As Minas de Prata/II/I

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As Minas de Prata por José de Alencar
Quando as uvas são mais saborosas que os beijos


Palos é uma pequena cidade da Espanha, sobre o Atlântico, na embocadura do Tinto.

Se nasceste nas plagas da América, esta magna parem dos rios gigantes, das montanhas titânicas e das florestas seculares; se a aurora da vida foi para ti iluminada pelas esplêndidas magnificências do sol tropical; vem, irmão, ajoelha nesta plaga estrangeira!

Foi aqui o berço primeiro da civilização para a tua pátria americana.

Deste pequeno porto, aos 3 de agosto de 1492 se partiu Cristóvão Colombo, rumo do desconhecido. Levava três navios apenas; mas levava-o a ele seu gênio. Errou setenta dias, devassando a imensidade dos mares, lutando contra o poder dos elementos conspirados e a maldade dos homens descrentes.

Deus o tinha sagrado ao martírio da glória. Aos 12 de outubro de 1492 dava Colombo um mundo ao mundo.

Mais de três séculos depois, na mesma data 12 de outubro de 1822, devia outro herói, D. Pedro I, dar um império à América.

Essas duas datas memoráveis se olham na história do Novo Mundo, como acaso se contemplariam de longe as estátuas colossais dos dois heróis, eretas sobre gigantesco pedestal, a norte e sul do vasto continente americano.

Vês tu, além, sobre o painel eriçado da pequena cidade, aquelas ruínas monumentais, que veste a recente fábrica, qual sudário a cobrir um esqueleto carcomido pelos vermes?

É o antigo Convento da Rapita, aonde retirou-se Cristóvão Colombo, miserável na opulência do seu gênio, rebotalho da incredulidade, tragando escárnio e fel. Aí amparado pela fortaleza d’alma e pela fé robusta em sua ideia, esperava.

Esperava, sim, que houvesse rei de alguma nesga estéril de terra europeia para se dignar de aceitar o mundo que ele andava oferecendo em vão!

Oito anos esperou.

Já o tinham repelido Gênova, sua pátria, e Portugal, a moderna Fenícia. Espanha o acolhera friamente, e mais por espírito de rivalidade. Tarde, e só quando viu o leopardo inglês estirar sobre as futuras Índias Ocidentais as garras que depois fisgaram as orientais, resolveu ela aceitar de má vontade a mais suntuosa conquista, que povo algum já realizou.

Depois do convento dilatam-se as veigas e os vales amenos que aformoseiam essa parte da Espanha.

Vamos pelas margens pitorescas do Tinto, que desce dos cimos de Sierra Morena regando os frondosos vinhedos. De espaço a espaço entre as cortinas das parreiras assomam os alvos casais e as granjearias: a vida ali é calma e serena como a correnteza do rio, onde se espelha o céu azul da formosa Andaluzia.

Em um dos casalinhos que bordavam a margem esquerda, vivia em 1595 um pobre vinhateiro. Ramon era descendente de uma família de escudeiros nobres; mas preferira a vida independente e tranquila do campo; tinha pouca família, mulher e filha, nenhuma ambição. A jeira de terra, que herdara, bastava à modesta subsistência; e nos bons anos lá entravam para o modesto mealheiro alguns reais destinados ao dote de D. Dulce.

Era Dulcita uma formosa menina de quinze anos, pura flor andaluza: olhos grandes, de negro aveludado, olhos de gazela; o lábio vermelho como os bagos doces das romãs de Granada; na tez a rósea pubescência dos pêssegos de Almeria; o porte de sultana, e a trança opulenta como a crina virgem do corcel árabe.

O relancear de uns lindos olhos que vos raptam os espíritos e os enleiam num contínuo viver e desviver; os tentadores olhos furtados, como lhes chamou Camões, feiticeiro requebro que os castelhanos dizem melhor com uma só e breve palavra, ojear; esse condão, ninguém o teve jamais, como ela o tinha. Na sua pálpebra rosada, como na fímbria do oriente, fazia-se o dia e a noite; havia ali para a alma de quem a adorava, auroras resplandecentes e suaves crepúsculos.

