As Minas de Prata/II/XIII

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As Minas de Prata por José de Alencar
O que havia no misterioso palanquim


Na confusão que operou o refluxo dos devotos correndo à sacristia para ver de perto o pregador, rareou a multidão em roda do misterioso palanquim, e ficou-lhe mesmo ao lado um espaço de laje descoberta.

Estácio, que não obstante os acidentes da festa, nunca desviara a atenção da cadeirinha, viu o dedozinho mimoso enfiar outra vez pela rótula, mas dessa vez bem longe de agitar-se, ficou imóvel, como apontando-lhe o lugar vago. Ele obedeceu, e foi ajoelhar onde lhe ordenavam. Supôs achar-se então bem perto da pessoa que o chamara; e de feito através dos interstícios passava um hálito tépido e perfumado que bafejava-lhe a face esquerda.

Entretanto nada mais adiantava o cavalheiro, e já ia erguer-se, quando começou a ouvir um ligeiro e doce sussurro de rezas proferidas por uma voz maviosa, ainda tão baixo que não se percebiam palavras. Mas logo a fala subiu de tom, e disse claramente estas palavras:

— Esperança nossa... a vós bradamos... a vós suspiramos, gemendo e chorando, neste vale de lágrimas...

Estácio conheceu que a voz misteriosa rezava a Salve-Rainha, e tão compungida que às vezes excedia-se deixando perceber umas frases soltas e destacadas. Aplicando o ouvido para embeber-se daquela voz suave, qual não foi o seu pasmo ouvindo com um termo ainda mais claro e expressivo um trecho da oração assim invertido:

— Eia, pois, advogado nosso!...

A terminação das últimas palavras foi tão distinta, que Estácio não podia duvidar. Dela resultou sem dúvida o travar-se dentro da cadeirinha um diálogo, de que o moço só ouviu o murmúrio; depois voltou o silêncio; a doce voz que rezava emudecera.

Cogitando desse caso estranho, e confrontando-o com as circunstâncias anteriores do sinal por duas vezes repetido, e da última de modo tão positivo, o cavalheiro tirou de seus pensamentos esta convicção, que ali naquele misterioso palanquim estava uma moça oprimida de desgostos, a quem guardavam do mundo para mais reduzi-la de um amor condenado. Impedida pela vigilância da mãe de divulgar sua presença àquele a cujos olhos a roubavam, pensando roubá-la ao seu amor, usara do engenhoso expediente de emprestar da oração algumas palavras alusivas à sua posição.

Essa moça, quem podia ser, senão Inesita? pensava Estácio palpitante; e acreditava que a Virgem Imaculada, a divina Mãe de Deus, cheia de graça, lá dos céus, de onde a contemplava sorrindo de bondade, perdoara à donzela aquele inocente pecado de seu puro amor, que perseguido na terra se abrigava à sombra de suas asas.

Era então meio-dia.

Terminara a cerimônia religiosa; ficava para a tarde a procissão, que devia rematar a festa da igreja, entrando à noite com as luminárias e vários artifícios de fogo, as danças e músicas de terreiro.

Dois pretos robustos, vestidos ao comum da peonagem, sem libré, suspenderam o palanquim aos ombros e saíram fora, caminho da Sé. Estácio, cada vez mais preso àquele enigma, o foi seguindo à distância, e com disfarce resolvido a ver onde entrava; na portaria, como parasse um instante para ver o lado que tomava, os dedos mimosos, já tão seus conhecidos e amigos, lhe acenaram um chamado, que ele bem compreendeu.

Logo que Estácio se dirigiu ao terreiro, Tiburcino, que não lhe tirava um instante a vista de cima, seguiu após, não diretamente, mas rodeando por longe, ora a uma, ora à outra banda. Esse jogo por mais bem concertado que fosse, não escapou à esperta da Joaninha, a quem não saíra da memória o olhar torvo e mau com que o carniceiro no começo da missa chocava a sua raiva no semblante do gentil cavalheiro. Ora, a mulatinha tinha suas razões para querer a Estácio, e não gostara disso; entretanto ainda supunha que o cenho do magarefe não passasse de vãs abafas, quando o nenhum caso que dela fez na saída, deixando-a para ir na pista do cavalheiro, lhe deu seriamente que pensar.

