As Minas de Prata/I/XXII

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As Minas de Prata por José de Alencar
Que há males que vêm para bem


Deixando o terreiro de D. Luísa, o capitão de mato acompanhado de Estácio e Gil, dirigiu-se rápido à casa de Mariquinhas dos Cachos, por ser esse o mais próximo albergue a que podia conduzir o corpo de Cristóvão a fim de acudir-lhe com os primeiros socorros.

A moça já estava recolhida desde muito; mas entendendo daquele bater apressado e tão fora de horas, que era caso de aperto, e conhecendo a voz de João Fogaça que a chamava, consertou de afogadilho as roupas de dormir e embuçada na sua mantilha correu a abrir.

Em poucas palavras lhe comunicou João o que o trazia assim de surpresa; e ela, vendo-lhe nos braços o corpo desfalecido do cavalheiro, ficou tão enleada que não sabia o que fizesse.

Seu primeiro impulso foi levar o capitão de mato à alcova; mas lembrou-se que sua cama estava desfeita e ainda quente de seu calor; e a lembrança de que João a pudesse ver assim, queimou-lhe as faces de pejo.

— Move-te daí; e dá-me uma cama, ou uma enxerga ao menos, para deitar este mísero, que está a despedir-se da vida se não lhe acudimos já.

Estas palavras do capitão de mato fizeram a moça esquecer-se de si para só pensar na salvação de Cristóvão. Correu à sua alcova, e ajudou João a deitar em sua cama o corpo inanimado do cavalheiro.

Na cidade do Salvador e sua redondeza não havia então físico ou algebrista que chegasse ao capitão de mato na arte de pensar feridas, consertar ossos e conhecer os simples; nem mesmo o mestre Cabral, de todos os mata-sanos da Bahia o mais afamado.

Aprendera dos selvagens entre quem passava uma boa parte de sua nômade existência.

Lavando os golpes e sondando-os, conheceu ele que, profundos e em grande número, não tinham embora ofendido algum órgão vital; a perda de sangue, sim, fora muita e debilitara em excesso o enfermo. Posto o aparelho, o cavalheiro recuperou os sentidos, mas para cair em nova e frequente síncope, que trazia a todos assustados.

João Fogaça resolvido a não arredar pé um instante da alcova enquanto não visse o seu colaço livre de todo o perigo, chamou Gil para mandá-lo a sua casa buscar um cordial que ele mesmo compusera de bálsamo de embaíba.

O pajem, depois de ouvir o recado do capitão de mato, tomou Estácio de parte para dizer-lhe:

— Ides amofinar-vos comigo, sr. cavalheiro, mas paciência. Jurei à minha alma que não vos deixaria um instante só.

— E por que motivo não me queres tu deixar, Gil?

— Se nada posso por vós, dai-me ao menos que seja convosco até o último instante.

— Vai em paz. Eu te prometo que na hora derradeira te terei junto a mim, pois lembra-te o que de ti espero que lhe digas a ela.

Gil, consolado com esta promessa, partiu a correr; e antes de uma hora estava de volta.

O resto da noite correu entre os frouxos lumes da esperança, que logo se apagavam, para lampejarem de novo. Foi somente lá para a madrugada que os efeitos do curativo dissiparam os sintomas assustadores. Voltou o calor à epiderme gelada, a luz aos olhos baços; e o espírito animou outra vez aquele corpo hirto. Cristóvão quis falar; mas as forças não lhe chegaram senão para sorrir aos amigos que rodeavam o leito. Depois desse esforço, caiu em profundo letargo.

Até então pessoa alguma ocupara-se de outra coisa que não fossem desvelos e sustos pela sorte do enfermo. Com os olhos pregados no belo semblante pálido de Cristóvão, espiavam todos, reclinados sobre a cama, os vislumbres daquela existência que semelhante ao clarão da lâmpada bruxuleava prestes a extinguir-se de todo.

Mal o sorriso despontou nos lábios descorados do cavalheiro, derramou-se por todos os semblantes como se fosse contagioso. Ouviu-se então o respirar profundo daqueles peitos por tanto tempo opressos; e a alegria de todos se difundiu em um mesmo grito:

— Está salvo!

João Fogaça então voltou-se para Estácio Correia:

— Não vos conhecia de pessoa; e não sei mesmo se vos conhecia de nome, ainda que o ouvisse proferir por vezes. Comecei porém a conhecer-vos pelo coração, que é de ouro fino. Se algum dia precisardes de um braço pesado, um pé ligeiro, e uma cabeça dura, é esta figura desengonçada que aqui vedes, João Fogaça, capitão de mato, para vos servir e respeitar.

