Anais da Ilha Terceira/I/XVII

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Anais da Ilha TerceiraTomo I por Francisco Ferreira Drummond
'Terceira Época' - Capítulo V — Série dos acontecimentos que ocorreram na Terceira entre os anos de 1540 e 1549


Ano de 1540[editar]

Servia de corregedor Jerónimo Luiz, por antonomásia o Mau, que mandou a Antão Martins da Câmara, capitão da Praia, fizesse à sua custa a cadeia[1], sendo naquela vila juízes ordinários João Luiz Teixeira, e Álvaro Cardoso, vereadores Manuel Barbosa e Álvaro Gil, procurador André Gonçalves. Começa o primeiro Livro dos Acórdãos desta Câmara.

Havendo neste tempo muitas terras destinadas unicamente para sustentação dos gados, e das quais se não pagava dízimo, sendo aliás mui próprias à cultura dos cereais, por denúncia dada pelos ministros da fazenda, mandou El-Rei consultar os deputados da Mesa da Consciência, e conforme a sua resposta, se passou alvará em 13 de Janeiro para que das terras arrendadas para comedia de gados se pagasse dízima; e se lhe pôs o nome de ervagem.

Foi de armada para as ilhas a esperar as naus da Índia, e dar-lhes comboio, o galeão Santa Cruz, com três caravelas: ignora-se o capitão (citada obra de Frei Luiz de Sousa).

Ano de 1541[editar]

Mandou El-Rei por todo o reino alistar gente de pé, e de cavalo: e em África ordenou outra diligência com intento de meter exército na Barbária. Também neste ano partiu para a Índia Martim Afonso de Sousa, íntimo amigo de António Pires, e de seu irmão Francisco do Canto, filhos do nobre Pedro Anes do Canto, provedor das armadas nesta ilha, que todos andavam ocupados no serviço do Reino.

Ano de 1542[editar]

No Verão deste ano veio às ilhas Manuel de Macedo por capitão-mor a esperar as naus da carreira da Índia, com os galeões Trindade e S. Vicente e com 5 caravelas (citada obra de Frei Luiz de Sousa).

Bem que servisse de corregedor Jerónimo Luiz, o Mau, andava todavia de correição o Dr. Manuel Álvares da Fonseca.

Concedeu o Papa Paulo III a Bula da fundação do Mosteiro de S. Gonçalo em Angra, e deu princípio à obra o padroeiro Braz Pires do Canto, escrivão do eclesiástico. Estando capaz o dito convento de se fechar em clausura, foram admitidas por fundadoras Inês de Deus e Susana de Cristo, filhas do padroeiro, seculares: e à sua imitação se admitiram outras muitas, as quais, findo o ano, professaram nas mãos do Bispo D. Nuno Álvares Pereira; mas constando em Roma o modo das profissões, ordenou-se que viessem duas freiras do mosteiro de Jesus da Praia, e foram Isabel de Jesus e sua irmã Beatriz da Conceição, a título de reformadoras, e em suas mãos renunciaram as profissões todas aquelas, por se julgar estavam nulamente professas (Padre Maldonado, Dezena de 1560 § 5).

Em 4 de Fevereiro deste ano instituiu Heitor Homem da Costa, e sua mulher, a ermida de Nossa Senhora da Ajuda da Vila Nova, no sítio do Varadouro, e lhe anexou um bom morgado, que hoje administra o seu descendente barão de Noronha. Era o instituidor neto do nobre fidalgo Heitor Álvares Homem, e Beatriz Afonso Columbreira, que fizera testamento em 3 de Agosto de 1519: habitava na Agualva, e tão rico foi que do mesmo testamento consta haver dado a seu filho Nuno Homem em casamento entre outros muitos bens, dez vacas parideiras, cinco alfeiras, cinco paridas e sete novilhos: e vê-se no inventário descrever 22 moios e trinta e dois alqueires de terra. Eram seus filhos Pedro Homem, Diogo Homem, Nuno Homem, João Homem e Beatriz Homem, mulher de António Lopes de S. Luiz. Alguns destes filhos haviam militado na África, donde João Homem, o quarto deles trouxe muita riqueza, e foi instituidor da ermida de Nossa Senhora de Guadalupe, hoje paroquial.

Ano de 1543[editar]

Ignora-se perfeitamente a causa de virem às ilhas de S. Miguel e Santa Maria corregedores particulares; mas nem por isso deixou de haver em Angra corregedor das mais ilhas. Depois destes, tornou-se a unir a correição de todas as ilhas na pessoa de Gaspar Touro, a quem se passou carta, feita em Sintra a 28 de Julho deste ano, que se acha registada no Livro dos Acórdãos da Câmara da Praia, com o respectivo regimento de alçada (Documento CC). Continha este regimento que, em qualquer lugar onde fosse, se lhe dessem umas boas casas, onde pudesse ele e os seus aposentarem-se: e três camas, uma de escudeiro, e duas de homens de pé.

