As Minas de Prata/II/XXI

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As Minas de Prata por José de Alencar
Como o lírio se transforma em cardo


O fidalgo ganhou a porta do corredor; mal ele desaparecia, o rabino correu à câmera vizinha, abriu o postigo do balcão onde estava acocorado um vulto, e repetiu baixo a senha. O desconhecido saltou na rua com o auxílio de uma corda e deitou a correr para as bandas da ribeira, onde chegou esbaforido. Um bote ali o esperava de leva remos; mal pôs-lhe o pé na borda já singrava o barco as ondas da baía à voga arrancada.

Fechado o postigo, Samuel bateu o gongo que reboando pela casa repercutiu no camarim de Raquel. Era o sinal convencionado para anunciar à filha que D. José havia desempenhado sua palavra. A judia sobressaltou-se como uma gazela nos desertos de areia sentindo o sopro abrasador do simum, e de um salto se arrojou à porta e correu a mola interior. O fidalgo introduziu a chave de ouro na fechadura; logo após entrou no suntuoso camarim. Raquel já tinha voltado à sua primeira posição.

O rabino depois de tocar o gongo, escorregou pelo escuro corredor como uma sombra; pelo arrendado da porta assistiu mudo e estático à profanação do aposento virginal de sua filha. Ganhou então o próximo gabinete, e colocando o ouvido a um canto da tapeçaria, onde existia uma porta falsa, empunhou com gesto de ferocidade um longo cutelo que trazia oculto no seio da oparlanda.

— Jurei que lhe entregaria Raquel, e meu juramento está cumprido, Deus de Abraão e de Jacó! Mas também, Senhor, eu jurei em vosso nome muito antes, que traspassaria o coração do primeiro homem cujo lábio impuro maculasse a flor de meu cândido lírio!...

A essa hora estavam ocorrendo no Forte de Santo Alberto acontecimentos que têm íntima ligação com este drama.

O bicho da cozinha, Beltrão, na forma do costume, se estirou no canto escuro da galeria, onde todas as noites refocilava o cansado corpo; desta vez porém estava ele bem esperto, e repetia no bestunto as palavras que pela manhã ouvira da boca do venerável Samuel. Pouco havia que ali estava estirado, quando se ouviu o tris de uma pedra roçando na outra: era ele que levantava a laje da mina.

Soou o murmúrio de uma prática surda e subterrânea, porque o Beltrão de um lado e Hugo do outro falavam com meio corpo mergulhado no fosso.

— Alvíssaras!...

— Por quê?

— Boa-nova vos trago.

— Qual?

— É para hoje... para esta noite... Não tarda mais nem um instante.

— Mas o que, labrego dos seiscentos demônios? Desembrulha esta língua duma feita!

— O quê... O que havia de ser mais senão o por que piançais! Pois ainda não vos bateu a titela? Ora, se bateu! Aí estais já vos espojando e lambendo como boi solto!

— Vistes hoje Samuel?

— Se vi!... Pois ele foi que mandou-me a dizer-vos que estejais pronto ao primeiro sinal... como quem diz, ao frigir dos ovos.

— Prontos já cansamos de o estar.

— Ora descansareis.

— Que sinal é esse de que falas tu, casmurro?

— Sim!... Esta noite, em pendendo lá para as dez, há de vir por aqui um certo sujeitinho, que o velho lá sabe. Entonces o dito cujo fará arte de embetesgar por este corredor, e passando rente cá com a pessoinha do Beltrão, lhe resmungará o santo!... Entendeis agora?...

— E depois?... Acaba, sandeu!

— Depois?... Pernas para que te quero?... Sape!... Um depois do outro até o camarim do ajudante!

— Do ajudante?...

— É o que disse o velho! Lá encontrareis com o dito cujo, e do mais não sei eu. Estais correntes com a história?

— Esperai!... Às dez horas o santo... daí a pouco tu adiante, e nós em seguida até o camarim do ajudante... lá, o sujeito.

— Pa, pa, Santa Justa!...

— Que horas cuidas tu que sejam?

— As ditas não tardam.

Cessou o murmúrio.

