As Minas de Prata/II/XII

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As Minas de Prata por José de Alencar
Como naquele tempo se fazia oposição ao governo


Reboava o carrilhão do Colégio.

O povo afluíra em massa à festa de Reis que celebravam os padres no seu mosteiro. As ruas estavam enramadas de palmeiras e florões, e a praça toda apavesada de flâmulas e galhardetes. A artilharia montada na cerca jogava de meia em meia hora; a armação da igreja excedia na riqueza e primor quanto se tinha visto mesmo em Portugal.

O orgulho dos jesuítas não podia consentir que passasse sem protesto o regozijo dos nobres e senhores de engenho pela chegada do novo governador. Aproveitando o pretexto do dia de Reis que vinha logo em seguida, resolveram dar também a sua festa ao povo baiano e eclipsar no suntuoso das galas e ornamentos, bem como na concorrência, a cerimônia religiosa da catedral.

O P. Gusmão de Molina aprovou a ideia e foi em comissão com o provincial e o reitor pedir a D. Diogo de Menezes a honra de sua presença; admirou-se o governador do estranho proceder, que denotava mudança de tática do adversário; e suspeitou que o motivo oculto desse passo era apresentá-lo aos olhos de El-Rei como intolerante, caso não comparecesse ele conforme decerto esperavam. O que porém resolveu D. Diogo a ir foi o lembrar-se da ausência do provincial na Sé em dia de Ano-Bom; tinha por indigno do seu caráter, como de seu cargo, mostrar que o ofendera semelhante ato, e retorquir por igual modo.

A fidalguia, com exceção dos poucos amigos e devotos da Companhia, não apareceu; em compensação o popular, que uma parte era pelos padres e outra pela festa, apinhava a igreja e o terreiro. Muita gente viera de todo o recôncavo; e muita ainda estava chegando para o fim da cerimônia.

Já a missa cantada havia começado: Fernão Cardim oficiava; o reitor tinha a epístola e o P. Figueira o evangelho. O coro dos noviços e estudantes, regido pelo respeitável Manuel Soares, correspondia à reputação musical de que merecidamente gozava a Casa Provincial do Salvador, desde o tempo do P. Navarro, o Orfeu cristão. Não obstante, o nosso Bartolomeu Pires, de corpulenta memória, mui digno mestre de capela da Sé Catedral, nesse momento ao lado de seu inseparável amigo Vaz Caminha, achava que dizer à execução.

— Ora, vede, senhor licenciado, como agora afrouxam o compasso, para outras vezes esticá-lo que parecem vão a toque de marcha!...

— São invenções de canto moderno, mestre Bartolomeu!... respondia o advogado mansamente.

— Bem sei; mas não me parecem bem na música de igreja; para salas e terreiros, não digo que não!... E as vozes, achais que sejam bem afinadas umas por outras?

— Podiam ser mais, e o seriam, se fossem regidas por certo mestre de capela do meu conhecimento.

— Haveis de dizer-me o seu nome! acudiu o músico expandindo-se como um repolho.

Nesse instante entrou uma dama de preto, coberta de mantilha e véu espesso, que ao passar enviou ao advogado uma ligeira saudação da fronte. Seguindo com os olhos o passo airoso e a ondulação do talhe elegante, o advogado reconheceu através das rendas a sua formosa cliente da Rua de Santa Luzia. Era com efeito D. Dulce que vinha à festa impelida por uma irresistível tentação.

Desde o instante em que vira seu marido sob o hábito negro de Jesus, a infeliz senhora tinha, como confessara ao doutor, momentos terríveis em que sua alma queria revoltar-se contra a religião que lhe arrebatara o objeto de seu amor, a outra metade viva dessa metade morta. Às vezes até blasfemava no delírio de sua paixão desgraçada; e exprobrava ao Senhor ter-lhe tomado o esposo que lhe dera, e quebrado a união que santificara. Depois essa febre passava; a coragem lhe desfalecia; mas ficava no coração um ódio profundo e entranhado contra tudo que pertencia à Ordem de Jesus. Se então ela recebia o padre reitor, era por uma espécie de gozo da vingança, para zombar da argúcia do religioso, e açular nele a cupidez do ouro, que contava frustrar afinal. Deleitava-se em tantalizar o frade.

