As Minas de Prata/II/IV

Wikisource, a biblioteca livre
< As Minas de Prata
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
As Minas de Prata por José de Alencar
Em que o hábito faz o monge


Que era feito de Vilarzito?

Morto era, ou andava ainda à cata de aventuras por este mundo grande?

Deixando sua noiva nas margens do Tinto, o rapazito caminhou a Sevilha. Como foi ele, não o sei eu; foi, e de caminho aquela ambição grande e ardente, que lhe fervia no seio, ia farejando no ar alguma aventura.

Como não lha deparasse o acaso, chegou afinal à grande cidade; tendo mercado a vela de cera, andou a cumprir o voto de Dulcita na Catedral. Era dia de grande festividade religiosa; o bispo devia oficiar em pontifical.

Enquanto o rapaz ajoelhado esperava que ardesse a vela no altar, aos pés de Nossa Senhora das Candeias, o povo fora invadindo o vasto recinto da igreja, e a cerimônia começara.

Era a primeira vez que o galopim das estradas se achava em face da majestade divina, revestida da pompa e esplendor do catolicismo. O espetáculo grandioso impressionou aquela imaginação vivaz. Ela ficou absorta no meio da harmonia grave do órgão concertando com as litanias sagradas, dos luminosos vapores do incenso que nublavam as imagens divinas e o venerando busto dos levitas cristãos, dando à cena aparências de visão.

De repente fez-se um grande silêncio: a fronte calva do pregador assomou no púlpito; a voz possante ainda, embora trêmula, encheu o vasto âmbito do templo. Sobre a multidão curva e respeitosa, a palavra inspirada do apóstolo de Cristo caiu como a chuva de fogo do Monte Sinai.

Esse homem só, esse velho débil, qual possante lutador, tinha a seus pés submissa e humilde a turba gigante, o leão-povo. A um gesto seu, o monstro estremecia; a frase impetuosa de sua eloquência inspirada flagelava como látego os flancos da fera, que nem gemia. Ele olhava, e as frontes orgulhosas dos grandes da terra se abatiam. Ele troava, e as lágrimas rolavam em silêncio pelas faces dos soberbos.

Uma hora durante, ele teve assim o dragão esmagado no pó sob a virga de sua eloquência, como o tivera o arcanjo sob as patas do corcel; uma hora durante, o gládio de sua palavra retalhou o coração do réptil domado.

Enfim o sorriso iluminou o semblante severo e torvo; o fogo celeste dardejou ainda nos olhos fundos, não já chispas ardentes, senão ondas de luz branda e serena; daqueles lábios crispados, onde vibrara a maldição, mana em jorro o mel da graça, qual manara no deserto para o fugitivo povo do Senhor.

Seu hálito inspira nova e melhor vida ao gigante; ei-lo que de esmagado se ergue mais vigoroso, e vai coleando pelas ruas e praças da vasta cidade.

Quando Vilarzito voltou a si do arroubo em que ficara, a igreja estava deserta; volveu um olhar para a vela de promessa que ardia ainda, e apagou-a de um sopro.

— Quero ser pregador! Hei de sê-lo! murmurou.

Dois frades atravessaram pela nave; era um de exígua figura, minguada pela velhice, que já lhe acurvava a cabeça; a humildade evangélica estava em toda sua pessoa. Vilarzito não reconheceu, nem podia, naquela insignificante figura, o sublime pregador; os alumbramentos d'alma operavam nesse corpo mesquinho e encarquilhado uma transfiguração pasmosa e incrível. Era este o célebre pregador Fr. J. Corela, da Ordem dos Capuchinhos; florescera na Corte de Filipe II, e agora nos últimos dias da vida que devia extinguir-se com o século em 1599, os lumes que desferia a sua eloquência, eram raios ainda.

O outro frade tinha a mais bela estampa de homem, que ser podia. Velho também, mas de velhice robusta, o seu inverno era como primavera dos climas boreais. As cãs realçavam as cores do sangue vigoroso e sadio; trazia o talhe ereto; era nobre o gesto e o passo majestoso.

— Este é! disse consigo Vilarzito admirando-o. Nunca me lembrara eu como era a sua fisionomia, que me cegavam aqueles olhos em brasas! Mas agora sim, estou vendo-o ao próprio. Parece um rei. E mais que rei é!

Estas reflexões fazia o rapazito seguindo a alguma distância os dois frades. Ao quebrar da primeira esquina o pregador separou-se, e seu bem apessoado companheiro continuou só. De caminho recebia ele a saudação respeitosa dos passantes, que lhe catavam cortesia, como à dignidade que era na religião.

