As Minas de Prata/I/XVI

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As Minas de Prata por José de Alencar
Do que são rosas e mais amores


Estácio e Cristóvão deixando a bruxa tinham entrado em palácio.

O sarau começara.

As danças figuradas e graciosas do tempo faziam voltear pelo salão as damas, e também os cavalheiros que tinham tanto garbo em executar um passo airoso de pantomima ou fazer um batão e uma floreta, como no exceder-se pelas armas e feitos guerreiros.

A dança não era então como atualmente desfastio ou pretexto de conversa, mas uma arte que se cultivava com esmero, e dava ao corpo a flexibilidade das formas e o donaire dos gestos e maneiras; qualidades estas indispensáveis em uma época em que o vestuário elegante e garrido obrigava o homem, sob pena de ridículo, a ter a perna bem torneada, o talhe esbelto, e a rasgar uma cortesia exatamente copiada dos mais belos modelos da corte de D. João II.

No momento em que os dois amigos entravam, dançava-se um bailo de machatins.

Essa linda composição coregráfica, inspiração de um artista de talento, cujo nome a história ingrata deixou no silêncio, fora inventada em 1603 na Vila Viçosa por ocasião das grandes festas que se fizeram com o casamento de D. Teodósio II, Duque de Bragança. Apesar de seis anos de existência era ainda nos saraus a novidade ou, como hoje diríamos, a última moda dos casquilhos da Bahia e Pernambuco.

Inesita fazia uma das figuras do bailado, e esqueciase no abandono d'alma, entregue toda ao inocente prazer.

Quando a flor desfolha vai-se o aroma, vem o fruto. Há na mulher enquanto a maternidade a não santifica, um quer que seja de frívolo e infantil, perfume de puerice, que exala de toda a sua pessoa. Ainda o estame não abriu.

Assim, naquele instante era Inesita uma criança: de moça se tornara menina; brincava entre os braços de seu cavalheiro, como outrora folgara no regaço materno. Nem já lembravam-lhe as justas, os enlevos e sustos que sentira. Seu mundo ali estava no bailo: dançava.

Sua beleza em repouso era para a deslumbrante formosura que lhe dava a agitação e movimento do bailo, como a sombra para a luz: cintilava. Na ondulação das formas, na flexibilidade do talhe e no gesto que desatava em meneios graciosos, havia irradiações esplêndidas.

Estácio aproximou-se, e ela não o viu.

O moço tinha espinhos a pungir-lhe dentro d'alma.

O cavalheiro de Inesita era Fernando de Ataíde. Cada vez que o dançarino, executando a figura do bailo, travava da mão da menina ou enlaçava-lhe a cintura, Estácio sentia dor violenta a morder-lhe o coração.

Junto praticavam alegremente das festas e do bailo vários convidados; mas ele nada ouvia: os ritornelos da música de envolta com o burburinho da sala ressoavam a seu ouvido como golpes de um malho, que lhe trabalhasse no cérebro. De repente o nome de Inesita, proferido perto, foi um raio que atravessou a tormenta.

— Então casa D. Inês de Aguilar? dizia um convidado.

— Com D. Fernando de Ataíde? perguntou outro.

— São novas para mim! acudiu terceiro.

— Como para os mais. Se D. Francisco mal acaba de anunciá-lo ao senhor governador!

Fez-se n'alma de Estácio uma grande treva e maior silêncio. Quanto tempo durou esta noite do espírito, nunca ele o soube; houvera uma solução de continuidade em sua vida: ficou-lhe um vácuo no passado.

Quando voltou a si, estava ao relento, num campo escuro. Quem o trouxera ali? Como viera? Sente-se muitas vezes nas grandes aflições uma necessidade invencível de agitação; o homem parece que forceja por escapar a si mesmo e à dor que o possui; move-se e caminha, vai sem destino, fugindo ao que vê.

Assim chegara o moço àquele sítio.

Viu que tinha nas mãos um objeto; sentiu que esse objeto estava úmido. Era o lenço de Inesita que tinham molhado suas lágrimas. Não se lembrava de haver chorado; nem sabia como a prenda da menina saíra do seio onde a tinha guardada.

— Valia a pena defender contra o ódio de seu irmão esta vida que era dela? murmurava-lhe uma voz dentro d'alma.

Por misteriosa associação de ideias desembainhou a espada: dobrou-a no joelho; a lâmina partiu-se.

Olhou ele um instante os pedaços, como olharia na outra vida, precito já, seu espojo mortal. Rojou-os de si e serenou logo. A dor não se extinguira, não; mas agora a sentia como em distância, longe, bem longe do coração; cercava-o uma névoa espessa; estava em um mundo estranho e novo.

Para este da terra, acabava ele de finar-se. Quebrando a espada, sua defesa, morrera; sepultara-se atirando os pedaços ao chão. Sombra apenas, não já vivente, errava ainda, penando como os duendes dos contos populares.

