumarenta dos candeeiros de petroleo sem vidro, n’uma alacridade verdadeiramente animal. Kermesse barulhenta e nocturna, que assumia por vezes, pela sua intensidade e desmanchamento, as proporções d’uma allucinação de sabbat.

Fechava os olhos e continuava a ver as boccas escancaradas que riam alvarmente e fallavam uma lingua que parecia desconhecida; tapava os ouvidos e a memoria reproduzia-lhe a mesma musica descompassada dos assobios e pequenos instrumentos rudimentares que enchiam o arraial, os pregões da agua fresca, a offerta persistente dos vendedores...

João arrastava-a, n’um atordoamento de inconsciencia, pela rua dos ourives, menos concorrida, e por onde lhes seria mais facil chegar junto da Viscondessa, que os esperava no terreiro da igreja em coreto reservado, expressamente feito para a occasião. Quando alli se viram, um suspiro d’alívio lhes alevantou o peito n’um tomar fôlego de quem atravessou a nado, e com perigo de vida, um rio caudaloso.

A Viscondessa fazia as honras do coreto com a mesma simples e nobre lhaneza — sem uma falsa amabilidade de burgueza que quer agradar, nem distracções prenunciadoras de pouca consideração — com que recebia na sua casa, á Lapa, tudo que Lisboa considera elegante e distincto.

Escutava, como se isso lhe fosse d’um grande interesse, o bisbilhotar das Sr.ᵃˢ Rebellos — muito importantes, com suas luvas d’algodão cinzento e vestidos côr de mel bordados a seda — que lhe desfiavam a historia de quantos lhes passavam ao alcance da vista.

Respondia ás perguntas impertinentes dos hospedes lisboetas, dispostos a troçar a provincia; conversava com o dr. Ramalho ou com o velho abbade, que ás romarias já não ia senão para estar de palanque, dizia.

A Candida, a um lado, escutava os galanteios cada vez mais insistentes do Visconde e animava com sorrisos as tolices do Braga, que passára ao estado de suggestionado permanente, tendo ainda monosylabos animadores para um dos elegantes da capital que punha o monoculo e fazia uma careta a cada phrase que julgava de effeito seguro.

Defronte, em coreto semelhante, os Maximianos recebiam tambem os seus intimos, teimando em disputar aos viscondes primasias de ostentação e popularidade á custa de dividas e de favores feitos com a politica.

O Vilhegas inclinava-se sobre o hombro da Hortensia, que se voltava n’um sorriso triumphante torcendo o esguio pescoço de chlorotica; fallavam com intimidade de noivos...

Mas o Telles, mal descobriu o vulto esvelto de Izabella, que conversava em pé com o dr. Ramalho e com João, apressou-se a ir comprimenta-los, perguntando com ar de superior: — se ella se não sentia mal entre a bruta multidão, que a elle lhe fazia tanger os nervos n’um desespero de quem se sente perdido entre animaes d’uma outra especie. E ainda havia quem dissesse que as almas eram eguaes; nem que a sua se parecesse com a d’aquelles selvagens!...

E Bella, que contava ao doutor a dolorosa impressão que sentia no meio d’uma alegre multidão que não correspondia a nenhum dos seus sentimentos e gostos, voltou-se para o pharmaceutico e respondeu n’um ligeiro tom de ironia, que o não magoava porque a tola vaidade a fazia receber como verdadeira: — «Selvagens, não! Por não terem o talento e a cultura do sr. Telles, não os poderemos chamar assim!... É o povo, na sua inconsciencia e rudeza, dando-nos um espectaculo verdadeiro, humano, superior pelo colorido e espontaneidade ao que a multidão dos civilisados nos dá por vezes.

João sorria intimamente satisfeito por a ver tratar assim o Telles, que detestava, por o saber amigo intimo, quasi irmão do Vilhegas, connivente porventura no crime que imaginava, e pelos ares de artista neurasthenico e raro que elle affectava.

— «O quê — respondeu elle passando os dedos abertos pela cabelleira de romantico, n’um gesto familiar — pois V. Ex.ᵃ não acha brutal, não sente que os seus nervos se crispam, que o seu espirito delicado se confrange n’esta feira franca de vulgaridades?!...

— «Não, sr. Telles! Em primeiro logar porque os meus nervos são as pessoas mais pacatas e commodas d’este mundo; depois porque o meu espirito comesinho se compraz com as alegrias simples do povo. Repare como cantam e como é excepcionalmente movimentado este motivo.

Inclinaram-se todos sobre o paredão para melhor destinguirem um côro de vozes que entre as outras avultava, pela uniformidade e enthusiasmo com que acompanhavam a roda sapateada:

«Liberdade, liberdade,
Quem a tem chama-lhe sua.»

Repetiu Izabella cantarolando o que em baixo se cantava a plenos pulmões.

— «Quem poderá ter liberdade junto de V. Ex.ᵃ?!... — commentou amavelmente o Telles.

— «O quê, acha-me com cara de policia ou figados de carcereiro?... — respondeu a rir.

— «É o mais terrivel dos carcereiros porque nos algema com a etherial graça do seu espirito e nos prende para sempre só com a força d’um sorriso...

— «Por quem é, não desperdice a poesia, sr. Telles! Dizer coisas tão lindas, d’um perfume tão pronunciadamente ancien régime, em plena kermesse popular, e em prosa, confesse que é commetter um crime de lesa arte... Espero que me repetirá o mesmo em alexandrinos. — Voltando-se para o Ramalho: — sabe que estou com um desejo immenso de vêr ámanhã a romaria á luz do sol, com muita poeira e moscas, como dizem que são boas as toiradas, que para mim não passam d’um espectaculo monotono... Isto hade ser mais pittoresco, pois não, doutor?

— «Muito mais! Como não sou tambem um aficionado, acho mais caracter e movimento n’uma romaria ou n’uma feira.

— «Mas quer voltar pelas escadas? — inquiriu receoso o João.

— «Não, — assegurou, sorrindo do susto — podemos vir no seu phaeton, que por ser descoberto tem as mesmas vantagens sem os inconvenientes da travessia a pé.

— «Então amanhã tambem me abandonas? — perguntou-lhe quasi ao ouvido a Viscondessa.

— «É só amanhã, querida, para vêr bem este bello espectaculo que tanto interessa e diverte o meu espirito banal... — frisou n’um meio sorriso escarninho, olhando o Telles que amuára.

— «Então ajuda-me agora a levar a cruz... — murmurou a Viscondessa percorrendo com os olhos a roda dos convidados.

— «Ai filha, tenho tão pouca coragem e força para Cyrenéo de cruz tão pesada!...