Se Djezir, o mavioso poeta árabe, a vira sorrir, acreditara que as mais finas pérolas de Ofir rolavam entre cascatas de rubins de Golconda; ou que todas as rosas odoríferas de Gulistan se desfolhavam em cascatas dos lábios da huri mais mimosa do profeta.

Como as princesas encantadas das Mil e Uma Noites, Dulcita esperava o seu príncipe andante. Ele veio a propósito, disfarçado em moço de almocreve. O incógnito por certo pudera ser mais gentil.

Isso foi por uma bela tarde dos últimos dias de abril, tépida e perfumada, como são as tardes da primavera sob o céu da Andaluzia, nos vales ensombrados de laranjeiras em flor. A brisa suspirava a medo, o rio lambia as margens, como lambe o cordeiro os brancos velos da ovelha adormecida. Um rouxinol preludiava a canção maviosa no espesso e florido rosal. Longe tinia o som argentino de uma campainha, que tangia o passo tardo das mulas de carga trilhando caminho da cidade.

Dulcita, retirada a um canto do pomar, à beira do rio, dava os últimos pontos a uma linda mantilha que destinara à função da maia. Enquanto as agulhas ligeiras passavam e repassavam cerrando as estreitas malhas do torçal, estavam já a revoar-lhe no pensamento as danças e os alegres folgares, e os lindos descantes da próxima festa. Já se via admirada e perseguida pelos rapazes que disputavam a ventura de bailar com ela a primeira cachucha. E de nenhum se agradava, senão que a todos os rejeitava.

Nisto aparecia um lindo majo, formoso como um anjo e nobre como um infanção, tão bem composto das feições gentis, e tão alindado das luzidas galas, que era um gosto vê-lo. Chegando lhe deitara os olhos, cativos já; e veio para ela, e veio bailando, e atirou-lhe o desafio. Dulcita estremecia e corava, de pejo também, porém mais de prazer. O pé mimoso e sutil já lhe titilava no chapim broslado e os dedos insofridos estalavam as castanholas.

Ai dor!... De tão enlevada que a tinham os ledos pensamentos, se esquecera de si, e começou não de pensamento, senão de verdade, a estalar nos dedos as sonhadas castanholas. Eis que as agulhas resvalando pelo regaço, saltaram do terrado e foram cair no rio. Com elas se afundaram também as ingênuas alegrias de tão meigas cismas.

Dulcita enfiou de aflição.

Como poria ela agora remate ao seu lindo véu? E sem o seu lindo véu, tão malfadado, como ousaria ela, mofina e desconsolada, aparecer na festa entre as outras majas tão aprimoradas no traje?

Vão-se-lhe os olhos magoados pela correnteza das águas e com eles as lágrimas a desfiar pelas faces como orvalho da noite rorejando as pálidas boninas que o sol desbotou.

Quem vos dera, sonhado mancebo e gentil príncipe, serdes ali presente para enxugar o dorido pranto e remir com todo o vosso puro sangue castelhano uma só daquelas raras pérolas de Ceilão!

Embebida em seus enlevos, a sonhar da festa, não vira Dulcita aproximar-se da beira do rio, por entre o arvoredo basto, um rapazito que tocava três mulas de carga. Havia aí um bebedouro. Enquanto matavam a sede e resfolgavam os animais fatigados da caminhada, o moço recoveiro lavara o rosto e as mãos cobertas de pó, e se recostara no tronco derreado de um velho salgueiro. Para amenizar o descanso, sacara do alforje um alfarrábio sovado e roído nas pontas, e prosseguiu na leitura já começada. Era a obra, que assim lhe prendia a atenção um volume truncado dos muitos que deixou Lope da Vega sob o título de Autos Sacramentales.

Lia o rapazito quando os estalinhos que dava a menina, imaginando repinicar as castanholas, o fizeram erguer olhos para o pomar. Julgou ver ali uma das virgens dos painéis de Navarreto, el mudo, o mais gracioso dos pintores daquele tempo. Esteve contemplando-a até o momento em que as agulhas caíram.

