As Minas de Prata/II/III

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As Minas de Prata por José de Alencar
Como o padre Cura aprende um caso, que lhe não ensinara seu leitor de teologia


É sol de maio, que já brilha pelas devesas floridas do Tinto.

Sob a cúpula diáfana de um céu de primavera, tudo é luz, graça e harmonia. Os esplendores da tarde douram as veigas e adiamantam as águas. Flores, sorrisos do prado, e sorrisos, flores dos lábios, desabrocham por toda a parte, e engastam-se onde quer que aparece um rosal perfumado ou um rosto mimoso. Vão de envolta nas asas da brisa, trinos das aves, rumores do campo, e os ledos descantes de rústico trovador.

Além, à sombra do florido laranjal, folgam os camponeses a festa da maia. As raparigas, conduzidas pelos seus bailarinos, correm à eira preparada para a dança. Ao som do bandolim estalam e crepitam as castanholas; o pé andaluz, que tem do colibri as asas e as sutilezas, voa sobre a relva; a vasquinha de seda rodopia na veloz pirueta, como a plumagem iriada da ave graciosa.

Dulce baila com seu querido Vilarzito. A ver o donoso par, os velhos admiram tal graça e formosura; os moços invejam o suave consórcio da beleza e juventude, que o amor celebrava na união dos namorados bailarinos.

Trazia Dulcita, bem onde abria o peito do justilho de veludo preto debruado de ouro, uma rosa do campo, que ali estava como enfiada das que o prazer abria nas faces da donzela; e por isso se escondia entre os alvos lírios do seio mais mimoso, que amor já palpitou. Girando rapidamente em volta da menina, o gentil muchacho no meio das graciosas floretas, tentava debalde arrebatar num passo gracioso a rosa do seio de Dulce. E como não o conseguisse, ia suplicante ajoelhar aos pés da menina.

Então Dulce olhava-o meiga e compassiva; sorria-lhe depois com certo disfarce, e saltando sobre a pontinha do pé garboso, reclinando e quase suspensa sobre a cabeça do seu gentil cavalheiro ajoelhado, pairava um instante, como a borboleta sobre as flores. O branco seio arqueando roçava quase pelos lábios do moço a rosa prestes a escapar.

Mas ao menor gesto de Vilarzito, a menina furtava o corpo numa rápida pirueta; e lá se ia ela no seu voo de sílfide, entre mil requebros e negaças, trançar novas e mais graciosas figuras; até que Vilarzito vinha outra vez ajoelhar a seus pés; e a pantomina recomeçava.

Uma vez, acaso ou propósito, a rosa desprendeu-se do seio da bailarina, e caiu sobre a relva; Dulce correu a apanhá-la; porém no momento em que dobrando o talhe flexível, ia colher a flor, Vilarzito se interpunha: e em vez da rosa, a menina via o rosto brejeiro de seu dançarino.

Nisto um rapaz que estava entre os espectadores apanhou a flor, e guardou-a no peito do jaleco. Chamava-se ele Velez e tinha não sei que remoto parentesco com Dulcita.

Vilarzito erguera-se pronto, e caminhou direito ao impertinente.

— Dê-me você esta flor que não lhe pertence, disse o muchacho com sua natural arrogância.

— Sabe você quem sou eu para ma pedir? replicou Velez.

Vilarzito mediu-o de alto a baixo, e avançando mais, respondeu-lhe mesmo na face:

— Não é preciso saber, pois estou vendo que és um cão e te provarei agora mesmo.

— Ai! meu cutelo! exclamou o Velez dando um salto e desembainhando a adaga. Ele te fará engolir a palavra, birbante!

— Com esta te farei eu vomitar a peçonha, víbora! retrucou Vilarzito sacando também a sua navalha.

Ambos afastaram-se a passos largos do lugar da festa. Dulce quisera reter Vilarzito; mas este a repelira com uma palavra:

— Quer a menina amar um castelhano ou um perro?

A festa continuou, como se nada houvera acontecido de maior. O acidente passara desapercebido para a multidão; de resto era coisa tão comum um desafio nesses tempos, que por tal a gente não se abalava.