Voltou-se para Gil que a ladeava, e lhe segredou ao ouvido com açodamento:

— Apanha o cavalheiro quanto antes e avisa-o de que o seguem.

— O seguem a ele?... Mas quem?...

— Tanto basta que saiba, a fim de se ter em guarda.

— Renego eu de cachas!... Desembucha de uma vez, rapariga.

— Vai-te, que o não percas!... acudiu a alfeloeira vendo Estácio dobrar a esquina.

— Não haja cuidado, que em dois saltos o tenho filado!... Mas diz-me tu, Joaninha, quando hás de cumprir o prometido?...

— Qual prometido?

— Pois já te não lembra, da sexta-feira? Prometeste dizer uma coisa...

— Ah! sei já!... Mas para que, Gil, se tu, por meu mal, não a entendes!... É coisa que não se quer ensinada, mas que vem do coração sem a gente o querer, e brota como flor de rosa, que em a cortando mais copa e se enflora! Adivinha lá, se és capaz!...

E a mulatinha sumiu-se numa pirueta.

— Ai, a tonta da rapariga! gritou o pajem rindo às gargalhadas; e correndo na direção seguida por Estácio, passou por Tiburcino que ia adiante; nessa ocasião ouviu que chamavam:

— Psiu!... Psiu!... Tiburcino!... Ó cá!...

Era Joaninha que assim chamava o carniceiro; este reconhecendo-a estremeceu desde as entranhas até a ponta dos cabelos. Lançou ao cavalheiro um último olhar aferrado como arpéu, para a ele pregar-se; mas poder maior o acabava de soldar ao chão, que não havia forças a arredá-lo dali. Em pé, ofegante, olhos em Estácio, ouvido na mulatinha, ali ficou aperreado como um touro ao mourão. Sentia aproximar-se a alfeloeira, e seus músculos de aço afrouxavam como cordas bambas de um mastro roto, açoitando ao vento o madeiro.

Joaninha achegou-se, e com o seu modo mais gentil e a sua voz mais cariciosa falou-lhe:

— Onde ides assim, tão alheio, que não dais com a gente, Tiburcino? É muito mal feito, sabeis?...

— Se não vos tinha visto, Joaninha! respondeu o magarefe achatando-se no gosto de ouvir aquelas palavras. Pois há nada que me alheie em vos vendo!...

— Escusas não são respostas!... Pergunto-vos eu onde ides desse passo?...

— Sem rumo, se não é que algum me dais agora.

— Oh! que sim!... Vinde cá em meu seguimento! disse a mulatinha acenando-lhe com a mão travessa.

O magarefe deitou ainda uma vez os olhos para o fim da rua onde pouco havia que Estácio desaparecera, e arrancando um suspiro roufenho da peitada robusta, com ele se arrancou a si daquele lugar por um esforço grande, a modo que despedaçasse o rijo laço que o cingia ao poste. É que nesse instante lhe surdira na imaginação aquela imagem augusta e tremenda do P. Molina, que ele vira horas antes do alto do púlpito vibrar a cólera celeste. Fervilhou-lhe n'alma um calafrio; mas fechou os olhos e seguiu a mulatinha.

Entretanto Gil tinha alcançado o cavalheiro, e dera-lhe o aviso mandado; mas esse não vendo pessoa no caminho, tornou ao pajem com presteza:

— Quero-me só neste instante!... Ganha o diante àquele palanquim, e vê por onde toma!...

Não se fez repetir a ordem o brejeiro do pajem, que logo atinou com a tenção do amo. Esse continuou a seguir o palanquim; em par do postigo iam agora dois homens por banda, que se lhe juntaram ao passar o Largo da Sé. Tinham eles carapuça de rebuço, que lhes cobria quase o rosto inteiro, e reguingote comprido, por baixo do qual se descobria o jeito das armas, de que vinham forrados.

