As Minas de Prata/II/XI

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As Minas de Prata por José de Alencar
Onde se espreme o soro de um coração de donzela


Chegou véspera de Reis.

Eram sete horas da noite. Já corriam as ruas e praças da cidade os alegres descantes e costumadas serenatas, com que então muito celebrava o povo aquela festa do ano.

Por esse tempo um cavalheiro bem embuçado na capa entrou pela porta de São Bento, e seguiu até o princípio da Rua da Palma. Aí apeou, atirando as rédeas ao pajem com estas palavras:

— Vai-te ao Terreiro esperar!

Continuou a pé e cosido com a parede seu caminho até a casa onde tinha o judeu Samuel banca de dinheiro. A porta estava fechada; abriu-se um postigo que havia por cima, e uma voz doce e maviosa perguntou:

— Quem bate lá?...

O cavalheiro já se tinha afastado dois passos, como se esperasse aquela aparição; e saudou-a debaixo, atirando-lhe um estrepitoso beijo estalado na ponta dos dedos. De cima lhe responderam com um longo suspiro acompanhado de uma flor que veio cair a seus pés; ele depois de a apertar uma e muitas vezes aos lábios, guardou-a no peito do gibão.

— Quando permitireis a um triste, senhora, que vos admire de mais perto, ainda que seja para acabar a vossos pés de dar esta alma?...

— Ela não vos disse?... murmurou a voz maviosa.

— Quem, a Joaninha?

— Sim, ela; não vos disse que sou guardada como monja?

— Quisésseis vós!...

— Ui!...

Este gritozinho de susto foi acompanhado do bater do postigo, que fechavam. Um vulto de maiores dimensões apareceu, e outra voz roufenha e pesada deixou cair estas palavras:

— Andai vosso caminho, senhor cavalheiro. Não é prudente se expor à beirada das casas; as telhas podem cair. Andai.

— Andado o tenho, eu, honrado Samuel, para não dizer honrado ladrão; e bem andado, pois me trouxe ele à vossa espelunca.

Aproveitando uma sonata de remoto descante, que ouvia-se para as bandas da Graça, o cavalheiro entoou baixo o princípio de uma cantiga de reis:


Aqui estou à vossa porta,
Acordai se estais dormindo!


— Longe estava eu de supor que fôsseis vós, Sr. D. José; escusai-me a liberdade. Corro a abrir-vos.

O alferes penetrou na toca do velho judeu.

— Honradíssimo Samuel, o negócio é breve; preciso de quinhentos cruzados esta noite, ou antes, neste momento.

— Trouxestes o vale?...

— Não, mas posso assiná-lo aqui; dai-me com que escrever.

— Raquel! disse o velho.

A voz maviosa respondeu dentro:

— Pai!...

— Buscai-me os óculos.

Pela fresta aberta na parede passou a mão a mais alva e mimosa que é possível imaginar; o alferes aproveitando o momento em que o velho estava ocupado a arranjar a mesa, tomou os óculos, e travando dos dedos que os seguravam, beijou-os sem a menor cerimônia. Ao estalo do beijo e do grito que soou dentro, o judeu voltou-se:

— Não passou da ponta do dedo mindinho, digno usurário. Creio que trazeis este tesouro ainda mais aferrolhado do que o outro.

— Este é minha carne; o outro são apenas os ossos, senhor cavalheiro. Sereis pai um dia para me compreender.

— Mas usurário, não; disso podeis ter certeza.

— Aqui tendes o necessário! Ponde-vos à mesa e fazei vosso bilhete, enquanto vos contarei as moedas.

O cavalheiro sentou-se e escreveu em vez de um, dois bilhetes; o primeiro para o velho judeu, de quinhentos cruzados, o segundo para a filha, dando-lhe um emprazamento à janela na próxima noite. Dobrando ambos na mão, aproximou-se do contador, onde estava o judeu, e apresentou-lhe o primeiro. O velho judeu calcou os óculos e principiou a leitura; mas logo à primeira linha tornou a dobrar o papel e o restituiu, dizendo:

— Creio que vos enganastes?...

— É certo; este é um papel à toa; o vosso aqui está! acudiu o alferes azoado, pensando ter dado ao judeu a carta destinada a Raquel.