O recoveiro ergueu-se devagarinho; tinha na fisionomia a astúcia do gato.

— O que dará a niña a quem lhe achar suas agulhas?

Dulce soltou um pequeno grito de espanto vendo o rapazito; quis fugir, mas logo acudiu-lhe uma ideia risonha.

— É usted que as tem?

— Não as tenho não, porém as terei querendo Deus.

— Verdade, verdade? exclamou a menina não cabendo em si de contente.

— Tão verdade, que as estou vendo daqui. Mire!

De feito o moço, da posição em que estava, via brilhar sobre a branca areia no raso d’água cristalina, iluminada pelas réstias do sol, as duas agulhas de aço; bastou-lhe mergulhar a mão para que as apanhasse. Feito o que, agitou-as no ar, como um troféu.

— Traga! Traga! exclamava a menina desfeita em risos.

— Que me dará a menina?

— Tudo e mais se o tivera eu; pero não tenho nada.

— Tem, tem!

A menina ficou suspensa, entre contente e pesarosa, com os olhos fitos no rapaz. Só então reparou ela na formosura do alvo semblante, que realçavam as vestes de lã cor de pinhão. Tinha o moço o corpo esbelto, e em toda sua pessoa a arrogância castelhana, que perfumavam ares de muita graça e gentileza.

Dulcita lembrou-se do seu majo e sorriu:

— Se você me dá minhas agulhas, para acabar minha mantilha, para compor meu trajo, para me ir à festa da maia, para dançar a cachucha... Que lhe darei eu?

— Sim, que me dará você?

— Darei... Darei que seja meu cavalheiro!

E dizendo isto, sorriu ainda. Ela sabia, a vaidosa, pesar da ingênua inocência, que essa palavra abria o céu ao feliz mortal que a recebesse. Como não ficou quando viu que o rapazito, em vez de cair de joelhos a seus pés e render-lhe mil vidas, abanava a cabeça com mostras de indiferente!

— Serei seu cavalheiro, sim. Pero não basta! disse o moço.

Dulcita inclinou a fronte melancólica, murmurando:

— Que mais posso eu dar?

— Veja a menina, respondeu o rapazito.

Novo raio de luz, desta vez aceso em rubor, cintilou no rosto da andaluzita:

— Ah! sei já! Darei... Darei...

— O quê?

— Darei que me beije a mão.

— Também quero; mas é pouco.

— Deus Santo! Não acaba hoje de querer?

— São duas as agulhas! Serve à chiquita uma só?

— Não! As duas! Quero as duas!

— Então?

Dulcita bateu o pé com impaciência. Teve ímpetos de recolher-se. Mas o seu véu por acabar? E a função da maia tão sonhada?

O sangue espanhol borbulhou no coração de quinze anos.

Avançou a cabeça com certa petulância, pousando a ponta do dedo sobre uma das rosas que abrira em cada face. Nos lábios, que frisava o despeito, espontava um beijo; no olhar havia um ponto de interrogação vivo e instante.

O muchacho sorriu à graciosa pantomima.

— Sim! respondeu ele.

— Está contente enfim? balbuciou a menina.

— Ainda não.

— Ai! que você é mui mau!

— Eis o pago que me dá por ter achado o que estava perdido! acudiu o rapaz.

— Diga pois duma vez: o que quer?

— Digo mesmo!

— Diga sem medo!

— Jura a menina que não me recusará?

Dulce estremeceu, presa de vago terror; estremeceu, como a sensitiva, sem ver do que; mas era andaluza; pôs os olhos no céu e o pensamento em Deus.

— Juro! disse a voz breve e decidida.

— Mui bem! A chiquita terá suas agulhas, se por cima da cachucha...

— Estou ouvindo!

— E por cima dos quatro...

— Quatro, senhor meu! Dois, não mais!...

— Um em cada mão, um em cada face...

— Mas não! Mas não!...

— Bem contados, dois e mais dois fazem quatro!