Quando a comitiva tomou para o lado da porta de São Bento, se alguma sombra de dúvida ainda anuviava a esperança de Estácio, dissipou-se, porque era aquele o caminho da casa de Inesita em Nazaré. Então no céu límpido da sua esperança lhe aparecia já de longe a deliciosa imagem da menina; como isso se fazia, ignorava-o ele, mas tinha fé em Deus e no seu amor. Nessa ocasião porém notou o cavalheiro que os acostados do palanquim se voltavam a miúdo para observá-lo, de certo por terem percebido que ele os seguia com tenção suspeita e não por acaso. Um deles encostara à grade a boca e logo após o ouvido, naturalmente para dizer alguma coisa e receber a resposta da pessoa que ia dentro no assento de honra.

Desse momento em diante parece que tomaram eles seu partido, pois não se voltavam já tão a miúdo como dantes, mas a espaços e com disfarce. Houve porém uma manobra que não passou desapercebida a Estácio; foi destacar-se um homem de cada banda, e ir-se deixando ficar atrás, coisa de duas braças dos outros. Ao mesmo tempo os dedos mimosos passaram pelas grades, e acenaram vivamente que se fosse. O cavalheiro sorriu e continuou sem dar mostra de ocupar-se com quem ia adiante.

Já avistavam a porta de São Bento, quando saiu-lhe da esquina de Santa Luzia o Doutor Vaz Caminha. O advogado vinha da casa de Dulce, mergulhado em profunda meditação; decerto passaria sem dar fé do cavalheiro, se não fosse o risco que correra de ser esbarrado pelo palanquim. Erguendo então a vista, viu a comitiva e mais longe descobriu mal, pela cansada vista, uma figura que lhe pareceu de Estácio. Foi direito e presto a ele.

— Ia mesmo por vós, Estácio? Careço de falar-vos!...

— Depois, mestre!... Agora não o poderei!... Esperai um instante aqui, enquanto torno.

O cavalheiro apressou o passo para desforrar o tempo perdido; o advogado, pressuroso de falar-lhe o mais breve, e conhecendo o que levava o afilhado assim de afogadilho, foi andando após na mesma direção, pensando que mais cedo se encontrariam quando voltasse ele de suas cavalarias amorosas.

O palanquim passara a porta oriental da cidade; ia agora pelo caminho do arrabalde bordado de arvoredo, e quase deserto a essa hora de meio-dia. Os dois acostados que se haviam distanciado pararam, e abrindo os reguingotes levaram mão do punho das espadas, em ordem de quem se prepara para a briga. Bem os compreendeu Estácio que se foi chegando, descuidado de seu, como se a coisa não fosse absolutamente com ele.

— Inda que mal pergunte; morais destas bandas? disse um dos tais.

Não se dando por ouvido, ia o moço avante, quando o taful sacando rápido da espada acrescentou:

— Já que não respondeis àquela língua, é de ver se também esta não na entendeis!

— Querem ver que o homem como perdeu a fala, também lhe afrouxou a munheca? acudiu o outro espetando no chão a ponta da espada.

Estácio com efeito não se dava muita pressa de desembainhar. Tendo compreendido perfeitamente a manobra dos dois sequazes, que era, ou fazê-lo arripiar caminho, ou entretê-lo enquanto o palanquim se afastava, avaliou da força do obstáculo que se opunha ao seu intento; na ânsia de ver finar-se a esperança que o levava, lançou os olhos cheios d'alma ao misterioso postigo, como um adeus em despedida extrema. Mas que viram eles que assim vivos cintilaram?

Através da grade apareceu um objeto diminutíssimo, cujo não pôde divisar pela distância mais que um ponto alvo e um brilho de ouro; depois de curta demora caiu no chão, sem que o percebessem os homens do palanquim. Curiosos de observarem a briga dos outros, levavam a cabeça constantemente voltada, e passaram além, deixando após o objeto. Alguém mais afora Estácio bispou o acontecido; foi Gil, que a esse tempo ia por dentro do mata-pasto fronteiro ao postigo; e apenas o palanquim afastou-se caiu de salto sobre o objeto e escondeu-o no bolso do calção.

O ato da misteriosa dama do palanquim e o feito de Gil foram tão rápidos, que a ambos bastou o só olhar relanceado por Estácio enquanto ele recuava dois passos, para desembainhar a espada. Houve uma revolução no espírito do mancebo, pois o ferro já quase todo nu, deixou-o de novo cair na bainha, e disse voltando as costas aos mariolas surpresos:

— Ide-vos em paz, pobre gente; ganhastes bem o salário!...