Instantes depois ouviu-se o som dos remos cortando as águas; um batel se aproximava, que em três arrancos tocou as abas do Forte São Marcelo.

— Quem vem lá? gritou a vigia do alto da guarita.

— Do castelo! responderam.

Já toda a guarnição do forte estava recolhida. As sentinelas supuseram com razão que era o ajudante que se recolhia, e com ele trocaram o santo sem a menor suspeita; entretanto o Tenente Bezerra estava a essa hora ébrio de vinho e amor na taberna do Brás. O misterioso personagem que o representava tinha seu porte, e trazia vestidas suas roupas. Subindo a escada de pedra, dirigiu-se ao camarim, e com a chave que tirou do bolso abriu a porta. Em vez de entrar porém contentou-se com empurrá-la, e prosseguindo a marcha fez volta ao castelo, descendo afinal ao pavimento inferior.

Zeloso no cumprimento de seus deveres, embora fraldeiro, o ajudante não recolhia noite alguma sem passar ele próprio a ronda para assegurar-se de estar cada um em seu posto e alerta. O passo do desconhecido não causou pois o mínimo reparo, como coisa usual que era. A cada alabarda calada aos peitos, murmurava o santo com autoridade, e a arma abaixava respeitosa para deixá-lo passar. No corredor que dividia os cárceres, a espada do oficial arrastou no chão, e ao som produzido escorregou uma sombra da parede.

— És tu, casmurro?

— Sou eu, senhor, sim.

— Ouve bem. São José nos guarde! respondeu o oficial em voz submissa.

Adiante encontrou o pseudoajudante uma sentinela:

— Quando aqui passarem três mosqueteiros, dizei-lhes que apressem.

— Entendido, sr. ajudante.

De volta ao camarim o desconhecido esperou alguns instantes até que se apresentaram dois soldados guiados por Beltrão. Despedido o bicho de cozinha, entraram os três e fecharam por dentro a porta, tendo o cuidado de tirar-lhe a chave.

— Dois somente?

— Somente.

— E o terceiro?

— Não sabeis?... É finado há três dias!

— Ah! não me disseram. Como vos chamais vós?

— Dick.

— E vós?

— Hugo Antônio.

— Pois, camaradas, eu venho da parte de Samuel; já fiz o que prometi; o resto depende de vós e da sorte. Há muito tempo vos não banhais decerto?... Pois à água!

O Anselmo foi tratando de despir as roupas do ajudante em que se enfronhara; os dois presos fizeram o mesmo às fardas de mosqueteiros com que se disfarçavam.

De tudo arranjaram uma trouxa e pela janela do camarim a atiraram aos marujos do batel, que esticaram os remos, afastando-o lentamente do forte. A vigia viu da guarita o barco vogar para terra e não lhe deu atenção, nem reparou que a algumas braças do castelo estacara sobre as águas, apesar de continuar o jogo dos remos.

Os três haviam ficado completamente nus; então o salteador desenrolando a longa corda que trazia à cinta, atou uma das pontas ao gonzo da janela, deixando a outra escorregar pela muralha abaixo. Passar ao pescoço a correia da chave do camarim, galgar a ombreira e escorregar pela corda foi para ele negócio de um minuto:

— Este é o caminho, gente!...

Os companheiros, um após outro, foram-lhe na esteira. Ouviu-se o marulho das ondas quando tragam alguma presa, e logo a esfrol da espuma que argenteava ao longe em três pontos sucessivos, como se algum peixe folgasse à tona d’água. O barco recuara silenciosamente para mais depressa receber os fugitivos que o buscavam a nado; conseguido o que rompeu a voga arrancada para terra.

Na ocasião em que passava a cena anterior, um vulto ligeiro e cauteloso aproximou-se da porta do camarim, e conhecendo pelo toque que ela estava fechada interiormente, dobrou o ângulo do aposento, e achegou-se à linha das ameias. Debruçando para ver o que passava exteriormente, sua mão apalpou um corpo, que pelo calor lhe pareceu animado e pelo estofo das roupas de criatura humana. O vulto recuou de espanto; mas vendo imóvel o indivíduo suspeito, serenou, acreditando-o adormecido. Realmente a posição em que se achava era indicadora do sono profundo de quem estivesse morto de fadiga.