Enquanto Samuel examinava com profunda atenção o outro escrito, o cavalheiro aproveitando o ensejo, jogou pela fresta o bilhete, pensando que o apanharia a donzela. O mercador contou-lhe os quinhentos cruzados em moedas de ouro, e cerrou na gaveta o papel que recebera. Apenas o fidalgo saiu, o velho debruçou-se ao balcão, e disse à filha:

— Raquel, tornaime cá o escrito do cavalheiro para que o aponte em minhas notas.

Era com efeito o vale, que o alferes passara sorrateiramente à moça pensando ser a carta de namoro. O velho e fino judeu, desconfiado com o negócio da janela e mais do beijo, não perdera de olho o oficial enquanto ele escrevia; viu-o pois fazer dois bilhetes e dobrá-los fechando ambos na palma. Usou então de ardil; ao apresentar-lhe o moço o vale, fingiu haver engano que realmente não havia; desconcertado o alferes, como era natural, mais que depressa arrecadou esse, dando-lhe em troca o recado de namoro, que era quanto desejava o judeu.

Esse então pareceu absorver-se na leitura para dar ocasião ao cavalheiro de fazer a sua estratégia; logo que o vale se achou em segurança na mão da moça, tranquilo a respeito do seu dinheiro como a respeito da filha, consumou a transação.

Entretanto o alferes, depenado na bolsa e logrado nos amores pelo velho judeu, seguia rua acima até a Praça do Palácio, donde quebrando a Travessa da Sé, ganhou a bodega do Brás, ainda nessa noite, como na de Ano-Bom, cheia de alegre freguesia e procurada por toda a casta de gente, desde a mais reles peonagem até a mais famosa fidalguia. O alferes rebuçou-se bem no manto escuro e entrou afoitamente a varanda da taberna; trocado com o judengo um sinal que decerto era concertado, penetrou no interior pelo corredor particular; a última das portas dava para uma câmera pequena, onde havia encravado na parede um grande armário de angelim.

O taberneiro chegou logo após com uma candeia na mão; e reconhecendo o fidalgo pela feição, não mais rebuçada, saudou-o com mostras de muito respeito.

— Estão em número? perguntou o alferes.

— Uma dúzia deles; todos dos melhores.

— Aviai-vos!...

Brás sacou do bolso a chave do armário que abriu; calcando então uma pequena mola oculta no canto, fez volver sobre os gonzos o fundo que era da mesma madeira. Apareceu uma aberta que dava para o vão de um segundo armário embutido na face oposta da parede. Cinco pancadas, divididas por duas pausas, aplicou o taberneiro à divisão, que logo foi franqueada. O alferes passou de um salto deste àquele aposento, e tudo voltou ao estado anterior.

O aposento era espaçoso bastante e situado no centro da casa; não tinha janelas, nem outra porta a não ser a encoberta por detrás do armário. O ar penetrava pelas largas seteiras que davam para um pátio, e pela água-furtada que havia no telhado. No meio da casa via-se uma grande mesa oblonga de jacarandá, em volta da qual estavam grupados dez fidalgos jogando as cartas. D. José foi recebido por eles com ruidosa alegria; todos conchegaram-se para dar-lhe lugar junto a si no banco em que sentavam. O alferes acomodou-se no que mais perto encontrou.

A mestre Brás não satisfaziam unicamente os ganhos da taberna; também tinha casa de jogo ou tavolagem, e explorava mais essa lucrativa indústria apesar das Ordenações do Reino, que a proibiam. O judengo porém era fértil em recursos e achara modos de combinar a segurança de sua pessoa com os acrescentamentos da bolsa. Comprara por intermédio de um mercador judeu a casa que tocava com a sua pelos fundos e construíra aposento apropriado ao fim a que se propunha.

A frente da tal casa era ocupada pela tia Eufrásia, mãe de Anselmo, que aí tinha sua tenda aberta durante o dia; à noite, por uma escada de mão encostada ao muro do pátio, ou ela ou o filho penetravam na sala pela água-furtada, para servir aos jogadores quando careciam de qualquer coisa. Estes entravam pela taberna a título de beber, e ninguém podia suspeitar do fim que realmente os trazia.

Assim, graças à engenhosa combinação, a tavolagem do Brás não o podia comprometer porque não fazia parte de sua casa; a tia Eufrásia e o Anselmo seriam, no caso pouco provável de devassa, os que pagariam as custas; mas em compensação disso, boas contas faziam eles ao taberneiro pelo serviço que lhe prestavam.

