As Minas de Prata/I/XXIII

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As Minas de Prata por José de Alencar
Cavalarias altas do Doutor Vaz Caminha


Ao separar-se de Estácio na Rua de Santa Luzia, o licenciado seguiu para a casa da dama desconhecida, guiado pelo negro Lucas.

Passada a porta de São Bento, havia à beira do caminho uma casa que tinha de um e outro lado grande quintal, coberto de vasto arvoredo. As ramas das goiabeiras tinham invadido as duas extremidades do alpendre, de modo que não se via senão duas janelas de rótulas no centro.

A porta principal da casa, que ficava a um dos lados, parecia condenada desde muito, pois estava oculta pela ramada e coberta de limo. De feito, muitos anos havia que não se tinha aberto para pessoa alguma; o serviço da casa fazia-se pela entrada interior, que do quintal comunicava com a rua por uma cancela.

Como essa cancela ficava muito distante do oitão, e abria-se no meio de uma cerca bastante extensa, não era fácil conhecer se dava entrada para a casa misteriosa, que parecia abandonada, ou para alguma outra que houvesse dentro do quintal.

Lucas, deixando o doutor no alpendre, abriu a cancela e dirigiu-se à casa por um caminho tortuoso e estreito, que passava entre o arvoredo copado e as toiças de bananeiras.

O Doutor Vaz Caminha, desde que saíra da taverna do Brás Judengo, vinha parafusando, já no mistério deste chamado, já na conversa que surpreendera na adega entre o negro e o taberneiro. Ainda que o primeiro ponto devia ocupar muito mais seu espírito, como aquele que diretamente o interessava, ele não podia arredar o pensamento do plano concertado para o roubo do tesouro enterrado; e cogitava se não estaria involuntariamente envolvido nessa trama.

Agora, parado ali no alpendre da casa, onde provavelmente jazia o tesouro, aquelas preocupações voltavam, e com maior intensidade; pelo que o doutor examinava o edifício e seus arredores com uma atenção minuciosa. Pareceu-lhe distinguir uns vultos que se esgueiraram pela cancela, logo depois da passagem de Lucas; e erguendo-se na pontinha dos pés, tentou ver através da cerca a direção que tomavam.

Neste momento porém a chave rangeu na porta grande da entrada, e volveu à direita e à esquerda, mas debalde; a ferrugem tornara perra a fechadura. Depois de grande esforço a porta abriu-se afinal e correu sobre os gonzos gemendo; algumas víboras escaparam-se das fendas carunchosas, e a luz interior coou mortiça através das folhagens.

Vaz Caminha penetrou na casa; e a Brásia, que lhe abrira a porta, o conduziu a uma sala outrora ricamente adereçada, mas já então usada pelo tempo e desbotada do antigo luzimento.

Uma dama erguera-se do coxim a que estava recostada para vir ao meio da sala receber o doutor. O traje era de viúva; a beleza deslumbrante. Quem lhe via a mimosa e gentil feição, a julgava na primeira flor da juventude; mas reparando, descobria-se uma névoa ou sombra, como nas imagens de santas, a embotar o viço da formosura.

Naquele tempo havia destas flores de claustro, floridas sem brisa, nem sol; mas esta, não a desmaiara o gélido crepúsculo das naves, senão talvez que a crestara o sopro ardente do mundo.

Este constante volver d’alma para dentro de si mesma, quem já o exprimiu? Quem sabe o que há aí, no âmago, que assim confrange a vida? Será um santo êxtase de amor e fé, e também pode ser o acre prurido de úlcera profunda.

A dama, depois que saudou o advogado, indicou-lhe uma cadeira de espaldar que estava fronteira; junto ao coxim havia sobre o velador da Índia uma bolsa cheia de ouro, posta em salva de prata.

— Desculpai-me o desarranjo que vos causei, meu senhor, e a mesquinhez da paga. Outra de mais valia vos guardarei eternamente em meu coração pela generosidade que houvestes com uma dama desconhecida.

Ao proferir destas palavras com a voz trêmula e leve acento castelhano, a dona tomara a salva do velador e a pouco e pouco, resvalando pelo coxim, estava de joelhos sobre a almofada no momento de oferecer ao advogado a espórtula dos bons ofícios que dele esperava.

Nunca remuneração de um serviço foi mais generosa, nem com mais delicadeza oferecida. O doutor confuso ergueu a dama e deitou a salva em cima da banquinha.

— Não fiz mais que o meu dever, senhora minha, e dou-me por bem pago com prestar-vos tão pequeno serviço.

— Sois rico e muito de saber, sr. licenciado, mas se não me enganaram, reduzido nos bens da fortuna que o acaso acumulou em minhas mãos. Demais, tendes com quem repartir, enquanto que eu estou só no mundo.

— Quem tenho eu, senão uma pobre irmã, que de bem pouco precisa para encher os últimos dias?

— E um afilhado e discípulo a quem estimais como filho.

— Estácio?... Ah! esse é como outro eu!

— Tanto o prezais!... Pois recebei para ele o que para vós recusais. Trocando uma parte mínima de sua abastança por toda a vossa opulência de saber, é esta vossa serva quem ainda vos fica restando.

— Basta, senhora minha; vejo que vossa generosidade é das que não se deixam vencer da recusa, antes dobram e avultam com ela. Recebo a tão fidalga retribuição; mas como letrado somente. Se outra foi vossa ideia chamando-me, dizei-o logo, para que me retire.

— Ah! não... podeis ficar sem receio.