Para Dulce porém a festa estava acabada. As suas rosas de maio, como os seus risos de menina, desbotaram súbito. O vácuo que lhe deixaram n'alma os doces enlevos e as inefáveis alegrias, encheram logo as ânsias, as lágrimas e os tristes pressentimentos. Ela não pôde mais dançar sobre aquela relva; pareceu-lhe que dançaria sobre o túmulo de seu querido amigo.

Presa de viva inquietação, errava pelos campos sem tino, na esperança de encontrar Vilarzito; voltava à maia julgando ali achá-lo já; partia de novo e tornava, até que vindo a noite, foi-se a mísera ao seu humilde casalinho da margem do Tinto.

Recolhendo à camarinha, deu a moça com os olhos numa imagem de Nossa Senhora das Candeias, que então se venerava na sua Igreja de Sevilha. Dulcita ajoelhou aos pés da Virgem e fez um voto pela vida de seu amante em perigo. Esteve ali grave e recolhida na súplica fervorosa um tempo esquecido.

Quando ergueu-se, era noite fechada; as estrelas brilhavam no céu; e pela gelosia aberta entrava a aragem fresca derramando agrestes perfumes.

Esses frouxos raios de estrelas coados pelo azul do céu, de envolta com os aromas dos vinhedos e laranjais, traziam uns ressaibos de amor e tais delícias à alma, que Dulcita, apesar de sua mágoa, sentiu-se atraída pelas carícias daquela noite de maio.

Saiu fora, para que a noite com seus perfumes e mistérios a envolvesse toda e escondesse no materno regaço. Ela tremia e palpitava, já presa do susto, já travada de esperança.

De repente Vilarzito ergueu-se diante de seus olhos.

— Ah! querido!...

Dulcita exalou toda a sua alma nessa breve exclamação, e quedou-se extática diante do moço que a olhava sorrindo. Foi quando Vilarzito passando-lhe o braço pela cintura e chamando-a a si, prendeu no peito do justilho a malfadada rosa do baile, que a donzela cobrou os espíritos para devolvê-los logo no divino sorriso que voou dos lábios.

Apoiada ao ombro de Vilarzito, e erguendo-se nas pontas dos pés, a ingênua menina cobriu de beijos ardentes o rosto do amigo. Afinal um desses beijos foi colhido pela boca do moço. Dulcita estremeceu, suspensa ao lábio do amante; e cerrou as pálpebras suspirando.

As duas crianças não sabiam do amor senão o que haviam aprendido nas jácaras e seguidilhas. Amar era para eles uma festa da mocidade, como brincar fora uma festa da infância. Os beijos que se davam mutuamente não passavam de inocente travessura. No momento porém em que os seus lábios se uniram, um tremor súbito abalou-os interiormente, e uma chama intensa coou pelas veias. No meio desse deslumbramento, o santo pudor da inocência espontou no coração como um espinho.

Afastaram-se envergonhados. Dulcita ocultou o rosto na espádua com o gracioso movimento da rola que esconde a cabeça sob a asa para dormir; porém antes, a menina agastada atirara ao rapaz com certa petulância própria das crianças uma palavra dura:

— Mau! exclamou ela, acentuando a voz com o gesto da cabeça.

Vilarzito fez-lhe uma careta; voltou-lhe as costas; e começou a puxar os laços que enfeitavam o seu faceiro trajo de majo.

Nunca viram como dois ratinhos, que estranho rumor afugentara, voltam ao lugar onde brincavam? Eles deitam a cabeça fora da toca, espreitam, recolhem rápidos para surdir logo, arriscam um passo, hesitam, voltam, dão uma pequena corrida, cobram ânimo e encontram-se afinal. Assim tornaram uma à outra as duas crianças arrufadas.

Mas já não se beijaram.

Vilarzito contou à menina o seu duelo com Velez. No meio da luta falseara o pé do adversário, que fora de rojo à terra; o recoveiro atirou-se a ele, calcou-lhe o joelho aos peitos, e com o punhal erguido, obrigou-o a remir a vida restituindo a flor. O rapaz referiu isto com sua costumada fanfarrice, acrescentando que fora uma felicidade para o Velez cair, pois com certeza o matava, se continuasse a resistir.