D. José deitara sobre a mesa a bolsa pesada dos quinhentos cruzados, e esperou a sua vez de tomar cartas. Seus parceiros eram todos da melhor fidalguia da cidade, moços e cavalheiros, que esbanjavam o patrimônio de seus pais, e também alguns velhos encanecidos no vício.

O taberneiro voltando à varanda, encontrou um mestiço encostado ao balcão e resfolgando como quem trazia longa caminhada:

— Então, Pedro, que novas?...

— Primeiro molhai-me a goela, se quereis que fale, pois a trago esturricada.

— Tomai lá, rapaz, bebei, mas com tino, que não vos vire a bola.

— Não haja medo.

O rapaz esvaziou o canjirão, e chupando os beiços, debruçou ao balcão para falar ao ouvido do judengo.

— O navio é chegado desde tarde, disse ele. De primeiro ninguém o conheceu; vinha-se fazendo na volta de terra, mas logo entrou a noite. Então fez sinal... Sabeis?... As três panelinhas de fogo azul?...

— Sei, sei. Que mais?

— Então deixei lá os outros à espreita e vim dar-vos aviso.

— Bem, Pedro!... Tereis uma boa paga, eu vo-lo prometo. Tornai, que sobre madrugada serei convosco. Cuidado com a guarda-costa, que anda de pulga na orelha!

— Deixai-a comigo, que bem lhe conheço as traças. Agora a ceia enquanto descanso.

— Sim, rapaz! Apre, que nada vos esquece!

— Cuidais?...

O Pedro que sentava-se a uma das mesas, e um cavalheiro rebuçado que parava na porta; depois de um instante de hesitação endireitou para o balcão. O taberneiro emborcou-se todo para falar ao novo hóspede, mas especialmente para sondar-lhe a feição através das dobras do manto.

— Preciso de falar já sem demora a D. José de Aguilar!... disse o recém-chegado com um tom vivo e imperioso.

— Dir-me-eis agora o que é mister que faça, Senhor D. Fernando de Ataíde, para que já me ponha em caminho de obedecer-vos.

Isso foi modulado pelo Brás no seu mais doce sonsonete, entre duas reverências humildes, e adubado por um sorriso, que se desfazia como torrão de açúcar.

— Ide avisá-lo que aqui estou! retrucou o cavalheiro.

— Há muito lá estaria eu correndo, senhor cavalheiro, se soubesse onde encontrá-lo.

— Se ele está em vossa própria casa, taberneiro!...

— Em minha casa, que assim a chamo com permissão de Vossa Mercê!... Em minha casa! Tal não há! Juraria, se preciso fosse!...

— Digo-vos que para aqui veio; aqui deve estar!...

— Desde que vos juro eu, Senhor D. Fernando!... Não me quereis crer; pois se vos praz, podeis correr toda a casa para certificar-vos.

— Taberneiro, já vos adverti que venho apressado; poupai vossas juras e reverências para outros. Segunda vez vos digo que aviseis D. José de lhe querer eu falar com urgência!... Não vos direi terceira.

— Fazei-me em postas, senhor cavalheiro, se tal é o vosso gosto; já que não sei que mais faça para que me acrediteis.

D. Fernando mordeu os beiços de impaciência:

— Peão, tu persistes em negar que D. José está em tua casa?

— Persisto na verdade, senhor cavalheiro.

— Pois, guiai-me à casa da tavolagem.

— Qual tavolagem, Senhor D. Fernando?

— A tua, burlão!...

— Virgem Maria Santíssima! Que heregia, meu fidalgo!... Joaquim Brás, o taberneiro, com casa de tavolagem! Donde chegais, que tal coisa vos meteram na cabeça; pois em toda esta cidade do Salvador e sua redondeza, ninguém tal dissera!

— Mestre Brás, se me conheceis, não ignorais sem dúvida o amigo que eu sou de D. José, para quem não guarda ele segredos. Eu sei que tendes aqui nos fundos de vossa casa uma câmera onde se dão jogos muitas noites!...

— Ai, Céus!... Quem está livre de um falso testemunho!

— E agora lembro mais, por mo dizer uma vez que emprazou-me para acompanhá-lo, que a comunicação se faz por um armário.

— Falai mais baixo por quem sois, senhor cavalheiro! Vejo agora que estais no segredo, que é mais dos vossos amigos, que meu; e só pelo respeito deles é que vos encobria. Portanto me perdoareis, porque outro tanto faria pelo vosso respeito.