— Não darei senão um! Foi o prometido.

— Pois fique-se a menina com ele, e eu me vou com as minhas agulhas.

— Já que você o quer, sejam quatro embora! É só isto?

— Por cima disto há de dar a menina...

— Que coisa? diga logo!

— Esse cacho de uvas... que ali está... o maior!

A menina saltou como um passarinho; num fechar d'olhos cortou com a tesoura de costura o cacho de uvas, alegre de se ver quite por tal preço. Pobrezinha! Ainda tremia do susto que passara!...

— Aqui o tem!

O rapazito estendeu a mão.

— Mão para lá, mão para cá. Minhas agulhas?...

— Uma só; a outra quando vier o resto.

— Pois tome-lo já!

Não se fez rogar o muchacho; saltando no pomar, pregou dois beijos em cada mão e três em cada face da menina. Depois sentado no chão debulhou o cacho de uvas, enquanto Dulcita ainda vermelha como uma cereja, recuperava o tempo perdido trançando as malhas do véu.

De vez em quando a menina distraía-se a olhar o rosto de querubim do pequeno recoveiro, e nesses momentos suspirava. Quanto ao rapaz, erguia também os olhos, mas para comparar o cacho de uvas que devorava, com os outros que pendiam das parreiras.

— Como se chama você, cavalheiro? perguntou a menina.

— Vilarzito.

— Tem um nome mui gracioso.

— Se lhe gosta, tome-lo a menina para si.

— Ave-Maria! Para mim?

— Não faltam nomes. Deus os dá de graça aos pobres como aos ricos.

— Porém... Não vê? O nome de meu paizinho, só o posso trocar eu pelo de meu maridito!

— Não seja esta a dúvida! Serei eu seu maridito.

— Mil graças, cavalheiro! Meu marido, quem ele for, há de me suspirar um ano, me querer dois, e esperar três que lhe queira eu! Serve-lhe isto?

— Serve mui bem; pois casar, senhora minha, com perdão de você, o mais tarde é sempre o melhor! E antes disso tenho eu muito que fazer por este mundo!

— Pois vá-se por ele fora; aqui me quedarei eu. Não faltam cavalheiros em Andaluzia!

— E chiquitas formosas!... Em Castilha nascem elas como flores pelos caminhos.

— Ah! você é castelhano?

— Da velha Castilha. Sou de Burgos, a valente, sim, senhora! Sou da pátria do Cid, el Campeador,

“Que cingiu a velha espada
De Mudarra, o castelhano,
E foi-se a vingar a afronta
Do infame conde Lozano!”


O rapazito se tinha erguido; cantarolando a antiga trova popular de Castilha, alçava o talhe esbelto e meneava a cabeça com tão nobre galhardia, que a menina pôs-se ingenuamente a admirá-lo.

Talvez murmurasse ela em sua alma, como Dona Chimene, aquela doce palavra do romance, mío Cid!

No entanto Vilarzito chegara à cerca do pomar e chamava, com um sinal particular aos recoveiros, as mulas que já se iam afastando a retosar a verde relva da margem do rio.

— Você é almocreve, D. Vilarzito? perguntou a menina.

— Sou poeta ambulante, como meu mestre D. Miguel Cervantes de Saavedra! respondeu o rapaz com certa arrogância picaresca.

— Pois que você vai a pé tocando suas mulas em vez de cavalgá-las, cuidei!...

— Isto é para correr mundo. Fiz-me moço de um arrieiro, um bribonazo; porém não o sirvo eu, antes me serve ele a mim, pois me paga, mui mal, é verdade. Quanto a ir eu a pé, me agrada mais. D. Rui de Bivar, meu compatriota, andava com seus pés; todo o bom castelhano deve fazer assim. Isto é que é nobre! A sela se fez para as mulheres, pois que são fraquinhas.

Houve uma pausa no interessante diálogo. Dulce suspirava trançando as malhas do véu; Vilarzito olhava a menina à sorrelfa, e seus olhos iam dela ao parreiral. Por fim o rapazito coçou a cabeça e pareceu refletir:

— Não esqueça a chiquita que me deve uma cachucha!