Acabada a narrativa a menina ergueu-se com uma petulância andaluza:

— Para que nenhum se julgue mais com direito sobre mim, quero desde hoje pertencer-lhe, D. Vilarzito.

— Que pretende você, Dulcita?

— Espere!

Ela correu direito à varanda onde estavam reunidos seu pai, sua mãe e a servente. Entrou dançando, piruetou na sala com uma graça inimitável, e foi cobrir de carícias o rosto crestado do bom campônio.

— Pai, eu tenho quinze anos!

— Hás de fazê-los pelo Natal, filha, respondeu o campônio.

— Não importa, acudiu a menina, eu tenho quinze anos; preciso de um marido.

— Meu bento Jesus! exclamou a mãe. A menina perdeu o juízo!...

— Perdeu a mãe o seu quando casou com o pai? retrucou vivamente a chiquita.

— Bem respondido! disse o campônio abraçando a filha com ternura.

— Você mesmo é que a tem posto a perder! resmungou a velha.

— Então, continuou Ramon com bondade, queres um maridinho, Dulce?

— Quero, sim, pai do meu coração!

— Não te parece que é cedo ainda?

— Cedo!... Nunca é cedo para casar, pai; tarde, sim, costuma ser muitas vezes.

— Pois havemos de procurar um bom marido, um rapaz honrado e trabalhador...

— Não é preciso, acudiu Dulce. Eu tenho já.

— Um marido?

— Sim! um maridinho, e mui gentil! Quer ver, pai?

Antes de receber a resposta saiu aos pulinhos. A mãe voltara-se precipitadamente para a criada:

— Ouves servente?

— Ouço bem.

— Está espritada, Senhor Deus!

Dulce voltou trazendo Vilarzito pela mão.

— Venha, venha, D. Vilarzito! Aqui está o pai.

O rapaz cortejou.

— Então, disse o granjeiro, você pretende a niña em casamento?

— Não, Senhor!

— Como!... balbuciou Dulcita sentindo desfalecer-lhe o coração.

— Não pretendo coisa alguma, continuou o rapaz imperturbável. A niña quer muito casar comigo e eu para não desgostá-la, consinto!

— É isso mesmo! exclamou a menina batendo as mãos de contente.

— Então o moço faz à minha filha um favor casando com ela?

— Porém, sim; um grande favor.

— Um favor só!... acudiu Dulce. É a minha felicidade que ele fará.

— Quem é você, D. Vilarzito? perguntou o campônio.

— Sou D. Vilarzito.

— Pergunto que profissão tem.

— Nenhuma: isto é, todas as que eu quiser. Comecei por ser aguador, para servir às damas. Fui pajem, escudeiro, pintor, estudante e poeta, não por necessidade, mas por gosto. Ultimamente dei a um certo almocreve a honra de viajar em sua companhia; porque um homem deve conhecer mundo.

— Mas afinal o que é hoje o moço?

— Hoje sou aquele, atenda bem, que está para ser, ouça, o mais famoso e rico homem de todas as Espanhas.

O caseiro soltou uma gargalhada; as velhas benzeram-se; Dulcita teve um aperto de coração. Só o rapaz ficou impassível.

— Então você será o primeiro depois do rei!... disse Ramon chasqueando.

— Suba! retrucou o rapaz encolhendo os ombros.

— Será o próprio rei, pelo que vejo?

— Mais! disse Vilarzito breve e firme.

— Mais que o rei? gritaram à uma as três mulheres.

Até então fora possível supor no rapaz a arrogância picaresca, que se designou depois com o nome de espanholada. Não era raro naquele tempo ver a fanfarrice castelhana comparar um mendigo ao rei; mas pô-lo acima do rei, passava à loucura.

— Mais que o rei! repetiu o granjeiro, pensando que o moço perdera a cabeça.

— Sem dúvida, replicou este; pois que o rei é só das Espanhas; e eu o serei de um mundo inteiro.

— Do mundo da lua?

— Do terceiro mundo, que me vou a descobrir, como Cristóvão Colombo descobriu a América.

