As Minas de Prata/II/XXII

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As Minas de Prata por José de Alencar
Os três sentidos de João Fogaça


À hora em que a tempestade amainava da sua primeira fúria, Mariquinhas dos Cachos levantava-se do canto da janela onde estivera a rezar, e punha a ceia na mesa. A seu chamado acudiram João Fogaça e Cristóvão, que estavam praticando na varanda. O capitão de mato dava ao amigo um abraço em que este já quase restabelecido se apoiava apenas por comprazer.

Sentaram-se à mesa. João Fogaça comeu com o apetite valente dos homens cuja vida é o movimento constante; a moça com o desembaraço e a singeleza da gente do povo; Cristóvão devorou uma juriti que a sua hóspeda cuidadosa mandara assar de espeto para desenfastiar o doente. Sobre essa refeição consentiu o capitão de mato que bebesse dois dedos de vinho generoso.

Terminada a ceia, a viúva guardou os arranjos, e puxando a candeia para a outra extremidade da mesa, começou a fiar, enquanto na cabeceira os dois amigos continuavam numa dúbia claridade a prática interrompida.

— A verdade é, João, que fazem hoje quinze dias; e ainda não descobristes modos de passar a Elvira um recado meu!...

O sertanejo pôs-se a assobiar entre dentes, o que era nele indício de mau humor.

— Se não fora Estácio, a esta hora nem saberia se ela me tinha em lembrança, ou já de todo me esquecera!... acrescentou Cristóvão com um suspiro.

— Bem vos propus um meio! Não aceitastes!...

— Qual foi esse?

— Cercar a casa uma noite, arrombar as portas, e trazer-vos aqui a dama dos vossos pensamentos!

— Isso é coisa que se faça, João? no outro dia, em que conceito haviam de ter na cidade uma donzela raptada a sua mãe?... Sem falar do perigo que haveria em uma tal empresa, para vós sobretudo!...

— Pois recusais os meios que me lembram, não lhe vejo mais jeito. É como para o livramento do amigo Estácio: chamo-o meu também, pois é vosso. Se deixásseis as coisas à minha vontade, assaltava uma noite o castelo com os meus cinquenta caboclos, e havia de o desenterrar de lá, ou não seria mais gente!

— Entendeis que tudo se leva à força neste mundo.

— Tudo, não; ainda que afinal tudo vem dar aí. Mas se vos confesso minha pouquidade, Cristovinho! Cá essa vossa gíria de cidade, não me entendo com ela. Falai-me de seguir o rasto a alguém no escuro da mata, alta noite ou fazer espera e descobrir as manhas de qualquer animal de dois e quatro pés: aqui tendes homem para tanto. Mas embaçar os outros de palavreado e inventar artimanhas, não nasci para isso!

Cristóvão escutava distraído; parecia aplicado a uma ideia que lhe trabalhava o espírito. Em vez de responder ergueu-se resoluto e ágil:

— Pois quero eu ver se sou mais feliz!

— Que é isto?... Aonde vos botais?

— Vamos à casa de Elvira. Talvez o amor me inspire melhor do que a amizade a vós, João.

— Está para ver que eu consinta nesta imprudência; mal vos ergueis da cama e já vos quereis meter em cavalarias altas!...

— Desejo somente ver de longe a casa onde ela respira. Essa vista me curará mais depressa do que as vossas mezinhas.

— Não contesto a virtude dela; mas a experimentareis quando vos puderdes ter sobre as pernas!

— Ora, sinto-me forte, sobretudo depois que ceei!

— Nada! nada!... Basta já o susto que rapei por vossa causa.

— Repito: não há o menor risco! Sinto-me restabelecido de todo!... — Ainda eu não vos dei alta; portanto sois meu enfermo, e como tal me haveis de obedecer.

Cristóvão riu-se, e passou a mão ao chapéu do capitão de mato:

— Pois estais despedido de meu médico!... Entendei; se me não quiserdes acompanhar, irei sozinho.

Fazendo da espada bengala, o fidalgo se encaminhou à porta. Fogaça acompanhou-o resmungando.

— Eis o que procurastes, disse Fogaça amuado.

— Não é nada; um esmorecimento que já passou. O exercício me fará bem; há tantos dias que não ando...

