As Minas de Prata/I/XXI

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As Minas de Prata por José de Alencar
Como se achou o capitão de mato tão a ponto de socorrer seu colaço


Em vida do pai de Cristóvão, morava nas terras de seu engenho Garcia, um roceiro pobre, casado em segundas núpcias.

Sua primeira mulher, que servira de ama a Cristóvão, deixara um filho de sete anos, feio menino e desengraçado sim, mas de excelente índole. A madrasta foi má para o enteado, como sempre sucede, e escorraçou a pobre criança.

O menino fugia de casa para evitar os maus tratos, e escondia-se na próxima capoeira. Aí passava o dia entretido em ver as formigas carreando a areia do buraco, em armar arapuca às rolas e sabiás, ou trepar nas árvores para dar caça aos ninhos. A princípio ainda recolhia a casa nas horas de refeição; depois só para cear e dormir. Os frutos silvestres lhe sabiam melhor do que a broa, que o pranto amargava.

Quando voltava do mato, já lusco-fusco, era raro que não trouxesse, escondidos no seio da camisa, algum ninho de ave, uma fruta, ou bonitos passarinhos que dividia entre o seu colaço e uma menina do lugar, filha do vizinho. Eram esses dois entes seus carinhos e sua maior consolação.

As vezes e bem frequentes, que a madrasta o castigava barbaramente sem arrancar-lhe um gemido dos lábios cerrados ou uma lágrima dos olhos secos, era no seio de sua camarada de infância, que a vítima desafogava o coração. Mariquinhas chorava também; pranto copioso vertia dos olhos de ambos. Então o menino arrependia-se da mágoa que causava à sua amiga, e inventava algum folguedo para alegrá-la.

De lastimando-se que estavam, logo começavam de rir e folgar. Abençoadas lágrimas da infância, doce linfa que mana o coração, enquanto puro e virgem, como límpidos orvalhos da manhã da vida! Não conhecessem os olhos que as vertem, aquele outro pranto amargurado, que sangra mais tarde da alma ulcerada!

Veio a adolescência.

João habituado já à solidão e feito com os acidentes do campo, se arriscara até a mata-virgem, e breve soube-lhe dos mais recônditos mistérios. Ninguém melhor que ele seguia a pista do animal, ninguém melhor imitava o silvo da cobra, o assobio da anta, o canto de todos os pássaros. Muitas vezes atraíra o iludido animal, que lhe acudia como ao terno companheiro.

A gente do lugar chamava-o caiporinha, de uma palavra tupi que significa — habitante da floresta; e com efeito o apelido quadrava perfeitamente, porque vindo a falecer-lhe o pai, ele abandonara de maneira a casa paterna, e aí não pôs mais os pés, desde o dia em que saiu órfão. Arranjou então uma miserável palhoça à beira da mata; e ainda essa parecia luxo; sua verdadeira moradia continuou a ser a floresta, onde cada árvore lhe dava abrigo durante a noite.

Por esse tempo, Cristóvão, cinco anos mais moço do que o seu colaço, já se afoitava a travessuras maiores de sua idade, e frequentes vezes acompanhava o caiporinha nas excursões pelo mato.

Quando sucedia separarem-se no escuro da floresta, o menino sentia-se tomado de um estranho pavor; para animá-lo e indicar-lhe o seu ponto, tinha o João um modo de assobiar mui particular, e de tal força que atravessava os rumores da mata sem confundir-se neles.

O costume fez que este assobio se tornasse com o tempo um sinal de aviso em todos os incidentes de sua vida comum. Queria João comunicar a Cristóvão alguma caçada de jacus, a que pretendia ir à boca da noite? Assobiava de longe; e o seu colaço fazia uma escapula de casa para vir falar-lhe. Carecia Cristóvão do companheiro alguma vez para irem-se de camarada ao banho ou ao passeio? Não tinha mais do que pôr-se ao vento da palhoça e soltar o assobio: João com pouco ali estava rente.