Outras vezes porém Dulce sentia passar em si uma coisa estranha, revulsão terrível do seu ser. O coração como que inchava, inchava a ponto de estalar; o amor que espadanava de todos os poros e enchia por tal forma que a raptava a si mesma e à sua razão. Ela via diante de si um vulto humano, trajando hábito negro, e precipitava-se para ele; o enlaçava em seus braços; esmagava-o de beijos e o afogava de delícias. Nesses momentos, como que um mar imenso de amor a inundava, tal era a potência com que sua alma se esparzia. Tudo que lembrava a última aparição do esposo, a igreja da ordem a que ele pertencia, a roupeta que trajava, o nome que trazia, tudo exercia sobre ela uma atração irresistível; a tudo ela amava.

Naquela manhã teve Dulce um desses momentos.

Espertara ela e repassava os amargores da sua vida, quando as vibrações graves do bronze repercutiram no seu coração como ecos de vivas recordações. Lembrou-se do dia que era; conheceu qual sino reboava assim, e levada de um assomo incompreensível toucou-se e adereçou mui ligeira, sem mesmo chamar a velha Brásia. Esta só apareceu quando já estava pronta, e foi pôr os olhos nela e exclamar levando as mãos à cabeça:

— Virgem Maria Santíssima, será verdade o que veem estes olhos!... A dona ataviada para sair!

— Que espanto é esse, Brásia? Iremos à missa do Colégio!...

— Santo Breve da Marca! Com a igreja atopetada de gente como há de estar! Se por estas bandas retiradas anda o povo em pelotões, que não será no terreiro!... E então a dona que não tem costume desses apertos!...

— Pois arranjai-vos logo para que mais cedo cheguemos!...

— Mas atenda a dona. Sempre é bom tomar conselho do reverendo padre reitor!... Não custa; vou lá e torno aqui, em menos de uma ave.

— Não careço de conselho para ir à casa do Senhor! Cuidai de preparar-vos para acompanhar-me.

O tom severo destas palavras desconcertou a velha. Ela começou a girar na recâmera toda atarantada, até que descobriu um imperceptível senão no toucado de Dulce; tratando de corrigir esse defeito, tais coisas fez, que a dama foi obrigada a toucar-se de novo. Mas quando chegou a ocasião de trajar-se ela para a festa, só uma paciência de santo a poderia sofrer. Agora faltava a saia preta que as almas lhe tinham carregado; depois o cabeção de sair que o Tinhoso por pirraça lhe sumira; logo eram uns flatos que lhe atacavam a ilharga, ou umas cãibras mesmo na sola do pé, que não lhe deixavam pisar no chão!...

A princípio Dulce acreditou na realidade desses repentinos acidentes; mas o talento com que a velha Brásia os improvisava, foi justamente o que a perdeu, porque a coincidência de tantas contrariedades na mesma hora, despertou a desconfiança da dama; ela reparou na servente e pareceu-lhe que havia ali mais caretas e trejeitos que dores reais:

— Então, Brásia, vindes vós afinal?...

— Bem estou rogando aos meus santos que me valham!... Mas já por duas vezes que acometo de andar e não posso comigo a dar um passo!... Ui! ui! ui!... Cá estão elas, as cãibras, mofinas, que são molhos de alfinetes me crivando de umas dores finas!...

— Pois fica-te sossegada, que eu me irei acompanhada de Lucas!

E sem mais saiu a senhora da câmera e foi à cozinha para cumprir o seu dito: logo após, a velha Brásia ergueu-se, e pé ante pé a seguiu de longe; quando viu que não havia meio de impedir que a moça fosse ao colégio naquele dia, resignou-se, e tomando seu partido apresentou-se na porta embiocada na mantilha. Para de alguma forma disfarçar a sua rápida e milagrosa cura, manquejava ainda do pé, e trazia do canto de cada olho pendurada uma lágrima.

— Oh! que milagre, dona! Foi agarrar-me com o angélico Santo Antônio, e as dores aplacando, aplacando!...

Fora esse o motivo por que Dulce chegara à igreja depois de começada a cerimônia; ao sentar-se ela no estrado de um dos altares laterais, reparou que Brásia não estava ali junto, e supôs fosse o aperto da gente que a tivesse perdido dela. Enganava-se porém; a velha, veterana de festas e procissões, furou como um mergulhão as ondas do povo, e ganhando a nave, enfiou pela escada do convento acima. Foi-se ao primeiro leigo que encontrou e disse-lhe em grande alvoroço:

— Senhor meu devoto, levai-me já nesta hora ao Rev. P. Molina!...