Trouxe outro alvará sobre as suspeições que lhe pusessem os donatários e fidalgos maiores, com intento de protelar as causas, as quais lhe seriam remetidas para as ver e determinar; e que a parte que pusesse suspeição, e a não provasse, fosse condenada em 10 cruzados (Documento DD).

Segundo os provimentos que deste corregedor se encontram nas correições que ele fez, depreende-se que ele fizera boa justiça.

Ano de 1544[editar]

Deste ano nada sabemos, que seja digno de memória.

Ano de 1545[editar]

Intrometendo-se o provedor dos resíduos, Fernão Vaz Rodovalho, a tomar contas da receita e despesa às Câmaras, pretendeu a da Praia a eleição de um deputado, que fosse à Corte queixar-se desta violência; e sendo votado João de Escobar, um dos mais nobres daquela vila, obteve alvará, em 12 de Maio de 1545, que declarava não pertencer ao provedor a tomada das contas, em razão de não haver nas ilhas terça para separar-se (Livro do Registo, fl. 13, verso).

E porque também a Câmara provia as necessidades das igrejas paroquiais, obteve, em 23 de Novembro do mesmo ano, se dessem 4 moios de trigo ao pregador que o Bispo escolhesse para fazer os sermões em os domingos e festas na Matriz de Santa Cruz; e em 19 de Janeiro de 1553 concederam-se-lhe mais 10$000 réis. Foram os religiosos Franciscanos que tiveram sempre este cargo.

Tanto é certo que estava a cargo das Câmaras o cuidado de prover as igrejas na sua construção e reparação, que o corregedor referido, Gaspar Touro, na correição que fez a 7 de Março, recomenda a reparação da igreja Matriz da Praia, e que a despesa sairia da finta lançada para concerto da torre dos sinos. E a fl. 46, verso, do Livro dos Acórdãos, acha-se a deliberação tomada pela Câmara dispondo que a Gonçalo Álvares, o Cego, se desse um moio de trigo, para tanger o órgão, nos domingos e festas. Por esta deliberação entendamos, que ainda a música não estava admitida nesta igreja, porque se não carecia de quem tocasse pelas notas, e bastava um cego!

Como a devoção se estendia por todas as classes, igualmente a Câmara da Praia concorria para o bodo de S. Pedro, que se fazia junto da sua ermida (acórdão de 6 de Junho). Feliz tempo em que tais eram os entretenimentos das autoridades!

Teve neste ano lugar a reunião das Câmaras da ilha na vila de S. Sebastião, a respeito do embarque dos trigos, e em execução do auto de amizade feito em 1528, como se acha no acórdão de 10 de Agosto.

Já no mesmo Livro dos Acórdãos, fl. 83, se acha o alvará de aposentadoria, dado a Jerónimo Rodrigues, escrivão da câmara de El-Rei, que à ilha vinha sobre o negócio dos empréstimos, com poder de aceitar o moio de trigo a 3$500 réis, como efectivamente se determinou dar-se-lhe (veja-se o Documento EE).

Ano de 1546[editar]

Continuou neste ano o negócio dos empréstimos, porque o corregedor Gaspar Touro foi a Câmara da Praia, no dia 31 de Agosto, para se arrecadar o trigo que algumas pessoas deviam, ou o seu valor à razão de 3$500 réis o moio.

Proibiu o mesmo corregedor, em correição de 12 de Setembro, que nem os procuradores dos misteres, nem o capitão e alcaide-mor daquela capitania, estivessem à eleição dos almotacés, pois que esta era privativa dos vereadores somente, salvo havendo foral ou privilégio, o que se não mostrava.

Veio neste ano João Simão de Sousa, feitor da alfândega do Funchal, por ordem de El-Rei, comprar trigo e cevada para os lugares de África, e apresentou alvará datado em 24 de Julho (Documento FF).

Ano de 1547[editar]

Ausentando-se o dito João Simão de Sousa com parte dos trigos, porque ainda lhe faltavam 200 moios, deixou em seu lugar a Lourenço Castanho, seu escrivão, para os comprar, como se vê do mandado que lhe passou a 11 de Janeiro do 1547.

Anos de 1548 e 1549[editar]

Destes anos nada consta.

Notas[editar]

  1. A antiga cadeia, paços do concelho, e casa da Câmara, eram sobre as barrocas, e por não estarem bem situados em razão da proximidade do mar, foram estes edifícios novamente postos onde hoje se acham, e passou-se alvará para que os juízes deixassem de fazer as audiências em casa, porque já eram acabados os paços do concelho onde as deviam fazer.