As duas velhas assombradas, de boca aberta, cobraram a fala afinal:

— É o Tinhoso, padrona! murmurou a servente fazendo cruzes no ar.

— Não te dizia eu que a niña estava espritada? Abrenúncio!...

O granjeiro disse para Dulce:

— Teu galante, filha, está varrido do juízo.

— Mas o coração é bom, pai!

— Não basta.

E voltou-se para o rapaz:

— Pois D. Vilarzito, vá você descobrir o seu mundo, e quando lhe apontar a barba no queixo e os reais na bolsa, volte.

— Homens desta massa, redarguiu o muchacho, não voltam nunca, avançam sempre. Saúdo a você e a demais companhia.

D. Vilarzito saiu como entrara, senhor de si, calmo e soberbo.

Dulcita seguiu-o com os olhos rasos de lágrimas; quando o rapaz transpôs o lumiar, o seio estalou com os soluços que borbotavam. O pai a consolou com a promessa de melhor noivo; a mãe ralhou, aspergindo-a com os borrifos de seu ramo bento de alecrim.

Com pouco a menina, disfarçando, recolheu ao interior do albergue. Mas apenas sentiu-se fora das vistas maternas, pareceu criar asas. Correu ao quarto, atirou uma mantilha aos ombros, e esgueirou-se pelo caminho que conduzia à cidade. A voz de Vilarzito, que caminhava cantarolando a sua trova do Cid, deu-lhe voos aos pezinhos andaluzes. Em um fechar d'olhos estava com ele.

— Venha, meu querido.

— Aonde?

— À casa do senhor cura! respondeu a menina tomando-lhe o braço e arrastando-o.

— Para que, doçura minha?

— Para nos casar, maridito.

— Já?

— Neste momento!

— Não é cedo?

— Queira Deus que não seja tarde.

Chegaram ofegantes da corrida à porta do velho cura. Depois entrou afoitamente, não já pelo braço do rapaz, e sim puxando-o pela aba do jaleco.

— Senhor cura, valha-me V. Reverendíssima! exclamou a menina caindo de joelhos aos pés do sacerdote.

— Que lhe há sucedido, filha?

— Uma desgraça, a maior desgraça!... Só Deus no céu, e o senhor cura que é seu ministro na terra, me podem valer! Ai, de mim! Mísera que sou!

As lágrimas rebentavam e a voz soluçava chorando também.

— Mas fale, filha. Para tudo há remédio no céu, que a misericórdia do Senhor é infinita.

— Este cavalheiro, que aqui está presente... Não o vê, senhor cura, como está envergonhado?... Este monstro, que cavalheiro não é quem falta à fé jurada!... Oh! não!... E ele há faltado, como um mouro que fora!...

O sacerdote começava a compreender:

— Este monstro, senhor cura, me desgraçou! exclama enfim a menina escondendo o rosto na mantilha. Se não acho proteção nesta casa de Deus, vou-me daqui lançar ao rio!... Como terei ânimo de me apresentar a meu pai, neste estado!

Seguiu-se uma severa admoestação do sacerdote; e um quarto de hora depois os dois meninos saíam casados da sacristia. À porta, Dulcita lembrou-se de alguma coisa, e voltou só, para falar com o cura.

— Senhor cura, esqueci-me de perguntar a V. Reverendíssima uma coisa!

— Dirá, filha.

— Eu fiz um voto a Nossa Senhora das Candeias... Um voto de quando me casasse com aquele que é meu marido, não o reconhecer como meu senhor, antes que ele fosse levar à Virgem uma vela de promessa! Mas eu não pensava que o casamento viesse tão cedo, como veio!... Queria saber... O voto vale?

— Decerto, filha; e ainda mais agora, porque é uma penitência que lhe dou.

— Penitência por que, senhor cura? É algum pecado casar?

— Não, mas é um pecado feio deixar a donzela que lhe roube seu noivo, o que só a esposa pode dar a seu marido!

— Porém, com perdão de V. Reverendíssima, ele não me tomou mais que o meu coração!

— Como, filha! Não disse você que ele a desgraçou!