Fora igual aviso que dera Cristóvão quando, no transe em que se achou, ouviu a cantiga predileta do capitão de mato; o mesmo foi reconhecer-lhe a voz que lembrar-se dos folguedos de sua infância tão presentes à memória. Depois daqueles tempos felizes e descuidosos muitos e muitos acontecimentos haviam passado que são de saber. Cristóvão chegara a mancebo e cavalheiro; João alcançara uma patente de capitão de mato para o que tinha muita propensão.

Naquela época em que a floresta confrontava com a cidade e quase lhe invadia os quintais, oferecendo ao crime como ao vício couto seguro e asilo contra a vindita da lei, o capitão de mato foi ofício de importância. Era quem melhor policiava o estado, e ia aos desertos sertões trazer o réu à justiça, o escravo ao senhor, e perseguir as hordas selvagens quando infestavam a vizinhança dos povoados.

João Fogaça porém não seria capitão de mato se não fora sua má estrela.

A menina, que lhe dera os primeiros amores, estava já moça, e guapa e formosa. Era conhecida pela Mariquinhas dos Cachos. Viera-lhe o nome das lindas tranças pretas aneladas que brincavam sobre as espáduas torneadas. Quando ela vestia aos domingos, para ir à missa da capela, sua vasquinha de belbute azul com saiote de seda, não havia em toda aquela ribeira quem não suspirasse pela gentil cachopa. João a amava desde a primeira infância. Se com os anos vieram a timidez, o recato, a esquivança, por outra parte o sentimento criara raízes mais profundas, como as túbaras, que medram no seio da terra, embora tenham a rama crestada do sol.

Assim os dois já não brincavam com a antiga efusão; mas em compensação viviam mais um do outro.

A melhor porção da vida de João era da moça. Sua lembrança amiga o acompanhava nas correrias através das matas. Quanto colhia de gracioso e delicado, flor, ave, ou fruto, era para ela; quanto via de bom e lindo, misturava-se logo em seu espírito com a imagem dela. Mariquinhas de seu lado seguia com o pensamento o jovem caçador, estremecendo à ideia dos perigos que porventura corresse. Ao cair da noite o esperava ansiosa entre as moitas do quintal, junto à cerca, onde costumava falar-lhe todas as tardes. O coração soçobrava em alegria e susto ao mesmo tempo, quando ouvia longe o descante que anunciava próxima a chegada do amigo.

Amavam-se, mas nem sabiam dizê-lo um ao outro; nem conhecê-lo. Entrecriam e duvidavam de sua mútua afeição, e esperavam ambos a confissão que nenhum ousava fazer, e talvez ambos temiam em sua impaciência. Até que o dia chegou da explicação; antes não viera!

Uma bela manhã, por meio do almoço, o pai de Mariquinhas virou de supetão a cara para a mulher e lhe disse à queima-roupa, em tom que não admitia réplica:

— O José Tendeiro casa com a Maricas. É preciso ver modos de arranjar-lhe o enxoval. Coisa que ande em pouco!

O primeiro movimento da moça foi de espanto; logo após quando ficou só a angústia encheu-lhe os seios d'alma e transbordou nas lágrimas e soluços. Regalou-se de chorar; e bom foi porque afinal de contas achou-se mais serena. Uma coisa, como a fresca sombra da árvore nas ardentes soalheiras do sertão, foi-se derramando por sua alma crestada e aflita. Horas passadas, a mãe a viu alegre e prazenteira, cantando umas cantigas mui do coração, acordadas com o ponto ligeiro da agulha. Enquanto isso, dizia a menina lá entre si:

— Quando eu contar a João!... Estou para ver que ele ainda me esconda o muito bem que me quer!... O pai que faça lá sua conta, eu lhe tirarei a prova. Esta noite mesmo, Deus sabe onde me irei eu.