Entanto abicava o batel à Ribeira. Durante a travessia os dois fugitivos tinham vestido de novo as fardas de mosqueteiros; e o Anselmo o seu traje costumeiro, deixando sempre em trouxa as roupas do ajudante. Ao saltar em terra o salteador dissera ao patrão da chalupa:

— Ao toque d'alvorada cá estaremos, Pedro!

— Não tendes mais que dar o sinal! Heis de nos ver daqui amarrados à boia.

— Manda comigo um dos remeiros para trazer-te com que passar o tempo até lá.

— Bem lembrado, Anselmo. Leva o Inácio!

O filho da Eufrásia pôs-se a caminho para a cidade ladeado pelos dois falsos mosqueteiros e seguido pelo remeiro; quando galgavam a Ladeira dos Padres, pareceu-lhes ouvir o som de passos atrás, e voltando-se para conhecer se eram seguidos, lobrigaram na sombra um vulto que desapareceu rapidamente, deixando-os em dúvida sobre sua natureza. Na posição em que se achavam tudo era para temer; e apesar de bem armados prosseguiram suspeitosos, investigando a cada instante com olhares inquietos as trevas que os envolviam.

Mais adiante tiveram ainda novo motivo de susto. Uma sombra passara ligeiramente pelo lado oposto da rua e tão rente da parede que só a perceberam quando ia já adiante; os movimentos eram de gato, mas o tamanho do corpo fazia acreditar antes que fosse algum cão. Um dos escapos ainda bateu com o pé na calçada soltando uma exclamação para afugentar o animal, que desapareceu subitamente.

Chegados perto à taverna do Brás, o Anselmo deixou à esquina os dois flamengos e o remeiro; e só, adiantou-se para a espelunca. Arranhou com a unha a folha da janela que logo a abriram, aparecendo a cabeça de fuinha do mestre Brás:

— Então, Anselmo, como vos correu a embrechada?...

— À maravilha!... Cá estão na esquina; não os vedes daqui?...

— Bravo!... És um tunante, Anselmo!... Depois me contareis tudo pelo miúdo; agora não há tempo a perder.

— É mesmo!... Aqui tendes as roupas do ajudante e mais a chave.

— Ainda lá está roncando que nem porco... A Zana é uma matreira!... Como o arranjou... Hem!...

— Cá me vou ao velho barbaça!... Ai! vem aí um remeiro para levar algum petisco e a competente pinga à gente!

— Pois ainda mais do que já receberam, Anselmo?

— Quem trabalha precisa, Brás. Cuidas que remar uma noite inteira é cochilar ao balcão surrupiando os cobres aos fregueses?...

— Para te engordar a ti, ruim besta!

O Anselmo não ouviu bem a fineza; pois no passo em que ia já estava com os companheiros parados na esquina à sua espera.

— Inácio, vai ao Brás que te chama; e olho vivo!

Dali seguiram os três para a Rua da Palma.

Na casa do mercador judeu dava-se então a peripécia da cena que deixamos em jogo.

D. José de Aguilar, penetrando no camarim de Raquel, correu a ela, e sentando-se ao lado no divã de seda, quis cingir-lhe a cintura com o braço. A moça furtou sutilmente o corpo a essa carícia grosseira, voltando para o oficial um rosto onde o sorriso orvalhava a mais soberba indignação. Logo porém velando essa expressão de sua alma, disse com um tom de voz doce e trêmulo:

— Escute meu senhor, o que sua serva lhe pede.

— Senhora minha e não serva, sois vós, formosa Raquel! Ordenai pois a este cativo vosso.

— Jurei que vos havia de pertencer...

— Esta noite e não mais tarde!

— Neste mesmo instante!... Mas esperava eu e ainda espero que meu senhor fizesse à sua serva menos duro o sacrifício, de modo a não parecer a prova que lhe ela dá de seu amor, pura mercê e salário de feio tráfico!

— Que quereis dizer, formosa Raquel? Explicai-vos melhor.

— Lembre-se meu senhor, que até este instante ainda não lhe ouvi as falas de amor, que tão doces dizem ser!