O advogado não hesitou mais e beijou a mão da dama; esta prosseguira:

— Haveis de escusar, senhor doutor, a hora e estranheza deste emprazamento, tão fora dos vossos hábitos; mas além de que tinha razão de segredo, como vos adverti no meu recado, acresce que sou espiada. Sabereis logo por quem, e qual o motivo. Assim não achei melhor ensejo para falar-vos do que esta noite de folguedos, em que todos andam distraídos com a festa.

— Vejo que se vosso caso é grave, senhora, vossa discrição está na medida dele. Podeis expô-lo.

A dama recolheu em si e parecia agora no momento de abrir os refolhos de sua alma, presa de um enleio que lhe tolhia a palavra. Era o pudor de uma angústia, ainda não desflorada pela curiosidade ou mesmo pela compaixão de estranhos, mas até então recatada nas profundezas d'alma.

— Quando vos aprouver, senhora, estou pronto para ouvir-vos, disse o velho animando-a.

A dama começou trêmula:

— O para que vos roguei, sr. licenciado, é em verdade mais do que uma consulta, pois é uma confissão. O que espero de vós, não é só conselho, senão também amparo e proteção ao meu desvalimento. Isto bem sei que não se paga com ouro, mas suplico eu como esmola.

— Proteção, dar-vo-la-ei, senhora, não minha; mas a da lei e justiças de El-Rei. Quanto ao mais podeis falar; meu ministério é um sacerdócio também.

— Não esperava menos de vossa bondade.

— Contudo de uma coisa devo prevenir-vos. Se com a vossa revelação tendes em vista antes um conforto para o espírito, do que um remédio a agravos dos homens, melhor vos serviria um ministro da religião, do que um ministro da lei. Tão seca e áspera é a palavra deste, como a daquele suave, branda e insinuante.

— Nunca!... Deles nada quero! exclamou a dama com um gesto de horror, que surpreendeu o velho advogado.

— Teríeis a desgraça de não ser cristã, senhora? perguntou o velho com um tom compassivo.

— Mas ouvide esta desventurada, senhor meu, que tudo entendereis. Cristã nasci e... e sou ainda.

Passado um instante, em que a dama recobrou-se da comoção que sofrera, dirigiu-se de novo ao advogado.

— Talvez tenha chegado à vossa notícia o nome de meu pai, D. Ramon Salas?

— Castelhano?

— De Andaluzia. Fazem nove anos que nos passamos ao Brasil. Logo depois de nossa chegada, meu pai fez uma entrada no sertão, donde trouxe avultado cabedal em pedrarias de diamante, que ocultou em lugar seguro. Para mim o destinava ele, que para si não queria mais felicidade do que a de sua filha!... Pobre pai! Finou-se sem ver o termo de minhas desditas!... Eu que tanto esperava dessa riqueza, não sei agora como use dela! E às vezes já me cansa defendê-la contra a cobiça alheia.

— Alguém é sabedor dela, pois a cobiça?

— Foi público e notório o lucro que meu pai tirou de suas explorações no sertão. Parece que também esta nova chegou ao Colégio dos Padres, pois o reitor não tem cessado de instar comigo para fazer esmola ao seu Instituto dos cabedais que herdei. Deixai que vos diga; sinto por tudo quanto veste o hábito negro da Companhia um ódio entranhado; mas ele também é jesuíta!...

— Ele?... interrogou o doutor.

A moça calou-se de novo, absorvida em suas mágoas. O velho contemplava-a perscrutando-lhe o pensamento na expressão da fisionomia. De repente ergueu a fronte, surpreso. Inclinando o ouvido à escuta, percebeu um surdo rumor que saía do chão e parecia vir do lado a que dava ele as costas.

Voltando-se, percorreu de um olhar rápido essa face interior da sala. Rasgavam a parede três portas; uma pela qual entrara, à direita; outra, à esquerda, velada por um reposteiro; a do centro mais larga, em ogiva, rematando em uma cruz de madeira embutida no cimento.

Circulando o aposento, observou mais o doutor que a parede, onde encostava o camarim, abria janelas para o oitão da casa, justamente do lado da cancela, por onde vira pouco antes esgueirarem-se os vultos suspeitos.

Este rápido exame da topografia do edifício confirmou o advogado nas suspeitas que o tinham assaltado em caminho. A conversa que pela manhã ouvira na adega do Brás Judengo; a circunstância de ser Lucas escravo da dama; os avultados cabedais que Ramon havia trazido do sertão em diamantes, e que ocultara em lugar seguro, como pouco antes referira a filha; tudo se combinava agora.

— Não há duvidar!... pensou Vaz Caminha. Aí está o oratório no centro; o camarim da senhora, aqui, no oitão... O Brás foi expedito; não quis perder tempo. Aqueles vultos, que lobriguei na cerca ao chegar, são os acólitos do Judengo, encarregados de fazer a mina. Este rumor subterrâneo é eles que estão cavando.

O advogado teve um impulso de revelar imediatamente à dona o perigo em que estava o seu tesouro, mas lembrando-se que não era possível abrir em uma só noite a mina precisa para chegar ao oratório, conteve-se para não assustar a dama; e propôs-se a ruminar mais tarde o caso, na esperança de descobrir algum meio de burlar os ladrões sem dar rebate de seu projeto.

A voz da moça interrompeu-lhe a cogitação:

— É tempo de contar-vos a minha história, e dizer-vos que infortúnio é o meu, tão cruel como talvez nenhuma outra mulher o tenha sofrido; pois ver morrer o esposo, não é decerto tão duro golpe como aquele que a sorte mofina me reservou, de ver-me viúva, não o sendo, e proibida de amar aquele que me pertence, porque Deus, que mo deu, o tomou para si.

Vaz caminha recolheu-se atento, e esperou que a dama lhe explicasse o enigma daquelas palavras.


                                                              FIM DA PRIMEIRA PARTE