Tanto que foi por tarde, Mariquinhas largou da costura, fez às pressas uma trouxa de roupa domingueira, e disfarçando para que a mãe não visse, foi escondê-la junto à cerca onde costumava falar com João. Depois, às trindades, acabada que foi a reza, tomou a bênção à sua mãe, e saiu de casa, onde ela pensava que não voltaria mais senão noiva recebida de seu querido João.

O rapaz chegou com escuro.

Vinha com o passo lento e o coração a saltar-lhe, porque também ele tinha o quer que fosse. Naquela mesma manhã lhe ocorrera um engenhoso expediente para arrancar de Mariquinhas a confissão por que tanto ansiava. O alcaide, a pedido de Cristóvão, e pelas boas partes que lhe conhecia, o propusera a capitão de mato. Nunca a João passara pela ideia aceitar o ofício e apartar-se do seu torrão onde via quanto ele mais queria neste mundo. Mas esse mesmo receio de tão cruel apartamento lhe serviu de inspiração. Pensou que fingindo a próxima partida e para tão longes e arriscadas paragens, a menina não se poderia ter que não mostrasse o que trazia no sentido a respeito dele. Se fosse amizade somente, ele partiria, e sabe Deus se para não tornar; porém um certo bate-bate do coração estava lhe dizendo que não era amizade, mas amor do melhor quilate, o sentimento de Mariquinhas.

Indo ao encontro da moça dizia ele com os seus alamares:

— Chego; digo-lhe adeus, como quem se parte para tão longe, donde sabe Deus se tornará.

Aqui sorria-se do susto de Mariquinhas:

— Ela se debulha toda em choro e salta-me ao pescoço... Então entre dois engulhos sai-lhe afinal de dentro o feitiço de que se morre por mim, como me eu morro por ela. Arrenega-se, quer por tudo quanto há ir comigo por montes e vales. No fim das contas ficamos aqui bem sossegados de nossa vida e amarradinhos...

Do mais longe que avistou o amigo, Mariquinhas acenou-lhe que apressasse, e ele já corria mal divisara o vulto da rapariga entre as sombras e folhas do arvoredo.

— Chega, João, saberás a nova que te guardei! disse a moça com o coração nos lábios.

— Vai dizendo, Mariquinhas! Também eu trago-te uma por que não esperas, respondeu o rapaz mui prazenteiro.

— Pois ouve lá! O pai quer-me para mulher do José Tendeiro!... Sabes? o remendão!

Dizendo isto o riso argentino desfolhava rosas nos frescos lábios da rapariga.

João enfiou.

— Então coseram-te a língua? Nem dizes que te parece do meu futuro!...

— Eu, Mariquinhas!... balbuciou João. Eu... que queres que diga, senão que o José Tendeiro há de ser bom marido... É arranjado e bem visto da gente...

— Achas isso, João? perguntou a moça descorando.

— Acho, sim, Mariquinhas. Só me pesa não estar aqui para as bodas, que vou-me ao sertão. Vinha mesmo para te dizer adeus. Saio pela alvorada.

— Pois era essa a nova que me trazias?

— Que outra podia ser? Querem-me para capitão de mato. Não te parece um bom mister para mim que não tenho outro, e a falar verdade para nenhum presto?

— É muito bom, João; e mais tu que tanto gostas de viver no mato. Bem escolheste.

— Como tu, Mariquinhas.

A torvação dos espíritos, mais do que a escuridade da noite, os cegava a ambos, de modo que não se apercebiam do que passava no outro, tão ocupados estavam de si. E entretanto a voz de João enrouquecera; a fala de Mariquinhas tremia com os soluços. Depois de breve pausa a moça tornou:

— Então é esta madrugada, João?

— Se Deus não mandar o contrário. E tu, quando te casas?

— Breve, breve, mas não tanto como esperei!

— Adeus. Fica-te na paz do Senhor e felicidade que eu sempre te roguei, Mariquinhas.

— Adeus, João. Os anjos te acompanhem, e Nosso Senhor te leve e traga a salvamento.