Os tafuis embasbacados não tiveram que retorquir, pelo respeito que naturalmente punha neles aquele tom nobre e superior; viram imóveis o mancebo afastar-se em direção à cidade, e voltaram a reunir-se aos companheiros, não sem reparar se acaso tornava o moço a sua insistência de segui-los. Não viram eles porém que Estácio na primeira curva do caminho ganhara o arvoredo, e virando de rumo, fazia um rodeio para cortar o caminho à comitiva e encontrar-se com Gil, que de longe cantarolava um vilancete de sua invenção para dar-lhe sinal.

De feito a poucos passos apressados, dentre o mata-pasto surdiu o pajem com o riso nos lábios e o misterioso objeto na mão.

— Aí o tendes!... Vou-lhes no encalço!... Depois vos direi.

O cavalheiro, sem parar da batida em que ia, examinou o objeto. Era esse uma figurinha de ouro lavrado, como naquele tempo usavam trazer as damas, muitas e de vária feição, em molhos pendentes do bracelete, quais representavam emblemas de religião, armas e galanterias; quais, vultos de homens ou de animais de todas as castas. Aquele que Estácio examinava era imitação do cálix da Paixão e em torno dele estava atado um pedaço de finíssima holanda.

Que significava tudo isso?...

Era sem dúvida um enigma, que desafiava a perspicácia do inteligente cavalheiro. Desatando e abrindo a estreita tira de holanda, conheceu ele que a tinham rasgado da ponta de um lenço de fina lençaria, e descobriu ali bordadas duas letras de marca — E. P. Que lhe enviava porém Inesita nestas duas iniciais de palavras ocultas, e nesse emblema arrancado ao seu bracelete? Eis o que não podia ele adivinhar, apesar dos esforços de imaginação gastos em fantasiar mil versões, cada uma mais absurda.

Então percebeu pelo estrupido dos pés, que a comitiva se afastava do caminho de Nazaré, tomando para o lado do Brejo. Foi um raio de luz, que fuzilou no espírito. Era Elvira de Paiva quem ali estava encerrada naquele palanquim; suas, as iniciais do lenço; naquele emblema do cálix, ela mostrava a sua aflição por conhecer a sorte de Cristóvão, de quem não sabia se vivo era ou morto. Estácio recordou-se das palavras da Salve-Rainha na igreja; só então compreendeu o seu verdadeiro alcance, e a delicada alusão que lhes dera a moça referindo-se à sua amizade por Cristóvão.

— Como serenar aquele mísero e triste coração?... interrogou o moço ao seu espírito.

E avançou mais rápido ainda. Chegou a tempo em que a comitiva parada à beira do fosso, esperava que abaixassem a ponte. Gil, adiante, no prolongamento do caminho, derrubava um ninho às pedradas.

Beirando o valo, entre o limo e as plantas rasteiras que cobriam a ribanceira, pareceu ao cavalheiro que resvalava ali imperceptivelmente uma forma de serpe, mas de grossura descomunal. Pouco reparo fez porém dessa circunstância: tinha então coisa que mais o preocupava.

Tocava o palanquim o terreiro da casa quando chegou ao cabo da ponte o cavalheiro. Os acostados de D. Luísa, que o viram com espanto aproximar-se, suspenderam a ponte ligeiros, cuidando que o moço queria atravessá-la. Mas outra era a sua tenção; elevando a voz de modo a ser ouvido distintamente, atirou aos mariolas estas palavras:

— Ficais marcados, tredos! Aquele que escapastes de assassinar está salvo e quase são, dos golpes que lhe destes à traição. Breve recebereis a vossa espórtula, miseráveis!

Aqui deu o cavalheiro mais forte entoação à voz:

— Portanto, estai alerta!...

O dedo de Elvira anunciou a Estácio que ela o compreendera. A cadeirinha entrou em casa; após Batista e os companheiros, a porta foi logo fechada; e aquela morada voltou ao encerro e tristeza, que lhe davam aspecto de claustro, ou melhor, de alguma dessas habitações legendárias que a crença popular tinha por mal-assombradas.