— Pois sim, me desgraçou, porque me roubara o meu amor, e ia-se partir sem me dar sua mão e seu nome! Há maior desgraça no mundo, padre cura, para quem só vive de amar?

O sacerdote azoou; a rapariga desapareceu como uma sombra.

Caminhavam pelas margens do Tinto, de mãos dadas, os dois noivos. Dulcita desfeita em risos e meiguices, Vilarzito sério e pensativo.

O rapaz, cujo gênio aventuroso aceitara sem calcular este casamento, como uma das muitas fases de sua vária existência, com a mesma facilidade com que passara de um sonho a outro, e de pajem se fizera pintor ou poeta; o rapaz cogitava consigo nos embaraços que lhe podia acarretar essa paixão de menina. Quanto aos deveres conjugais e à gravidade do estado, pouco cuidado lhe davam: eram nós, que ele cortaria, quando não os pudesse desatar.

— O futuro é de Deus, o passado dos mortos. O presente é a vida.

Com essa reflexão filosófica pôs ele termo às suas cogitações. Envolveu a sua bela noiva em um olhar amoroso, e perguntou-lhe:

— Onde vamos nós, Dulcita?

— Para onde havemos de ir, se estamos no céu, bem meu; não queres que aí fiquemos? disse a menina sorrindo.

— Pois fiquemos, respondeu o moço. Estas laranjeiras em flor são tão perfumadas, que bem podem ser o céu de nosso amor!

Cingindo com o braço a cintura da donzela, afastou os pâmpanos que fechavam um bosque sombrio. Dulcita desprendeu-se ligeira e fugiu. Voltou depois, não já desfeita em carícias, mas revestida de uma meiga seriedade.

Ela contou ao moço o voto que havia feito a Nossa Senhora das Candeias. Vilarzito insistiu, mas seu orgulho não lhe deixou que suplicasse.

— Não me queiras mal, Vilarzito! Por mim não é, mas pela felicidade do nosso amor! Tu és já meu senhor; e eu, que mais sou do que bem teu? Mais val esperar alguns dias, até que a Virgem abençoe para sempre a nossa felicidade e a torne em uma virtude, do que fazer um pecado, porque seremos punidos, e eu duas vezes, na tua e minha pessoa! Mas responde!... Se te enfadas comigo, mal de mim, que me perderei por ti, perdendo-te!...

— Adeus! disse Vilarzito.

— Onde vais? perguntou a menina espavorida.

— A Sevilha! Não é lá que devo cumprir a promessa?

— Sim... Mas queres partir já?

— Quanto mais cedo partir, mais cedo voltarei!

— É verdade!... murmurou a menina curvando a fronte já carregada de mágoas.

Vilarzito apertou-a ao seio, e teve-a algum tempo ali, enquanto seus olhos se engolfavam no horizonte. Que via ele ao longe, nessa névoa do espírito, que se chama pressentimento? Via a ambição, que batia asas d'ouro, prestes a desferir o voo; e sua alma, presa da vertigem, que se lançava a par, devassando mundos ignotos. Via o fantasma de sua imaginação que lhe gritava, avante, avante, e o atraía sempre, não lhe deixando sequer volver um olhar aquém.

Nesse momento o aleijão daquele coração, pressentindo que pela última vez palpitava sobre ele o coração amante da mísera virgem, teve um aperto, que espremeu nos olhos uma lágrima, talvez a última que umedeceu essas pálpebras, e nos lábios um escasso sorriso de ternura:

— Não te penes, amor meu, que me tiras a coragem de ir-me. É preciso, tu disseste, e eu parto-me com bem pesar de meu coração; fique-te ele, para que mais ligeiro torne a ti este corpo.

Dulcita sorriu entre as lágrimas:

— Vai, querido, vai. Tu levas a graça de minha alma; eu te guardarei, senhor meu, a flor desta pobre beleza minha.

Seu lábio embebeu-se no lábio do esposo; e ficou ali suspenso como um fruto que o bico lascivo do pássaro colheu na haste. Depois que libou o mel, o pássaro bate as asas, e o fruto pende murcho e eivado. Assim desfaleceu Dulcita, quando seu noivo precipitando a partida, arrancou-se ao beijo, e partiu. Ele levava-lhe o âmago de sua alma, o doce mel de sua felicidade, seu amor, sua vida.