— Tenho palavra, eu, D. Vilarzito, ainda que não devera ter, pois já tomou mais que o devido!

— O passado, passado! Você me deve uma cachucha, eis o certo.

— Sem dúvida, e a pagarei.

— Quando?

— Porém!... Na festa da maia!

— Está longe ainda.

— Faltam só seis dias.

— Em seis dias fez Deus o mundo.

— Que pretende você com isto?

— Ninguém sabe o que pode suceder até lá! O melhor, quer a menina que lho diga?

— Fale, D. Vilarzito.

— Pois que a menina me deve uma cachucha, podemos cambiá-la já por mais dois só...

— Mais dois!... exclamara a menina, com as faces a arder em rubor.

— Senhora, sim; não é muito!

— Com os dez que já tomou você, fazem uma dúzia! Para o primeiro dia!...

— Porém não! Lembre-se a menina que não me deu mais que um, e não foi o maior.

— Ai! são cachos de uvas os dois?

— Então! Cuidava que eram beijos! Depois, não digo que não!

— E por uvas perde você de ser meu cavalheiro! disse a menina com enfado. Não é galante, D. Vilarzito.

— Não há homem galante em jejum, ainda quando ele seja um castelhano. Quisera ver no meu lugar um que tivesse almoçado um Padre-Nosso, e jantado cruzes na boca.

— Como! Está você ainda em jejum?

Sem esperar resposta, a menina saltou ligeira como a gazela dos campos nativas e desapareceu entre as cortinas de parreiras. Voltou logo trazendo sob o avental uma naca de queijo e pão.

— Aqui tem, D. Vilarzito; jante, que me dá nisso prazer.

— Não tenho fome já! respondeu o rapazito com soberba e desdém. Guarde a menina sua esmola para os perros que a peçam.

As lágrimas saltaram dos olhos da menina:

— Não se anoje comigo! É Deus que nos dá a todos o pão nosso de cada dia! Receba você dele, não de mim. Apenas serei eu sua servente!

Assim falando Dulcita se aproximara do moço; tinha ela mil carícias no olhar, e ainda maiores meiguices no gesto; a voz suspirava como um canto de sereia:

— Já não está anojado? Diga que não! Diga-o para sossego meu!

— Não o estou, não, pois que a menina não soube o mal que fez!

— Mui bem! Seja galante assim! Agora jante!

— Não o poderei, ainda que queira. As uvas comi-as eu, porque as ganhei com meu trabalho, não as mendiguei!

— É certo: porém, tão grande foi o serviço, que isto por cima não o paga ainda.

— Para não magoar a menina, guardarei para depois!

— Isso mesmo!

— E agora vou-me que é tarde!

— Já? Tão cedito!

— A noite aí chega; e eu ainda não cheguei à cidade.

— Quando verão agora estes meus olhos a seu senhor?

— Que lhe dera a menina para vê-lo?

— Quanto ele quisera!

— Os que faltam para completar a dúzia?

Dulcita fez um leve sinal com a cabeça, e cerrou corando as longas pálpebras: o rapazito posou não dois, mas uma cascata de beijos em cada face.

— San Tiago de Compostela! exclamou perto uma voz trêmula.

Era de uma velha que chegara a tempo de ver o que passava debaixo do parreiral.

— É sua mãezita? perguntou Vilarzito à menina em voz baixa.

— É a servente! murmurou ela envergonhada.

O rapaz voltou-se com ar imperioso.

— Vem cá, velha, acompanha a casa minha esposa.

— É possível? exclamou a aia.

— Adeus, querida! Até amanhã.

— E vai-se sem perguntar meu nome?

— Basta que o saiba o padre na igreja. Para mim será a doçura de minha alma.

— Sim; pois me chamo Dulcita, quero sê-la para quem agora somente sou.

Vilarzito beijou de novo as faces de sua amante às barbas mesmo da velha, e calcando o sombreiro na cabeça, partiu-se, altivo como um rei.