As Minas de Prata/I/XIV

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As Minas de Prata por José de Alencar
Que reza de magarefes e alfeloeiras


Uma espada volteou no ar; houve um grito abafado e o tumulto serenou de chofre.

Era o tempo, em que o alcaide-pequeno com os seus quadrilheiros armados de lanças desembocava pela Rua da Sé, e varava entre o povo para aproximar-se do lugar do conflito e prender os delinquentes, que transgrediam a Ordenação do Livro Quinto, levantando volta e assuada.

Mas já o tumulto fora apaziguado; da luta renhida e encarniçada apenas restava o morno silêncio que sucede aos grandes clamores, como às grandes borrascas.

Inesperada intervenção pusera termo ao combate; quando Anselmo impelido com a pressão da onda popular, amiudava os golpes, surgiram dentre a multidão Estácio e Cristóvão; fora a espada do primeiro dos cavalheiros que batendo de prancha, fizera voar a adaga da mão do lutador.

Estácio, ao sair do torneio, correra a casa a tomar suas roupas de gala, para ir-se ao sarau.

Na volta parou como prometera no adro de Santa Luzia, olhando para o mar. Sentiu logo o contato macio de mão que apertava-lhe docemente o braço, e as falas de uma voz maviosa, como o canto do saí.

A dama velada estava em face dele:

— Deus vos recompensará, cavalheiro, a graça de acudir tão pronto ao meu rogo.

— Ordenai, senhora, em que vos possa eu ser agradável.

— Esta que vos fala é uma dama infeliz e ao desamparo dos homens, sem outro apoio mais que Deus. Em sua angústia inspirou-lhe ele que se valesse do vosso braço, e venho em seu nome pedir-vos proteção contra a desventura. Me recusareis?

— Não a pode recusar um cristão ao próximo, nem um cavalheiro às damas.

— Bem me dizia o coração que esperasse tudo de vossa generosidade. Não é porém chegado ainda o momento de recorrer ao vosso esforço; em ele chegando vos mandarei aviso. Até lá permiti que me conserve velada e desconhecida.

— Não preciso conhecer-vos para servir-vos; basta que me assegureis que vossa causa é boa e justa.

— Eu vo-lo juro!

— Então só careço de conhecer vosso inimigo.

— Heis de conhecê-lo em tempo. Não vos quero deter mais. Sei que vos esperam no sarau.

A voz teve um ligeiro estremecimento.

— É a hora de lá estar, disse Estácio.

— Dai-me vosso braço; deixar-me-eis em caminho.

A dama seguiu com passo demorado ao flanco de Estácio, fazendo-lhe perguntas sobre as justas e o torneio. A pouca distância um vulto aproximou-se deles e com voz lacrimosa solfejou:

— Esmola pelo amor de Deus!...

— Não trago moeda comigo! murmurou a dama.

Estácio tirou da cinta a bolsa esquia, e se não fosse a escuridão, sua companheira veria o rubor que lhe acendeu as faces. Com doce violência, cheia de faceirice, ela arrebatou-lhe a bolsa das mãos, exclamando:

— Quero dar-lhe eu mesma! Depois voltarei o que ficar-vos a dever.

Tirou da bolsa algumas pequenas moedas de prata, resto dos dobrões deixados pela mãe de Estácio, e deu-as à mulher que implorara a caridade e logo sumiu-se. Então os seus dedos nevados, com uma graça irresistível, repuseram a bolsa à cinta do cavalheiro.

— Ora vos deixo, cavalheiro. Ide-vos, aonde já revoam vossos pensamentos.

Desprendeu-se do braço de Estácio e afastou-se, lentamente, como se desejasse ser retida; mas ele ficou olhando-a alguns instantes, e encaminhou-se à casa de Cristóvão que já o esperava.

Juntos se dirigiam a palácio, quando o burburinho dos curiosos, os gritos dos adversários, o fluxo e refluxo da multidão, os atraíram ao lugar do conflito.

O primeiro cuidado dos cavalheiros foi livrar das mãos de Anselmo a rapariga que parecia causa e vítima da briga. Ela tinha desmaiado com o susto que sofrera; apenas livre cobrou os espíritos, e Cristóvão reconheceu, apesar das vestes rotas e ensanguentadas, o rostinho brejeiro e petulante da princesa moura, não alindado como há pouco, senão pálido, amortecido e velado pelos cabelos em desordem.