Voltaria ele a restituir-lhe quanto levava?

Vilarzito não voltou o rosto, com receio de ceder à emoção; foi por diante trilhando as margens do rio, cantarolando qualquer seguidilha. A menina, seguindo-o de longe para ouvir algum tempo ainda a voz amiga, sentia minguar-lhe a vida à proporção que essa voz desfalecia com a distância. Afinal caiu extenuada à beira do caminho.

Era noite alta quando recolheu-se a casa, onde achou a aflição que causara o súbito desaparecimento. As velhas se lamentavam rezando; o pai mal entrara das caminhadas que dera em procura da filha querida.

Dulce contou com singeleza o sucedido, sem esconder a mínima circunstância. Que tinha a esconder ela na candura do seu amor? O pai depois de muito ralhar, feliz de ver a filha restituída à sua ternura, perdoou; a mãe benzeu-se, como costumava nas ocasiões solenes; e a família voltou à habitual tranquilidade.

Mas em Dulce uma revolução profunda se consumara. Uma hora só por cima dos seus quinze anos acabava de fazer da menina travessa uma dona séria e prudente. Ela preparava-se já com certo orgulho para as inefáveis ternuras do amor conjugal e para o grave papel de esposa.

Essa primeira noite não dormiu, passou-a toda rezando à sua imagem de Nossa Senhora das Candeias, e conversando com a sombra de Vilarzito sobre sua felicidade. Às vezes receava que essa felicidade tamanha não pudesse caber naquela alcova tão acanhada, pois só com a lembrança dela sentia-se sufocar. Outras vezes corria os olhos pelos seus trastes singelos, e se alguma coisa não lhe parecia bem, saltava do leito e ia arranjá-la, para que não desagradasse aos olhos de Vilarzito.

Oito dias decorreram, nos quais Dulce, como a calhandra nos primeiros eflúvios da primavera, forrava de macia relva o caro ninho. À tarde do último dia ela sentou-se no terraço, com os olhos no horizonte, e esperou. Quando à meia-noite ergueu-se para recolher, seu lábio murmurou:

— Ele não me quer tanto, como eu a ele... Senão teria chegado!

Talvez que um obstáculo imprevisto demorasse o moço, pesar do seu desejo, não só um, porém mais dias: não havia motivo ainda para se afligir. Tamanha devia de ser a sua felicidade, que Deus, para que ela a não matasse, a preparava por uma maior prova.

Esperou. Deus sabe quantas lágrimas lhe custou; lágrimas que lhe empanaram o brilho dos lindos olhos, e desbotaram-lhe as faces.

Uma noite enfim Dulce sentiu um grande abalo; pareceu-lhe que o coração rompera dentro. Era a morte da esperança. A donzela ergueu-se lívida, para cair fulminada pela dor; o resto da noite foi um horrível sofrimento.

Pela manhã a menina vestiu-se de luto e foi ter com o granjeiro.

— Pai, meu esposo é morto a esta hora. Eu vou-me a Sevilha, para morrer junto dele.

Havia nessas palavras um abismo de dor, no fundo do qual, como nas gorjas da montanha, rolavam surdas torrentes; havia também a obstinação heroica das grandes paixões.

Ramon amava sua filha, com amor cego. Fez-lhe a vontade, abandonou o seu casal, e partiu. A cidade maravilha, a suntuosa Sevilha, só teve luto e dores para a inconsolável esposa.

Entretanto um raio de esperança luziu na treva que sepultava a mísera e mesquinha, noiva apenas, e já viúva. Desde o dia da chegada, as horas de alívio que tinha, eram as que passava carpindo e orando na Catedral, diante do altar onde se venerava a imagem de Nossa Senhora das Candeias. Um dia o velho sacristão, travado de piedade por aquela dor tamanha em tão poucos e tão belos anos, falou à infeliz, granjeando consolá-la. Dulce contou-lhe por alto a sua desdita.

— Mas!... acudiu o donato. Tempos há, e não muitos, que um rapaz aqui veio cumprir promessa igual! Seria talvez o vosso!