— Perdoar-vos-ei, se me guiardes sem mais demora; do contrário amargareis o que já me fizestes esperar.

— Segui este corredor aí à esquerda, que lá no fundo, último cubículo, me achareis.

O cavalheiro executou a recomendação e chegou à casa do jogo pelo mesmo caminho do alferes. A sua entrada causou alguma surpresa, por não ser ele dos camaradas daquela devoção; mas foi aplaudida por quantos ali estavam.

— Oh! D. Fernando!...

— Bravo!... chegou vosso dia!...

— Bem pensava eu que não havia tardar!...

— Todos acabam por aqui! Cedo ou tarde!

— Bem-vindo sejais!...

— E ainda mais bem-vinda e melhor ficada bolsa, que trazeis recheada!...

— Abancai-vos para aqui!...

D. Fernando correspondeu com uma cortesia geral a estas exclamações partidas de todos os lados, e respondeu simplesmente:

— Enganam-se, senhores meus, em pensar que venho tomar parte na tão boa companhia: por honrado me dera; mas outro cuidado me traz, que é falar a D. José de negócio importante e apressado.

O alferes, a quem o jogo tinha por tal forma que não lhe deixava fora dali mais olhos para ver, e mais boca para falar, quase nem se apercebera da chegada do amigo. Ele estava em hora má de fortuna; as moedas do judeu a pouco e pouco escoavam de sua bolsa para engrossar as pilhas de ouro que brilhavam diante de dois ou três parceiros a quem o azar favorecia com uma veia inesgotável. Via-se porém o fidalgo no desprezo com que enchia o páreo, e na sobranceria e calma em que arrostava os lances contrários.

O sorriso cortês não abandonara um instante o seu lábio; o olhar não contava as moedas perdidas, mas só as que restavam, para mais depressa arriscá-las. Pouco lhe importava o ouro, o que o absorvia todo era só a paixão, o vício, o demônio das cartas. As últimas moedas que acabava de atirar sobre a mesa, não lhe recordaram que eram elas o fim de uma grossa quantia, mas sim, que eram talvez a derradeira mão que jogasse; e esse pensamento o incomodou, e o prendeu ainda mais às cartas.

Debalde lhe dirigiu D. Fernando a palavra; não respondeu, nem mesmo voltou para ele o rosto; nesse instante abria as cartas dadas pelo parceiro da direita; correram as vazas, e o alferes perdeu ainda a mão. Fez um gesto de enfado passageiro que mudou em sorriso; e afastou de si o baralho, que lhe tinham passado, por lhe caber dar as cartas.

Fernando aproveitou o ensejo para lhe falar de novo.

— D. José, tenho coisa urgente que comunicar-vos!

— Oh! chegastes a propósito!... respondeu o alferes, como se então somente se apercebesse da presença do cavalheiro.

Reclinando ao ouvido:

— Prestai-me quanto trazeis na bolsa, amigo!...

— De bom grado o faria, se não fosse carecer de conversar-vos, o que o jogo não permitiria.

— Temos tempo!... Só duas mãos para forrar parte do que perdi.

— Mas atendei, amigo, que é grave, e muito, o de que vamos tratar.

— Pois não jogarei mais que uma; depois me tereis todo para quanto vos aprouver, o que agora não sucederá, pois se não me servis, vou ao judeu!...

Ataíde passou a bolsa; e o alferes travando do baralho, chafurdou-se de novo no vício; correu primeira, segunda, terceira mão; a cada uma o amigo lembrava-lhe o prometido, e avivava a importância e urgência do negócio que o trouxera; mas a nada ele atendia. Afinal D. Fernando inclinou-se e conseguiu meter-lhe ao ouvido estas palavras:

— D. José, trata-se da honra de vossa irmã!

— Já vos falo!...

A má fortuna continuava: o subsídio acrescentado aos quinhentos cruzados fundiu-se rapidamente entre os dedos do jogador; chegou outra vez o momento em que a mesa diante dele achou-se limpa, tendo apenas, como relíquias, as duas bolsas desertas e encolhidas.

— Senhores, recebeis uma parada sobre palavra? perguntou o alferes.

Os outros olharam-se entre si e como atalhados da pergunta, sem proferir palavra. Afinal um resolveu responder, pois já o silêncio passava à descortesia:

— Deveis lembrar-vos, D. José, do que foi aceito por todos que vimos a esta mesa, de em caso algum fazer páreo que não seja com moeda de contado sobre a mesa; e isso pelo motivo de se acabarem com reixas e afrontas que costumam em casos tais, filhas da leveza de uns e desconfiança de outros.