— Não pode ouvir-vos agora, mulher; pois já está recolhido na câmera do púlpito para o sermão que vai entrar!

— Se foi ele próprio quem mandou-me o buscasse neste agorinha! É mesmo pelo sermão!...

O Irmão Bernardo olhou desconfiado para a velha; mas esta levando a mão ao peito, fez um sinal cabalístico, que dispôs favoravelmente o leigo.

— Vinde, irmã.

O porteiro guiou a velha até defronte de uma portinha de tribuna; às pancadas miúdas e contínuas da Brásia perguntaram de dentro quem batia.

— Uma devota da Rua de Santa Luzia!...

A porta abriu-se logo; dentro do cubículo estavam duas pessoas: o visitador e um frade moço que acompanhava lendo em um rolo de manuscrito a declamação do pregador. Fora o P. Molina quem abrira o postigo, e reconhecendo a velha, saiu fora para ouvi-la. Brásia derrubou-se impetuosamente de joelhos aos pés do jesuíta, batendo nos peitos, lamentando-se, clamando misericórdia, e engrolando com estas lamúrias a narrativa do que era passado.

— Então ela está aqui?... disse o P. Molina com uma voz surda.

— Não houve forças, padre meu, que a despersuadisse de vir.

O visitador refletiu um instante.

— De que lado está ela?... Quero vê-la.

— Deste lado da Epístola, mesmo aos pés do altar do Santíssimo!

O frade serenou.

— Bem; tornai à igreja; e se a virdes muito aflita, fareis que a levem a casa sem tardança.

A velha beijou a manga do sacerdote; e desceu ao corpo da igreja à busca de Dulce. Descarregada a consciência do peso que trazia, Brásia restituída ao seu beatismo, palpitava com a lembrança do próximo sermão.

O P. Molina logo no seguinte dia ao da sua chegada, encontrando-se por tarde com o reitor, comunicou-lhe que tomava ao seu cuidado o negócio da misteriosa dama, de que se tratara na véspera em capítulo.

Assim se explicam as entradas da Brásia com o visitador, que ordenara-lhe empregasse traças para desviar a moça de ir ao colégio naquele dia, especialmente por causa da pregação; como essa devia ser forte em demasia, podia abalar muito a alma da senhora e movê-la ao pranto e lamentação de suas passadas desditas. Ora, a velha servente, condenada a perder o famoso sermão, não cabia em si com o contentamento de o ouvir e comentar com alguma comadre que por ali achasse a jeito.

Varando entre a pinha de devotas, chegava ao lado de Dulce e encolhia-se para acomodar-se no cantinho que lhe fizeram as outras conchegando-se, quando foi ouvido um burburinho que fazia o povo empurrando-se com murmurações descontentes, mas contidas pelo respeito do lugar.

— Já se viu isto?... exclamava toda arrebitada a tia Eufrásia. Vir à igreja como uma emparedada, a tomar largas aos mais!...

— Ela que se esconde, não é boa coisa!... respondia o Anselmo.

— É mesmo!... Já lhe os pecados sem dúvida arrebentaram em lepra pelo corpo.

Adiante, mestre Brás, acochado pelo mulherio, resmungava:

— Quem vem por derradeiro, que fique à porta!... E não incomode os mais!...

Passava a Joaninha, que voltou o rosto zombeteiro:

— Usais isso na vossa bodega, Senhor Brás? Cuido eu que não, pois os que mais tarde chegam, são que mais lá dentro vão!...

— Cuidai mais de vós, rapariga, e menos do próximo, para que deixeis em paz as más línguas!

— Em paz estão elas, sô taberneiro de meia cara, dês que as pondes de molho na vossa espelunca de judeu!

O Brás ia responder quando um soco bem aplicado nas costelas o derreou:

— Cala esta boca de excomungado, mercador de zurrapa!

Esta exclamação e o soco que a precedeu foram obras de misericórdia de Gil; quando o taberneiro voltou a si da dor já o travesso pajem estava longe ao lado de Joaninha, que o encobria com a vasquinha.

Enfim até o mestre Bartolomeu, apesar da atenção que dava ao coro, foi distraído pelo rumor e agitação do povo, e notando a causa, não pôde deixar de dizer para o licenciado:

— Pois tem jeito isto?... Pôr em alvoroto a gente toda por causa de um, e no meio do coro!...

— Alguma dama doente, sem dúvida!