Chegado à calçada de um suntuoso palácio, o religioso deixando a larga portaria, procurou na próxima viela uma portinha escusa, que naturalmente dava entrada reservada aos íntimos. Pondo o pé na soleira encontrou-se frente a frente com um cavalheiro que vinha de dentro, e saía, apressado sem dúvida de negócio urgente.

O religioso não demoveu o passo, antes firmou-o no batente com a solidez de seu porte majestoso; o cavalheiro, ou porque o não reconhecesse, ou porque não quisesse mesmo dar-lhe senhas do respeito, que nessa época se guardava aos ministros da religião, não recuou também. Assim ficaram medindo-se no limiar da estreita porta.

Por fim o moço, impaciente, estendeu a mão para abrir passagem:

— Fazei-me a mercê de arredar-vos, reverendo. Vou-me apressado!

O religioso ficou imóvel; com um gesto lento e soberbo desviou a mão do moço que lhe roçara o ombro:

— Mais respeito, mancebo! Não mancheis com vossa mão profana este santo hábito!

— Sabeis a quem falais, padre?... Sou fidalgo da casa de El-Rei, e vou em seu real serviço! Deixai-me passar!

O frade sorriu:

— São vossos títulos esses? Pois se vós sois fidalgo do rei, eu sou ministro daquele que tem em sua mão os reis da terra. A majestade que servis, já a tive eu de joelhos a estes pés. Bem vedes que a precedência me compete.

E arredando o cavalheiro, o frade passou altivo e sobranceiro.

Vilarzito não perdeu uma palavra do curto diálogo; sua imaginação já excitada mais se exaltou. Desde esse momento seu destino estava preso àquele frade que representava para ele a maior glória do mundo.

O rapaz sentou-se na calçada fronteira; e esperando que seu herói saísse do palácio, rilhava nos dentes uma naca de pão de rala de três dias.

O religioso era o P. Gusmão da Cunha, procurador do Colégio de Lisboa. Vinha de Madrid aonde fora solicitar perante a corte sobre negócios da casa. Vilarzito avançou afouto e manifestou-lhe seus ardentes desejos de ser pregador. Tão decidida vocação não era para desprezar num século em que a Companhia de Jesus, com os olhos largos no futuro, colhia entre os povos a fina flor da mocidade para cultivá-la em suas vastas estudarias. Aspirava ela ser como o sol da inteligência naquela aurora da civilização moderna.

No seguinte dia tomaram caminho de Lisboa o frade e seu novo fâmulo, aspirante ao noviciado. Na viagem notou o rapaz que o religioso lia, mais que o breviário, um volume in-4.°, o qual trazia no rosto este título latino: De liberi arbitrii cum gratia domini concordia. Ludovico Molina. Olisipone – MDLXXVIII.

Ignorava Vilarzito o rumor que então fazia no orbe católico essa obra e sua doutrina, conhecida por molinismo, do nome do seu autor; porém bastava a preferência que dava o padre procurador ao livro, para levá-lo a formar a mais alta ideia dos méritos da obra. Aquele nome de Molina ficou-lhe na lembrança como de um dos famosos luzeiros da igreja e seus futuros modelos.

O rapaz tivera depois que deixara Sevilha, uma hora de desencantamento: e foi quando soube dos fâmulos que o sublime pregador da catedral não era o P. Cunha, e sim o velho capuchinho. Esteve muito tempo repartido entre a glória que abandonara, e essa que seguira, talvez falsa luz.

Nestas cogitações achou-se a sós com o religioso, uma tarde que tinham chegado à pousada:

— Releve V. Reverendíssima que eu lhe ponha uma questão.

— Quantas queiras, filho. Perguntar é próprio dos que desejam aprender.

— Diga-me então, padre-mestre, qual é a maior glória deste mundo?

— É a prática do justo em que se resume a lei de Deus.

— Essa é a glória celeste; pergunto eu, das glórias do mundo, qual avulta mais?

Como o religioso embatucasse, o rapaz prosseguiu:

— Qual preferia o padre-mestre, a do Cid por exemplo, o Aquiles castelhano, a de Lope de Vega, o maior poeta das Espanhas, a de Carlos V, imperador e rei, a do grande Pacheco, primeiro pintor do mundo, e outras muitas?...

— Prefiro aquela que vem do Senhor, filho, e nele se fortifica.