O cavalheiro voltou sobre os passos acompanhado pelo pajem:

— Vede, Senhor Estácio, a tamanha coruja!... Safa!... Cada olho que arregala!...

O rapazito apontava para a ramada embastida de uma grande árvore alto-copada. De feito entre a folharada percebia-se um vulto cujas formas não se podiam bem distinguir, já pela sombra que aí reinava, já pelo encolhido e abolado dos vários membros. Sim, viam-se perfeitamente dois redondos olhos negros, esbugalhados como carbúnculos, que luziam a instantes e logo cerravam-se preguiçosamente com a sonolência diurna própria das aves de rapina.

Da primeira inspeção aquela coruja figurou-se ao cavalheiro irmã da cobra que pouco antes vira deslizar à beira do fosso; e uma, como outra, lhe pareceu suspeita. Mas ele tinha outra coisa em que pensar, e nada havia naquele acidente que lhe excitasse a atenção. Prosseguiu à busca de Vaz Caminha, que devia estar farto de esperar. Encontrou-o logo adiante, ainda no arrabalde, sentado à borda do caminho, num cômoro de relva.

O advogado, com as perninhas cruzadas sobre a cana e o queixo apoiado no polegar, tirava afinal as provas à larga meditação, e ruminava um plano, que o ocupava desde Ano-Bom.

— Aqui me tendes, mestre!... Escusai se vos fiz esperar.

— Nada fez ao caso senão bem, pois destes-me tempo de amadurecer melhor o fruto da cogitação. Fazia de conta ir a vossa casa; mas já que vos encontrei, aproveite-se a ocasião, mesmo porque qualquer demora seria nociva.

— Quereis que fiquemos aqui?

— Busquemos lugar mais descampado e nu de arvoredo, onde se não possam esconder ouças curiosas.

Desviando à direita, acharam sítio conveniente numa crista do outeiro coberta apenas de raro capim; sentaram-se ambos, voltando o rosto ao mar, e discorrendo com os olhos a baía que se desdobrava embaixo como um tapete de veludo azul recamado de estrelas de ouro e flores de prata.

— Antes que tudo, domingo é o dia em que partireis para São Sebastião.

— Domingo?... Por que navio?...

— Agora o sabereis. Essa dificuldade foi a primeira que se me antolhou. Nem podíeis esperar que houvesse embarcação para aquele porto; nem por terra era a viagem para tentar sem grande comitiva e maior demora. Então acudiu-me uma boa ideia, e sobre ela concertei o plano da vossa ida. Falastes-me de um canoeiro por nome Esteves; se me não engano?... É rapaz seguro, em quem se confie?

— Estou que ele fará por meu respeito quanto puder!

— Outro ponto. Tendes à mão um homem decidido, que vos acompanhe nesta empresa?...

— Quanto a isso, ninguém! O único amigo meu, além de não ser para coisa desse jaez, não o poderia agora, pois a enfermidade o tem de cama.

— Para o que é não se carece amigo; basta que seja homem de prol e resoluto. Essa parte deixei ao vosso cuidado, como mais entendido em coisas de esforço e contenda, do que um velho podão que saiu dos cueiros para o enfronharem na garnacha. Buscai o vosso homem; tendes para isso dois dias; o soldo que for convencionado fica à minha conta.

— É o que faltava, privar-vos do vosso em proveito alheio. Não bastam já os cuidados que vos dou?

— Eis o que, se já não é, frisa com a ingratidão, filho. Pois vós, Estácio, me sois alheio, vós que eu trouxe nestes braços nunca abertos a outra alguma criança!... Que terá então o pobre velho de seu e próprio, se o que mais dentro d'alma tem, assim o renega e se põe fora dele?...

— Basta, basta, mestre, não há fugir à vossa bondade, bem vejo, sem magoar-vos no íntimo. De resto toda a razão está de vossa parte; disponde de mim como de coisa muito vossa!

— Ora bem! Na véspera há de ficar dentro da canoa a porção de mantimentos que eu tenho em casa já ordenada, e foi comprada aos poucos para não dar rebate. Ao domingo, quando forem três da tarde, o Esteves tomando o outro que assoldardes, irá em ares de pescaria postar-se fronteiro à barra.