— Na catedral, senhor licenciado, não se veem dessas coisas.

Ora, a causa de todo esse rebuliço era um palanquim fechado completamente, a não serem as frestas da rótula dourada que formava duas sanefas por banda. Ao chegar à portaria, logo desceu um frade, que depois de algumas palavras em voz submissa trocadas através da persiana, guiou os portadores pela igreja dentro, pedindo aos devotos que se afastassem para deixar passar a dona que chegava, senhora de muito valimento e maior humildade, que assim vinha à festa por virtude de um voto. O palanquim avançava lentamente, e por onde passava ia levantando as protestações que se viram; pior foi quando chegou aonde devia ficar, justamente junto ao altar do Santíssimo.

As devotas que ali estavam tiveram de erguer-se e ceder o lugar. Umas aí mesmo se acomodaram a trouxe-mouxe, e em posição menos decorosa para damas sisudas. Dulce preferiu sair, e ia-se retirando para a porta, quando Vaz Caminha apercebendo-se, acudiu-lhe a ponto. O advogado recorreu aos bons ofícios e aos formidáveis quadris do seu amigo Bartolomeu.

— Não poderíeis, mestre Bartolomeu, acomodar nalgum canto aquela dama, a quem tiraram de seu lugar?

— Por dar-vos gosto, senhor licenciado, o que não farei eu!... Vênia, senhores meus, para uma dama!...

O mestre de capela acompanhou o aviso de um tal sacoteado de ancas, que abriu logo brecha na turbamulta. Achegando-se a Dulce, o advogado ergueu-se na ponta dos pés para murmurar-lhe perto do ouvido.

— Este amigo vai levar-vos a bom posto para gozardes o resto da festa. Segui-o, senhora.

— Deus vos recompensará tanta bondade, doutor! Melhor porém é ir-me a casa, pois sou demais aqui.

— De modo algum, D. Dulce; por minha parte não consentirei nessa descortesia de faltar-se com o devido às damas, e sobretudo em lugar onde elas são recebidas a título de anjos!

A moça meio rendida à fineza do advogado seguiu a trilha que deixava o mestre Bartolomeu, e chegou assim até o último retábulo do lado do Evangelho: aí havia entre as beatas um tocheiro que o Pires tirou para dar lugar à dama, e foi de mão em mão parar junto de Gil. O pajem trepando no pedestal abraçou-se com ele e pôde assim gozar da festa por cima da cabeça de Joaninha, que não tinha onde sentar-se.

— Olha, Gil, quem está ali! dizia a mulatinha.

— Onde, Joaninha?...

— Deste mesmo lado, perto da cadeirinha!

— Ah! Tiburcino?

— Não!... Aqui pelo beque da tia Eufrásia, antes de chegar ao condestável do Santo Alberto!...

— Vejo, vejo, rapariga! O Senhor Estácio?

— Não te parece bem mais contente que estes dias passados?

— Destes contentamentos livre-te Deus, Joaninha!... Riso por fora, e por dentro facadas!

— Ai! amores, amores! Rebentam em flores, o fruto são dores!... disse a mulatinha sorrindo e suspirando ao mesmo tempo.

Nisso o pajem descobriu perto o Brás:

— Olé! Queres ver, Joaninha, um riso gostoso?...

— Aquieta-te de uma vez, Gil!

— Espera um tantinho!... Ele vai chiar como carrapeta.

O menino lesto desceu do tocheiro, e chegando à parede, conseguiu, pondo o pé no plinto da coluna de mármore, suspender-se até a altura da arandela. Aí, com o disfarce de ver melhor, foi torcendo um brandão de modo a pô-lo sobre a cabeça do Brás; feito o que voltou ao seu lugar e esperou o resultado da travessura. Momentos depois os pingos de cera fervendo caíam sobre a mão do taberneiro, que repinicou de dor.

— Arre! casmurro!... Vês, Joaninha, como ele chora pitanga?... Ao menos esta semana, quando aperreares o pobre do Martim, hás de lembrar-te de mim!...

— Arrenego do taberneiro!...

Também outra pessoa já tinha descoberto Estácio; era D. Dulce.