— Bem lembrado estou e por isso vos perguntei antes se queríeis receber?...

— Fazê-lo a um é abrir a porta a todos: e tanto não podemos nós em uma coisa concertada pelo voto geral.

— Basta, senhores. Outra vez em que a sorte me esteja de feição, forrar-me-ei das moedas e do mais!

— Penso que não vos dais por ofendido, alferes!...

— Dar-me-ei, se assim vos apraz, capitão! replicou D. José repuxando o bigode.

O interlocutor, que era Afonso da França, capitão entertenido por El-Rei, ergueu-se pronto, mas os outros meteram o caso à bulha e tanto fizeram que instantes depois riam todos a goelas despregadas, com as facécias de Manuel de Melo. Afinal este foi à parede e bateu nela com a palma da mão; era oco o muro nesse lugar porque o som repercutiu profundamente. Logo apareceu na água-furtada a cabeça arrepelada da tia Eufrásia:

— Que mandam vossas mercês em seu serviço?

— Do melhor da Madeira!...

— A uma por cabeça?

— A duas, megera! Onde já vistes um bom português da Bahia bater-se com um só inimigo!...

Com pouco desceu por uma corda uma cesta cheia de garrafas e copos; correu a primeira saúde a D. José, a segunda ao Capitão Afonso, depois a todos os presentes, às damas, ao amor, à folia e ao jogo. Enfim D. Fernando impaciente, conseguiu arrancar o alferes à tentação; e embuçando-se ambos, saíram à rua pela taberna do mestre Brás.

Os dois amigos caminhavam a par e par sem dizer palavra; o alferes logo que pisara a calçada inquirira do motivo que trouxera D. Fernando à sua busca:

— Em chegando a casa, já agora!

D. José não replicara e encolhendo os ombros continuou a andar, ruminando em seu cérebro esquentado jogo, vinho, amor, tudo de mistura; bem se via que estava de mau humor, pelo ímpeto com que esticava o bigode a ponto de arrancar os pelos. Ao descer a Ladeira da Palma, lobrigou ele que se espremia pela fresta da porta do judeu um vulto, o qual logo que pôs pé na rua, nivelou-se com a parede, de modo a não roçar nem de leve no cavalheiro. O alferes porém não perdeu essa ocasião de descarregar uma pouca da sua raiva; a mão foi direito à gorja do encolhido e o arrancou da parede de um safanão.

— Quem és tu, e que fazes aqui a esta hora, taful!

— Ai! sou eu, Senhor D. José, com vosso respeito!

— Oh! mestre Brás, vós em casa do judeu Samuel, tão tarde da noite?

— Os tempos andam tão maus, senhor alferes!... Vim empenhar umas pratinhas!...

— O judeu ainda está acordado; abrirá ele?...

— A Vossa Mercê, sem dúvida!...

O taberneiro escamou-se; o alferes caminhou para a porta do judeu.

— Quê, D. José?... Ainda pretendeis voltar ao jogo?... Se não vale meu pedido, valha ao menos a fama de vossa irmã, pois vos repito que dela e de sua honra se trata.

O alferes ao tom grave do amigo vexou-se e sem responder-lhe apressou o passo. Chegaram à casa de Ataíde; eram dez horas; a ceia os esperava sobre a mesa; sentando-se, Fernando despediu os fâmulos com um aceno, e tirou do bolso do calção um papel cerrado em carta, e o apresentou aberto a D. José; este leu um escrito assim concebido:

Ao mui nobre Cavalheiro D. Fernando de Ataíde.

Quarta-feira depois de Reis, que se contam 7 deste janeiro, desde o romper d'alva até o toque de meio-dia, estará no sítio da Graça, a um tiro de berço da ermida para as bandas da praia, um cavalheiro que jurou não ter um momento de repouso enquanto não provar que vil e indigno é o fidalgo que pede e aceita a mão forçada de uma dona, sem o coração que ela a outro já deu com seu amor.

Se D. Fernando de Ataíde preza a sua honra e não é um cobarde, venha ao lugar emprazado ouvi-lo dizer em face, e desmenti-lo com a espada na mão. Não o fazendo, será tido por infame, e tratado como tal no lugar mais público onde se faça encontrado.