— Qual ela é?

— A do Geral da Companhia.

— Onde está ele, padre-mestre?

— Em Roma, que é a cabeça do orbe católico.

— Que faz ele?

— Move o mundo.

— É mais que El-Rei?

— É mais que o Papa, filho. Nele se inspiram os eleitores do sagrado colégio, quando escolhem o sucessor de São Pedro.

— E quem o escolhe a ele?

— A Companhia.

Desde então Vilarzito não hesitou mais; seu destino estava traçado pela Providência. Entrou em noviciado, com o nome de Gusmão, que lhe deu o procurador, no sacramento da crisma. Sabe-se que necessidade tinha ele dessa mudança; era preciso que Vilarzito, o marido de Dulce, morresse no século, aos umbrais do claustro. O apelido tirou-o ele do famoso escritor, como bom presságio de sua nova carreira.

Segundo o uso dos conventos, cada noviço era adjunto especialmente a um dos religiosos mais autorizados que lhe servisse de guia e exemplo vivo; assim desempenhava o moço ao mesmo tempo funções de discípulo e fâmulo. Vilarzito continuara sob a imediata inspeção do P. Procurador; sucedeu que um dia arrumando a cela do mestre, fez o rapazito uma descoberta.

O P. Cunha tinha a seu cargo os negócios do Brasil. Entre os vários maços arrumados uns sobre os outros na prateleira, leu o menino quando os virava para espanar, o seguinte rótulo sobre a encosta de papelão, em letras maiúsculas: NEGÓCIOS DAS MINAS DE PRATA.

Ouvira Vilarzito ainda muito criança falar dessas famosas minas de prata, cuja fábula enchera as Espanhas. Tomado pois de curiosidade, e aproveitando a ausência do P. Mestre que saíra para longe, desdeu os nós ao cadarço vermelho, e encontrou sob a capa de papelão uma série de cartas escritas da Bahia pelo nosso conhecido Rev. P. Manuel Soares, cronista daquela província e autor de certa memória.

A primeira carta trazia a data de 15 de novembro de 1595 e rezava assim:


Pax Christi. Aproveito portador seguro para dar conta a V. Reverendíssima das minhas diligências, sobre o objeto que de Roma me foi incumbido.

Logo que a esta cheguei, tive por primeiro cuidado, informar-me da mulher e filho de Robério Dias. Vivem pobremente para as bandas da Ribeira, em companhia e a expensas de uma velha tia, cuja é a casa.

D. Clara é uma santa mulher, que tudo faria pelo serviço da religião; mas infelizmente não sabe mais do que divulgou a voz pública; afirma que seu falecido esposo possuía o roteiro das minas e com ele se partiu para Espanha, onde, ou em caminho, lho roubaram. Quanto ao filho, o menino Estácio, que o pai deixou no berço, anda nos cinco anos de idade; se não falharem os prognósticos, deve de ser moço para se aproveitar.

Sobre a recomendação que trouxe, creio não haverá dificuldade,

em chegando o tempo, de ganhá-lo para a ordem, metendo-o noviço neste colégio. O P. Inácio do Louriçal que é o confessor e cura da casa, já a tal respeito teve suas entradas com o Doutor Vaz Caminha, padrinho do menino, e grande amigo que foi de Robério.

Esse Doutor Vaz Caminha é pessoa doutíssima, de suma prudência e conselho. Tendo-o por nós, não há recear do bom sucesso da empresa. A mãe não tem outro voto senão o do advogado, o menino o quer por cima de tudo. O único obstáculo virá da parte do Alcaide-Mor Álvaro de Carvalho que é ainda afim da dona. Este é homem iroso, obstinado, antepondo a tudo sua militança, e tendo em nenhuma conta qualquer profissão que não seja a das armas; pode bem ser a queira seguida pelo moço, mas o advogado lhe porá as medidas e nos avisaremos.

Nada mais por ora, senão pedir a V. Reverendíssima que me tenha em sua graça quando orar a Deus por seus filhos, e me deite sua bênção.

“P. Manuel Soares.”


Seguiam-se outras cartas sobre o mesmo assunto; todas devorou-as o rapazito com ardente curiosidade. Ele tinha a memória de César, Cromwell e Napoleão; o que uma vez penetrava em seu espírito, aí ficava gravado como relevo no mármore.