Estácio já não tinha realmente no semblante a tristeza profunda em que o sepultara a nova do casamento de Inesita, e a ideia de perdê-la para sempre; na sua fisionomia, como na sua atitude, o que logo se notava, era a expressão firme e enérgica do homem que tomou uma resolução decisiva, e espera a hora de realizá-la, indiferente a tudo o mais que passa em torno. E a sua alma e vida que dependiam todas daquele acontecimento futuro, derramavam-se às vezes no brilho de seus olhos, no fogo de sua tez, em assomos de esperanças risonhas, que enfloravam então um sorriso nos seus lábios. Outras porém refluíam ao coração, e repassando-se aí de uma melancolia doce e altiva, resignação dos caracteres fortes, vazavam no olhar que dirigia à divina majestade, e no qual punha a seus pés, como em holocausto, a sua vida.

O moço chegara ao terreiro, quando passava-lhe por diante a cadeirinha misteriosa; e como seu caminho era o mesmo, a foi seguindo até a igreja. Embora não lhe desse mais atenção do que qualquer outra pessoa, metendo-se ela naturalmente pelos olhos, viu sair pelas rótulas dois dedos mimosos, como jasmins, que se moveram com extrema vivacidade, a modo de que chamassem alguém. Volveu o moço a vista para conhecer a quem era feito o aceno, e tornando à cadeirinha, os dedinhos que se tinham deixado ficar bem quietos, recomeçaram com a mesma ligeireza; de repente desapareceram arrebatadamente em risco de se magoarem.

Este brusco desaparecimento não escapou a Estácio, que logo o combinou com outras circunstâncias por ele observadas; a de se terem os lindos dedos mostrado da parte ocupada pelo assento de diante, e quase rente com o estrado.

— São duas pessoas, pensou o moço; naturalmente mãe e filha. Foi esta quem passou os dedos às escondidas por entre as dobras da vasquinha, e os recolheu de chofre com medo que a velha se apercebesse!...

Os espíritos do cavalheiro alvoroçaram-se. Viera ele tão descansado da ideia de ver Inesita nessa festa, e tão convencido da impossibilidade de tal acontecimento! Mas eis que um simples gesto gerou em sua alma uma esperança louca. Pareceulhe imediatamente provável, o que pouco antes considerava impossível. O mistério do palanquim cerrado, e ainda mais as palavras alusivas à dama enferma que proferira o jesuíta na porta, lhe davam rebates no coração. Resolvido pois a decifrar aquele enigma, acompanhou a cadeira, e colocou-se perto dela no corpo da igreja.

Após ele enfiou Tiburcino, que o seguia de longe, e postou-se de modo a não perdê-lo de vista. O magarefe tinha descoberto a Joaninha, mais longe, no extremo do arco que descrevia naturalmente o seu olhar, o qual começou imediatamente a oscilar da direita para a esquerda, de Estácio à rapariga, com a regularidade de um pêndulo. Assim notou ele quando esta, mostrando a Gil o cavalheiro, lhe reparara atentamente no semblante; os ciúmes acenderam mais violentos n'alma do pobre carniceiro, e afuzilavam nos olhos com um fogo sinistro.

Joaninha voltando então o rosto para ver o seu infeliz enamorado, notou aquele estranho lampejo que saía da pupila do magarefe e parecia mesmo de longe chamuscar a tez delicada do cavalheiro. Acudiu-lhe à mente a noite de ano-bom, e a palavra rouca que o magarefe soltara na praça do palácio; a esta lembrança sentiu correr-lhe um calafrio pelo corpo.

Fez-se nesse momento um grande silêncio no vasto âmbito do templo.

A atenção do povo derramada por tantos assuntos vários recolheu, e pairou na expectativa de um acontecimento importante. Os olhares todos voltaram-se para um só ponto da igreja, enquanto os lábios mudos entreabriam-se, não para a palavra que os desertara, mas para a ansiada respiração.

No quadro do púlpito acabava de aparecer a figura solene e inspirada do pregador. Sobre o busto negro, aquela máscara pálida e ascética ressumbrava severa majestade. Os olhos fugidos pelas órbitas, pareciam submergir-se nas profundezas daquele vasto espírito, para arrancar dali, como das entranhas de um vulcão, a lava incandescente do olhar. Pela abóbada da fronte vasta e proeminente as oscilações dos círios próximos jogavam ondulando, como um reflexo do que passava dentro, onde as ideias deviam pulular assim.

A mão branca, longa e descarnada, surgindo da larga manga do hábito, vibrou o gesto como o raio que se desenvolve da caligem densa de uma nuvem. A voz possante e arrebatada troou pelas abóbadas do templo augusto, onde meio século depois devia ecoar a palavra eloquente de Vieira. Quem sabe? Talvez a essa hora ali estivesse ele, infante ainda no colo materno, escutando seu predecessor e êmulo.