— Não é minha a culpa, decerto, pois nunca me destes a ocasião.

— Agora que a tendes, dai-me este gosto. Esta que deve em pouco pertencer-vos de corpo e alma, antes quer-se conquistada e rendida ao encanto de vossa palavra, do que vencida à força de seu juramento. Tereis ânimo de negar-lhe tão pequena graça?

— Seja como quereis!

O alferes começou então a desfiar o longo rosário de protestos e juramentos inventados para uso dos namorados; apesar de pouco prático em aventuras galantes, não lhe esqueceram as comparações mitológicas, muito em voga ainda naquela época do amor clássico. Raquel o ouvia com as pálpebras meio cerradas, e um sorriso inexprimível a borboletear nos lábios soabertos. Samuel, testemunha oculta da cena, apertava entre os dedos hirtos o cabo do cutelo, enquanto a outra mão calcava a mola da porta falsa.

A um lado do aposento tinham posto um bufete carregado de doces, frutas e vinhos. A formosa judia, como enlevada pelas falas do amante, travou-lhe da mão e o levou até a mesa; sentaram-se ambos. Ela ergueu um frasco de vinho da Madeira e encheu a taça do alferes; partindo depois entre os dedos um figo passado, cujas migalhas babujava com os lábios purpurinos, continuou a ouvir as futilidades que o fidalgo enfiava umas sobre outras.

Muitas vezes D. José parava, julgando ter dito bastante, e dava mostras de passar à realidade de suas esperanças; mas a judia repelindo a mão afoita com gesto decidido, suplicava-lhe ao mesmo tempo com o olhar e a palavra que continuasse:

— Mais!... Ainda mais!... Acabai de render-me! Fazei-me vossa d'alma, antes que o seja do corpo.

E o fidalgo, apesar de sua impaciência, sentia prurir-lhe a vaidade do namorado, e continuava nos seus ridículos protestos de amor.

Afinal a clepsidra colocada sobre a mesa deu sinal que uma hora era passada desde a entrada do alferes. Vendo a última gota do róseo líquido, que escoava da ampulheta superior, Raquel ergueu a fronte com uma expressão singular. Havia nessa vibração da cabeça alguma coisa do colear da serpe quando se enrista para lançar o bote.

— Basta, disse ela, já vos ouvi de sobra... Ouvi-me vós agora!

— Com o maior prazer, formosa Raquel!

— Sabei, cavalheiro, que eu vos quis desde o primeiro instante em que vossos olhos se puseram em mim. Não sei ainda hoje como isto foi; somente sei, que vendo-vos pareceu-me reconhecer-vos por aquele que meu coração esperava desde menino, e com quem se habituara a sonhar e folgar.

— Outro tanto me aconteceu!

— Mísera judia, saída embora de gente mesquinha e desprezada, eu pagava em admiração o desprezo em que vossos irmãos têm os meus. Nobreza, honra, valor, generosidade, todas essas virtudes que eu julgava terem nascido com a raça cristã, todas amei-as em vossa pessoa. Fostes para mim o tipo dos heróis da cavalaria, que desde a infância me acostumei a adorar, enlevada na história de suas façanhas e brios.

— Igual vos amo eu, formosa Raquel! Para mim sois a imagem da beleza...

— Deixai que prossiga: é agora a minha vez. Sim, adorei em vós a flor de meus sonhos, o lírio de minha alma! Imaginai qual deva ter sido meu martírio reconhecendo no amado de meu coração um indigno de sê-lo!

— Indigno, dizes?...

— Julgai-o!... Amava em vós a honra, e falistes dela, traindo a pátria vossa e os votos a ela jurados.

— Donzela, calai-vos!... disse o alferes rangendo os dentes.

— O valor de que me orgulhava não o conheceis, pois tremestes e descorastes ante a ameaça de um velho. Nobreza e generosidade, não as tem decerto, quem se rebaixa a torpeza tal, que envergonharia o mais vil.

— Não vos está bem a vós, Raquel, por quem tudo esqueci, lembrar-me e tão duramente quanto me custa o amor que vos tenho!