— Então, formosa princesa, disse o moço sorrindo, não te contentas que senhores e cavalheiros justem por tua beleza, e ainda vens dar torneio na praça pública?

— Por minha mãe vos juro, senhor cavalheiro, que não é culpa minha, replicou a rapariga abaixando as pálpebras rosadas.

— É minha, aposto! acudiu o mancebo gracejando.

— É de quem Deus perdoe o muito mal que me queria fazer, respondeu a princesa. Como saía do torneio, seguiram-me estes dois que aí vedes, e tanto se travaram de razões, que por fim vieram às últimas. E eu inocente que pague as custas.

— Estás ferida? perguntou Estácio.

— De ferro não, que antes o fora que da fama. Que não dirão de mim?

— Sossega, Joaninha, acudiu Cristóvão, mal não pode vir a quem mal não obrou.

— Sabes o que deves fazer? disse Estácio para a rapariga.

— Agora mo direis, senhor cavalheiro, respondeu ela fazendo uma mesura graciosa.

— Pois que esta noite tens foros de princesa, escolhe destes dois paladinos teus, cujo queres ser a dama dos pensamentos.

— Justo! exclamou Cristóvão. É o meio de terminar a contenda. Qual preferes?

— Nenhum, disse a alfeloeira com desdém.

— Queres mostrar esquivança que não sentes; fala.

— Quem eu escolheria, talvez me não quisesse a mim, ou me não soubesse querer, murmurou Joaninha com uma sombra de melancolia. Mais val que ninguém o saiba.

— E se eu te disser que sei? tornou Cristóvão.

— Voto a Deus que não!

— Não será este mariola que te defendia contra o outro, e agora esquece o sangue que lhe corre das feridas para não tirar os olhos de ti?

— Tiburcino!... exclamou a mulatinha fazendo um muxoxo. Ele sabe que não; tanta vez lho tenho dito, que não há conta já. Se continua a querer-me, mal de si.

— E nem dó tens de o ver naquele estado por tua causa? disse Estácio.

— Oh! que sim! Dó, muito! Como o sangue lhe corre! exclamou Joaninha.

Rasgando uma tira de tafetá de seu manto de princesa já esgarçado, chegou-se para o carniceiro e tratou de estancar-lhe o sangue.

Um estremecimento de prazer abalou o corpo robusto de Tiburcino, quando sentiu o tato das mãos da alfeloeira; a fisionomia que a dor contraíra achatou-se com um riso alvar.

Chegavam então os homens do alcaide. Os respeitáveis quadrilheiros daquela época já cultivavam, como seus dignos sucessores da polícia moderna, o velho axioma do “mais val tarde que nunca”. Não vinham a tempo de aplacar o tumulto, mas sempre conseguiram empolgar o mariola, que incorrera na pena da Ordenação.

Anselmo, apenas desarmado pelos dois cavalheiros, fora subjugado por mestre Bartolomeu, apesar das súplicas da mãe, cujas lamúrias e choradeiras eram entremeadas de baldões contra a pobre rapariga, que excitara a ojeriza da tia Eufrásia.

Cristóvão obtivera da autoridade a soltura de Tiburcino, que outra culpa não tinha senão a de querer obstar a violência feita a Joaninha. Os quadrilheiros conduziram unicamente Anselmo, que foi-se, lançando sobre a cena que deixava, um olhar torvo e mau.

Anunciando a música em palácio o começo do sarau, os dois amigos iam partir, quando Estácio percebeu o Doutor Vaz Caminha, a quem não tinha visto, pelo cuidado com que o advogado se ocultava atrás de mestre Bartolomeu.

— Estáveis aqui? perguntou o moço com solicitude e reparando nas vestes amarrotadas do licenciado. Nada vos sucedeu neste tumulto?

— Nada, nada; podeis tranquilizar-vos, filho. Saí quite por um rasgão na capa; mas não é coisa que valha a pena.

— Vinde, deveis estar farto de ver povo e luminárias; vou conduzir-vos a casa, para que não fiqueis sujeito a alguma pior.

— Há tamanha confusão! disse Cristóvão.

— Não vos inquieteis, outra vez vos digo. Ide-vos ao sarau; eu fico por aqui.

— Tanto gostais da festa? admira-me isso!

Nihil mirari, filho, é o preceito do sábio, bem o sabeis.

— Mas não podeis andar só, no meio desta vilanagem, replicara Cristóvão.