O púlpito era naquela época a única tribuna do povo; e o sermão tinha no lábio de um orador eminente grande importância política: era a voz do povo fundindo-se na voz de Deus.

A liberdade não perece nunca, porque a liberdade é a essência da alma imortal; a todo o tempo e em qualquer região, oprima embora o despotismo a grei humana, depravando a criatura racional e clausurando as nobres aspirações da inteligência; procurai a liberdade nessa treva espessa, que a achareis em alguma parte; se não for na superfície da terra, será foragida nas catacumbas de Roma, ou voando ao céu, a abrigar-se na eternidade, como o espírito dos primeiros cristãos atirados barbaramente em pasto às feras, e a alma dos mártires de 1817 imolados aos últimos paroxismos do despotismo português.

Enquanto ela acha um ponto onde se encarne, não abandona a terra; às vezes é na lança do bárbaro godo ou na ponta da valente espada do cavalheiro da Idade Média; outras no pelouro das comunas, nas dobras da beca do juiz, ou ainda na toga do advogado; algumas já apareceu nas trovas populares, nos motes e chacotas de ruas, nas obras de arte. Ao tempo desta história abrigara-se nos claustros, e trajava a sotaina e o burel. Era a época em que Bossuet admoestava do alto da cadeira sagrada a poderosa majestade de Luís XIV, e Vieira censurava os reis e satirizava os ministros.

O P. Molina, conformando sua prédica com o assunto do dia, tomara um tema vasto, sobre o qual a sua inteligência ousada e brilhante podia discorrer livremente. Foi com uma entonação lenta e grave, que de seus lábios caíram a uma e uma, sobre a multidão submissa, as palavras bíblicas, acompanhadas de um olhar tão estático e fixo no sólio do governador, como se estivessem ali encarnadas na pessoa de D. Diogo todas as realezas do mundo:

“Audite ergo, reges, et intelligite, discite, judices finium terrae. “Ouvide pois, reis, e compreendereis; aprendei, juízes dos confins da terra!” É do Livro da Sabedoria, cap. 6.º, v. 2.º.”

Houve uma breve pausa; recolheu o olhar e a severa expressão do semblante nos recessos d'alma: toda sua pessoa parecia convolver-se ao íntimo. Instante depois a potente organização assim refrangida e socalcada fez explosão: erigiu-se alto o talhe e arfou o peito amplo com o dilatar daquele espírito vigoroso. Os arroubos celestes o transfiguraram de repente em sublime apóstolo; com os olhos em êxtase no retábulo da adoração dos magos que lhe ficava fronteiro, começou:


“Espetáculo majestoso, tão majestoso em aspecto, como em lição profunda, é este que contempla em o dia de hoje a alma do cristão!... Ei-lo, ali, no humilde estábulo, o divino infante recém-nascido. Vileza de condição, pobreza da família e fragilidade do ser. Deus Padre as dispôs, de modo que a maior alteza e poder da terra acurvasse mais baixo ainda e tanto que rojasse no esterco imundo!...

“Vede!... aquelas três frontes altivas derrubadas ante o vil retábulo da manjedoura, mãos no peito, joelhos no chão! Na vária figura significam os três peregrinos as raças de homens disseminados pela face do globo; na coroa que os cinge, a majestade humana prostrada no pó e aniquilada ante a majestade onipotente daquele que somente é, porque nele e em sua infinita bondade está quanto existe e foi criado.

“Vinde aqui, vós, a quem o Senhor fez reis dos povos, e compreendei!... Vinde também vós, a quem os reis constituíram grandes e primeiros dos seus súditos, para os guiar, e aprendei neste exemplo!...

“Vinde todos vós, nobres, ricos e senhores, que viveis intumescidos das grandezas, mas fofos do espírito da virtude, e humilhai-vos!

“O Senhor vos discrimina; seu olhar vos conta as cabeças erguidas, e sua ira terrível, concitada pela justiça, não tarda vibrar o raio tremendo que há de fulminar-vos em vossa soberba!... Curvai essa fronte ímpia, que desafia a cólera celeste!...”