Após esta, veio outra alucinação. Pareceu-lhe que mão de ferro, gelada e fria, pousava no peito de seu cadáver, e arrancava fora o coração, e fugia pela treva. E ele pôs-se a seguir essa mão, caminhando sem sentir.

Tirou-o desse pesadelo uma voz infantil, que lhe falava. Era a voz de Gil, parado em face dele, com um cavalo à destra.

— O senhor licenciado mandou-me esperar o cavalheiro, pois já não havia precisão de mim. Como estivesse aqui à mão o cavalo fui buscá-lo, e bem fiz, que já é tarde muito! Cuidei que não acabava mais hoje de esperar!...

Estácio não ouvia o pajem. Escutava o rumor das palavras; reconhecera o menino, mas só a pouco e pouco foi voltando à realidade, de que escapara por tantas horas. Volveu o olhar pelo sítio onde se achava; era a calçada do palácio, à qual viera como dela se fora, sem consciência.

Então lembrou-se do que sucedera. Via diante um abismo negro e imenso, no qual ele se afogara e surgira enfim. Na margem de além a sua felicidade perdida; aquém, na outra margem, ele transido e extinto.

Que tempo levara a debater-se no abismo antes de transpô-lo? Quantas horas ou quantos anos aturara essa agonia? Que passara durante no mundo a que pertencera, e na cidade onde habitara?

Fitou Gil; observou a fachada dos edifícios. Procurava ele com este exame ver se o menino tinha envelhecido ou as construções desmoronado em ruína?

— O sarau?... exclamou afinal.

Nesta interrogação havia um poema inteiro, uma elegia. Era a história de seu amor, cujo triste epílogo fora aquele sarau; era o casamento de Inesita aí anunciado; era a ventura de seu rival escarnecendo do infortúnio dele, Estácio; era o passado e o futuro.

— O sarau?... respondeu Gil. Quanto há que de lá partimos! Ainda era em ontem!

— Serão que horas?

— É noite alta. Se os galos já cantaram a primeira vez!...

O moço deu alguns passos maquinalmente; o pajem ouviu-lhe palavras soltas, murmuradas consigo.

— Ao romper d'alva... Lá serei.

Voltou para o menino.

— Viste quando se partiram do sarau os convidados?

— Eu que chegava e eles que começavam de ir-se.

— Reparaste...

Estácio hesitou.

— Dos primeiros, acudiu o pajem disfarçando, foi o fidalgo que fez de juiz, sem ser o desembargador.

— D. Francisco?

— Isso mesmo. Foi-se com a doninha e o outro... o alferes.

— E ninguém mais? perguntou Estácio engolindo as palavras.

— Mais não vi eu, tornou o menino sem titubear.

E acrescentou consigo:

“Deus me perdoe.”

— Não ia também D. Fernando de Ataíde?

— Bem pode ser que me escapasse.

— Qual caminho tomaram? Lembras-te? Foram logo direito ao engenho?

— Quer me parecer que não. Vi tomarem para as bandas de Nazaré. Não têm casa aí? Têm-na, que lá vai a Joaninha, a alfeloeira. O Senhor Estácio não sabe? Aquela da briga do Tiburcino?... A Joaninha é uma boa rapariga! Ela conhece esta gente toda: não há casa em que não entre a mulatinha. É um furão!

Já Estácio não o ouvia: revolvia na mente outros pensamentos.

— Gil, nós vamos a Nazaré.

— Vamos, Senhor Estácio.

— Sabes a que vamos?

— É o mesmo. Lá chegaremos com o favor de Deus.

E o pajem, puxando o cavalo, segurou o estribo.

Estácio pousou a mão sobre a sela, mas em vez de montar reclinou sobre o pescoço do animal para falar ao ouvido do menino.

— Tenho um desafio com o alferes, Gil.

— Um desafio?

— Se ele trespassar-me, meterás a mão no peito de meu gibão, aqui, acrescentou o moço tomando a mão do pajem. Não sentes? É um lenço. Há de estar cortado pelo ferro e tinto do meu sangue. Jura que o entregarás... a D. Inês, de minha parte.

— Mas... ia dizendo o pajem.

— Ouve! Dir-lhe-ás somente este recado, guarda-o bem guardado: “Que lhe restituo quanto era dela; o mais tem-no a terra”. Juras-me, Gil?

— Mas ele não há de ferir-vos, Senhor Estácio! Por essa fico eu. Quem joga as armas como o cavalheiro, teme-se lá de qualquer alferes? Em já hoje ele não viu a amostra do pano?

— Ninguém sabe o que pode suceder. Jura sempre!

— Pois o quereis, juro por alma de minha santa mãe e por Deus que a tem! Mas são juras em vão; heis de ensinar o alferes para vosso e meu contentamento. Já eu estou saltando!...