O capitão de mato trançou-lhe o braço e quis voltar a casa. Cristóvão resistiu e com tal resolução, que o amigo não ousou contrariá-lo mais. Continuaram na direção em que iam, até trinta passos da casa de D. Luísa; procurando uma aberta entre as árvores, por onde se pudesse ver perfeitamente o edifício, Fogaça obrigou o mancebo a sentar-se ali para repousar, enquanto praticavam no assunto que os trouxera.

A habitação e os arredores, sepultados no silêncio e obscuridade, dormiam; mas uma luz baça velava no fundo de uma recâmera da habitação, e palejava a fresta oval da última janela. Cristóvão embebendo os olhos naquele mortiço clarão, como se fora o reflexo melancólico e lívido da alma de sua amante, suspirou:

— É a janela de Elvira!

— Vede a grade que a guarnece; a outra da frente pelo mesmo teor. As portas constantemente fechadas e dobradas de trancas de ferro; o menor rumor que ouvem dentro, logo o tal que vos quis despedir põe a cabeça fora do postigo para espreitar. A casa está cheia de escravos negros e gente armada!... E quereis que se entre lá sem torcer uma orelha!...

Cristóvão já não o escutava; via a imagem de sua Elvira na ideia e trocava com ela as queixas mútuas de tantos dias passados em cruel aflição.

O capitão de mato ergueu-se de um salto:

— Alguém nos espia!...

Com efeito ouviram-se as folhas estalarem sob um passo sutil e ligeiro; o vulto esbelto de um homem surgiu na penumbra, e assomando em face dos dois amigos, abraçou Ávila.

— Estácio!... exclamou Cristóvão não podendo crer no que viam seus olhos.

— O governador consentiu afinal soltar-vos? perguntou João Fogaça.

— Não: mas soltei-me eu!

— Bravo!...

— Contai-nos isso!...

— Depois, Senhor Fogaça; agora urge negócio de maior importância, para o qual não me sobra tempo.

— Podemos nós ao menos ajudar-vos nele? perguntou Cristóvão. — Decerto; para isso corri até aqui em busca vossa. O acaso fez-me senhor de um segredo de Estado, Cristóvão, deparando-me a ocasião de prestar o maior serviço a El-Rei e a esta capitania. Se o consigo, irei ao governador, e remirei por tal preço e com honra a minha liberdade. Esta posição de fugitivo e escapo de uma prisão me rebaixa a meus olhos!...

— É desagradável, sem dúvida. Mas que contais então fazer?

— Preciso de armas, e de alguns homens resolutos que me acompanhem esta noite, dentro de uma hora, decididos a morrer ou levar ao cabo a façanha em que me empenhei. Esses homens, onde os iria eu buscar, de repente tão tarde da noite, fugitivo e sem recursos?... Lembrei-me que vós mos podíeis obter do Senhor João Fogaça...

— São vossos quantos quiserdes, dos cem da minha companhia, seu capitão inclusive.

— Obrigado! respondeu Estácio apertando a mão calosa do forasteiro. Bastam-me dez.

— Em meia hora os tereis.

— Se alguns já foram embarcadiços, prefiro esses, porque o negócio é no mar. — Bom; tenho justamente um contramestre para a lancha! É o meu capataz. Esperai-me um instante, enquanto me arredo para chamá-los; aqui estamos muito perto da casa.

João Fogaça afastou-se pelo matagal afora; e os dois amigos ficaram sós. Nesse instante a frouxa luz que esclarecia a janela oscilou como se a mudassem de lugar. Cristóvão estremeceu como a chama, pensando que ela se extinguia deixando em trevas sua alma e o aposento que iluminava. Esse movimento lembrou a Estácio o lugar onde estava e a situação de Cristóvão.

— Ainda não conseguistes vê-la? perguntou com terno interesse.

— Vê-la, a minha Elvira?... Não pedi tanto a Deus, Estácio, nem tanto ousei esperar!... Por feliz me dera se lhe pudesse mandar uma palavra minha!...

Cristóvão tirou do peito do gibão a página que escrevera na véspera.

— Que sejam tão impenetráveis aqueles muros, que apesar da dedicação de amigos e vigilância dos espias, não possa ali penetrar de mim nem esta delgada folha!...

O mancebo arrancou estas palavras do coração com um suspiro pungente. Estácio sentiu-se comovido desta mágoa, que o tédio da recente enfermidade exacerbava; e correu o olhar do papel que o amigo tinha na mão, à janela esclarecida. Da confrontação desses dois objetos ressaltou-lhe no espírito a ideia de aproximá-los realmente, e abrir a um passagem pelo outro.