— Bendito sejais, meu Deus! disse a moça mal podendo ainda falar. Bendito e louvado em vossa infinita misericórdia, que assim mandais um raio de graça, a quem se julgava para sempre dela desamparada.

Com este dizer, que saía bem fundo d'alma, prostrou-se de novo aos pés do altar; santo fervor brotava-lhe do seio opresso. Arrastaram-na depois esperanças fagueiras e impacientes afogos aos joelhos do velho, que ela abraçou:

— Repeti! oh! repeti, santo homem, que o vistes, que vivo é, aquele que meus olhos não pensavam mais ver neste mundo das desventuras minhas! Dizei-me, bom donato, piedoso senhor, dizei-me onde se foi ele? Que má hora o levou? Onde o tem, longe da esposa, o mau fado meu?

Estas e outras falas de tão angustiado coração ficaram sem resposta. O velho nada mais sabia do que disse: nem a certa data, nem sinais do moço devoto, lhe ficaram na cansada reminiscência.

Dulce entrou mais triste, se é possível, do que saíra. O pai que de sua parte não se poupava à fadiga em cata de novas boas ou más do desaparecido, desenganado já, não tinha mais esperança, que lhe fosse conforto da dor.

A filha contou-lhe o que era passado. Correu ele ao sacristão, cuidando comprar com ouro, o que não tinham granjeado lágrimas e penas. Debalde foi, debalde vagou o resto do dia pela cidade, inquirindo, de quem encontrava, indícios de Vilarzito.

— Digo-te eu por seguro, filha, em que isto mais te aflija, quando não devera! Digo-te eu que o bandido mui de vontade sua te abandonou.

— Não, pai; morto é!

E prosseguia depois de silencioso pranto:

— Morto é! Tenho aqui dentro uma voz que mo está dizendo, e mais, que sua alma ainda não deixou este mundo.

— Abusões que te entraram!

— Não é abusão, pai! Se o céu ouvir os rogos meus, e deparar-me o lugar, onde jazem as cinzas de quem tanto amei, que nesta vida não acabarei de amá-lo!... Por seguro, pai, que estes olhos que a terra tem de comer, o verão uma vez ainda. Ele me aparecerá talvez para levar-me! Ah! prouvesse a Deus!

Dois meses passados, nesse contínuo desviver de tristura e angústias, volveram pai e filha ao pobre casalinho, já tão brincado e loução, ermo agora e viúvo de sua mal gorada alegria, e dos risos donosos, que o enchiam dantes quando a sua bela senhorita o encantava.

O desamparo de sua casa, os gastos de jornada e locandas, junto ao desânimo que o entrara com a desgraça, desarranjaram a vida ao infeliz granjeiro. O já de si escasso mealheiro, esvaziou de todo; minguaram as posses, foi-se a abastança; a miséria faminta e esfarrapada veio sentar à porta espreitando a sua hora de entrar.

Esse arreganho da miséria, de que ela fora a causa inocente, tirou Dulce do egoísmo de sua dor e deixou-lhe ver o sofrimento dos seus. Foi sublime então de coragem e abnegação, como o fora de amor! O trabalho de suas mãos, e mais que ele a força de sua alma salvaram a família da fome, senão da pobreza. No afã de uma lida sem cessar encontrava curtos repousos para sua pena rebelde ao esquecimento; na satisfação de sacrificar-se pelos seus, libava seu coração, o consolo único, dos que o mundo pode dar às grandes dores.

Para mais apurar a fortaleza desta alma, mandou-lhe Deus nova provança; a mãe de Dulce finara-se, consumida pelos desgostos. O vácuo deixado n'alma por um ente querido, nada o enche, é certo; mas também sabem os que o sentiram, que esse vácuo permite que outra alma amiga se achegue mais, e toque e penetre o âmago da nossa.

Esses tristes corações de pai e filha conchegaram-se ainda mais; felizes eles formariam uma família; desgraçados eram mais do que isso; eram lousas ou túmulos vivos de uma só e eterna saudade. ==Página:As Minas de Prata (Volume III).djvu/79==