Estácio apertou a mão ao sertanista.

— Eu já vos conhecia pela conversação de Cristóvão, e tanto que vos adivinhei logo que nos encontramos. Sei pois quanto vale o que tão graciosamente me ofereceis, e do que é capaz vosso esforço e diligência para as maiores empresas; mas acima de tudo agradeço-vos a salvação deste irmão; ainda que não o fizestes senão por ele, é como se o fizésseis a mim mesmo.

— Mas não, pois fostes quem o salvou e não só a ele, senão também a mim de um banho no fosso. Quando chegastes tão a ponto, estava eu, cai não cai. Figurai-vos um homem com um cão filado ao calcanhar!... Mas eu lhe farei as contas e boas, ao tal Anselmo e aos outros. Bastou vossa presença para que se moscassem!... E nem espada trazíeis!...

Continuaram a praticar os dois, que se tinham passado à varanda para não perturbar o sono do enfermo. João Fogaça contou o que vira desde o momento de sua chegada; Estácio adivinhou o resto pelo que já sabia dos amores do amigo.

Pela madrugada Mariquinhas veio ter com eles:

— Espertou agora mesmo, disse a moça; deixei-o mais calmo da dor, mas não do ânimo.

Os dois amigos voltaram à recâmara, onde encontraram o ferido já outro, embora ainda bastante abatido. Assim que os viu, Cristóvão tomou-lhes das mãos, para os chamar a si:

— Que isto não se assoalhe, amigos. Se me quereis, dai-me esta prova. Seu recato é bem mais precioso, do que esta vida salva por vós.

Resolveram que se guardasse segredo impenetrável. Estácio respondia pelo pajem; os facínoras, esses de seu lado teriam cuidado de não se denunciarem. A mãe de Cristóvão morava no engenho a quatro léguas; portanto podia ficar na ignorância dos ferimentos, se durante a cura houvesse cuidado de mandar regularmente notícias. Afonso, o escudeiro de Ávila, que apenas avisado por Gil acudira à pressa, foi incumbido da execução desse plano.

— Ainda vos tenho que pedir, disse o ferido.

— Falai, amigo! tornou Estácio.

— Falai, porém o menos possível a fim de não enfraquecer-vos ainda mais.

— Para meu sossego, careço de saber dela... Como a tratou sua mãe, depois que a arrebatou de mim... Sobretudo não me enganai!

— Estou que por aí nada há que temer.

— Ah! que muito! Tenho um pressentimento...

— Pois vou-me deste passo cumprir o vosso desejo e não esperareis muito, que não torne com boas-novas, disse Estácio. Mas ficai certo que se forem más, não as esconderei; pois bem sei eu o que custam depois os desenganos.

A última frase, Estácio a soltara sem querer e com uma voz abafada que só do amigo foi entendida. Este viu-lhe no rosto o luto d'alma, e ainda que nada sabia, suspeitou uma grande mágoa:

— Não, Estácio, replicou Ávila. Guardo-vos para coisa mais difícil; esta diligência, dou-a ao meu colaço, como pessoa menos conhecida.

— Pronto, Cristovinho! De que se trata?

— Esperai, que me sinto fatigado.

— Bem que vos recomendei!

— Quereis que lhe explique? perguntou Estácio.

Cristóvão fez sinal afirmativo.

— Trata-se de ir à casa de D. Luísa. Sabeis? A mesma desta noite...

— Sei, sei; lá contava ir eu hoje logo que amanhecesse à busca do meu varapau, e para tirar certa devassa do caso...

— João, por quem sois, não façais espalhafato!

— Convém todo o disfarce e prudência para o bom êxito da empresa, acudiu Estácio. Ides lá unicamente saber o que houve com D. Elvira da parte da mãe.

— Mas bem entendido, observou Cristóvão, que não fareis ruído, nem algazarra.

— Está direito! Mas pergunto-vos eu, se pilhar de jeito algum dos cães desta noite, posso torcer-lhe o gasnete.

— Não! Não! exclamou Cristóvão.

— Devagarinho, sem rumor?

— Por Deus, João! Se ides com tais tenções, melhor é deixar-vos ficar. Estácio me fará esta esmola!

— Bem, bem; não se matará nem uma pulga, pois que sois tão avaro do sangue alheio, quanto pródigo do vosso.

— Não é do sangue que ele é avaro, mas do crédito e virtude dela. Porventura nunca vos bateu o coração por alguma mulher, Sr. João Fogaça? perguntou Estácio.

Os olhos do capitão de mato brilharam como uma chama que rompe do borralho, e apagaram-se logo sob a expressão de um riso desconsolado.