O alferes acabou a leitura em pé, batendo, com força no pavimento:

— O atrevido a pagará. Deixai-o à minha conta. Esta afronta é primeiro minha; e só depois vossa.

— Sabeis donde vem este cartel?

— Não o soubera eu!... Do tal D. Lopo de Velasco!... Cuida ele com ser comendador que há de caçar também Inesita, como usa com suas alimárias!... Está muito enganado. Verá se aqui na Bahia se aturam tafularias!...

— Mas por que pensais que fosse ele?

— Ora, é boa pergunta! Não há uma semana, que o tal fidalgo veio em procissão à nossa casa pedir a mão de Inesita, e meu pai lha negou redondamente! Ainda duvidais? Pois sabei mais agora, que havendo-lhe meu pai por forma de desculpa dito ter-vos dado sua palavra, e que a não ser esse grave motivo, se regozijaria de seu pedido; logo no dia seguinte escreveu ele dizendo que tinha por aceita e ratificada a promessa condicional, caso qualquer razão maior nos desobrigasse da palavra dada!...

— Ah! essa ignorava eu!...

— Bem sei; não dando a isso importância alguma, esqueceu-me de vos fazer sabedor. Assim descobris agora o seu manejo; desafia-vos para com esse meio destruir o obstáculo único que ele supõe se opor ao seu intento. Mas há de sair-lhe às vessas!...

— Ainda estou longe de concordar convosco. Lembro-me de ter ouvido de D. Francisco, que estranhando ele o improviso de seu pedido, pois acreditava que raras vezes tivesse visto D. Inês, acudiulhe o comendador que nunca, mas que o decidira a fama de sua beleza e virtudes.

— Que tem isso?

— Se o comendador não viu D. Inês e menos foi dela visto, como a ama e sabe ser correspondido?

— Não vedes que são iscas para que lhe pegueis no anzol! Quis tocar-vos no fraco!

— Talvez assim seja; mas logo que deitei os olhos a este escrito, atirei a outra parte. Lembrai-vos das justas...

— Quem, o estudante?... Não teria o atrevimento!...

— Não teve ele o de erguer olhos para D. Inês? Por que não o de arriscar tudo para possuí-la? No seu caso eu o faria! Esses ardimentos, crede-me, dá-os o coração, e não há resistir-lhes.

— Fazeis muita honra a esse rapaz, D. Fernando!... Ele deve conhecer-se para que nem um instante se lembre que D. Inês de Aguilar possa distingui-lo no pó!... Mas ainda vos digo, deixai isto por minha conta. Ou D. Lopo, ou quem quer que seja, receberá o castigo de minha mão.

— Não o entendo assim, D. José. Se mostrei-vos esse cartel foi por uma só razão, que estou haveis de aprovar. Aqui se diz que aceitei a mão de uma dama, sem o coração a outro dado; e acrescenta-se que o cavalheiro que tal pratica, é vil e indigno. Sou do mesmo pensar. Portanto acharei justo que eu ouça, sem mais tardar que amanhã, da própria boca de D. Inês o desmentido a essa calúnia, para com a consciência tranquila e a fé na minha causa, punir o refalsado que ousou denegrir a sua e a minha honra.

O alferes impacientou-se.

— É o que me faltava ver!... Que désseis crédito ao que vos escrevem encapotados. Quem sabe se não é isso alguma farsa de amigo nosso?

— Farsa em tal assunto passa a caso sério, pois é objeto com que não se brinca. Minha resolução está tomada; procurei-vos para anunciar a D. Francisco!

— Tal não farei; ocupá-lo com nonadas!...

— Fá-lo-ei então eu próprio, amanhã, com cedo.

Os dois amigos separaram-se frios.

A resolução de Fernando incomodava o alferes, bem como a recusa deste afligia profundamente aquele; e isto se explica pelas relações que havia entre ambos.

D. José de Aguilar, jogador e perdulário, travara conhecimento, dois anos havia, com D. Fernando de Ataíde, rico fidalgo, da casa dos Condes da Castanheira, proprietário de muitos engenhos. Em princípio não passou isso de camaradagem de moços, mas logo o amor que Inesita inspirou a Ataíde o rendeu, como era natural, à amizade do alferes, o qual desde então começou a usar e abusar da bolsa do amigo, a título de empréstimo. Avultavam de dia em dia os empenhos, quando o enamorado cavalheiro animou-se um dia a fazer a confidência de seu afeto ao irmão; este a acolheu favoravelmente e encorajou o amigo prometendo servi-lo.