João abalara bruscamente às últimas palavras; e Mariquinhas caiu de joelhos por trás da moita onde escondera a pequena trouxa. Nenhum viu o pranto que lavava o rosto do outro; nenhum ouviu os soluços que rompiam do seio opresso do infeliz amigo.

O elo que unia aquelas duas existências se partira.

No dia seguinte, por madrugada, João Fogaça partia para a cidade a receber a patente de capitão de mato, e nessa mesma semana fez-se na volta do sertão. Um mês depois a moça era noiva recebida do José Tendeiro e trocava por este o seu gracioso apelido de Mariquinhas dos Cachos.

Seis anos eram decorridos.

A amizade dos dois companheiros de infância, longe de enlanguescer com o tempo, robustecera ao contrário com os vaivéns da fortuna, no que mostrava sua boa têmpera. Quando João tivera uma grande enfermidade que o levara às portas da morte, Mariquinhas, a mais honesta mulher que se sabia, pediu licença a seu marido, que lha deu, e foi velar vinte dias com vinte noites à cabeceira do enfermo. Também quando os selvagens assaltaram uma vez a engenhoca do José Tendeiro, aonde ele então se achava, mal chegou a notícia à cidade, houve um homem e esse foi João Fogaça que cometeu a temeridade de ir, ele só, arrancar das mãos dos canibais o marido de Mariquinhas. Coberto de feridas embora, trouxe-o são e salvo à mulher, sem lembrar-se de que por ele a perdera, e para sempre.

Como que a vida do José Tendeiro só tinha um fim neste mundo, qual o de pôr à prova a sublime abnegação do capitão de mato; realizado que fosse, extinguiu-se de repente. Mariquinhas ficara viúva. Havia isso já muito mais de ano; no entanto a situação relativa dos dois amigos e companheiros de infância, pouca ou nenhuma alteração sofreu com aquele acontecimento.

Quando João Fogaça voltava das suas correrias, ainda coberto de pó e lama, a primeira porta a que batia, era a de Mariquinhas, a primeira pessoa a quem dirigia a palavra, era a viúva do Tendeiro. A moça preparava-lhe a refeição, inquiria de sua saúde, espanava-lhe o fato. Só depois de cumprida a devoção dessa visita, o capitão de mato ia dar conta de suas obrigações.

Realmente essa amizade já era uma parte da sua rude e simples religião. Ele, o homem das brenhas, costumado a orar ao Senhor no templo aberto da criação, tinha para si que nunca melhor cumpria seus deveres de cristão do que amparando a viúva.

Enquanto se demorava na cidade, todos os dias que Deus dava, o serão ia passá-lo em casa de Mariquinhas. Chegados à janela do oitão, ou sentados ao pé da mesa onde ela à luz da candeia fiava, conversavam como dois amigos velhos do seu bom tempo que passara, até a hora em que a frugal ceia fumegando sobre o alvo mantém, os convidava à refeição. Havia porém um ponto em que nenhum se animava a tocar: página do coração que cerrara para não mais abrir. Era a tarde que decidira de seu mútuo destino.

Amavam-se ainda?

Era de pensar que não; pelo menos nenhum deles acreditava possível já agora, o que não fora outrora na flor dos anos seus. Viviam na doce confiança de uma terna e pura amizade. Se alguma suave esperança, das que brotaram na primavera do coração, ainda reverdecia às vezes na monotonia do presente, breve se finava no silêncio de suas almas já ermas de amor.

Naquela noite de ano-bom, fadada para tantos acontecimentos desta história, a primeira luminária a luzir entre os coqueiros e João Fogaça que galgava a ladeira de Nazaré para entrar na cidade, depois de uma ausência de dois meses gastos em correria pelo sertão. O capitão de mato deixou o seu bando arranchado no recôncavo, e demandando a cidade, tomou o caminho tão trilhado da casa da viúva do José Tendeiro, que morava para as bandas de Santa Luzia.

Mariquinhas esperava-o. Partindo, João lhe dissera:

— Guardai-me as janeiras, Mariquinhas!