— Deixai-me vosso pajem, Estácio; ele me basta.

— Gil! disse Estácio alteando a voz.

Um menino de quatorze anos, vivo e esperto, que acompanhara os cavalheiros e se conservava a alguma distância, chacoteando e rindo com outros da sua idade, aproximou-se.

— Segue o senhor doutor; tu me respondes pelo que lhe acontecer.

— Não tem dúvida, Senhor Estácio! respondeu o pajem com certa galhardia, levando a mão a uma pequena adaga que trazia à cinta, e perfilando o talhe franzino.

Os dois cavalheiros e o doutor sorriram do recacho cavalheiresco de Gil.

— Já vedes que estou em boa guarda; parti-vos tranquilos; não esperdiceis os momentos de prazer, que tão raros vêm e tão cedo vão.

Estácio e seu amigo deixando o licenciado, atravessavam para palácio. Antes de lá chegarem, a mendiga que os vira passar correu a eles:

— Não quereis ouvir a buena-dicha, cavalheiros? disse ela com voz submissa e volvendo em torno olhares suspeitosos.

— Se adivinha és, como te inculcas, dize-nos primeiro onde dançarás um dia, na corda ou na fogueira?

— Não quereis então que vos tire a sina?

— Para quê?... retorquiu Ávila. Se boa for, não acreditaremos na sorte; se ruim, melhor é não a saber.

A bruxa enristou-se, chocando com um olhar perverso os dois mancebos que passavam diante dela ricos de mocidade e esperança.

— Pois heis de sabê-la! resmungou ela. Ouvi bem e guardai!

Deu à voz uma entonação sarcástica:

— Sois tão amigos, gentis cavalheiros, tão unidinhos do coração, que ao cabo desejareis trincá-lo um ao outro!...

E soltou uma risada.

Estas palavras e o relincho sardônico que as envolveu, vibraram tristemente na alma de Cristóvão. Não que fosse supersticioso; porém a amizade que votava a Estácio era sensível e nervosa, como a afeição de uma dama. Voltou-se para a feiticeira.

— Vinde cá, mulher! Tomai...

Apalpou o cinto e sorriu; lembrara-se de aplacar as iras da Sibila das ruas, e conheceu que não tinha moeda.

— Trazes bolsa, Estácio?

— Que significa isto?... exclamara o outro.

O estudante, tirando da cinta a bolsa para dá-la ao amigo, ficou surpreso porque não era a sua, mas outra primorosamente bordada a fio de prata e pérolas. Abrindo-a viu que estava cheia de meias dobras. As mãos lhe queimavam como se brincasse com brasas ardentes; parecia-lhe que os olhos de toda a multidão o perseguiam como o receptador do alheio.

Cristóvão também admirado replicou:

— Estás mais rico do que esperavas?

— Esta bolsa não me pertence!

— E como se acha em teu poder?

— Não sei!...

A bruxa resmungou a rir:

— Fortuna de quem empresta às damas caridosas!...

Estácio lembrou-se de repente da dama velada.

— Ah! agora entendo! Vem, que te contarei...

— Empresta-me primeiro uma moeda para dar a esta pobre. Aí tendes, mulher; rogai pela ventura de uma boa e santa amizade!

— Rogarei, bom cavalheiro!

E sumiu-se.

Ouvindo o nome de Gil, Joaninha que ligava as feridas de Tiburcino, voltou o rosto; seu olhar afetuoso envolveu o menino. Depois, quando os cavalheiros se afastaram, disse-lhe sorrindo:

— Adeus, Gil; não me falas?

— Deus te dê boa-noite, Joaninha; à fé que te não tinha visto.

— Vem cá, onde vais?

— Vou meu caminho, respondeu o menino tomando a direção em que ia o licenciado.

A alfeloeira acabou de curar o magarefe. Este durante todo aquele tempo não proferira uma palavra, tão absorto ficara em devorar com os olhos as formas sedutoras da moça. Estava como embriagado; temia que sua voz quebrasse o encanto, em que o tinha preso o toque suave das mãos mimosas.

— Agora podeis ir-vos a casa repousar. As feridas não vos doerão tanto, disse Joaninha.

— Não são estas as que mais me doem; outra tenho, e bem funda, que sangra como nenhuma.

— Para essa não lhe sei o remédio, replicou a rapariga sorrindo.

— Sabeis-lo; mas não quereis dá-lo!

— Que o quisesse, não podia.