Esse fato selou o cativeiro de D. Fernando que tornou-se daí em diante propriedade de D. José, ele e seus haveres. Mas o alferes desdenhando falar à irmã acerca dos sentimentos que ela inspirara, contentou-se em agasalhar muito o amigo, a quem facilmente iludia o recato da menina, junto à benevolência devida ao companheiro de seu irmão. Afinal instado pelo cavalheiro resolveu D. José falar de sua pretensão a D. Francisco, empenhando em favor dela todo o seu valimento no coração do pai. O fidalgo castelhano não desaprovou a ideia; mas consultando sua mulher, achou-a de aviso contrário. Contudo um voto mui autorizado, o de Fr. Carlos da Luz, capelão e conselheiro do fidalgo, fez pender a balança em favor de Ataíde, cuja casa fora sempre, de pais e filhos, protetora do Mosteiro de São Bento, desde a sua fundação em 1581. Entretanto para não afligir sua mulher, quis o fidalgo que o projetado casamento ficasse em segredo até o tempo de se efetuar, o que seria quando Inesita completasse os dezoito anos.

Sucedeu porém que no sarau de ano-bom, interrogado pelo governador com mostras de muita benevolência sobre sua família e o futuro de Inesita, D. Francisco julgou-se obrigado pelo respeito a confessar os projetos formados, e assim divulgou-se nas salas a notícia, que fora para Estácio um golpe mortal.

No dia seguinte, que foi o de Reis, D. Fernando, firme na resolução da véspera, procurou em sua casa de Nazaré, a D. Francisco de Aguilar, já a esta hora prevenido pelo alferes. O moço achou reunidos na sala pai e filho e mais o frade bento, chamado a conselho para o caso difícil. Avistando-o, o Senhor de Paripe foi a ele:

— Deixai-me ver o insolente escrito!...

— Aqui o tendes. Já sabeis?...

— Sei tudo. D. José mo referiu.

— Sabeis também o pedido que lhe fiz?

— Depois trataremos disso! Vamos ao que mais importa!...

— Perdoai, D. Francisco. O mais importante para mim é o desmentido dessa calúnia da boca mesmo de vossa filha.

— Ides ouvi-lo, D. Fernando. Antes porém é mister que concertemos sobre o que mais convém à nossa honra e comum interesse.

Tomando conhecimento do cartel, que seus olhos percorreram rapidamente com um gesto iroso, atirou-o amarrotado sobre os joelhos de Fr. Carlos da Luz.

— O primeiro e mais ofendido aqui sou eu, na pessoa de minha filha e fama de minha casa. A mim pois antes de todos compete o direito de castigar o vilão e refalsado, qualquer que ele for.

— Essa é a minha parte, senhor, como filho, como moço e como soldado. A vós o conselho; a mim a espada.

— Vingareis vosso pai, se ele sucumbir, D. José: é essa a vossa parte. Depois poderá D. Fernando castigar a afronta a ele feita.

— Esqueceis, Senhor D. Francisco, que este cartel não vos foi endereçado, e sois suposto ignorar o que nele se contém! O direito de responder-lhe não é de ninguém mais, senão meu; e conto não cedê-lo.

— Pois a mim me parece que todos estão no caminho errado!... disse o frade que adiantou-se com o papel dobrado entre o índice e o polegar da mão esquerda. Antes de tudo, pessoas de nobreza e tão qualificadas, como são os que me fazem a honra de ouvir, não respondem a desafio de um encoberto! Sabeis vós ao menos que casta de homem é o que isto escreveu? E que figura faríeis se lá chegando achásseis um vilão indigno de medir-se convosco?

— Mandá-lo-ia açoutar pelos meus escravos, para lhe castigar o atrevimento!...

— Devíeis então começar por aí, se o mais digno e acertado não fosse lançar ao desprezo estas palavras ao vento.

— Isto não admito eu por forma alguma! exclamou D. José.

— Dado que seja um cavalheiro quem assim se oculta contra todas as regras usadas entre a boa gente, vosso desprezo será compreendido, e ele voltará de rosto descoberto. Então não serei eu quem vos tolha a valente espada, Senhor D. Francisco, ou a de vossos filhos aqui presentes.

A sensatez desse alvitre calou à uma no ânimo dos três fidalgos, os quais embora já rendidos à razão, sentiram ainda os brios alvoroçados que resistiam. Emudeceram, por não acharem argumento com que retrucar.