E ela cumpriu com o prometido. Apesar da festa, deixou-se ficar em casa à espera do amigo. João achou já posta a mesa da ceia com dois talheres. No que lhe era destinado estava um pequeno saquitel de seda escarlate cobrindo uma relíquia, a que o vulgo dava o nome de bentinho e atribuía a virtude de salvar de todo o perigo quem o trazia com fé e devoção. O relicário da moça era preso a um cordão de ouro e continha um pedaço do santo lenho da Cruz, envolto em cabelos seus.

Mas a natureza desse invólucro não se via, nem se havia de saber. Era segredo dela para Deus. Não valiam aqueles fios como prenda ou mimo a João, senão como satisfação que se dava a si própria, fazendo que uma porção, mínima embora de sua pessoa, acompanhasse o amigo nas longas ausências pelos ásperos sertões.

A noite passara como as outras, se não fora que o capitão de mato se deixou ficar além da hora costumada. Ao toque de recolher ainda estavam à mesa da ceia: o viandante trouxera bom apetite do último estirão de caminho que forçara para alcançar a cidade; e portanto a refeição prolongou-se. Avisando afinal que era tarde, saiu para seu rancho, levando ao pescoço o relicário.

A prenda de Mariquinhas a roçar-lhe o peito, o contato de uma coisa que saíra tão tocada das suas mãos, lhe despertara não sei que doces estremecimentos d'alma. Sentiu-se como afrontado de suspiros alegres e tristes, de saudades travadas de esperanças; e sem pensar, os lábios entreabriram-se e o seio desafogou no descante predileto. Bem anos havia que o não entoava senão lá no seio profundo das florestas virgens, onde não chegava o rumor de gente. No povoado temia acordar os ecos dormidos de um passado morto.

Dez braças não andara, quando ao terminar a primeira copla, alguma coisa o ressabiou. Apesar de preocupado, os sentidos estavam alerta. A vida do deserto, o costume de bater o mato dia e noite, faz desses homens assim. Há neles como uma espécie de sonoridade íntima; o menor rumor, o mais leve estrídulo, repercute dentro, estejam embora com a atenção voltada a outra parte. Isso neles é já independente da vontade: o sentido vibra, como vibra a outra ponta do fio de arame levemente percusso na oposta extremidade.

O que ressoou ao ouvido de João Fogaça que assim o ressabiou, foi surda percussão na terra, que se ouvia ali próximo; coisa por certo imperceptível para outro que não o capitão de mato, mas clara e distinta para ouças tão finas e exercidas como as suas. O som lhe vinha do mais basto de um arvoredo que ficava à direita, cobrindo o flanco de um edifício. Era a mesma casa para onde se dirigia com tamanho mistério o nosso bom Doutor Vaz Caminha.

Sondando a ramagem com o varapau ferrado e o olhar, nada descobriu de suspeito o capitão de mato; o rumor de todo cessara. Não julgando necessária à segurança de sua pessoa maior investigação, pôs-se de novo a caminho atacando a segunda copla. Foi então que lhe chegou o primeiro aviso de Cristóvão.

Viera ele repassando na mente todo esse feliz tempo de sua descuidosa infância. Aquele assobio especial, sinal de folgares e caçadas, era como um eco vivo dessas recordações, ali espertado de repente no ermo silêncio da noite. Estacou, e levado de um impulso mais forte e rápido que o seu querer, respondeu ao aviso. Que o assobio vinha de Cristóvão, seu colaço, tinha ele plena certeza; ninguém mais o daria com aquela perfeição. O difícil era conhecer-lhe a tenção. Seria brinco apenas, ou algum caso sério e urgente? A instância com que repetia-se o aviso, e uma certa sofreguidão no sopro, talvez por sair de um seio opresso, indicaram ao sagaz forasteiro que seu colaço estava em mau passo e havia dele mister.

— Deve de ser além do mosteiro!... disse orientando-se.