— Dai-me este recado, Cristóvão.

Nesse instante ouvia-se o grito da saracura vibrar nos ares, e logo após o canto da ave. Era o sinal do capitão de mato chamando o capataz e dez homens.

Estácio apalpava o papel e experimentava nos dedos a ver se enrolava-o com facilidade: achou-o rijo por causa do dobrado.

— Não podeis abri-lo?

— Que pretendeis fazer, Estácio?

— João Fogaça não tarda. Em chegando ele vereis.

— Ei-lo aqui à vossa disposição! disse o forasteiro avançando.

— Ainda estão por aqui perto os olhos de coruja e o lombo de cobra que eu vi há quatro dias?...

— Por força. Cada um no seu posto! — Então temos o que é necessário. Onde há um índio, há um arco.

— Precisais de um arco?

— Justamente!

Fogaça assobiou. As folhas rumorejaram, e o capim estaliu. Instantes passados uma bola despenhou-se do cimo de uma das árvores; um vulto saltou do lado; e uma sombra surgiu da terra. Eram os três sentidos do capitão de mato, o qual arrancando da mão de um deles o arco, deu-o a Estácio.

— Uma faca!... disse este.

— Serve esta?...

— Perfeitamente.

O mancebo diminuiu o tamanho da flecha por metade, e abriu junto à farpa uma racha bastante para aí passar o papel, que enrolou na seta. Cristóvão acompanhava em silêncio os movimentos do amigo; tendo já compreendido a sua intenção, esperava em ânsias o resultado da ideia, que aliás parecia-lhe impraticável. Também o capitão de mato inclinava-se a este parecer.

— Agora é preciso que nos aproximemos!... disse Estácio experimentando a corda do arco.

João Fogaça o deteve:

— Esperai!... Aqui é pouca toda a cautela. Que estão eles fazendo agora na casa? perguntou aos índios.

— Ainda estão acordados, disse Olho, porque há luz embaixo da porta.

— Estão batendo pratos! disse Ouvido.

— Estão comendo! acrescentou Faro. Comendo peixe...

— Em qual parte da casa?...

— Na varanda de baixo; as vozes dizem.

— Não há ninguém no terreiro que nos veja?

— Ninguém.

— Então acheguemo-nos!...

— Conseguirás tu, Estácio? perguntou Cristóvão sentindo o coração palpitar-lhe.

— Esperemos em Deus, Cristóvão!

Aproximaram-se cautelosamente, com receio de espertar a atenção no interior da casa, até a borda do valado que duas semanas antes impedira o passo ao capitão de mato acorrido para salvar seu colaço. A janela de Elvira ficava na distância de três braças, e a fresta esclarecida na altura de vinte pés.

Estácio examinou de novo a perspectiva da casa, e voltou-se para João Fogaça:

— Onde estão os vossos olhos? O capitão de mato segurou a cabeça do índio, como quem apanha um coco, e apresentou-a ao estudante.

— Vês tu, lá na fresta da janela, umas sombras delgadas?

— Olho não vê sombra; mas os ferros da grade que está por detrás do pau.

— Quantos ferros são?

— Dois, um que vai da cabeça ao pé, outro do ombro ao ombro.

— Em forma de cruz!... É, justamente o que me parecia. Agora sobe a esta árvore, e olha para dentro por todos os lados.

O índio grimpou pelo tronco acima como um macaco, e subiu até as ramas da árvore; daí viu ele uma nesga do soalho coberto com tapete, e o canto de um bufete onde havia uma bilha d’água, e uma pada intata sobre escudela de pau. Logo desceu para comunicar a Estácio essa observação, que arrancou um gemido a Cristóvão.

— Isto já sabia eu, mas vos não queria dizer para não afligir-vos!... murmurou João Fogaça.

O índio passara aos ramos opostos da árvore, donde podia enxergar de través um dos cantos do aposento. Ali viu refletida no espelho do trumó a imagem graciosa de Elvira, ajoelhada ao genuflexório na cabeceira do leito. A formosa donzela, desfeita do lindo parecer, com a melancolia esmaltada no rosto mimoso, rezava; mas de repente turbava-se o recolhimento e compunção de sua atitude devota; e uma ideia veemente arrancava-lhe um gesto de enérgico desespero. Sua mão arrebatava do seio, onde o tinha oculto, um papel, e esmagando-o entre os dedos convulsos, o erguia para o crucifixo com as mãos ambas estendidas, implorando a misericórdia divina.