Durou dois anos o noviciado de Vilarzito; ao cabo deles professou no primeiro voto. Cursou como escolar todas as aulas da estudaria com tal aproveitamento, que admirou os mais sabedores dos mestres que liam na casa de Lisboa. Aprovado cum laude em todas as matérias, passou a coadjutor, tendo já ganho a fama de primeiro humanista do pátio, com que de dia em dia mais se avantajava em tão verdes anos.

Rastejava ele pelos vinte e cinco, se incluirmos o acréscimo de quatro, que fizera por sua conta entrando para o noviciado. Sua astúcia pressentira desde logo quanto a velhice era para o comum dos homens certo abono de saber, prudência e siso; por isso foi tratando de adiantar-se em anos no livro dos assentamentos. Mais tarde, quando cursou as aulas de anatomia e química, a ciência lhe revelou segredos, que hábil e cautamente explorados, serviram para desbotar o viço da juventude.

Como não pudesse antes da oito anos ser admitido a professar no quarto voto, para o qual exigia o Instituto de Santo Inácio a idade de trinta e três, em memória de Jesus Cristo, e do fundador da Companhia, impetrou a graça de fazer durante esse tempo residência numa província do ultramar.

O P. Gusmão sabia que nas casas dessas províncias remotas, onde o número dos professos não era crescido, lhe seriam cometidos por carência de homem mais apto os negócios de ponderação, que no seu colégio de Madrid não se confiavam de um simples coadjutor.

Demais, ele pretendia granjear todos os títulos, para no momento dado pô-los ao serviço de sua ambição. Aos louros escolásticos de casuísta e sabedor, convinha engrinaldar as palmas apostólicas. Precisava para isso de teatro vasto, onde provasse a força de sua palavra já exercitada no púlpito.

Foi-lhe designada a Província do Brasil, e nela a casa do Rio de Janeiro.

Partiu em 1600, caminho de Palos, a tomar navio que o transportasse. Perlongou depois de quatro anos as pitorescas margens do Tinto, onde se representara um ato do drama de sua vida. Não foi sem emoção que seus olhos procuraram o alvo casalinho, tão mudado do que era outrora. Estava ele já a esse tempo abandonado de seus antigos senhores, e possuído de estranhos.

Chegado à cidade o P. Gusmão apeou na primeira igreja que ficava em caminho, e entrou para fazer oração. Era manhã, depois da missa conventual; reinava no recinto o dúbio crepúsculo que é próprio dos templos góticos, e tanto convida ao santo recolho. Apenas duas largas réstias de luz, coadas pelas ogivas, cortavam o pavimento.

Quando o jesuíta fazia oração, uma das raras devotas que ainda estavam na igreja, dando com os olhos nele, caiu de bruços sobre a pedra. As outras não fizeram reparo, atribuindo o acidente a fervor de penitência, muito usual então; terminada a devoção foram-se à obrigação.

A penitente enfim ergueu a custo a fronte magoada da pedra; desvairou os olhos pela igreja; tornou a ver o frade e lembrou-se! Esteve a contemplá-lo até que ele voltou-se para sair. Aí, como tomada de uma força superior, a mulher ergueu-se e foi direita ao jesuíta; as pupilas desferiam raios entre a renda preta da mantilha que a vendava:

— Padre, fazei-me a esmola de ouvir de confissão a uma pobre pecadora! exclamou ela rojando-se aos pés do religioso e segurando-o pelo hábito.

O jesuíta voltou-se; no lugar onde estava, a réstia de luz batia em cheio sobre a sua cabeça, esclarecendo-a como um resplendor.

— Estais em pecado mortal? perguntou o religioso.

O som dessa voz penetrou o coração da moça, ao mesmo tempo que seus olhos erguendo-se cravaram no rosto do sacerdote. Ela soltou um grito de pavor:

— Meu marido!...

— Quem sois, mulher? interrogou o jesuíta recuando de espanto.

A devota ergueu-se de um ímpeto, atirando a mantilha para os ombros e descobrindo o formoso semblante. Os olhares de ambos cruzaram-se como dois dardos:

— Fui Dulce, hoje me chamam Marina de Peña, porque assim me fizestes! disse a moça no rancor da sua paixão. Tão mudada me têm os pesares, que não me reconheceis!

Mas já o P. Molina havia recobrado a sua impassibilidade:

— Como pudera reconhecer-vos, quem nunca vos conheceu?

— Conheço-vos eu e vos requero, que meu marido sois!... Os olhos que as lágrimas cegam poderão enganar-se; não este coração onde as vossas falas estão vivas como na noite em que me jurastes...