Estrida súbito pela abóbada um grito vibrante, que atravessa os ecos da voz sonora e cheia do pregador. Uma dama que se erguera convulsa e hirta, caiu fulminada no pavimento, como se lhe estalassem as entranhas naquele grito angustiado, deixando escapar a vida. Era D. Dulce; desde o começo do sermão, Vaz Caminha a vira erguer impetuosamente a cabeça e devorar com os olhos a figura do frade; uma corrente magnética se estabelecera entre ambos, que a atraía irresistivelmente para aquele vulto solene, primeiro a alma, depois o corpo também. Com efeito, sem o sentir, fora se erguendo por uma espécie de orgasmo, e sem o querer achou-se de pé com o corpo inteiriçado e as mãos crispadas.

No momento em que o P. Molina acentuando a sua imprecação, inclinou o rosto para ela, esmagando-a com o peso do gesto e do olhar, sua alma estalara naquele grito estridente que fora ouvido. O advogado seguido do mestre de capela correu em socorro da dama, que acharam desfalecida no colo da velha Brásia e cercada por outras beatas.

O acontecimento desviara um instante a atenção geral do púlpito, e por isso desapercebido ficou o sorriso fulvo que perpassou no rosto lívido do sacerdote, rápido como lampejo de borrasca. Ele recobrou-se logo, e dando à sua fisionomia uma expressão tremenda e augusta, com uma só frase da voz solene, avocou a si todos os espíritos e todos os olhares!

— Grande é o poder de Deus!...

Abaixando para o corpo desfalecido da dama um olhar compungido, continuou com fala dolente:


“Sucumbistes, mísera criatura, minada pela culpa, ao peso do remorso!... Caístes fulminada ao sopro vingador da ira celeste!...

“Deus grande, Deus onipotente, vós que armastes o braço frágil de vosso ministro, e infundistes na sua imprecação uma centelha da vossa ira tremenda, para que tivesse a força de abalar este povo embrutecido no pecado e penetrar o seixo áspero do seu coração: Deus infinito de bondade, deixai cair sobre a mísera pecadora uma lágrima de vossa misericórdia. Graça, Senhor, graça para esta alma, que renascerá pelo arrependimento, depois de dura expiação.

“Graça para ela, mas punição para os que persistem na culpa, punição tremenda. Assim como esta, caiam fulminados pelo raio todos os réprobos! A sua hora está marcada; eu daqui as vejo, essas cabeças onde o anjo vingador já selou em caracteres invisíveis a sentença do extermínio. Tremei, vermes da terra, tremei. Não ouvides?... Ai, não! O tiritar dos membros e ranger dos dentes não vos deixam escutar... Mas eu ouço já o medonho sussurro que se levanta lá nas portas do céu. É o bulcão que vos há de varrer, miserável argila. Face em terra! Rebolçai-vos no pó. A maldição do Senhor desce sobre vós, como desceram sobre o povo de Israel as chamas do Monte Sinai!”


Levantou-se por todo o âmbito da igreja uma grande lamentação, entrecortada de soluços e prantos; a maior parte das mulheres e muitos homens caíam com a face em terra, rojando pelo chão as frontes, ou batendo fortemente nos peitos com grandes clamores, entre os quais destacavam esses gritos:

— Senhor, misericórdia!...

— Confesso a minha culpa, absolvei-me, padre!

Depois de gozar um instante desse triunfo, o sacerdote aplacou a tempestade que ele próprio concitara.


“Sus!... Erguei as frontes humilhadas e preservai no arrependimento, que a graça do Senhor descerá às vossas almas na bênção de seu indigno servo.”


Lançando com um gesto augusto a bênção ao povo reverente, o pregador arrojou-se de novo, soltando os voos à sua eloquência impetuosa. O P. Molina era sobretudo orador de improviso; os cometimentos ousados, as inspirações audaciosas, os rasgos sublimes, debalde os buscara ele no silêncio da cela e na meditação e estudo: onde os achava era no púlpito, quando o arrebatava o entusiasmo apostólico. Aí a ideia lhe caía do céu na mente inspirada, já envolta na palavra eloquente, que às vezes fluía, outras espadanava do lábio arrogante.

O sermão escrito não era pois para o P. Molina mais que um apontamento, ou melhor um ensaio da pregação. Dele só aproveitava de ordinário o introito; e muitas vezes nem isso. Se a inspiração lhe chegava logo, como já havia sucedido, seguia após ela. Nesse dia fora a presença de Dulce que desviara seu discurso do rumo traçado. Logo que aparecera no púlpito, o jesuíta percorrendo a igreja do olhar vasto e eminente com que os grandes oradores tomam posse de seu auditório, viu defronte de si a filha de Ramon e a reconhecera imediatamente apesar dos anos, pela impressão que causou nela seu aspecto.