— Não sei! Se isso foi, há tanto tempo já, que não me lembra.

Mariquinhas voltou-se para abafar um suspiro, que ninguém ouviu.

— Pois volvei a esse tempo, tornou Estácio; e suponde que por uma indiscrição vossa, iam dizer amanhã que essa a quem adorais faltou ao recato de donzela e aos ditames da honra!... Pensai que desgosto não seria o vosso.

— Basta; não careceis de me dizer mais nada. Ficai tranquilo, Cristovinho!

O capitão de mato advertiu Mariquinhas do que lhe cumpria fazer, e foi-se, tendo antes o cuidado de examinar o aparelho da ferida.

Ficando só com o amigo, a primeira palavra de Ávila foi:

— Que vos aconteceu, Estácio? Dizei-mo, amigo.

— Falemos antes do que me quereis incumbir, Cristóvão.

— A incumbência é nenhuma, foi mero pretexto para não vos distrair de vossos cuidados com os meus, pois vejo que os tendes bem negros e pesados.

— Engano vosso.

— Que val negardes?... Não estou vendo eu que se a mim cortaram as carnes a ferro, a vós lancearam o coração quem sabe de que dor. E todavia eu vos acreditava tão feliz!

— Também eu!... É sempre assim, primeiro o mel, depois o fel, para que mais amargo saiba.

— E agora, ainda o negareis?

— Quereis saber? Suspeito que os amores de D. Fernando são bem acolhidos.

— Donde e por que o suspeitais?

— Não poderei dizer-vos; tenho essa desconfiança.

— Ah! já vejo que não passam de sombras más vossas tristezas. Desterrai esse mau pensar; Inesita vos ama; não o viu ontem na cavalhada quem não quis ver.

Estácio pôde a muito esforço disfarçar a sua dor e ocultar a certeza de sua desventura, para não magoar o amigo. Calou-se pois dando mostras de consolado.

Sobreveio com pouco novo sono ao enfermo. Estácio contemplou um instante o amigo adormecido, e afastando carinhosamente os anéis de cabelos, beijou-o na fronte.

Gil alerta ouviu os passos do cavalheiro, e dispôs-se logo a acompanhá-lo. Partiram ambos sem despedirem-se da Mariquinhas dos Cachos.

— Vamos a Nazaré, Sr. Estácio? perguntou o pajem.

O mancebo respondeu com um gesto afirmativo.

— E o vosso cavalo?

— Não é preciso.

Rompia então a alvorada. As lindas colinas que formavam naquele tempo a cintura da cidade, debuxavam-se no horizonte aos toques da luz matutina. Dos campos e dos bosques se elevava esse jubileu sublime, que anuncia em nossa terra o nascer do sol.

Estácio, submergido em sua consciência, não se apercebia desses esplendores da natureza tropical. O projeto sinistro que ele formara na véspera ao sair do sarau, e do qual o distraíra a aflição de ver Cristóvão malferido, de novo se tinha apoderado de seu espírito.

Mas, neste momento, aplacado o primeiro ímpeto da paixão, o mancebo tinha a calma necessária para refletir.

O recente perigo de Cristóvão lembrou-lhe que tinha um amigo, um irmão, a quem sua vida ainda podia servir outra vez, como servira aquela noite. Depois pensou no desgosto que sua morte causaria ao bom Vaz Caminha, a quem pagaria com a ingratidão o amor e benefícios que dele recebera. Finalmente recordou-se do empenho sagrado que na véspera contraíra com a memória venerada de seu pai, injustamente condenado.

E foi assim que o desastre acontecido a Cristóvão de Ávila trouxe esse bem de salvar a vida de Estácio Correia, impedindo-o de correr ao desafio com o alferes, para trespassar-se na sua espada.

Contudo ainda o mancebo esteve em risco de tornar à sua ideia, quando ouviu ao longe um alegre descante, resto das folias da noite. Este eco das festas, que para ele haviam sido tão desventuradas, veio avivar-lhe todas as recordações que apenas começavam a adormecer.

Entretanto João Fogaça tratava de desempenhar-se da incumbência que recebera.

A advertência de Estácio e o pedido de Cristóvão o tornaram prudente e o demoveram da ideia em que estava de ir ao terreiro de D. Luísa buscar seu varapau e com ele por desfastio escovar o pelo a algum dos mariolas da casa, se o apanhasse desgarrado. Adiando para mais tarde este gosto, fez-se na volta de Nazaré.

Daquelas bandas ficava o pouso onde costumava arranchar sua companhia composta de cem índios, e onde a deixara na véspera sob as ordens de Antão Pereira, seu cabo, quando entrou na cidade para acudir ao emprazamento da ceia em casa da Mariquinhas.