— Enquanto isso, que farei eu, mestre? Por que me deixais em terra, se é força que parta?...

— Não vos deixo tal, pois muito antes, por manhã, dita a missa da Sé, iremos ambos com mestre Bartolomeu Pires à sua Ilha da Maré, para onde nos convidou com uma peixada, a cujo efeito terá na Ribeira disposto um barco, dos muitos que possui. Uma vez lá, escolhereis entre esses o que melhor vos parecer para a empresa. Quando formos na volta da tarde, que o sol comece a descambar, aventarei a ideia de um passeio sobre a água. Irei eu de companhia com o Bartolomeu em um barco, e vós no tal que escolherdes com vosso pajem. A monção agora é boa, tomareis o leme e...

— O resto compreendo. Faço-me de vela, e vou mar em fora, rumo de São Sebastião. Ao passar por Esteves, tomo-o a ele e ao outro a meu bordo com o mantimento. Se os remeiros resistirem, há à cinta um meio de dobrar as vontades rebeldes. Só um ponto não o entendo eu.

— O como tomareis o mantimento sem logo excitar suspeitas?... O Esteves, bem industriado, vos bradará socorro, por lhe ter aparecido um rombo na canoa.

— É coisa de maior alcance. O barco não nos pertence. É honesto que nos apossemos dele assim?

— Seu dono terá o preço dele logo que fordes partido; e longe de perder, ganhará um barco novo pelo seu usado. Devíeis conhecer-me, Estácio, para saber que não sou homem que vos mande à restauração da honra de vosso pai, fazendo tapete da vossa!

— Pois agora, sou eu que vos digo, mestre, que não tendes autoridade para culpar os melindres da probidade e honra daquele em quem tão cedo as semeastes n'alma! Se não fosse isto e conhecer eu a rigidez com que versais no dever, deixaria que prosseguísseis embora e sem reparo meu.

— Que isso não vos amofine com vosso velho amigo, Estácio. São águas passadas! Assim pois navegareis em barco não alheio, mas vosso, porque do momento em que nele puserdes pé, já terá mestre Bartolomeu na gaveta o seu preço, por ele mesmo estipulado.

— E podeis vós com tão avultados gastos?

— Não vos dê isso cuidado: tenho juntas algumas economias, e veio-me ultimamente um subsídio grosso. Contar-vos-ei tudo na volta. Quando estiverdes em posses de pagar-me estes avanços, então vos farei as contas.

Estácio travou das mãos do velho e beijou-as com efusão uma e muitas vezes. O advogado sem fazer reparo se recolhera de novo:

— Agora, mais do que nunca, Estácio, é necessária a maior discrição e prudência nesta empresa. Não vos poderei relatar quanto hei cogitado estes dias passados, e quantos pensamentos baralhei na mente; basta que vos dê a suma para vosso governo.

Insensivelmente o advogado baixou a voz como se chegasse ao ponto mais grave.

— Suspeito que vosso segredo já foi sabido em Europa. Perdido o fio ao roteiro das minas de prata, talvez fosse ele de novo achado ao cabo de tantos anos, e acordasse a feroz cobiça que já anteriormente havia acendido.

— Donde sabeis isso? perguntou Estácio em sobressalto.

— Não o sei, não. Suspeito, filho.

— Mas em que fundais vossas suspeitas, mestre?

— Eis o difícil. Perguntai ao galgo que fareja a lebre, por que lhe segue à pista sem a ver e sem a ouvir. Pois o espírito também tem seu faro; vede se o meu é de bom caçador.

— Isso sei-o eu já de outras vezes.

— Atendei. D. Francisco de Sousa, o mesmo que veio com vosso pai trazendo prometido o título de marquês, vem agora provido no governo do Sul, para esse efeito separado, quando há anos o uniam para dá-lo ao mesmo. São já conhecidos os extraordinários poderes que traz, nunca até aqui transmitidos a nenhum outro. Essa notícia, que vos há de lembrar, chegou pouco depois que me mostrastes a carta de D. Diogo; foi o primeiro vento que me veio. No mesmo navio sabeis que chegou um padre das Espanhas.