Ele sabia a lucidez maravilhosa do olhar do coração, do olhar amante, e vira a prova na cena da igreja em Palos; sabia que sua voz tinha vibrações profundíssimas naquela alma assolada pela desgraça. Não o surpreenderam pois os sinais de pungente emoção que logo começaram de manifestar-se na feição e modos da dama. Sua feliz imaginação lhe apresentou o meio de tirar partido desses próprios sintomas que o podiam comprometer, conhecida a causa. Prevendo com uma justeza e alcance admiráveis o que ia acontecer, prevenindo o grito que ele já via soluçar na garganta opressa, formulou de repente aquela imprecação, que o seu gesto lançou justamente sobre a cabeça de Dulce no momento em que ela sucumbia, acabando de reconhecê-lo.

Todos supuseram que o grito e desmaio da dama fora efeito da ameaça, quando ao contrário esta era lançada por ter Dulce reconhecido a seu marido. Depois aproveitou ainda habilmente aquele acidente para um triunfo oratório, que se por um lado lisonjeava seu orgulho, por outro distraía completamente a atenção do acontecimento.

As beatas, chamadas a seus próprios pecados, abandonaram a pobre dama, que entregue unicamente ao advogado, e à velha Brásia, foi em braços para fora da igreja, donde a conduziram a casa em uma cadeirinha que se achava a ponto, como se a tivessem disposto de antemão para tal fim.

O frade, que apontava o rascunho do sermão, não conhecendo o costume do P. Molina, embasbacou quando o percebeu afastar-se da letra; cuidando que o não ouvisse o pregador por falar baixo, foi alteando a fala a ponto que ultimamente mais parecia berro, e começava a obscurecer a voz sonora do orador. Aí o P. Molina que descrevia em traços largos e brilhantes o quadro do nascimento de Jesus Cristo e a adoração dos magos, e não podia conter a sua impetuosa eloquência para mandar uma advertência ao apontador, socorreu-se de um meio engenhoso. Fez aparecer no estábulo os animais que a crença popular pretende que anunciaram o nascimento de Cristo; e mostrando como o zurro do jumento desconcertava da geral harmonia, clamou de repente, voltando-se:

— Silêncio, bruto!

O frade, que recebeu esta apóstrofe à queima-roupa, calou-se; e o pregador continuou sem estorvo. Do assunto religioso passou por uma transição hábil para o assunto político: lembrou que esses reis da terra em adoração ao rei do céu, significavam quanto o trono dependia do altar, e recordava os deveres sagrados que o Senhor havia posto aos seus ungidos. Discorrendo então sobre a missão da realeza na terra, passou a tratar especialmente das coisas do Brasil e sua governança. Censurou o menospreço em que estava a religião nessas partes por culpa dos que dirigiam o povo; aludiu com elogio ao governador atual, D. Diogo de Menezes, a quem louvou a nobreza de caráter, o seu saber e prudência de homem de guerra e de estado, lamentando apenas que tão ilustre capitão arrefecesse no zelo do espiritual. Rematou a oração batendo rijo nos senhores de engenho, vampiros que sugavam o melhor do sangue de tão grande reino, e viviam chafurdados no ouro com grande escândalo da religião, roubando ao grêmio da igreja um povo para o cativar.

No meio de uma peroração eloquente, desapareceu o P. Molina do púlpito como tinha aparecido, de improviso. A multidão de carolas e beatas precipitou para o consistório e ganhou as escadarias para esperar no seu caminho o pregador. Quando ele passou, toda aquela gente acotovelavase na ânsia de primeiro beijar a borda do hábito do santo homem, ou tocar de perto o seu corpo milagroso. Naquele dia e nos seguintes não se conversou entre a gente miúda outra coisa além do sermão de Reis, e do miraculoso caso da mulher castigada pela praga do santo homem.

Desde então o P. Molina ficou em grande cheiro de santidade; e, como o senador romano nas dobras de sua toga, trazia o frade nas pregas da roupeta a paz ou guerra, para a cidade do Salvador. Quisesse ele, que do alto do púlpito concitaria às armas em favor de uma causa qualquer a arraia-miúda; mas o visitador era muito prudente para tentá-lo; bastava-lhe que essa convicção entrasse no espírito de seus adversários.