— Basta já de negaças, Joaninha. Tanto há que me trazeis assim neste embeleco! Por São Tibúrcio, meu divino patrono, que se não pondes termo a isto, a coisa acaba mal.

— Escutai cá, Tiburcino. Já vos disse o que podia dizer, não mais. Tenho eu culpa de me quererdes mau grado meu?... Fazei o que vos aprouver; porém mal aconselhado anda quem pensa ganhar a vontade de alguém com tais abafas.

— Não vos enquizileis, por quem sois, Joaninha de minha alma! Ninguém me tira de que sou um néscio e um sandeu! Não sei que faço; mas tende dó de mim; dizei-me ao menos que se me não dais esperança, também a outro...

— Oh! lá isso é demais, sô Tiburcino! Cada um tem seu segredo; nunca perguntei o vosso, deixai o meu em santa paz.

— Por Deus, que atinarei! exclamou o carniceiro batendo com o punho no peito amplo e vigoroso. Então ist'há de virar, ou eu não me chamo mais Tiburcino!

— Que haveis de fazer? perguntou a rapariga medindo-o com os olhos.

— Inda perguntais-lo! É pouco roubar-me tudo? E eu que cruze os braços? E não me desforre?...

— Pois então desforrai-vos em mim; pois lhe quero a ele, sem que ele o saiba; ouvis?

— Calai-vos que me ensandeceis!

— Para que me fazeis falar?

— Se me tendes dito isso há um'hora quand'ele queria levar-vos, aqui ficaríamos os três!

— De quem cuidais? De Anselmo? Como vos enganais.

— É ele mesmo! Outra não me escapará.

— Pois bem, ficai-vos com essa; mas sempre vos digo, que se armardes brigas, não achareis mais cavalheiros que vos livrem da gaiola.

— Ouvide, Joaninha.

— Não quero ouvir nada. Deixai-me sossegada; estou cansada de aturar magarefes!

Tiburcino quis segui-la, mas debalde: a mulatinha tinha-se perdido na turbamulta. Então o tomou tal acesso de raiva e ira contra si mesmo, que aferrando um punhado de cabelos, arrancou-o com desespero.

Estava escrito, que a tia Eufrásia passaria nessa noite por todas as provanças; tendo-se aproximado para ouvir a conversa de Joaninha, que lhe devia dar tema vasto de murmurações, acertou que a mão de Tiburcino, com o movimento brusco que ele fizera, deu tal repelão nas ventas da matrona que a estendeu a fio comprido.

— Aqui d'El-Rei!... Que me matam!

O amante infeliz de Joaninha, preocupado com seu infortúnio, nenhum caso fez do acidente; maldizendo-se do seu caiporismo, foi afogar as mágoas com um trago de vinho de Caparica na bodega do Brás Judengo.

A retirada porém não o salvou da ladainha de epítetos afrontosos, que a adela cantou em todos os tons, e com as várias modulações da voz fanhosa e esganiçada.

— Magarefe dum demo! Cão tinhoso! Coisa ruim! Bargante! Alma danada!... Pragas te consumam, cascarreia de mouro! Judengo! Marrano!... Tu ma pagarás com língua de palmo!

A tia Eufrásia continuaria a glosar este mote pelo resto da noite, se um dos quadrilheiros, que o alcaide deixara entre a multidão para evitar novos distúrbios, não a interrompesse.

— Arre lá também! Cala-te, boca praguenta! Se não queres ir pelo mesmo caminho que Anselmo...

A adela tragou o muito que ainda tinha a vomitar; e tratou de recolher antes que lhe sucedesse mais alguma catástrofe nessa noite, que para outros fora tão cheia de folgares e alegrias, para ela tão farta de amarguras.

Ao tempo que isto tinha lugar, Joaninha perdida entre o povo, corria inquieta e sôfrega de um a outro ponto; desde que deixara Tiburcino parecia procurar entre a multidão uma pessoa; mas todos os seus esforços eram inúteis, e a levavam de decepção em decepção.

A vida dessa rapariga tinha a sua crônica misteriosa.

Ninguém sabia de seus pais; mas quase toda a gente a conhecia por causa de sua profissão de alfeloeira ou mercadora de doces e confeitos, que ela vendia pelas ruas numa cestinha de palha; neste mister ocupava todo o dia, percorrendo de uma extrema à outra a cidade do Salvador; às vezes, quando sentia-se fatigada ou quando o sol estava a pino, sentava-se na portada da Sé ou no cruzeiro do Colégio. Divertia-se então em trançar palha de várias cores, com que tecia lindos cabazes e os mais vistosos abanos que ver-se podiam.