Quando o índio deu conta pelo miúdo do que vira, Cristóvão apertou o braço do amigo:

— Esse papel é para mim, Estácio!

— Sem dúvida!

— E ela não tem um meio de mo enviar.

— Nós lho daremos!...

— Como, meu Deus?

Estácio tirou do bolso onde o guardara, o fio que lhe mandara Vaz Caminha, e começou a medir-lhe as braças; tinha dez, cerca do dobro da distância em que estavam da janela:

— Para onde está olhando a virgem branca?

— Para lá! respondeu o índio.

— Não tires os olhos dela. Feita essa recomendação o mancebo galgou a árvore por sua vez, até pôr-se ao nível do óculo esclarecido da janela. Aí amarrou uma das pontas do fio no meio da flecha e segurando a outra nos dentes, esticou a corda do arco. Ouviu-se um sibilo nos ares; e no mesmo instante a luz mortiça do aposento escureceu. Cristóvão sufocava com as mãos ambas os palpites violentos do coração; João Fogaça admirava com a franqueza e sinceridade dos homens fortes e superiores.

— Lá está!... murmurou Estácio sentindo a resistência no fio.

Ouvido ergueu-se de um salto, e colando a boca à orelha de João Fogaça soprou-lhe:

— Levantaram-se da mesa! Há gente na janela da frente!...

No mesmo instante saltava Faro à outra orelha do capitão de mato:

— Negro está no terreiro espiando. Vem para cá.

João Fogaça deu aviso aos companheiros, e estendeu-se no chão, com Cristóvão e os dois índios. Estácio e Olho ficaram imóveis sobre os ramos da árvore. Todos retinham a respiração, que os poderia trair, se o espia se aproximasse da borda do fosso. O negro veio rondando o terreiro, exa minou a janela de Elvira e todo o espaço que o separava do valo; afinal desapareceu, dobrando o canto para dar volta à casa.

Então Olho pendurando-se pelos pés aos ramos superiores, de cabeça para baixo, como um caju suspenso pelo talo, encostou os beiços ao ouvido de Estácio. Este julgou que o índio ia-lhe dizer que nada vira porque a luz se apagara; mas ignorava a força pasmosa dessa pupila.

— A virgem branca assustou-se e saltou em pé no meio da casa olhando a frecha.

— A luz não se apagou?

— Não; escureceu, porque ela pôs-se diante! Agora descobriu!

Com efeito a fresta clareara de novo. O índio recobrando a anterior posição, examinava outra vez.

Elvira, no primeiro assomo da surpresa se erguera de chofre e ficara estática e aterrada, ouvindo o sibilo da frecha e vendo o projétil cravar-se na parede do aposento; mais calma agora divisara o fio e o papel enrolado no colo da seta. Precipitou para o lugar; subindo ao bufete despregou a arma com violência e desdobrou ansiada o papel. Caiu de joelhos lendo o nome de Cristóvão, e foi nessa posição que continuou a leitura da carta de seu amante. A carta era longa, e os olhos da donzela foram a cada instante nublados pelas lágrimas; essas, enxugadas pelos beijos, iam apagando as letras, e tornando-as invisíveis à luz baça da lâmpada.

Estácio, corrente do que se passava, receando de um lado qualquer rebate, e do outro pressuroso pela sua empresa, advertiu Elvira. A donzela vendo a frecha levemente arrastada pelo tapete, não fez reparo nisso, embebida, como estava nas palavras do amante; supôs talvez que fosse o seu próprio vestido que produzisse aquele movimento. Mas afinal, como a frecha fugisse subindo pela janela, recordou-se da linha a que estava presa; substituiu-a pelo papel que tinha no seio, e imprimiu ao fio condutor uma vibração para indicar que podiam retirá-lo.

O mancebo compreendeu, e recolhendo rápido a linha, teve o prazer de sentir em pouco o perfume do bilhete de Elvira. Cristóvão correu a recebê-lo das mãos do amigo, que lho estendia do alto da árvore.

No momento em que o extremoso amante devorava de beijos o papel, em pé na borda do fosso, os dois índios pularam outra vez do chão aos ouvidos do capitão de mato.

— Está cheirando a pólvora!... rosnou um.