Voltou sobre os passos e onde acabava o muro da casa que ia ladeando, cortou rumo direito na direção que lhe dera o sinal.

“Quem anda aos porcos tudo lhe ronca”, diz o anexim. Ora a Anselmo e seus companheiros que ali estavam escondidos no arvoredo, cavando uma mina lá para os seus planos concertados com mestre Brás e o negro Lucas, não escaparam os feitos do capitão de mato. Eles o descobriram quando sondava a ramagem, escabreado com a pancada surda do cavador, ouviram-no que trocava um sinal com alguém ao longe, e não fizeram reparo donde primeiro partira; enfim o viram sumir-se varando direito pelo matagal fora, como quem tinha pressa de chegar, ou afogo de escapar.

Afigurou-se a Anselmo que tal assobio podia bem ser a senha de quem os estivesse espreitando; e como Joaninha aí não estava para o despejar de toda a prudência, resolveu tirar as coisas a limpo. Deu fala aos cinco, e todos um após outro, se foram na pista do capitão de mato, agachados pelo capim.

Eis como chegara João Fogaça à borda do valado, e infelizmente para Cristóvão, seguido da vil quadrilha do Anselmo, que mais complicaria a já de si tão difícil posição do moço cavalheiro.

As coisas estavam ainda no ponto em que as deixamos. O Anselmo caído no fosso, mas esforçando com unhas e dentes para galgar a borda; Cristóvão sobre um joelho, mas resistindo sempre, e amedrontando ainda os três cobardes assassinos, que não ousavam afrontá-lo de perto e esperavam ensejo de feri-lo de revés e à traição; João Fogaça impedido pelos companheiros de Anselmo de saltar o valo e levar socorro ao seu colaço.

— Vocês me conhecem, corja de biltres? disse o capitão de mato para os cinco bandidos. Pois eu vou saltar este valado já; se quando achegar-me da beira e olhar para trás, ainda vos enxergar aqui, prometo-vos, palavra de João Fogaça, que de cinco que sois vos porei em dez!

E o capitão de mato deu-lhes as costas e caminhou com imperturbável serenidade para a borda do fosso. Os aventureiros se dispunham a dar de pernas, com medo da ameaça, quando a voz do Anselmo, que decididamente tinha sobre eles grande ascendente, restituiu-lhes a coragem.

— Não façais tal! gritara o cigano do fundo do valo. Picai-o à faca, e o mais depressa é o melhor, para me safardes daqui.

Os cinco avançaram. Então João Fogaça foi tomado de uma raiva tremenda. O ímpeto só com que travou do largo chanfalho, fez tiritar o coração aos aventureiros; o seu primeiro passo deu-lhes asas; de modo que arremetendo contra eles, já não achou homem para o bote que levava feito. Todos haviam desaparecido.

Volver de uma corrida, desenvolver o pulo e saltar o fosso, foi para o capitão de mato negócio de um jato. Mas em mofina hora o fez; porque a esse tempo já o Anselmo conseguira segurar-se à borda fronteira. Quando pois João Fogaça bateu com as pesadas chancas na beira mesmo do terreiro, sentiu que o mariola lhe travava das mãos ambas o tornozelo esquerdo. Felizmente conseguiu agarrar-se a um ramo de árvore, mas foi preciso para isso largar a farrusca.

Assim suspenso por um pé à borda do valo, resistindo no outro aos esforços repetidos do Anselmo que trabalhava por derrubá-lo, sentindo estalar o ramo que vergava com seu peso, João Fogaça via com desespero Cristóvão a morrer ali a seus olhos, quase ao alcance do braço, sem poder valer-lhe. Debalde abaixava-se para alcançar o espadão; era vão intento.

Nisto reboou no silêncio da noite o estrupido cadente de rápido galope.

A voz do capitão de mato, aquela voz possante e sonora, ecoou quase uníssona, lançando duas vezes a pequeno intervalo o grito de socorro:

— Aqui!... De Deus e de El-Rei!...