Estes dois ramos de negócio sobravam para sua subsistência. Ninguém a via desalinhada, senão mui composta e bem trajada. A beleza e graça natural davam-lhe o sentimento de faceirice inseparável de toda a mulher, que conhece o poder de seus encantos e deseja ostentá-lo, ainda que por simples e inocente vaidade.

A propósito da alfeloeira, um reparo.

Há pequenas indústrias que por sua natureza são próprias da mulher, e formam a sua especialidade na grande oficina do trabalho social. Exercê-las o homem, a parte robusta e livre, parece além de efeminação, injustiça ao sexo frágil e delicado, cuja atividade não é só restringida pela natureza, mas acanhada pelos usos e costumes.

Sentiram os antigos legisladores a necessidade de garantir a mulher contra a indecorosa concorrência do homem na exploração dessas indústrias, femininas por sua natureza. A ordenação do livro 1.º tít. 101 proibia que houvesse alfeloeiros e obreeiros; porém acrescentava “se algumas mulheres quiserem vender alféloas e obreias, assim nas ruas e praças, como em suas casas, podê-lo-ão fazer sem pena”.

Por que não será aproveitada na legislação moderna tão salutar disposição?

A liberdade do trabalho tem limites; e nenhum mais justo e sagrado do que a proteção devida pela sociedade às órfãs do século e pupilas da lei. Se a especulação do homem não disputasse à mulher o seu direito ao trabalho, quem sabe quantas misérias não seriam remidas do vício? O pão amassado com o suor é acerbo alguma vez; o pão amassado com lágrimas amarga sempre.

Voltemos a Joaninha.

Corriam sobre seu nascimento dizeres cuja origem aliás ninguém conhecia.

Contavam que em certa noite aparecera na rua uma criança envolta nas faixas; ali fora achada por uma parteira já idosa, a comadre Brites, que voltava de assistir certa dama. A boa mulher recolhera a criança e a educara.

Diziam mais que na toalha da menina vinha cosida uma carta na qual se pedia à pessoa que a encontrasse, tivesse dela cuidado até a idade de vinte anos, em que seus pais a reconheceriam, recompensando largamente a alma caridosa que a houvesse recolhido. Daqui tiravam mil comentários; e não faltava quem dissesse que este mistério ocultava um alto nascimento.

É a sorte dos enjeitados darem tema às fábulas fantasiadas pela imaginação popular, sempre disposta a acreditar no maravilhoso. O que havia de certo a respeito de Joaninha era ter sido ela criada pela velha parteira a quem pagava a educação que lhe dera com muito amor e o melhor dos ganhos de sua indústria. A princípio a tia Brites ajudara com seu escasso mealheiro o pequeno negócio; mas em pouco a freguesia tornou-se tão numerosa, as alféloas de Joaninha começaram a ser tão cobiçadas pelas bocas mimosas das meninas baianas, os seus abanos tão desejados pelas fidalgas, o seu gentil sorriso tão admirado pelos cavalheiros, que logo colheu os frutos do seu trabalho. À uma confessavam todos que na cidade do Salvador não havia nem mais feliz, nem mais formosa alfeloeira.

O desamparo de sua vida livre, bem como a ausência de família, junto à pobreza e ignorância do estado, fez supor aos rapazes namorados que seria uma conquista fácil; mas Joaninha, que já tinha ganho pela formosura e jovialidade a admiração geral, ganhou com uma virtude austera e uma esquivança constante, a estima e respeito da boa gente. Acabaram por confessar que ela não era só a mais gentil, senão a mais honesta de todas as alfeloeiras dos dois reinos de Portugal e Algarves.

Em verdade, nessa existência vagabunda não havia fato por pequeno que fosse, do qual pudesse nascer a mínima suspeita contra a honestidade de Joaninha; não se sabia, nem sequer desconfiava, de um rapaz ou mesmo senhor a quem ela tivesse dado mostra de bem-querer. Entretanto essa pessoa existia, pois a rapariga o confessara na conversa com Tiburcino; mas o nome estava guardado tão dentro do coração, que nem olhos de rivais, sempre alerta, tinham podido ver na sombra desse mistério. Seria seu amor mal pago? Assim parecia à primeira vista; pois a alma feliz é flor a desabrochar: tem um perfume que recende.