— Digo-te eu, Gil, que sua espada me há de transpassar.

— Não repita estas palavras, Senhor Estácio. Dá-me gana de chorar.

— Tens pena de mim, Gil?

— Pena? respondeu o pajem. Também a tenho; porém mais é a raiva só de pensar que vos possam fazer mal!

O moço cingiu a cabeça do menino e a teve algum tempo sobre o coração; depois montou rápido a cavalo; tomou o pajem de garupa, e lançou-se a galope.

Entretanto Gil, impressionado pelo que acabava de comunicar-lhe o cavalheiro, inquieto com a ideia do próximo combate, sentia-se mais tranquilo, lembrando as provas de esforço e valor, que dera o moço estudante, na tarde daquele mesmo dia.

Retratava na memória infantil os feitos recentes do torneio, as brilhaturas de Estácio e sua galhardia no manejo das armas. Insensivelmente o menino procurou no flanco do cavalheiro os punhos da espada leal, sua guarda e defesa: tinha necessidade de acariciá-la. A carícia é uma maneira de sentir das crianças e das mulheres; é também um estilo para a língua que fala o coração.

Afagar os punhos da espada, era para Gil um meio de dizer que punha nela toda a confiança, e um modo de pedir-lhe que transmitisse à sua alma a coragem e a esperança. Valia tanto como beijar a mão do cavalheiro, tocar dos lábios o ferro que essa mão valente enobrecera.

Nos copos da espada havia uma cruz; diante dessa cruz a alma do menino, bafejada pela fé sublime do cristianismo, ajoelhava aos pés do Senhor, e votava sua eterna salvação pela existência do único protetor e amigo que tinha na terra.

O pajem estremeceu encontrando unicamente a bainha da espada, viúva do ferro, que a acompanhava:

— Vossa espada, Senhor Estácio?... balbuciou Gil assustado.

— Perdi-a!... respondeu o moço breve e ríspido.

— E sem ela como há de ser, pois que vos ides a um desafio?

A voz de Estácio era grave proferindo estas palavras:

— Para morrer já não careço dela!

— Então, acudiu o pajem com um soluço, quereis mesmo que ele vos mate!

— Não é ele que me há de matar, Gil. Morto já fui eu, não de ferro; mas de pena, como nunca a sintas!

Nesse momento iam os dois cavalgando perto do lugar, onde o caminho estreito cortava a Rua de Santa Luzia. Viram em distância dois vultos que atravessavam, um após outro, como amo e criado.

Estácio reconheceu no primeiro seu mestre e padrinho, Vaz Caminha; logo parou o cavalo e apeando rijo, voltou para o pajem:

— Guarda-te daí, enquanto torno!

O menino deixou-se ficar esmagando nos olhos as lágrimas que lhe saltavam aos punhos. O cavalheiro apressou a marcha para alcançar o advogado:

— Agora vos recolheis, mestre?

— Agora filho; e vós, que vos traz a horas mortas por estes sítios? Fazia-vos no sarau.

— No sarau?... Má hora, má e aziaga, mestre, em que a ele fui!

Estácio apertando a mão do velho, vergara a cabeça abatida pela dor; as palavras que proferira vieram travando a fel; afogaram-se em lágrimas.

O licenciado esteve a observá-lo bastante tempo; depois, erguendo-lhe a fronte com ternura, impondo a mão sobre o coração opresso do moço, murmurou-lhe ao ouvido:

— Cedo fostes homem, filho, para sofrer. Amores são rosas de todo o ano; breves folhas, muitos espinhos. Pior é regá-las de lágrimas que mais nunca secarão.

— Secarão, secarão, mestre! Bem secas já estão nesta alma, onde nem goivos quero eu que vinguem já!

O estudante tornou mais calmo:

— Abraçai-me, mestre! É tarde; careceis de recolher-vos.

— Até amanhã. Ireis ter comigo logo cedo?... É preciso para o muito que tenho de comunicar-vos.

Vaz Caminha abraçou o afilhado; este estreitou-o nos braços com visível emoção.

— Ides de ânimo mais sereno? perguntou o velho com terna solicitude.

— Para onde vou, mestre, respondeu o moço docemente, a serenidade me espera.

O advogado seguiu seu caminho para a casa da dama desconhecida. O outro vulto que o acompanhava era o negro Lucas.

Se Vaz Caminha não viesse tão preocupado dos sucessos dessa noite e de coisas futuras relativas ao próprio Estácio, não deixaria por certo de notar que a torva serenidade do moço, ao despedir-se, ocultava como a onda do rio, uma profundeza sinistra.

Reunindo-se ao pajem, Estácio antes de montar disse para o menino:

— Gil, junto do lenço encontrarás também um papel. Este, hás de levá-lo ao doutor com estas palavras minhas: “que lembre-se de meu pai e de ti”.

O cavalo, arrancando a galope, desapareceu nas trevas.