— Calai-vos, mulher! Vosso marido morreu! Este que vedes, humilde servo do Senhor, não é já deste mundo!

— Mentis! Deus que vos deu ao meu amor, não podia roubar-vos à sua criatura! Se o fizesse, não seria Deus...

— Não blasfemeis!

— Não! Oh! não seria! E eu lhe disputaria o que era meu e muito meu pelo sacramento e afeto que ele mesmo abençoou.

— Senhor! exclamou o P. Molina cruzando as mãos para o altar. Perdoai a esta mísera pecadora, a quem as más paixões mundanas escureceram os lumes da razão.

O religioso quis afastar-se, mas Dulce arrastando-se de joelhos, travou-lhe do hábito.

— Oh! por piedade, não me desampareis outra vez nesta solidão de minha alma, em que tenho vivido. Não quereis já ser meu; pertenceis ao Senhor? Pois eu virei adorar o Senhor a vossos pés. Me ensinareis a amá-lo, já que não me é dado mais amar-vos, a vós!...

— Cessai de desarrazoar, mulher, e largai-me do hábito!

— Não, não vos deixarei! Repelis-me?... Nem sequer uma palavra de compaixão?... Pois eu serei de agora em diante a sombra vossa! Por toda a parte vos seguirei como alma penada ou remorso vivo! Quando passardes, vos apontarei: “Esse que ali vedes, é meu marido, o qual mentiu a Deus e aos homens...”

Durante estas palavras, o P. Molina debalde esforçava por tirar o hábito das mãos crispadas da moça; mas ela se deixava ir de rastos sobre as lajes que lhe magoavam os joelhos. A dor por fim tornou-se tão aguda, que a mísera, não podendo já resistir, caiu desmaiada.

O frade desapareceu.

Logo após chegou Ramon em busca de Dulce. Muitos anos havia que ele tinha deixado para sempre o lindo casalinho. A miséria em parte forçara o campônio a vendê-lo, e em parte também as tristes e agras reminiscências de que estava tão cheio. Vieram então pai e filha habitar na cidade de Palos o quarto de um velho casarão, onde aposentava gente da terra e também colonos e forasteiros que embarcavam para as Américas ou de lá tornavam.

Muitas vezes, tentado dos contos fabulosos que faziam os aventureiros e marujos, pensara Ramon em passar-se à colônia à busca de riquezas, com que supunha poder comprar para sua filha uma felicidade, em troca da outra, para sempre e sem remissão perdida.

Dulce porém, quando ele comunicara seu intento, recusou obstinadamente:

— Não, pai; nesta terra, onde ele repousa, quero eu também repousar. Teremos este mesmo frio leito, já que o céu negou-se a abençoar o outro para o nosso amor. De que me valem a mim riquezas? Vende acaso a terra o que roubou e já consumiu em pó?

A patroa da locanda era uma velha a quem a beleza de Dulcita ganhara logo os afetos e que não se cansava de admirála de mil desvelos e carinhos.

— Sabe a menina que tem um formoso nome e tão bem acertado, que mais não pudera ser! disse a velha logo no primeiro dia. Dona Dulce!... É como se lhe chamassem pelo seu lindo rosto de alcorce, e por esse riso que parece mesmo um torrão de açúcar!

— Enganou-vos quem vos disse de assim chamar-me.

— Mas se ouvi mesmo a vosso pai!

A moça pôs nela uns olhos fundos de dor, porém rasos de pranto:

— Não sou Dulce, mulher, inda que o fui já, se não amara, e bem amara de pena! Mais bem posto que nenhum me foi este nome por minha desventura, pois sou dela crismada.

Ou porque a velha não compreendesse o trocadilho que a moça fizera com o seu nome, e ao qual conservamos os termos castelhanos; ou o que é mais natural, por comprazer com a sua habitual tristura; o fato é que lhe respondeu por este teor:

— Bem, seja a menina D. Marina de Peña, e não Dulcita, pois assim quer ser chamada; mas fique com o que lhe digo, que dentro do meu coração será sempre doce.

De feito a velha daí em diante só a tratou por esse novo nome, cuja singularidade não escapara à finura e perspicácia do P. Reitor da Bahia. Ouvindo-se chamar daquele modo, Dulce sorria; não há admirar; os grandes pesares também têm seu júbilo, qual o de sentirem-se vivos e ardentes; nem há nada que mais se toque neste mundo do que seja o riso e o pranto, a alegria e a dor.