— E quem melhor, senão aquela que deve medir pela grandeza do sacrifício a grandeza do afeto, a fim de o recompensar dignamente?

— Nesse ponto tendes razão... E assaz de palavras: é mais que tempo de cumprirdes o vosso juramento, o meu há muito já o foi!

Raquel erigiu a bela estatura, arqueando levemente o busto como o colo do cisne quando rompe a onda límpida; cravados então os olhos no alferes, seu lábio frisado pela cólera trinou uma risada de escárnio, que salpicou o semblante de D. José como um borrifo de fel.

— Meu juramento?...

— Rides?

— Se o caso é de rir!... Quem somos nós para que entre ambos se fale de juramentos e empenhos de honra?... Vós um traidor infame, eu uma vil barregã... ao menos por tal me julgais!...

— Não inventeis à minha conta pretextos para vossa aleivosia!

— Mentistes então quando dissestes que me tínheis amor?... De qualquer outra mulher poderíeis supor que vos sacrificasse a virtude para benefício de seus irmãos... Da mulher amada, nunca; tal sacrifício fora impossível a mim fazê-lo e a vós aceitá-lo!... Como pois crer e esperar que cumprisse semelhante promessa outra mulher que não uma como há pouco deixastes, abandonada de todo o pudor e vergonha!...

— Que nome tem esse embuste que empregastes para enganar-me?... Dizei-o, vós que pareceis tão entendida em pontos de honra.

— Fostes vós mesmo, não eu, que vos enganastes!... Devíeis ter visto nos meus olhos, sentido em minha voz e em toda a minha pessoa, o desprezo que me inspirastes! Se apesar disto acreditastes nas palavras que ouvistes, a culpa é vossa, ou do vosso destino que vos engana. Que fé traz um juramento que importa o sacrifício da honra?

— Em todo o caso vos aproveitastes da minha credulidade para obterdes o que desejáveis, vós e o velho casmurro de vosso pai?

— Tive, é verdade, este escrúpulo; mas desvaneceu-se lembrando-me que aos homens de vossa estofa paga-se em dinheiro. Dizei-me quanto ainda vos restamos?

— Ah!... rugiu o oficial sacando o punhal. Não esperes burlar-me, judia. A tua vida e de teu pai me respondem pelo cumprimento da promessa.

— Também vos posso pagar nesta moeda, de tão vil preço para mim como a outra. Aqui tendes esta vida que antes de vosso buído punhal já trespassou vossa infâmia!

Isto dizendo, a donzela ofereceu ao golpe a branca e formosa gorja, que ondulou como um colo de garça.

— Não me entendes! rugiu o alferes. O punhal é para teu pai se opuser-se a meu intento. Para ti bastam-me as mãos... Tu me pertences; comprei-te com a minha traição; já que não te queres entregar de vontade, te constrangerei a isto!... É o meu direito.

— Desafio-vos a que dês um passo para mim!...

D. José de Aguilar fincando as mãos no bufete, ergueu-se a custo, e com o passo trôpego dirigiu-se para onde estava a donzela. Por detrás dele a porta falsa abriu-se de repente, e apareceu no escuro a figura sinistra do velho Samuel, brandindo o cutelo com um gesto feroz.

Raquel sorriu.

— Não é preciso ferro, pai!... O Senhor e sua força são comigo!

Com efeito o fidalgo apenas promovera dois passos pelo aposento, sentiu faltar-lhe as pernas, e caiu por terra; ainda esforçou para erguer-se, mas um torpor geral invadiu-lhe o corpo e o estendeu num pesado letargo. O mancebo havia nessa noite bebido demais, é certo; porém o desfalecimento de forças que o prostrara não tinha visos de embriaguez unicamente; parecia mais natural que a ação do álcool fosse ajudada por alguma droga.

Era justamente na ocasião em que dava-se esse desfecho, que chegaram à Rua da Palma o Anselmo e os dois flamengos. Ao ressoar das pancadas convencionadas, o rabino arrancou-se às emoções que ainda o dominavam, e cerrando a porta do camarim, correu a abrir. Os vindiços entraram, e a porta foi de novo fechada.