— O cartel!... disse enfim D. Fernando estendendo a mão ao frade.

— Esse escrito?... Uma vez na minha mão, ordena-me o meu ministério de paz, que o confisque em bem da religião e humanidade. De mais para que vos serviria já agora?

— Sem dúvida, pois que aceitamos o conselho que nos sugeriu a sabedoria do nosso capelão! acudiu D. Francisco.

— E a vossa promessa, senhor!... É preciso que o veja aquela de quem aí se fala, para que o desminta!

— D. José, trazei aqui vossa irmã!

— Com vossa permissão! Primo, julgo eu que resolvido se desse ao desprezo este escrito, entende-se todo o conteúdo seu; portanto desapareceu o motivo e a necessidade deste passo, sempre difícil para uma donzela angélica e de tanta pureza como D. Inês. Secundo, mostrar-lhe tal papel seria pô-la em ânsias por pessoas que lhe são tão conjuntas, como pai e irmão, e outra que o será em um ano!

— Ponderais bem, Fr. Carlos; mas já que esta ocasião se apresentou, ouça eu o que ainda não ouvi daquela que tem de ser minha esposa, oculte-se-lhe embora todo o ocorrido.

D. José saiu para cumprir a ordem do pai. Achou Inesita na varanda, recostada à penumbra, e olhando tristemente o céu; ao aproximar-se, a menina estremeceu, e seu olhar angustiado caiu-lhe sobre a mão direita, correndo como uma faísca elétrica ao longo da espada. Procurava esse olhar ali o vestígio do sangue de Estácio?

— D. Inês, vosso pai vos chama!

A menina seguiu automaticamente para a porta, depois de ter feito um gesto de assentimento com a fronte.

— D. Fernando de Ataíde deseja ouvir de vossa própria confissão, minha irmã, que respondeis aos sentimentos que lhe soubestes inspirar!...

— E por que o não dissuadistes, meu irmão?... respondeu a donzela voltando-se com uma dignidade serena para o alferes.

— Por quê? replicou o alferes com um mau sorriso. Porque um besouro lhe zumbiu aos ouvidos que sem o consentimento dos vossos tínheis dado a outro o vosso coração. Ora se isso fosse verdade, esse feliz seria hoje mesmo um homem morto! Mas não é verdade!... Tenho disso toda a certeza!

— D. José, mal conheceis vossa irmã se cuidais que ela seja capaz de comprar com uma mentira a vida daquele a quem ama!

E soberba e rainha, na sua altiva resignação, assomou à porta da sala onde a esperava seu pai. O frade adiantou-se como para recebê-la, e ao passo que lhe dava a mão a beijar, murmurou-lhe baixo estas palavras:

— Filha, há segredos que só no confessionário se revelam!

D. Francisco de Aguilar dirigiu-se à filha com certa severidade:

— Vosso pai vos ordena, D. Inês, que em presença de vosso futuro esposo confesseis a verdade dos vossos sentimentos a seu respeito. É de vossa livre vontade que recebereis sua mão e seu nome?

— Ordenais, senhor; devo obedecer-vos sem hesitar. Darei minha vida a quem escolhestes, de minha muito livre vontade, porque a dou a vós, de quem a recebi eu.

— Estais satisfeito, D. Fernando?

— E o vosso coração, mereço-o eu?...

Inesita calou-se:

— Falai! disse o pai.

— Mereceis, Senhor D. Fernando, melhor do que este coração ingrato e desleal, pois se roubou ao seu dever para dar-se a um infeliz como ele!

— Que proferis, D. Inês?

— A verdade, como ordenastes, senhor! Este orgulho podeis ter, que nunca vos mentirá vossa filha!

— Quem foi o sedutor infame?

— Sedutor, se o houve, foi Deus somente...

— Não blasfemeis, D. Inês.

— Deus que nos reuniu quatro vezes, uma para que me salvasse ele, e todas para que lhe pusesse eu a vida em risco, quis que por gratidão e misericórdia o amasse!

— Como se chama?

— Sim, o nome?

Inesita pôs os olhos no céu e entreabriu os lábios para que exalassem o nome querido entranhado no mais profundo de sua alma. Um grande rubor invadiu-lhe súbito as faces, que arderam; refluindo, deixou uma grande lividez impressa nas feições.

Desmaiara.