— O P. Gusmão de Molina, que hoje pregou no Colégio?

— Vistes que homem de engenho é, e podeis avaliar do que não será capaz! Mas uma coisa ignorais, porque ainda sois moço e apenas entrado no mundo. Não há neste século em canto algum da terra empresa grande que a Companhia não cometa ousadamente; nem segredo oculto que ela não fareje. É terrível poder, Estácio, que se insinua por toda a parte, pelos palácios e choupanas, como pelas consciências. Se El-Rei soube da existência do roteiro e mandou para esse fim D. Francisco de Sousa, quase posso assegurar que os jesuítas o souberam.

— Sem dúvida, pois são seus confessores.

— Ora, basta olhar esse P. Molina, para conhecer logo que é ele homem de esfera superior; e quem sabe como na Companhia são certos em aferir o quilate aos homens, juraria que ocupa ele cargo eminente. Foi esse o efeito que produziu em mim, ainda mais pela aparente humildade com que procura disfarçar o real merecimento.

— Também a mim, quando me despedi dos padres, me pareceu de elevada categoria pelo seu aspecto, tanto como pelo respeito que lhe mostravam todos.

— Folgo de vosso juízo combinar com o meu. Que veio fazer ao Brasil este religioso na presente quadra? Para coisa de vulto veio ele, não há duvidar; qual ela seja, suspeito. Além da coincidência de sua partida quase pelo tempo de D. Francisco de Sousa, acrescem duas circunstâncias, que ides ponderar. Sabeis que foi ele a vossa casa na sexta-feira seguinte a Ano-Bom?

— Não, mestre; a que iria ele?

— Vossa tia nada vos disse?

— Nada absolutamente.

— Pois lá foi, que de lá o vi sair eu; e entrando depois, também vossa tia nada me disse, e nem eu lhe perguntei. No outro dia, quando fui ao Colégio pedir vênia ao provincial para vos retirar das aulas, sob o pretexto de vos propordes à milícia, lá estava o P. Molina e não lhe sofreu que não tomasse a mão ao prelado, e esgotou a sua lógica para que vos deixasse cursar as aulas até os vinte anos pelo menos. Era informado, dizia ele, da boa disposição que mostráveis para as letras; e doía-lhe no fundo d'alma ver cortar a flor de tão belo talento. Enfim tais e tantas razões produziu, que me fizeram quase esquecer o vosso segredo.

— Sem dúvida isso mostra que há da parte dele alguma coisa relativa a mim. Esse fato de ir à casa logo no dia seguinte, a prática secreta com minha tia e a insistência para me conservar como estudante da Companhia!...

— Enfim, hoje, Estácio, soube de uma circunstância, que não tendo nenhuma referência ao vosso negócio, foi como uma luz que iluminou meu pensamento. É segredo alheio, não vos posso confiar: também pouco vos importa ele. Guardai somente isto que vos digo: o P. Molina fareja o roteiro das minas.

— Credes então que ele ainda não lhe achou a pista?...

— Sim, porque do contrário iria direito ao Rio de Janeiro, como D. Francisco de Sousa. Salvo se confiado no avanço que traz ao governador, quisesse tocar à Bahia para assegurar-se a vosso respeito. Seja como for, estai de sobreaviso. Escuso prevenir-vos que não vos deis por achado com a sonsa da D. Mência.

O advogado ergueu-se, pondo-se a caminho para a cidade:

— Como vão os cuidados? perguntou ele sorrindo.

— Nada mais, além do que sabeis!... disse o moço enrubescendo. Depois da certeza que tive de ser o meu amor aceito e respondido, apesar de infeliz, não me foi possível mais nada obter.

— E aquela cadeirinha misteriosa! Nada lobrigastes pela rótula?...

— Não era quem pensava.

— Bom; voltareis de São Sebastião com a chave mágica para abrir o palácio encantado de vossa princesa!...

— Se antes outro mais feliz não a tiver aberto com chave de ouro.

— Isso vos asseguro que não! Tendes fé em vosso velho amigo?

— Tenho fé que, eu vivo, D. Fernando de Ataíde não casará com ela!

E o moço desapareceu brusco.