Mas custaria a admitir semelhante conjetura quem vira a expressão travessa e viva de seu olhar, o sorriso malicioso, e a faceirice do gesto galante. Amores tristes e mal afortunados não vivem em crisálida assim dourada e brilhante. Que houvesse completa felicidade, também não era provável. Em certas horas, mais frequentes quando estava só e ninguém a via, a expansão de contentamento desvanecia: anuviava-lhe o rosto sombra fugace de melancolia, recordo ou pressentimento de mágoas.

E porque, em assunto de amores, “essa dor é tão palreira, diz o nosso João de Barros, que logo descobre o que sente o coração”, a crença geral decidia-se pela absoluta isenção da feiticeira mulatinha.

Entretanto a alfeloeira continuava a correr em todas as direções sem achar o que procurava. Não se podendo ter já de fatigada, sentara-se na soleira de uma porta; e começou de cantarolar um vilancete, olhando de longe para as janelas iluminadas do palácio.

O que Joaninha cantava a meia voz, era, se a crônica não mente, uma trova de Gil Vicente, em compasso de lundu:

Quem quereis que veja olhinhos,
Que se não perca por eles
Lá por uns jeitinhos lindos
Que vos metem em caminhos;
E não há caminhos neles,
Senão espinhos infindos.


Houve momento em que a alfeloeira suspirou; sentiu cobrir-lhe o coração uma das nuvens de melancolia que às vezes passavam no céu dos seus pensamentos. Breve rarefez-se a névoa, pois ainda no fundo de sua alma ingênua e pura não estancara a fonte das alegrias inefáveis da juventude, que o mundo, vasto areal, a pouco e pouco vai sorvendo, até que a exaure.

Quem a visse então, acompanhando a música do sarau com a voz e as inflexões da cabeça, traçando com a ponta do pé figuras e passos de dança, e dando estalinhos de castanhola nos dedos, não julgara possível esconder aquele sereno júbilo da mocidade um pesar oculto.

Passavam Bartolomeu Pires e Vaz Caminha. O licenciado oferecera ao mestre de capela uma vez de vinho; nessa intenção dirigiram-se à bodega do Brás.

Gil, cumprindo à risca a ordem de Estácio, acompanhava o licenciado; caminhava arremedando com a sua figurinha de pajem o andar solene e magistral do ex-arauto.

Mal descobriu o menino que seguia sem vê-la, Joaninha ergueu-se de um salto, e cobriu os olhos do pajem com as palmas das mãos.

Ele não se mostrou surpreso da travessura.

— Cuidas que não te conheço as mãos? Tanta alféloa tenho manjado amassada por elas!...

— Também! Não se doam mais elas das que amassarem para ti! respondeu Joaninha despeitada.

— Por que então? Algum mal te fiz eu!

— Inda agorinha? Quase nem me falaste.

— Não viste o cavalheiro mandar que seguisse o senhor licenciado?... Lá dobram o canto! Vou-me após eles.

— Espera!

— Que me queres?

A alfeloeira hesitou corando.

— O Senhor Estácio está no sarau? perguntou depois de uma pausa.

— Pois que para lá foi; lá deve estar.

— Que lindas que são aquelas danças! disse ela suspirando, com os olhos voltados para o palácio. Não te fazem inveja? Não estimarias também ter a tua dama, Gil?

— Ixe! Eu cá penso nisto! disse o travesso pajem afastando-se.

— Até amanhã!... gritou a alfeloeira.

— Guardas-me alguma coisa?

— Vê-lo-ás.

— Pois sim.

Gil correu a alcançar o licenciado que de fato quebrara a esquina; Joaninha voltando-se deu com Tiburcino.

O magarefe estava sombrio e torvo como uma borrasca prestes a desabar; a testa breve e estreita desaparecia franzindo e caía-lhe sobre os olhos pequenos mas vivos; os beiços grossos, fendia-os uma coisa entre carranca e riso, arreganho de dentes, que gelava a medula dos ossos.

Fitando na moça a vista ameaçadora, arrancou a custo da garganta voz surda e cava, antes rugido de fera:

— Sabe-se já por quem vos morreis de amores!

— Quem? perguntou a alfeloeira pálida e trêmula.

— O Senhor Estácio! disse Tiburcino, como se aquele nome lhe queimasse os beiços.

Joaninha soltou uma gargalhada e desapareceu.