Quando o som da voz se dissipou no ar, tudo voltara ao silêncio; já não se ouvia o galope do cavalo. Mas a ansiedade foi curta. O som das patas do animal repercutiu de novo e mais próximo; logo depois uma voz:

— Quem vai lá?

— Cristão e português, prestes a morrer às mãos de seis assassinos! respondeu João.

— Estácio!... balbuciou Cristóvão sucumbindo afinal.

Era de feito Estácio Correia.

Deixando Vaz Caminha, corria um galope desesperado sobre Nazaré. Por cima de barrancas e corcovos, através balsas e matagais, lá se ia o cavaleiro com seu pajem na garupa. Essa corrida louca e esvairada como que lhe acalentava o sofrimento. Gil seguro à cintura do moço, fechava os olhos para não ver; ele tremia, é certo, mas uma ideia o consolava. Pensava que se o cavalo arrebentasse nalgum estrepe, ficariam bem magoados sem dúvida, mas o amo não iria fazer-se traspassar pelo alferes.

Quando reboou o primeiro grito, Estácio não o ouviu, tão alheio estava de tudo que não era a sua dor íntima e funda. Gil porém o advertiu:

— Não ouvides, senhor cavalheiro? Bradam socorro.

Estácio era generoso o caritativo; esse reclamo extremo que invocava auxílio não só em nome de El-Rei, como em nome de Deus, ecoou em seu nobre coração. Mas é força confessar; colhendo as rédeas para governar o cavalo na direção do clamor, o seu pensamento e sua palavra não eram de compaixão.

— Talvez matem-me eles mais breve do que esperava eu.

E precipitou a corrida para a cerca de D. Luísa, onde chegou justamente a tempo de ouvir de envolta com seu nome, o último gemido da vítima.

— Cristóvão!... gritou reconhecendo na voz moribunda a fala do amigo.

Quando a exclamação terminara, já as patas do cavalo, que juntara com o golpe rijo dos acicates, batiam o terreiro e já Estácio saltava da sela e corria ao amigo. Achou-o, corpo inanimado, nos braços do capitão de mato:

— Cristóvão, amigo, fala-me, dizia ele sentindo correrem as lágrimas que supunha estanques.

— Ainda vive!... acudiu João. Já, senhor! Eia, sem perca de tempo, a ver se o salvamos.

— Que pretendeis?

— Levá-lo aonde seja possível pensar-lhe as feridas. Morais acerca daqui?

— Oh! que não! Junto da Ribeira...

— Mais próximo acharemos gasalhado e socorro para ele... Deixai que o carregue! Não é peso para mim.

João Fogaça tomou Cristóvão nos braços, como se fora um filho pequeno, e partiu com o precioso fardo. Seguiram atrás Estácio e Gil mudos e cabisbaixos, acompanhando o corpo do valente cavalheiro. No terreiro, somente ficaram os feridos que lograram a vida escapa, graças a ter o capitão de mato o cuidado todo empregado na salvação de seu colaço. Os assassinos, estes se tinham evadido por detrás da casa perseguidos pelo destemido pajem. O Anselmo também foi cuidando em pôr-se a bom recado, logo que pressentiu que a chegada de Estácio ia afinal decidir o pleito.

Fora poucos instantes depois desse desfecho, que D. Luísa de Paiva despachara o seu caseiro Manuel Batista com recado ao Reverendo P. Figueira. Do como desempenhou-se ele dessa incumbência já se viu anteriormente; e ainda mais agora que o jesuíta seguido sempre do seu penitente acólito, entra já a cancela do terreiro.

A viúva esperava com ânsia o seu capelão. Apenas o avistou de longe correu a recebê-lo no patamar.

Encerraram-se ambos no gabinete, e tiveram aí larga conferência; do que nela acordaram não se soube; mas logo que foi terminada, o Manuel Batista partiu apressado para a cidade em busca de um mecânico, oficial de serralheiro.