— Esperai aqui! dissera o rabino a Anselmo no topo da escada.

Guiou então os fugitivos ao aposento próximo do camarim da filha, e ofereceu-lhes vinho, que ambos aceitaram:

— O tempo nos é contado, senhores; só podemos dispor de duas horas, pois é necessário que antes de alvorada estejais com vossos irmãos, que vos esperam para dar a vela. Para que vossa atenção chegue a tudo que a reclama, força é que se divida; enquanto um de vós aqui estiver para ouvir o que nossos irmãos desta Bahia vos incumbem de levar a Amsterdam, o outro conduzido por guia esperto, o mesmo que vos trouxe, correrá à cidade a fim de tomar dela uma notícia exata que complete o plano e memória de que sereis portador, cujo vos confiaremos o próprio original que obtivemos.

— Irei eu, que menos entendo vossa língua, e mais prática tenho de assédios que este amigo Hugo Antônio.

— Parti então quanto antes.

Pouco depois abria-se a porta, e Dick guiado por Anselmo perdia-se nas trevas da noite, seguindo na direção de São Bento. Aí, fora de portas, num tejupar, acharam cavalgaduras preparadas adrede pelo judeu. Samuel entanto guiava Hugo Antônio ao recôndito aposento, onde estava reunido o sinédrio dos rabinos; deixando-o aí por um instante em companhia dos veneráveis irmãos, tornou ao camarim da filha.

Raquel, depois do desfecho da cena anterior, ficara reclinada sobre o coxim, imersa em tristes cogitações. Afinal, porém, espancando o torpor que lhe incutia o pesar, ergueu-se resoluta, e recolhendo nas gavetas do trumó suas joias, fechou-as em um pequeno cofre de filigrana de prata, obra da Índia. Nesta ocupação a veio encontrar o pai.

— Filha, que faremos do cadáver deste perro cristão?

— Vivo é, pai; está apenas adormecido!

— Ah! exclamou o judeu.

— Para que matar tão infame criatura? Seu maior castigo é a vida miserável e ignóbil que vai viver!

— Para nosso mal!

Raquel ergueu os ombros com indiferença.

— Tomai este corpo, pai, e alijai-o lá na lama da rua. Amanhã a gente que passar, e o vir assim espojado, cuidará que ao recolher do bródio ali caiu ébrio!

O velho judeu envergou aos ombros o corpo adormecido do fidalgo, e saiu com ele para cumprir a recomendação da filha. D. José de Aguilar foi atirado ao chão no fim da Rua da Palma. Raquel da janela acompanhou com os olhos o rabino, até que ele tornou ao camarim:

— A empresa foi bem sucedida, pai?

— À medida dos nossos desejos e esperanças.

— Então os flamengos estão livres?

— Da prisão já; mas não do perigo. Enquanto permanecerem na cidade tremo pela sua segurança.

— Quando partirão eles?

— À uma da madrugada.

— Iremos em sua companhia.

— Para onde, filha?

— Para Holanda!... Depois do que é passado, nem Samuel, nem sua filha, podem mais viver nesta terra!

— Mas é a terra de tua criação, Raquel!

— E amanhã seria a do nosso suplício e túmulo! Não! basta já que nela fique sepultado meu coração!

— Pensais que o traidor cristão ouse denunciar de nós?

— A vingança do vil e o punhal do assassino ousam tudo, pai! Neste cofre estão as minhas joias; forra-te de ouro, tanto quanto te for possível levar, e à uma hora, partiremos. Vai; fico te esperando.

O rabino voltou ao sinédrio.

Raquel embuçando-se em ampla e rica peliça, abriu as adufas da persiana, e recostando a face no umbral da janela, engolfou os olhos no azul recamado de estrelas. As lágrimas em fio deslizavam mansamente e rolavam como pérolas pela face polida da seda.

Essas lágrimas eram o degelo de uma alma que o desengano invadira súbito; eram pesadas como os caramelos que os primeiros calores do sol despregam dos galhos das árvores. Quando a última lágrima tombou, o coração estava estanco de amor; apenas lá ficou a corrosão de um sentimento que se derranca e azeda, como o vinho em vinagre.