Fogaça não era homem de palavras, nem de reflexões; sua força estava na ação. Essa era pronta, decidida e inspirada pelas circunstâncias do momento; então um instinto maravilhoso guiava-lhe o pensamento e o braço. Se fosse general, só ganharia batalhas à Marengo.

Sem inquietar-se dos meios de que ia servir-se para chegar ao resultado, curou unicamente de armar-se dos instrumentos necessários à empresa. Era isso o que o levava ao rancho.

Entre os selvagens de sua companhia, havia três que formavam seu estado-maior, porque sempre e em qualquer empresa que cometesse, os trazia a seu lado.

Um deles via de dia ou de noite um inseto voar em distância onde qualquer outro de vista regular não descobriria um pássaro. João Fogaça o chamava pura e simplesmente Olho, e com razão, porque era o único órgão inteligente que se distinguia nessa natureza bruta.

O segundo selvagem ouvia na distância de dez passos o roer da lagarta na folha da imbaúba, e distinguia no vasto rumor da mata-virgem a qualidade e a distância de todos os sons que formavam o surdo concerto das selvas. Pela mesma razão que o outro, esse foi apelidado Ouvido.

O terceiro porém era ainda mais admirável; bastava-lhe pôr o nariz ao vento e aspirar uma baforada de ar, para conhecer que pessoas ou coisas estavam naquele momento dentro do largo círculo de seu olfato, ou por aí tinham passado nos dias anteriores. Se lhe dessem a cheirar um molho da relva pisada por animal, ele diria incontinenti a espécie, se bruto, e qual a família; se homem, qual a raça, europeia, africana ou brasileira; e precisaria o tempo em que por aquele lugar passara. Esse acudia ao nome de Faro.

Coletivamente João Fogaça os chamava seus três sentidos de sobressalente.

Chegado ao rancho o capitão de mato, entendeu-se previamente com seu capataz, sujeito que formava com ele perfeito contraste; tanto tinha um de avolumado, quanto o outro de exíguo. Aquele era a pachorra caracterizada; este tinha azougue na medula.

— Careço de estar estes tempos na cidade, Antão; deixo-vos pois a gente bem recomendada.

— Este que aqui está, João Fogaça, já aguentou o arranco de uma maruja insubordinada!... Se vísseis como a tenteei à força de calabrote! Nem piava!...

— Bem sei com quem lido; e por isso não vos dou mais jurisdição, do que a de amarrar o que mal proceder; o mais fica por minha conta.

— Torno a dizer-vos, Fogaça, poupais muito o pelo a esses malditos caboclos!

— Pudera não; se é esse pelo que me cobre a pele!...

— Por isso mesmo; é bom trazê-lo escovado.

— Sobre isto basta. Vamos agora a certa combinação necessária. É bem possível que eu tenha necessidade de comunicar-me convosco de um momento para outro; de caminho irei postando a distância os escutas para que no caso de necessidade o aviso vos chegue sem tardança. Esse aviso será além dos mais que já sabeis: ou que preciso de vós em pessoa, ou que preciso de um, dois, até os cem caboclos. No primeiro caso ouvireis gritar a saracura.

E o capitão de mato imitou o grito da ave; depois deu ao grito uma modulação imperceptível para distingui-lo do primeiro, e significar conforme a sua repetição o número de homens. Finalmente o canto cheio do pássaro equivaleria a dez!

— Portanto, concluiu o capitão de mato, se ouvirdes a saracura cantar assim dez vezes, correi todos em meu socorro.

— Estamos cientes! disse Antão.

João Fogaça voltou à cidade com os seus três sentidos de sobressalente e mais alguns índios, que foi deixando pelo caminho, na distância de muitas braças um do outro. Chegando defronte da casa de D. Luísa, parou fazendo um sinal aos três índios para que se aproximassem; as três cabeças inclinaram logo, cada uma de seu modo a fim de aproximarem do senhor a parte mais nobre e inteligente; a de Olho, direita, encarando em frente; a de Ouvido, pendida para escutar; a de Faro, empinada ao vento.

— Estão vendo aquela casa?... Quero saber tudo que se passar dentro dela e ao redor!... Ora, pois, à noite cá voltarei!...

As três figuras de quadrúmanos afastaram-se, tomando cada uma forma diversa; uma grimpou ao cimo da árvore mais alterosa do circuito; as duas outras, pondo-se a barlavento da habitação, uma embolou-se entre as moitas como um tatu, a outra escorregou de galho em galho como uma preguiça.