— Barulho de espingarda!... soprou o outro.

Mal acabavam, Olho despenhou-se do alto da árvore, e embrulhando-se como uma serpente pelo corpo de Cristóvão, arremessou-se com ele na moita vizinha. Era tempo; uma centelha fuzilara no terreiro da casa, e a bala do arcabuz passara zunindo na direção ocupada um segundo antes pelo amante de Elvira.

João Fogaça ergueu-se com a sua costumada pachorra, sacudindo o pó das bragas.

— Desta vez me pagam o novo e o velho! disse ele sondando as trevas com o olhar.

— Por Deus, João, acomodai-vos. Não pioreis o caso com as vossas estraladas! exclamou Cristóvão travando-lhe do braço.

— Decerto! acudiu Estácio. Já que fomos bem sucedidos, não convém excitar ainda mais as suspeitas. Tenho para mim que nada perceberam!

— Então vamo-nos, enquanto não me aperta a tentação! disse o forasteiro afastando-se. Cristóvão deu um passo; mas recuou tomado de uma ideia terrível:

— E Elvira que talvez me supõe morto!...

— É isso que vos inquieta! respondeu Fogaça. Pronto é o remédio.

E o capitão de mato soltou uma de suas estrepitosas gargalhadas, que reboou ao longe enchendo o silêncio do ermo.

— É o danado do capitão de mato!... resmungou uma voz da outra banda.

— Ele mesmo, biltre!... Vai juntando no teu canhenho! Eu te farei as contas um dia.

Ditas estas palavras, seguiu os outros, que já iam adiante. Cristóvão ardia de impaciência por devorar as letras de Elvira. Estácio ansiava por ver-se a caminho de sua empresa.

— Que horas serão?

— Passa de meia-noite, respondeu o capitão de mato olhando as estrelas. A gente aí está.

Ouvido tinha dado sinal. Por algum tempo nada se percebeu; depois começou um ligeiro estalido, até que os vultos dos dez índios com o capataz Antão Gonçalo à frente, surgiram do mato. João Fogaça arengou assim os caboclos:

— Ides acompanhar este cavalheiro, o Sr. Estácio, onde ele vos quiser levar, e para o que ele ordenar, ainda que seja para vos atirar ao fogo e esfolar-vos vivos. Estais entendidos?... Ora bem; pé leve, olho vivo e ouvido alerta! Marcha!...

Voltando-se para o capataz:

— Heis de gostar da dança, Antão Gonçalo! É negócio de embarcar.

Estácio abraçou Cristóvão, apertou a mão a Fogaça e desapareceu nas sombras.

Cristóvão tornou apressado da impaciência de ler a carta de sua amada; e correria se não fora retê-lo o prudente capitão de mato, que o levava pelo braço.

Elvira escrevera estas palavras:


<poem> Bem meu.

Desde o instante cruel em que vos arrebataram a meus braços, tenho desvivido em contínuo martírio. A princípio foi com a nova terrível de vosso passamento que tentaram envenenar-me aos poucos; ainda que eu vos sentia vivo no fundo de minha alma, não sabia se era, porque já transida deste mundo, me fora reunir convosco em outro melhor. Usaram depois rogos e ameaças no vão intento de me alhearem de vós. Bem viram logo que, mais longe vos afastassem de meus olhos, mais dentro vos metiam de meu coração.</poem>


Houvera no traçar da carta uma interrupção, como indicava o final.


Que ouvi agora, Santo Deus! Tremo de horror lembrando! Nem ouso escrevê-lo.

Cristóvão, esperança única desta minha alma aflita, vinde amparar-me, se não quereis que me fine amaldiçoando a vida.

Pensava eu que não houvesse mal para me abalar enquanto me fortalecesse a fé de nosso amor. Que podiam fazer? Matar-me uma vez em minha pessoa? Iria esperar-vos no céu. Matar-me duas vezes, roubando-vos a existência? Seríamos logo reunidos na eternidade.

Mas por desgraça nossa enganei-me, esposo meu. Querem separar-nos para sempre na terra e no céu! Vinde; é forçoso que vos veja e fale. Vinde salvar-me da eterna perdição!

A alma de Cristóvão acudindo a esse reclamo ansiosa, arrojou-se; mas o corpo debilitado pela enfermidade, apenas erguido, recaiu inerte e frouxo.


                                                              FIM DA SEGUNDA PARTE